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por que mulheres ambiciosas e poderosas têm que acabar presas ou mortas?

Cordell Jackson:

pioneira do rock que lançou seu próprio selo musical em 1956

Agnès Varda:

10 filmes sobre sua obra cinematográfica

História do Futebol Feminino:

superando pobreza, preconceito e descrença

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Arquitetas ensinam mulheres da periferia a construir suas próprias casas

Nas oficinas, as mulheres aprendem juntas os princípios básicos
de construção civil. 
Foto: Facebook / Arquitetura da Periferia

Projeto “Arquitetura na Periferia” ensina mulheres a construir suas próprias casas

Em 2017, Cheyenne Pereira Miguel, a coordenadora do MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas), se mudou para a Ocupação Paulo Freire, em Belo Horizonte, e com a ajuda de seus irmãos, construíram sozinhos uma casa de madeirite – estrutura alinhada com a realidade das ocupações comunitárias, onde a população carece de assistência profissional de um engenheiro ou arquiteto.

Após concluírem a construção do último cômodo, Cheyenne já almejava melhorar a estrutura física da casa.
Queria aprender como fazer para não gastar tanto com mão de obra na minha casa.”
Com a ajuda da vizinha, Eliana Silva, a modelo fotográfica e limpadora de vidros descobriu o projeto Arquitetura na Periferia.

Foto: Facebook / Arquitetura da Periferia

Mulheres ensinando mulheres

O Arquitetura na Periferia surgiu em 2014 a partir de uma tese de mestrado da então estudante de arquitetura Carina Guedes. A iniciativa oferecia capacitação e assistência técnica para as mulheres de territórios com déficit de habitação e infraestrutura – como favelas, comunidades periféricas e ocupações.
Trabalhamos para que as mulheres tenham o máximo de autonomia no processo de tomada de decisões envolvendo a melhoria de suas casas”, diz Carina.
A cúpula do projeto é toda composta por mulheres, desde Carina, que deu origem à iniciativa, às suas colegas de trabalho – Marina Bornel, arquiteta, e as engenheiras civis Tereza Barros e Rafaela Dias.

O projeto Arquitetura na Periferia começou a atuar nas ocupações Paulo Freire e Eliana Silva, demonstrando que, embora as mulheres estejam, muitas vezes, à frente das lutas civis, “na construção civil e nas decisões de como a casa vai ser a maioria relata que suas vontades não são respeitadas, e algumas nem sequer são consultadas. São o pai, tio, marido ou pedreiro que decidem. Isso traz consequências ruins na vida das mulheres que, além do trabalho, cuidam da manutenção da casa, tais como: cozinhas sem ventilação, escadas estreitas, torneiras onde não se consegue enfiar o balde”, afirma a arquiteta.
Com oficinas de aprendizado com 4 a 6 meses de duração, as aulas começam com princípios de desenhos e croquis, noções básicas de finanças (para saber como lidar com o empréstimo recebido pelo projeto), matemática e como comprar os materiais necessários de construção.
É muito legal ver a transformação delas durante este processo: líderes comunitárias já reconhecidas nesse espaço de luta, mas não no doméstico, passam a ver que têm igualmente a mesma capacidade, e que a elas só falta o acesso à informação”, diz Carina.
O papel social da arquitetura

Apesar de nunca ter tido experiência pregressa à área de construção civil, Cheyenne já se vê pondo em prática tudo que aprendeu nas oficinas, como elétrica, alvenaria, assentamentos de pisos e até hidráulica.
Para um mulher militante de ocupação, esse aprendizado vai além da construção. Ele representa liberdade e conquista.”
Carina, mulher por trás do projeto, afirma que o Arquitetura na Periferia tem um importante cunho social: retirar a pecha de que a arquitetura se destina apenas à construção e melhoria de áreas ricas e privilegiadas, reconhecendo e reagindo às enormes desigualdades do Brasil.
Uma vez, fazendo uma pesquisa com uma moradora da Ocupação Dandara, vi que já havia um projeto de arquitetura para ela. Ela dizia que era lindo, mas quando perguntei porque não construiu, ela falou: ‘Não é para mim’. Do que adianta um projeto bonito se ele vai ficar na gaveta? O importante da assessoria técnica é reconhecer os hábitos e o desejo de quem mora”.
Fonte: ArchDaily, 02/02/2019

Ver também  
Mulheres com a mão na (arga)massa ensinam como reformar e pintar sua casa

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

“Direito negativo” e “direito positivo” como base da democracia americana



Fernão Lara Mesquita resume muito bem, em artigo no Esatadão, como funciona a democracia americana, baseada nos direitos negativos e positivos, no federalismo, na representação distrital pura e no recall ou retomada de mandatos. Destaco as definições didáticas dos chamados direitos de primeira, segunda e terceira geração (os negativos e os positivos), mas o artigo todo vale a leitura.

Direitos de primeira geração: “Direito negativo” é o de não ser submetido à ação coercitiva de outra pessoa ou do governo. Eles o têm por um direito natural, também dito de primeira geração. Fixa os círculos do espaço individual que as pessoas naturalmente sabem que não devem invadir: o do corpo, o do lar, o dos pertences, o da propriedade. 

Direitos de segunda geração: Decorrem dos primeiros como desdobramentos civis e políticos, ditos de segunda geração, o direito à vida, à liberdade de expressão, à liberdade religiosa, à legítima defesa, ao habeas corpus, a um julgamento justo, etc.

