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quinta-feira, 5 de março de 2020

Saiba como conhecer os principais museus do mundo via Google Arts and Culture

Musée dOrsay, Paris
Plataforma do Google oferece passeios virtuais dentro
 das galerias mais famosas do mundo
Já imaginou poder visitar museus sem sair de casa? Isso é possível graças a tecnologia. O Google Arts and Culture permite ver peças de arte de museus do Brasil e do mundo. O projeto do Google conta com a colaboração de diversos museus.

Por meio da plataforma é possível fazer passeios virtuais dentro das galerias dos principais museus do mundo. Além disso, é possível abir obras raras em alta definição pelo computador.

O Google Arts and Culture utiliza a mesma tecnologia do Street View, para apresentar as galerias com passeios panorâmicos. A proposta é oferecer uma experiência imersiva aos usuários.

Segundo André Luiz Pinto dos Santos, professor especialista nos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Artes Visuais do Centro Universitário Internacional Uninter, é possível, por exemplo, acessar o acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo sem sair de sua casa.
A Pinacoteca possui um dos acervos mais importantes das artes produzidas no Brasil. O edifício está localizado no Jardim da Luz, no centro da cidade de São Paulo, e conta com pinturas de relevância para a história nacional, como é o caso da natureza-morta 'Bananas e Metal' - quadro produzido em 1887 por Pedro Alexandrino (1856 – 1942), tido pela crítica como o pintor de naturezas-mortas mais importante do país entre o final do século XIX e início do século XX", explica.
Além disso, a plataforma possibilita ao internauta dar zoom nas obras de artistas, a tal ponto que chega a ser possível inclusive notar as ações de restauro e intervenções sofridas.

Alguns dos museus disponíveis na plataforma são: MoMa The Museum of Modern Art, em Nova York, EUA; Uffizi Galery, em Florença, Itália; Van Gogh Museum e Anne Frank House, em Amsterdã, Holanda; Masp - Museu de Arte de São Paulo; Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, Brasil, entre outros.

Museu Nacional de Belas Artes, Brasil
Clipping Saiba como conhecer museus do mundo todo sem sair de casa, Revista Vida e Arte,  24/02/2020

terça-feira, 3 de março de 2020

O século 21 deve ser o século da igualdade entre mulheres e homens, segundo secretário-geral da ONU

O secretário-geral da ONU, António Guterres, explica seu compromisso com a igualdade de gênero na The New School, em Nova Iorque. Foto: ONU/Mark Garten
O secretário-geral da ONU, António Guterres, explica seu compromisso com a igualdade de gênero na The New School, em Nova Iorque. Foto: ONU/Mark Garten
O século 21 deve ser o século da igualdade entre mulheres e homens, disse na quinta-feira (27) o secretário-geral da ONU, António Guterres, em um apelo para transformar o mundo, garantindo a participação igualitária para todos.

Falando a professores e alunos da The New School, uma universidade na cidade de Nova Iorque, o chefe da ONU declarou-se feminista orgulhoso e pediu aos homens em todos os lugares apoio aos direitos das mulheres.
Assim como a escravidão e o colonialismo eram uma mancha nos séculos anteriores, a desigualdade das mulheres deveria nos envergonhar no século 21. Porque não é apenas inaceitável; é estúpido”, disse.
Para o chefe da ONU, a desigualdade de gênero e a discriminação contra mulheres e meninas continuam sendo uma injustiça em todo o mundo.
Desde a ridicularização das mulheres como histéricas ou hormonais, até o julgamento rotineiro das mulheres com base em sua aparência; dos mitos e tabus que cercam as funções corporais naturais das mulheres, ao ‘mansplaining’ e à culpabilização da vítima — a misoginia está em toda parte”, disse ele.
No cerne da questão está o poder, pois as estruturas de poder dominadas por homens sustentam tudo, desde economias nacionais, sistemas políticos, mundo corporativo e além. Mas ele ressaltou que o patriarcado também tem impacto sobre homens e meninos, prendendo-os em rígidos estereótipos de gênero, enquanto uma mudança sistêmica está muito atrasada.
É hora de parar de tentar mudar as mulheres e começar a mudar os sistemas que as impedem de alcançar seu potencial. Nossas estruturas de poder evoluíram gradualmente ao longo de milhares de anos. Uma evolução adicional está atrasada. O século 21 deve ser o século da igualdade para as mulheres”, afirmou.
Problemas criados pelo homem, ‘soluções lideradas por humanos’

O desmantelamento da desigualdade de gênero transformará o mundo, afirmou o chefe da ONU, e é fundamental para resolver desafios globais como conflitos e violência, assim como a crise climática.

