Aserá,

a esposa de Deus que foi apagada da História

Intelectuais lançam manifesto

contra cultura do cancelamento da esquerda identitária

Aborto seletivo e infanticídio de meninas

provocam déficit de 23 milhões de mulheres no mundo

História do Futebol Feminino:

superando pobreza, preconceito e descrença

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Contracultura brasileira: o desbunde que desafiou a esquerda e os militares


 Gal Costa, Os Mutantes, Jards Macalé, Gilberto Gil (com Torquato Neto), Novos Baianos, Caetano Veloso, Jorge Mautner, Luiz Melodia, Rogério Duprat, Sérgio Sampaio, Tom Zé e Walter Franco 

A música Sangue Latino é de 73. Os Secos e Molhados existiram de 71 a 74 em sua formação original. Os Dzi Croquettes de 1972 a 1976. O musical Hair foi encenado de 69 a 71. Andróginos e libertários. Em pleno período do regime de exceção. Foram filhos da contracultura que os militares não reprimiram com a contundência que reprimiram a esquerda ortodoxa, mesmo porque a consideravam meio alienada, visão compartilhada pela esquerda da época. Segundo consta, foi a esquerda da luta armada que apelidou os contraculturais no Brasil de desbundados. A contracultura no BR foi o desbunde. 



E a geração que prevalece no país na década de 70 foi exatamente a do desbunde, a do "sexo, drogas e rock'n'roll", da "minha casa no campo, meus amigos, meus discos, meus livros e nada mais" e não a da esquerda que queria nos transformar num Cubão. Aliás, a matriz do movimento homossexual no Brasil e no mundo foi a contracultura, não a esquerda tradicional que era tão homofóbica e machista quanto os conservadores. Ainda hoje, vejo muito mais em comum entre eles do que sonham as vãs filosofias. 

Lembrei disso porque, desde que lançaram uma tese pra lá de discutível que afirma ter o regime militar instituído uma política de Estado contra pessoas homossexuais, volta e meia vem alguém me perguntar dos sofrimentos que passei por ser lésbica sob a ditadura. 

Então, vamos esclarecer, o período 64-84 se deu de fato sob um regime de exceção, mas não sob um regime totalitário. Nós não vivemos uma espécie de Gilead como no "O Conto da Aia," pra citar uma referência atual. Os agentes da repressão não estavam visíveis a cada esquina, não ficavam acompanhando as pessoas até o supermercado, não havia corpos de subversivos pendurados nos muros das cidades ou na frente das casas, não se executava gente a sangue frio em ruas de bairros de classe média. A abdução dos ditos subversivos se dava mais na surdina, na calada da noite ou em blitz pontuais durante o dia. Nós outros vivíamos uma aparente normalidade, com as pessoas levando suas vidas de forma não muito diferente da de hoje.


A juventude daquele período, no Brasil, gastava seu tempo tomando todas e transando muito, indo a teatros (onde se faziam críticas veladas ao regime), aos cinemas (ver Bergman, Pasolini, Fellini, Polansky, Woody Allen) e a Salvador (que virou a Meca dos desbundados). Também gastava seu tempo lendo livros, jornais (cheios de mensagens cifradas) e a imprensa alternativa, assistindo os festivais de música popular e as novelas na TV. Indo ainda a musicais e, no final da década, entre 78 e 79, acabando-se nas baladas dos dancing days.
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Enfim, esse era o meu cotidiano naquele período. Não sofri repressão da ditadura por ser lésbica. Da ditadura, sofri repressão como estudante, quando fui às ruas em 1977 participar das manifestações promovidas pela UNE que se rearticulava. Fui inclusive presa na tristemente célebre invasão da PUC pelas forças do famigerado coronel Erasmo Dias. Porque manifestação de rua não podia mesmo acontecer, ainda mais contra o governo. 