Direitos de terceira geração: Já os “direitos positivos”, ditos de terceira geração, são os que requerem a ação de uma terceira pessoa para serem exercidos por quem vai desfrutá-los. Enquanto um “direito negativo” proíbe alguém ou o governo de agir contra o seu beneficiário, um “direito positivo” obriga outras pessoas ou o governo a agirem em benefício do seu detentor. Incluem-se nesse departamento os direitos sociais e culturais, tais como à comida, à habitação, à educação, a um emprego, à saúde, à seguridade social, ao acesso à internet ou o que mais se quiser incluir na lista, que, no Brasil, por exemplo, é infindável.

A chave da moderna democracia americana
Trata-se da distinção que eles fazem entre ‘direito negativo’ e ‘direito positivo’

A chave para o entendimento do sistema institucional americano é a distinção que eles fazem entre “direito negativo” e “direito positivo”.

“Direito negativo” é o de não ser submetido à ação coercitiva de outra pessoa ou do governo. Eles o têm por um direito natural, também dito de primeira geração. Nasce com e pertence a todas as pessoas, e está garantido enquanto ninguém agir para violá-lo. A common law, o direito baseado na tradição que foi comum a toda a Europa, mas só sobreviveu na Inglaterra depois do advento do absolutismo monárquico que o nosso “direito romano” foi inventado para sustentar, fixa os círculos do espaço individual que as pessoas naturalmente sabem que não devem invadir: o do corpo, o do lar, o dos pertences, o da propriedade. Essa é a base do “direito negativo”. E desses círculos decorrem os seus desdobramentos civis e políticos, ditos de segunda geração, o direito à vida, à liberdade de expressão, à liberdade religiosa, à legítima defesa, ao habeas corpus, a um julgamento justo, etc.

Já os “direitos positivos”, ditos de terceira geração, são os que requerem a ação de uma terceira pessoa para serem exercidos por quem vai desfrutá-los. Enquanto um “direito negativo” proíbe alguém ou o governo de agir contra o seu beneficiário, um “direito positivo” obriga outras pessoas ou o governo a agirem em benefício do seu detentor. Incluem-se nesse departamento os direitos sociais e culturais, tais como à comida, à habitação, à educação, a um emprego, à saúde, à seguridade social, ao acesso à internet ou o que mais se quiser incluir na lista, que, no Brasil, por exemplo, é infindável.

Lá a Constituição da União, elaborada pelos “pais fundadores” iluministas, contempla exclusivamente os “direitos negativos”, o que, na medida em que ela subordina todas as outras leis, estabelece a prevalência destes sobre os “direitos positivos”. Diz, no preâmbulo, que todo o poder emana do povo, que o delega aos seus representantes eleitos por sufrágio universal e define nos seus sete artigos, pela ordem, o Congresso dos representantes do povo, a Presidência, o Judiciário, as relações entre os Estados e deles com a União e as regras para emendar a Constituição. As emendas da 1.ª à 8.ª garantem os já citados direitos de segunda geração que decorrem dos círculos de inviolabilidade do indivíduo. A 9.ª e a 10.ª (para encerrar a disputa de egos entre os convencionais de 1787, que queriam cada um enfiar um direito a mais) declaram que tudo o que não está formalmente proibido até ali “são direitos que pertencem ao povo ou aos Estados”. Todos os temas da alçada do “direito positivo” que recheiam de ponta a ponta a nossa Constituição federal lá ficam, portanto, restritos às Constituições estaduais e municipais.


E aí vem o pulo do gato.

Como todo “direito positivo” (artificialmente criado) implica uma violação do “direito negativo” (inato, natural) de não ser coagido a nada nem ter o que é seu apropriado pelos outros, eles só podem ser criados, nos países de common law, por contrato, isto é, se todas as partes envolvidas concordarem com isso numa votação. E como cada “direito positivo” tem um custo, o projeto que o propõe tem de incluir obrigatoriamente o seu esquema de financiamento: qual será a despesa, quem arcará com ela, como e quando ela será paga.

Ou seja, não existe a hipótese de se fazer caridade com dinheiro alheio. Quem se dispuser a tanto deve usar o seu próprio.

Correndo em paralelo com a diferenciação entre “direito negativo” e “direito positivo” está o princípio do federalismo, a mais forte garantia em países de dimensão continental e ampla diversidade de situações de que o sistema estará sempre voltado para servir ao indivíduo e jamais poderá acumular poder suficiente para voltar-se contra ele. Cada instância de governo - a municipal, a estadual e a federal - é definida em função do seu grau de proximidade do indivíduo e deve ser absolutamente soberana até o limite do alcance dele. Tudo o que diz respeito a uma única comunidade - a escolha do seu modelo de governo, policiamento local, saneamento, vias públicas, educação, saúde, proteção contra incêndios, normas de comércio, etc. - deve ser decidido e custeado por ela própria e mais ninguém, respeitadas as linhas básicas da Constituição. Só o que envolver mais de uma comunidade - estradas, transporte intermunicipal, circulação de bens, repressão ao crime, sistema penal, etc. - deve ficar a cargo dos governos estaduais. E somente o que não pode ser resolvido por um único governo estadual fica a cargo da União.