Também ajudará a diminuir a desigualdade digital, levar a uma globalização mais justa e aumentar a representação política.
A oportunidade dos problemas criados pelo homem — e eu escolho essas palavras deliberadamente — é que eles têm soluções conduzidas por humanos”, disse ele.
Enquanto as Nações Unidas completam 75 anos este ano, o organismo global está adotando amplas medidas para apoiar os direitos das mulheres, continuou ele.

O mês passado marcou o início de uma Década de Ação para alcançar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), destinados a construir sociedades pacíficas, prósperas e inclusivas, além de proteger o planeta.

A Década de Ação visa transformar instituições e estruturas, ampliar a inclusão e impulsionar a sustentabilidade.
Revogar leis que discriminam mulheres e meninas; aumentar a proteção contra a violência; diminuir a desigualdade na educação e no acesso às tecnologias digitais das meninas; garantir acesso total aos serviços e direitos de saúde sexual e reprodutiva e acabar com as disparidades salariais entre homens e mulheres são apenas algumas das áreas que estamos mirando”, disse ele.
No nível pessoal, o secretário-geral da ONU se comprometeu a aprofundar seu compromisso de destacar e apoiar a igualdade entre mulheres e homens durante o restante de seu mandato.

Ele tomará medidas em nível global, como exigir mudanças de governos que têm leis discriminatórias, e dentro da ONU, fortalecendo o trabalho sobre os vínculos entre a violência contra as mulheres e a paz e a segurança internacionais.
A igualdade entre mulheres e homens é uma questão de poder; poder que tem sido zelosamente guardado pelos homens por milênios. Trata-se de um abuso de poder que está prejudicando nossas comunidades, nossas economias, nosso meio ambiente, nossos relacionamentos e nossa saúde”, disse Guterres.
Clipping  ‘O século 21 deve ser o século da igualdade para as mulheres’, diz chefe da ONU

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Francisco Félix de Souza, ex-escravo, foi um dos maiores traficantes de escravos africanos

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Vida de Francisco Félix de Souza revela como negros negociavam negros
No mundo em preto e branco do atual movimento negro, somente brancos podem ser racistas porque o racismo contra negros é estrutural, tem desdobramentos sócio-políticos, econômicos e culturais que não afetam brancos por serem brancos. Com essa perspectiva, o juiz João Moreira Pessoa de Azambuja, da 11.ª Vara de Goiânia, absolveu um jovem negro da acusação, feita pelo Ministério Público Federal, de ter ‘praticado e incitado a discriminação de raça ou cor’ ao fazer ‘reiteradas declarações pregando, com incitação ao ódio, a separação de raças, inclusive citando mulheres negras que se relacionam com homens brancos (como nojentas)’. Claro que se trata de uma falácia tal ponto de vista, porque, no mínimo, negros podem ser sim racistas contra brancos em nível de discurso, em nível de injúria racial, como nesse caso. Negar essa realidade dá carta branca (sem ironia) para que negros possam cometer injúria racial impunemente.

O fato é que, na triste história da escravização africana ocorrida no Brasil, a divisão mocinho ou bandido que rege a mentalidade de ativistas do atual movimento negro vai encontrar sérias contestações provindas do passado. Uma dessas contestações reside na presença de traficantes de escravos que eram  ex-escravos. Aliás, um dos maiores traficantes de escravos foi Francisco Félix de Souza, ex-escravo baiano mercador de escravos, como relata o diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva em seu livro Francisco Félix de Souza, mercador de escravos (Nova Fronteira/Ed. Unerj, 208 páginas). Na resenha de Carlos Haag que segue abaixo, o livro é tido como "um painel, cruel, de como negros africanos lucravam, e muito, traficando escravos para viver como reis e comprar armas."