Como lésbica, a repressão que sofri foi da sociedade ultraconservadora da época, tão vigente aqui, sob um regime de exceção, quanto nos EUA, a democracia mais estável da História. Naquele período, a homossexualidade ainda era considerada doença ou crime (nos EUA, a homossexualidade só deixou de ser crime na década de 70), as pessoas homossexuais eram totalmente marginalizadas, como se fossem realmente criminosas, aparecendo na imprensa somente nas páginas policiais. Provavelmente a invasão que promovi, com outras ativistas, em 19 de agosto de 1983, no antológico Ferro's Bar de São Paulo, foi a primeira a inaugurar uma nova abordagem da imprensa sobre o assunto, com artigo da Folha de SP nos tratando de forma positiva. 

Em outras palavras, não vão comprando acriticamente qualquer tese que aparece. Busquem sobre a contracultura no Brasil no oráculo do Google. Há teses e livros sobre o tema que, sem dúvida, vão lhes ampliar o horizonte, abrir uma nova perspectiva sobre a realidade sócio-cultural daquele período paradoxalmente de repressão mas também de grandes mudanças políticas e comportamentais. Aqui uma dica: Contracultura – Alternative Arts and Social Transformation in Authoritarian Brazil, de autoria de Christopher Dunn. Liberdade cabeluda:  O  inusitado caráter político da contracultura brasileira

Por último, naqueles conturbados anos do regime militar e da Guerra Fria (com a bomba atômica pairando sobre nossas cabeças), nós vivemos a contracultura (considerada por muitos como a última grande utopia) e tínhamos aquela coisinha verde que, hoje, a gente procura à esquerda, à direita, no centro, em cima e embaixo, e não encontra. Nós tínhamos esperança. Ao contrário, atualmente, vivemos num clima distópico que parece sobretudo uma mistura do 1984 com O Conto da Aia mas também conta com pitadas do Admirável Mundo Novo e do Fahrenheit 451. Sinto muito!
 😓

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Passando pano para comunismo no século XXI?

Essa página da História já não devia ter sido virada?
Caramba, e eu pensando que a Folha de SP tinha dado espaço pro marxista afro Jonas Manoel por causa da divulgação que o Caetano Veloso, dando uma de o pateta do ano, fez do dito.

Que nada! Agora o UOL abre espaço pra mais comunistas se fazerem de coitados demonizados pela direita bozolavista e outros através da História (Demonizados pela direita, comunistas se protegem e debatem lugar no séc. 21)  É fato que bolsominions e congêneres dão à palavra comunista um tom folclórico e caricatural, já que chamam de comunista qualquer pessoa que não lhes seja espelho. Eu sou comunista pelos padrões bozolavistas, marxista cultural, gayzista, feminazista e outras pérolas. Pra se ver. 😁

Mas, de fato, fora do âmbito da piada, não existe demonização do comunismo e sim conhecimento de sua obra. Não foi a direita que trouxe primeiro os crimes do Stalin a público. Foi o vazamento de um discurso do Nikita Khrushchev, primeiro-secretário do Partido Comunista da União Soviética, em fevereiro de 1956, que trouxe. E o padrão estalinista de genocídio, mortes por fome, em execuções sumárias e campos de concentração, foi seguido em todos os países que caíram sob o jugo comunista. O Mao Tsé-Tung fez ainda pior na China (matou umas 45 milhões de pessoas de fome, fora o que matou por outras vias). O Pol Pot, no Camboja, matou 25% da população do país que era de cerca de 10 milhões. 

Eu quando jovem, na faixa dos 20 anos, sob a ditadura militar, já considerava o comunismo anacrônico, criminoso e brega pelo pouco que o conhecia. E, entre o pouco que se sabia, o tratamento dado aos homossexuais também já era notório. Variava de direito algum aos campos de reeducação da ditadura cubana. Fora que os Castro e seo Che Guevara foram também responsáveis, direita ou indiretamente, pela morte de milhares de cubanos. 