Acrescenta-se finalmente à fórmula um sistema preciso de representação dos eleitores em cada uma dessas instâncias de governo, o que se consegue com eleições distritais puras, em que cada distrito elege apenas um representante. Tudo começa pela eleição do conselho que vai dirigir cada escola pública entre os moradores de cada bairro do país. E daí vai subindo para os municípios, para os Estados, para a União. Sempre com cada representante, com base no endereço, sabendo exatamente quem é cada um dos seus eleitores. Sempre com cada representado guardando o poder de manter ou não o seu representante até o fim do mandato (recall ou retomada de mandatos), de obrigá-lo a tratar dos assuntos que ele indicar (leis de iniciativa popular), de impedi-lo de impor-lhe o que quer que seja (referendo das leis vindas de cima), de afastar juízes lenientes ou enviesados (com eleições periódicas de retenção ou substituição de juízes).

Com essas liberdade e flexibilidade, aos poucos o sistema foi evoluindo segundo a necessidade e a preferência de cada comunidade. O bairro vota - sim ou não - um melhoramento da escola a ser pago com um aumento temporário só do seu IPTU; a cidade, a contratação de mais policiais ou a construção de um novo hospital mediante um aumento temporário da taxa local de comércio; o Estado, uma nova estrada a ser paga pelos seus usuários mediante pedágio...

E fez-se a luz... sempre na medida e no preço exatamente desejados.

Fonte: O Estado de São Paulo, por Fernão Lara Mesquita, 26/02/2019

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

A estrela de Hollywood que inventou o Wi-Fi


O texto abaixo é uma tradução do vídeo da página Cup of Jane que, entre outras coisas, resgata a história das mulheres notáveis do passado e do presente. Vamos conhecê-las!

Hedy Lammar, uma mulher revolucionária

Hedy Lamarr foi considerada, em sua época, a mulher mais linda do mundo. Mas a estrela de Hollywood foi muito mais do que uma cara bonita. A atriz austríaca judia chegou aos EUA às vésperas da II Guerra Mundial. Entre um filme e outro, Lamarr quis ajudar a derrotar os nazistas.

Então, juntamente com o compositor, pianista e inventor George Anthiel, desenvolveu um "Sistema de Comunicação Secreta". O sistema manipulava as ondas de rádio, tornando impossível para os inimigos interceptar as mensagens dos aliados.

Mas o pleno potencial da invenção de Lamarr só foi reconhecido décadas depois. O "sistema de frequências múltiplas aleatórias" se tornaria a coluna vertebral da comunicação digital: máquinas de fax, celulares, bluetooth, wi-fi...

Tudo isso graças, em parte, à Lamarr. À época, a atriz não recebeu muito crédito por sua inovação, mas, em 1997, aos 83 anos, tornou-se a primeira mulher a receber o "BULBIE™ Gnass Spirit of Achievement Award", também conhecido como o "oscar da invenção".
Esperança e curiosidade sobre o futuro sempre me pareceram as melhores garantias de todas. O desconhecido sempre foi - e ainda é - muito atrativo pra mim."
Mais sobre a atriz cientista neste link. 
 


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Presidente da Fifa, Gianni Infantino, diz que 2019 será o ano do futebol feminino

Ettie, a mascote da Copa feminina de 2019
Futebol feminino será visto de outro modo a partir de 2019, diz Infantino

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, disse acreditar que o ano de 2019 "mudará para sempre a maneira como o futebol feminino é visto", coincidindo com a disputa da Copa do Mundo na França, que será disputada de 7 de junho a 7 de julho.

Em texto publicado na revista da Fifa, o dirigente ressaltou que "o futebol feminino é um esporte da atualidade" e que isso será provado neste ano. 
Tenho certeza que o ano que acabamos de iniciar mudará para sempre a maneira como o futebol feminino é visto. Dentro de alguns meses, os olhares dos torcedores de todo o mundo convergirão na França. Não tenho a menor dúvida que aqueles que não estão familiarizados com o futebol feminino se assombrar...

Infantino desejou que "este seja um momento de admiração coletiva pela Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019, na França, simplesmente pelo que ela é: a maior e mais fascinante competição de futebol do ano". 

O dirigente pediu para que as pessoas deixem de ver o futebol feminino como "um ator coadjuvante", mas reconheceu que "há muito a melhorar e ainda há um longo caminho a percorrer em relação ao futebol masculino". 
Como presidente da Fifa, sei muito bem e é a minha obrigação ser consciente disso. Justamente por este motivo, um dos principais objetivos apresentados no documento 'FIFA 2.0: O futuro do futebol' é ampliar o número de jogadoras de futebol para 60 milhões até 2026. Além disso, estabelecemos a Divisão de Futebol Feminino, que redigiu a sua primeira estratégia global para desenvolvê-lo", explicou
Fonte: UOL Esportes, 12/02/2019

Veja também: Futebol feminino bate recorde de público na Espanha | Esportes | EL PAÍS Brasil



Globo vai transmitir jogos da seleção feminina na Copa pela primeira vez

São Paulo – Finalmente, pela primeira vez na história, a TV Globo vai transmitir ao vivo todos os jogos da seleção feminina na Copa do Mundo de futebol feminino. O torneio será disputado entre 7 de junho e 7 de julho de 2019, na França.

O canal SporTV também vai transmitir todas as partida, e o site do Globo Esporte vai passar os jogos na internet.

O mundial de futebol feminino começou a ser disputado em 1991, mas, no Brasil, só foi transmitida pela TV no último torneio, em 2015, quando o SporTV e a TV Brasil passaram alguns jogos.

A seleção brasileira feminina disputou todas as sete edições da Copa do Mundo, mas ainda não conquistou o título. O primeiro jogo do Brasil é no dia 9 de junho.

Fonte: Exame, 13/12/2018


sábado, 16 de fevereiro de 2019

"Ninguém nasce mulher: torna-se": Janaína Paschoal pensou certo por linhas tortas

Tirada fora de seu contexto original, a icônica frase da filósofa existencialista Simone de Beauvoir, "ninguém nasce mulher, torna-se mulher", se presta às interpretações mais errôneas.

Entre os assuntos da semana, voltou à cena a ícônica frase da Simone de Beauvoir "ninguém nasce mulher, torna-se mulher", proferida pelo Celso de Mello no julgamento das ações para criminalizar a homofobia.

Tirada fora de seu contexto original, a frase tem servido para as interpretações mais errôneas. Os ativistas transgênero acham que ela referenda sua ideia de que uma pessoa do sexo masculino pode ser mulher ou qualquer coisa que lhes dê na telha. Outros conservadores (porque os trans também são) também acham que ela nega a realidade material da mulher. Nesse sentido, disse a Janaína Paschoal:
Será que não se percebe que ao dizer que mulheres não nascem mulheres, tornam-se mulheres se está reduzindo as mulheres ao NADA? Será que não se percebe que, uma vez mais, conceitua-se mulher a partir do conceito de homem?"
O que são nossas vaginas, nossos seios, nossos úteros, nossa inteligência emocional, nosso sexto sentido, nossa capacidade de fazer inúmeras coisas ao mesmo tempo, nossa capacidade de, além da vida profissional e política, gerar e alimentar outro ser humano? Nada?
Acordem, iludidas feministas! O discurso que vocês tanto aplaudem leva à destruição. Quero ser respeitada e quero que as mulheres sejam respeitadas como seres capazes e dignos de fazer o que se determinam a fazer. Ofende-me, profundamente, ouvir que as mulheres são mera ficção."
Mas, minha gente, vamos pegar a famosa frase dentro do seu contexto. "NINGUÉM nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade..." (O Segundo Sexo*, vol. 2, A Experiência Vivida, Primeira Parte Formação, Capítulo 1, Infância, p. 9)

Como se vê, primeirissimamente, Beauvoir se referia à fêmea da espécie humana, a mulher. Portanto, homens que personificam o gênero feminino (modelo de mulher) não podem usar essa frase para referendar seus devaneios fetichistas. Segundo, ela não estava dizendo que a mulher é uma ficção. Ela quis dizer que a fêmea humana (a mulher) não deve aceitar que nenhum suposto destino biológico, psíquico, econômico, etc... venha limitá-la em seus objetivos práticos e existenciais, a definir o que ela deve ser. Trata-se de um brado de independência, de autodeterminação. Só isso.

Agora, a Janaína Paschoal até escreveu certo por linhas tortas. Também a mim me ofende, profundamente, ouvir que as mulheres são mera ficção, um sentimento, uma identidade, como pregam os transativistas e não a Simone de Beauvoir.

* O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, publicado em 1949, é considerado não só um texto base para o movimento feminista como um dos cem livros que mais influenciaram a humanidade. No Brasil, foi publicado em dois volumes, Mitos e Fatos e A experiência Vivida, em tradução de Sérgio Milliet, pela editora Difusão Europeia. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Baianas criam 'bafômetro' que detecta ao menos 15 doenças através do sopro

Irmãs, dupla de estudantes baianas cria dispositivo que detecta ao menos
 15 doenças através do sopro — Foto: Arquivo pessoal

Irmãs baianas criam 'bafômetro' que detecta ao menos 15 doenças através do sopro
Aparelho analisa dados a partir de gases exalados por pacientes. Dispositivo é capaz de identificar doenças infecciosas e crônicas, como gastrite, pneumonia, diabetes e intolerância à lactose.

Duas irmãs da cidade de Feira de Santana, a cerca de 100 km de Salvador, criaram um dispositivo capaz de detectar ao menos 15 tipos de doenças a partir do sopro. O aparelho, que funciona como uma espécie de bafômetro, surgiu a partir de pesquisas das estudantes Júlia, 26 anos, e Nathália Nascimento, 31.

Aluna do curso de Biotecnologia, Júlia explica que o OrientaMed foi desenvolvido inicialmente por meio de aplicações de inteligência artificial de um trabalho científico da irmã, que atualmente faz doutorado em Computação.
O início foi com base no mestrado da Nathália. Quando ela foi apresentar na UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], onde eu estudo, eu percebi que tinha um mercado muito grande na área de saúde e uma aplicação que fazia sentido para a minha área de pesquisa também".
Ela então viu a chance das duas desenvolverem o dispositivo junto com outro estudante, o paulista Rheyller Vargas, que também é pesquisador na área.
Apareceu a oportunidade de ir para um evento de "hackathon" [maratona hacker], e eu chamei o colega para participar e formarmos uma equipe. Lá, a gente viu quais eram as aplicabilidades do dispositivo. No início, a gente pensou em algo para detectar gastrite, mas durante pesquisas aprofundadas, criação de bancos de dados, descobrimos outras aplicações", conta.
O uso do OrientaMed é simples e facilita a triagem de doenças. O paciente assopra e o aparelho devolve o resultado em cerca de cinco minutos, sem precisar de refrigeração ou do uso de produtos químicos.
Irmãs, dupla de estudantes baianas cria dispositivo que detecta ao menos
15 doenças através do sopro — Foto: Arquivo pessoal
Com a elaboração do banco de dados e o aprofundamento das pesquisas, as irmãs chegaram à média de detecção de 15 doenças infecciosas e crônicas, entre elas a gastrite, intolerância à lactose, pneumonia, Doença de Crohn e diabetes.
Ele [aparelho] captura o sopro da pessoa, e a gente envia esses dados para o computador. O resultado sai pouco tempo depois, porque o nosso objetivo é que ele seja um teste rápido para orientar os médicos a quais exames devem ser feitos para aquela determinada doença. Hoje, os resultados só saem via computador, mas a nossa expectativa de pesquisas é para que o próprio dispositivo mostre no display", explicou Júlia.
A estudante detalha ainda que as doenças são detectadas a partir da análise dos gases que contém no sopro.
Muitas doenças que deixam uma marca biológica, principalmente através das bactérias, com as doenças infecciosas. Algumas dessas doenças deixam a marca no corpo, que faz com que as pessoas exalem alguns tipos de gases diferentes, específicos. É com base nesse gás que a gente faz a análise".
A fabricação do OrientaMed custa em torno de R$ 2.500, segundo Júlia. A perspectiva das irmãs baianas, junto com o paulista Rheyller Vargas, é fabricar o produto em maior escala, para que ele se torne mais viável.
Nós já temos alguns parceiros em vista, para desenvolver o aparelho em fase escalonada. Neste momento, estamos buscando parceria com hospitais, para pesquisar de forma mais ampla. A partir disso, a gente vai conseguir ter uma precisão boa da quantidade de doenças que conseguiremos detectar".
Fonte: G1, por Itana Alencar, G1 BA, 12/02/2019