Aqui, no Brasil mesmo, essa esquerda ortodoxa, ainda no início da década de 80, dizia que feminismo era coisa de burguesa desocupada e homossexualismo produto da decadência da burguesia. Entrou, pra História, em fevereiro de 1981, um barraco armado por uma integrante do Jornal A Hora do Povo, do MR-8, durante o III Congresso da Mulher Paulista, em SP, que queria expulsar as lésbicas do evento porque estas não seriam mulheres, abdicavam da condição feminina e outras tantas de igual jaez.

Quando a irracionalidade da esquerda identitária encontra
a irracionalidade comunista
Com o passar do tempo, essa esquerda ortodoxa percebeu que era mais oportuno cooptar os novos movimentos sociais em vez de afrontá-los, a tal ponto que hoje temos uma transcomunista desejando que outras trans matem a J. K. Rowling por ela não aceitar abdicar de sua mulheridade e liberdade de pensamento. Quando a irracionalidade do comunismo se junta com a irracionalidade da esquerda identitária, o negócio nem é fugir pras colinas e sim partir pra outro planeta. 

Pra aliviar, no artigo abaixo, o tal do Jones Manoel diz que existe preconceito contra comunistas até na esquerda, onde são minoria. O que ele chama de preconceito eu chamo de consciência. Bom saber que ainda existe gente de esquerda com alguma. Os milhões de mortos que o comunismo produziu agradecem.

* Ah, e, antes que me esqueça, pra mim comunismo não tem lugar no século XXI.



terça-feira, 8 de setembro de 2020

Aserá, a esposa de Deus que foi apagada da História

Estátua da Deusa Asherah (אֲשֵׁרָה) - Reuben and Edith Hecht Museum - Universidade de Haifa, Israel
Deusa Aserá (ou Astaroth), esposa de Javé
A deusa mãe, mulher de Javé, teria sido excluída intencionalmente da Bíblia, no caminho para a construção paradigmática da hegemonia masculina. Em tempos anteriores ao monoteísmo patriarcal – instaurado no ocidente pelo judeu-cristianismo e responsável por semear as bases de uma consciência que enaltece os valores masculinos da conquista, expansão e exploração da natureza –, prevaleceu uma concepção religiosa da divindade como um casal: Deus Mãe e Deus Pai.

Segundo a pesquisadora da Universidade de Exeter Francesca Stavrakopoulos, originalmente, as chamadas grandes religiões abraâmicas também adoravam, junto com Javé, a deusa Aserá (chamada por vezes de Astaroth), uma divindade doadora, como a Ishtar babilônica, ou a Astarte grega, arquétipos da divindade feminina, como a Lua, a Terra e Vênus.

Stavrakopoulos baseou sua hipótese no estudo de antigos textos, amuletos e figuras encontrados na cidade de Ugarit, atual território da Síria, que refletem o modo como Aserá era adorada, junto com Javé, ou Jeová, como uma poderosa deusa da fertilidade. Há uma vasilha do século XIII, descoberta no deserto de Sinai, em Kuntillet Arjud, que registra um pedido de bênção ao casal divino. E existem várias inscrições similares, que fortalecem a tese de que o Deus bíblico teve uma esposa, de acordo com pesquisadora.

Conheça a esposa de Deus que foi riscada da história da Bíblia, segundo  pesquisadores | HISTORY
Javé e Aserá
São também significativas as escrituras bíblicas que mostram como Aserá era adorada no templo de Javé, em Jerusalém, ou a descrição de uma estátua da mesma deusa, que, segundo é narrado no Livro dos Reis, ficava situada no templo, zelada ritualmente por mulheres. A referência a “A Rainha do Céu” no Livro de Jeremias, poderia ser uma possível alusão à mesma divindade.

Stavrakopoulos concorda em suas conclusões com inúmeros estudos, que explicam como as edições seguintes da Bíblia – curadas sempre por homens – teriam sido infiéis às escrituras sagradas, para realizar uma operação de inteligência, uma programação neurolinguística da sociedade, com o objetivo final de manter no centro do poder a casta sacerdotal masculina, em detrimento e repressão do lado feminino da divindade.

Clipping Conheça a esposa de Deus que foi riscada da história da Bíblia, segundo pesquisadores, History Channel

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