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

De como a autoidentidade sexual, proposta na Inglaterra, prejudica mulheres e garotas

Tire as mãos dos meus direitos
Sob o pretexto de inclusão das ditas pessoas transgênero na sociedade, o que está se vendo é a criação de uma realidade que parece, para ficar em exemplos bem ingleses, uma mistura do romance "1984", do genial George Orwell, com a  série Black Mirror e sua crítica ácida ao mundo tecnológico de hoje. Em outras palavras, uma distopia pavorosa que afeta todo o mundo, em particular mulheres e crianças. Na mesma Inglaterra, só neste mês de janeiro, três pessoas foram assediadas pela polícia local (um empresário e uma aposentada) e até presas (uma mãe de família) por não aceitarem a ideia surreal de que existem mulheres do sexo masculino. Funcionários públicos bancando a polícia do pensamento dos cidadãos que os pagam para protegê-los de coisas sérias.

Agora, os ingleses estão às voltas com uma proposta de "autoidentificação sexual"  que permitirá às pessoas mudarem online seu sexo na certidão de nascimento. Grupos feministas, os de fato ainda existentes, fazem campanhas para impedir mais esse absurdo (veja o vídeo abaixo e sua tradução). Projetos parecidos rolam em boa parte dos países de língua inglesa (mesmo nos EUA de Trump). Aqui, no Brasil, ainda que não nos mesmos termos, agregada à tentativa de criminalização da homofobia, vem também a criminalização da transfobia. Após a tradução do vídeo inglês, veja o vídeo sobre a lei brasileira.


"No Reino Unido, o governo está propondo uma mudança na lei que permitirá que pessoas trans mudem seu sexo (sic) em suas certidões de nascimento. Uma ideia em consideração é a autoidentidade sexual que permitirá que qualquer pessoa preencha online um formulário e obtenha o direito de ter sua certidão alterada para nela constar como do sexo oposto àquele de seu nascimento.
Essa ideia "revolucionária" vem sendo vendida como uma mera questão administrativa. Mas, se passar, minará a base racional de nossa lei em escala industrial. Roubará de mulheres e garotas seus direitos legais. Destruirá a definição legal de "mulher". Apagará o significado de "fêmea". Dizimará os esportes, serviços e espaços exclusivos para mulheres. Prejudicará os planos de enfrentamento da exclusão feminina. E colocará em risco a segurança e a privacidade de mulheres e garotas. Levará ao maior revés nos direitos da mulher em um século. 
O lobby poderoso de grupos trans está trabalhando arduamente para que essas mudanças ocorram. Se não nos opusermos agora, o governo dará ok a elas. Precisamos pará-las antes que seja tarde."Tirem as mãos dos meus direitos!"
Colocado em prisão feminina,
Karen White assediou várias detentas
Este mesmo grupo, Fair Play for Women, fez campanha exitosa para que criminosos transgênero sejam colocados em alas exclusivas nas penitenciárias femininas e os mais violentos de volta às prisões masculinas. Mas isso só depois de  um estuprador, autointitulado Karen White, ter assediado sexualmente detentas numa prisão feminina.

Virou moda, entre criminosos perigosos, como estupradores, pedófilos e sociopatas, "virarem mulher", nas cadeias masculinas, para pedirem transferência para as prisões femininas, colocando a segurança e a saúde das detentas em risco. Agora, talvez isso, ao menos, possa ter fim.

Nota: Na Escócia, um sujeito vestido de mulher arrastou uma garota de 10 anos para uma das toaletes do banheiro feminino de um supermercado (06/02/2019). O ataque revelou a necessidade da manutenção dos espaços exclusivamente femininos, já que, como diz a matéria, mais de 90% dos crimes sexuais são cometidos por homens (não só os crimes sexuais).


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Invenções importantes criadas por mulheres

Bette Nesmith Graham inventou o muito útil corretor líquido


11 invenções importantes que foram criadas por mulheres

Utensílios e ideias inovadoras imaginados por inventoras que simplificaram tarefas básicas na rotina das pessoas

Sem sabermos, muitos dos utensílios e tecnologias que ajudam a salvar vidas ou que usamos todos os dias foram imaginados pelas mentes criativas de mulheres inventoras. Muitos apetrechos úteis nasceram a partir de ideias de engenheiras, cientistas e outras mulheres motivadas a facilitar a rotina das pessoas.

O corretivo líquido, material comum em escritórios e escolas hoje, foi pensado por uma datilógrafa, a fórmula desenvolvida em sua cozinha. O bote salva-vidas, hoje um equipamento resistente e prático de usar em situações de emergência, também foi criação de uma mulher e ajudou a salvar centenas de pessoas em tragédias como o naufrágio do Titanic. Desde o século 19, muitas patentes foram registradas por mulheres inovadoras e seus projetos até hoje simplificam certas atividades comuns dentro e fora de casa.

Conheça outros instrumentos e materiais que foram desenvolvidos por mulheres ao longo da história:

Bote salva-vidas

Pouco se sabe sobre a inventora Maria Beasley, apenas que queria criar um bote salva-vidas mais resistente, à prova de fogo e compacto. Sua versão, lançada em 1884 em uma exposição de Nova Orleans, era mais fácil de dobrar e armazenar: até 1870, o bote era basicamente uma tábua de madeira. Beaseley patenteou sua ideia e foi responsável por outras invenções, como aquecedores de pé e uma máquina de barril de madeira, útil para a preservação de alimentos. A inventora foi uma grande exceção entre as mulheres da época, ganhando cerca de 20 mil dólares por ano, e seu bote salva-vidas impediu centenas de mortes em um dos acidentes de navio mais trágicos da história, o naufrágio do Titanic.

Cama de gabinete dobrável

Em 1885, Sarah E. Goode foi a primeira mulher afro-americana a receber uma patente nos Estados Unidos. Por isso, sua invenção de cama com gabinete dobrável marcou história e ainda ajudou as casas americanas a ganharem mais espaço com uma cama que poderia ser “engavetada”.

Corretivo líquido

Batizado de Liquid Paper em inglês (Papel Líquido, em tradução livre), o corretivo líquido usado especialmente como material escolar foi inventado por , datilógrafa americana que começou a corrigir — em segredo — seus erros de digitação com tinta branca. Ela passou anos aprimorando uma fórmula na cozinha de casa até patentear a ideia em 1958. Por 47,5 milhões de dólares, a marca Gillette comprou sua empresa em 1979.

Fraldas descartáveis

Em 1951, a inventora americana Marion Donovan deu o primeiro passo para facilitar drasticamente a vida de futuros pais e seus bebês ao patentear a capa de fralda impermeável. Originalmente feita com uma capa de chuveiro, ela foi vendida pela primeira vez na loja de luxo Saks Fifth Avenue. Dois anos depois, a patente foi vendida para a Keko Corporation por 1 milhão de dólares e Donovan lançou, logo em seguida, um modelo totalmente descartável de fraldas.
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Marion Donavan (foto: reprodução)
Kevlar

A química americana Stephanie Kwolek trabalhou durante mais de 40 anos na empresa DuPont, onde acidentalmente criou uma fibra sintética leve e super-resistente, mais tarde chamada de Kevlar. A invenção surgiu quando Kwolek tentava desenvolver uma fibra mais leve para pneus de carro e foi patenteada em 1966. A fibra é um polímero resistente ao calor e mais resistente que aço por unidade de peso. Atualmente, Kevlar é aplicado em cintos de segurança, construções aeronáuticas, coletes à prova de bala, linhas de pesca e vários outros produtos. Até alguns celulares usam a fibra, como o modelo Motorola RAZR i.
Stephanie Kwolek (foto: Wikimidia/Chemical Heritage Foundation)
Lava-louças

Patenteada em 1886, a primeira máquina de lavar louças automática foi desenvolvida pela americana Josephine Cochran, que apresentou sua invenção na Feira Mundial de Chicago, em 1893, e atraiu o interesse de restaurantes e hotéis. Apenas nos anos 50 o eletrodoméstico se tornou mais conhecido pelo público geral, com o aumento da disponibilidade de água quente nas casas, detergente para lavar louça e uma mudança de costumes em relação ao trabalho doméstico. Em 2006, seu nome foi incluído na lista de inventores da organização National Inventors Hall of Fame.

Lixeira com pedal

A psicóloga e engenheira industrial Lillian Gilbreth era conhecida por aperfeiçoar invenções com pequenos ajustes engenhosos. No início do século 20, ela projetou as prateleiras posicionadas nas portas da geladeira, melhorou o abridor de latas elétrico e lançou o pedal colocado em lixeiras para poder abri-las com o pé. Gilbreth e seu marido Frank Bunker tiveram doze filhos e inspiraram o livro Cheaper by the Dozen (sem edição no Brasil), escrito por dois de seus filhos e adaptado para filmes como Papai Batuta, de 1950, e Doze é Demais.

Lillian Gilbreth (foto: Wikimedia/Smithsonian Institution)
Escadas de Incêndio

As tradicionais escadas de incêndio, posicionadas ao lado de prédios com uma estrutura de grades, foram inventadas por Anna Connelly

em 1887. Por mais que a ideia já existisse e tenha passado por modernizações décadas mais tarde, a iniciativa de Connelly ajudou a aperfeiçoar a invenção na época em que construções começaram a ser renovadas e feitas com vários andares. Apartamentos, fábricas e prédios públicos ficaram maiores, mas suas estruturas ainda eram feitas de madeira e acidentes envolvendo incêndios poderiam ser devastadores, causando muitas vítimas — os moradores dos últimos andares eram, naturalmente, os que corriam mais riscos.

Equipamentos de combate a incêndios também não tinham a eficiência e qualidade necessárias para evitar que o fogo se espalhasse pelo prédio inteiro. Entre os anos 1877 e 1895, quando a população americana notou a urgência de criar alguma solução para o problema, pelo menos 30 patentes foram registradas por mulheres — possivelmente encorajadas pela alta taxa de mortalidade de mulheres e crianças em acidentes do tipo. Connelly foi uma das mulheres interessadas no assunto e projetou a “ponte de fuga” que logo faria parte do cenário externo de todos os prédios urbanos.

Seringa médica

Os primeiros tipos de seringa surgiram nos tempos romanos, mas sua evolução e melhorias podem ser creditadas a várias pessoas. Uma delas é Letitia Geer, que em 1899 recebeu a patente pela invenção de uma seringa com desenho adequado para ser usada apenas com uma mão, uma grande facilidade para a atividade médica.

Sinalizador noturno

Antes do surgimento de tecnologias mais inteligentes, a comunicação entre navios baseava-se apenas em bandeiras coloridas, lanternas e, quando possível, gritar mensagens bem alto. Os sinalizadores noturnos, lançados em 1859, não foram uma ideia concebida totalmente pela empreendedora Martha Coston: após a morte do marido, Coston encontrou projetos em um de seus cadernos e dedicou dez anos de trabalho ao lado de químicos e especialistas em pirotecnia para tornar os planos realidade. A patentedo produto, no entanto, creditou a invenção ao marido e citou seu nome apenas como “administradora”.

Tábua de passar

Sarah Boone foi uma costureira afro-americana responsável por aprimorar a estrutura da tábua de passar roupas. Ela recebeu uma patente pelo seu projeto em 1892, desenhado como uma superfície mais prática para passar mangas e roupas femininas. O objeto era curvo, estreito e feito de madeira.

Fonte: Revista Galileu, por Humberto Abdo, 22/03/2017

Publicado originalmente em 11/04/2019

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Mulheres com a mão na (arga)massa ensinam como reformar e pintar sua casa


Quem são as youtubers que empoderam mulheres na construção civil.
As minas que usam o YouTube para ensinar a assentar azulejo e rebocar parede 

A primeira vez que Paloma Cipriano trabalhou com argamassa na vida foi aos 16 anos de idade. A menina de Sete Lagoas, em Minas Gerais, estava cansada. Não aguentava mais ver sua casa em obras. O local estava em construção desde que havia nascido e sua mãe não conseguia dar sequência aos reparos. Foi aí que Paloma decidiu ajudar. Mais que acostumada a viver sem uma figura masculina — nunca viu a cara do pai —, a jovem não esperou pedreiro algum para meter a mão na argamassa.

Inscreveu-se em um curso de alvenaria, pesquisou o que precisava na internet, instalou o piso do seu quarto e não parou mais. Sete anos depois, Paloma segue reformando a casa. Só que agora filma e compartilha o que sabe com outras pessoas. A jovem de 23 anos é uma força na web, principalmente para as minas. Mostra que elas não precisam depender de pedreiro nenhum.

Paloma não é a única. Além do seu canal no YouTube, não faltam iniciativas empoderadoras. São diversos os canais, coletivos e produtoras de conteúdo que seguem a ascendente linha do faça você mesmo, também conhecido por do it yourself e bricolagem. Mesmo assim, a mineira segue uma temática nem tão explorada por outras garotas. Ela se especializou em construção civil, e a resposta tem sido ótima. São 100 mil inscritos em seu canal.
Vejo o pessoal falar que é diferente uma menina assentando cimento. Para mim, é normal. Sempre fiz na minha casa", conta.

Quem acessa os seus vídeos encontra de tudo: "como aplicar massa corrida", "como assentar azulejo", "como rejuntar piso" e muito mais. Seu vídeo mais assistido, "como rebocar parede", tem mais de 2 milhões e 300 mil visualizações.
Esse vídeo ainda faz muito sucesso. Depois de um tempo comecei a receber mensagens de mulheres que estavam reproduzindo em suas casas. Me inspirou a continuar gravando", diz.
A resposta positiva fica ainda mais clara nos comentários dos vídeos no YouTube. Apesar dos dizeres machistas e misóginos, não faltam mulheres expressando o apreço pelo trabalho que realiza.
Talvez não tenha noção de quanto isso muda a vidas das pessoas. Mas fico feliz e surpresa pelos comentários que recebo."
Sobre o seu feminismo, no entanto, Paloma afirma estar digerindo a informação que recebe. Sente-se orgulhosa por ajudar "mulheres que antes esperavam o marido para fazer uma coisa e agora não esperam mais".
Isso não vai fazer com o que o mundo mude, mas pode ajudar um pouquinho. Só de algumas mulheres sentirem vontade de tomar à frente o que antes era quase que completamente feito por homens eu já me sinto feliz", conta.
 Animada com a resposta, hoje foca toda a sua atenção no canal. Largou o estágio para produzir mais vídeos e já conta com alguns patrocinadores. "Agora quero terminar a reforma em casa", diz.

Faça você mesma

Na mesma pegada de Paloma também está bombando o canal Diycore, criado por Karla Amadori, catarinense de Lebon Régis. Mais fiel ao estilo faça você mesmo, Karla ensina seus mais de 500 mil assinantes a fazer uma porrada de coisa. Desde pintura básica e baús estofados até racks e painéis de madeira.

Formada em design de interiores, a jovem teve a ideia do canal em 2015, quando quis reformar seu quarto. A ideia era fazer um rack com caixotes de feira, mas não sabia nem como começar. Foi ao YouTube em busca de ajuda para o manuseio de ferramentas e não achou nada muito específico sobre os tais caixotes. Quando foi montar a peça decidiu gravar e publicar no site. O vídeo bombou — hoje conta com mais de 1 milhão de visualizações — e o sucesso a fez lançar o canal.

Com a resposta positiva do primeiro vídeo, ela começou a gravar outros trampos, tipo construir o armário do seu quarto e os móveis que queria colocar lá. Logo de cara, várias mulheres começaram a se manifestar sobre o conteúdo do canal: as minas adoraram e começaram a sugerir outros temas.


Karla também diz que não iniciou o seu projeto com o pleno objetivo de ajudar outras mulheres a se sentirem mais seguras para adentrar na área de marcenaria e decoração. Foi natural.
Quando viram uma mulher mexendo com ferramentas, fazendo o que na grande maiorias das vezes é feito por homens, elas se inspiraram. Fui alimentando essa coragem e hoje muitas falam que que querem encarar esses desafios", conta.

Nos seus comentários também não faltam mulheres de diferentes idades agradecendo as dicas. O Diycore, curiosamente, também é um puta sucesso entre os homens. Segundo Karla, eles já começam a crescer e muito nos comentários dos vídeos.
Mulher predomina um pouco mais, mas agora está bem masculino. Não sei se eles são mais quietos e só comentam depois de assistirem vários vídeos, mas sei que é um público que cresce."
Independentemente de quem é maioria, Karla está feliz em incentivar pessoas a colocarem a mão na massa.
Elas se sentem capazes de fazer e produzir e isso é muito legal da corrente faça você mesma", diz.
Ela também recebe contato de gente do Brasil inteiro para mostrar a sua influência na vida delas.
Recebo mensagem de mulher que não tinha coragem de mexer em nada e agora se sente mega feliz ao instalar um chuveiro ou pintar uma parede. Isso é muito bom. Estão se inspirando no meu trabalho."
Por que uma mina não sonha em ser marceneira quando criança?

Por causa de mulheres como Paloma e Karla, o YouTube está chamando a atenção de iniciativas como a Lumberjills, uma marcenaria fundada e tocada por duas minas feministas que lutam para mostrar que não há profissão que elas não possam dominar. O curioso é que a empresa não nasceu com o intuito de ser feminista. Tornou-se depois de tanto machismo e assédio que as fundadoras sofreram dentro do setor.

Criado pelas paulistanas Leticia Piagentini e Fernanda Sanino, o negócio se especializou em marcenaria customizada. O cliente pede e as minas fazem. As duas largaram tudo para abrir o negócio. Elas nunca tinham trampado com marcenaria antes na vida. Tinham na conta um curso básico e a vontade de abrir um negócio juntas. Encararam o machismo em suas tradicionais famílias italianas, que não viram sentido em duas mulheres bem-sucedidas largarem tudo para construir móveis, e meteram a cara a pau.
A gente não começou na militância, mas em pouco tempo deu pra perceber o quanto ela seria importante. Começamos a sofrer muito preconceito entre família e amigos e vimos que a empresa tinha que abraçar essa bandeira", diz Fernanda.
Além do núcleo familiar, ela fala que o foda é ainda ter que lidar com o machismo do setor, mesmo depois de três anos de empresa.
Quero um dia falar que sou marceneira e não causar espanto em ninguém", conta.
Menos pior seria se fosse só o espanto. Fernanda conta que já passou por situações de assédio assustadoras. Uma vez, quando foi realizar o trabalho em um imóvel, se viu sozinha junto com outros 20 homens trabalhando na reforma da casa. Em pouco tempo, pelo menos 15 deles pararam seus trabalhos para assistir a marceneira realizar o seu.
Em um quarto fechado, com esse bando de cara encarando. Eu tava fazendo uma cabeceira e os caras começaram a falar de usar a cama. Foi horrível. Eu estava completamente rendida. Não aguentei, saí para almoçar e pedi para retornar um dia que não tivesse mais ninguém trabalhando na casa", diz a jovem.

Mesmo assim, Fernanda está muito feliz com o sucesso do negócio. E mais contente ainda com o impacto entre as mulheres. "O mundo está mudando. Devagar, mas está. Estamos lutando contra o machismo. E o nosso trabalho vai mostrar que as mulheres podem ser marceneiras se elas quiserem." E é exatamente por isso que elas já começam a dar seus passos no YouTube. O canal da Lumberjills já conta com alguns vídeos próprios. 

A dupla diz que falta tempo para fazer mais vídeos. Passam o dia inteiro na oficina trabalhando nos pedidos dos seus clientes. Mesmo assim, acreditam no empoderamento que passam quando compartilham conhecimentos específicos como os que têm.
A gente quer muito produzir mais desse conteúdo. Já compramos a câmera e temos uma parceira para editar os vídeos. Queremos fazer a mulherada colocar a mão na massa", diz. Além disso, a empresa também realiza aulas para mulheres que querem aprender sobre o setor. "Estamos fazendo de tudo para as minas quebrarem essa barreira e entrarem no mercado. Afinal, por que uma menina não sonha em ser marceneira quando é criança? Está na hora disso mudar."
Fonte: Motherboard, por Rennan A. Julio, 31/03/2017

Publicado originalmente em 24 de abril de 2017

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