Quando ativistas racialistas virem falar de reparação aos negros pela escravidão africana, bom  perguntar para qual descendente do Francisco Félix de Souza se deve entregar a fatura.
Francisco Félix de Souza, mercador de escravos por [Silva, Alberto da Costa e]
Francisco Félix de Souza se tornou um dos homens
mais ricos do mundo traficando seus irmãos de cor.
Os escravos do escravo
Vida de Francisco Félix de Souza revela como negros negociavam negros

Em Quincas Borba, Machado de Assis conta a história de Prudêncio, o escravo vítima de maus-tratos que, tão logo se vê liberto, compra seu próprio escravo para, ato contínuo, surrá-lo. Em tempos politicamente corretos, de idealização das vítimas, esse parece mais um exemplo do eterno niilismo do Bruxo. Infelizmente, a história mostra que a arte copiava a vida, como revela Francisco Félix de Souza, mercador de escravos (Nova Fronteira/Ed. Unerj, 208 páginas), do diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva, a biografia do ex-escravo baiano mercador de escravos. Mais: o livro é um painel, cruel, de como negros africanos lucravam, e muito, traficando escravos para viver como reis e comprar armas.

A vida de Félix virou filme, Cobra verde, nas mãos de Werner Herzog, e um romance, O vice-rei de Udá, de Bruce Chatwin. Mas, graças a Costa e Silva, pela primeira vez o tema é tratado com apuro historiográfico. Sem deixar de lado o fascínio rocambolesco da sua vida: o pobre de Salvador que, na África, conseguiu poder, nobreza e uma fortuna calculada em US$ 120 milhões, que fez dele um dos três homens mais ricos do globo. Ao morrer, com 94 anos, ele deixou 53 mulheres, 80 filhos e 12 mil escravos.

Nascido provavelmente em 1768, Félix chegou à África em 1788 para ser comandante da fortaleza de São João Batista de Ajudá, que, no século 18, era o epicentro do mercado exportador de escravos do golfo do Benim (40% dos cativos que cruzaram o Atlântico vieram daquela região), o que lhe rendeu o epíteto de Costa dos Escravos. O tom trágico disso era que os responsáveis pela manutenção desse comércio eram outros negros que vendiam prisioneiros de guerra e condenados pela Justiça para mercadores europeus e brasileiros.

Da elite africana a ex-escravos com espírito de aventura, é inegável a participação efetiva de irmãos de cor na comercialização de seres humanos em condições desumanas para trabalhos forçados.
O rei Guezo, por exemplo, recusou-se a assinar com os ingleses um tratado de abolição de escravos em Daomé, alegando que ‘fazê-lo seria mudar a maneira de sentir do seu povo, acostumado desde a meninice a considerar aquele comércio justo e correto’. Ele acrescentou que havia mesmo canções de ninar sobre a redução dos adversários ao cativeiro”, conta Costa e Silva.
Apesar da carência de recursos, Félix beneficiava-se de um esquema comercial comum a outros atravessadores de escravos: recebia-se o pagamento em negros adiantado dos africanos para entregar, no futuro, armas e outros artigos. O tempo dava a chance para o giro de capital com o agenciamento de cativos.
A correspondência dos traficantes quase não nos deixa perceber que a mercadoria de que trata são seres humanos”, explica o historiador. Diante de um mercado organizado como aquele, o brasileiro prosperou em Ajudá como intermediário e armazenador de negros, prática que agilizou a compra de escravos, pois esses eram embarcados no maior número possível e no menor tempo possível. Lucros certos e fartos.
Félix contou ainda com a sorte: se a proibição do tráfico para as colônias britânicas e os Estados Unidos reduziu o preço dos cativos, a liberalidade dos portos brasileiros permitia cobrar valores cada vez maiores por escravos. E o baiano era o fornecedor principal para o Brasil.
Em pouco tempo o brasileiro percebeu que poderia ganhar ainda mais se aventurando no transporte de negros: comprou vários navios (inclusive os negreiros que eram leiloados pelos britânicos após terem sido apresados) e chegou a encomendar fragatas aos EUA. Envolvido numa disputa dinástica entre dois irmãos pelo poder do reino de Abomé, Félix escolheu o lado do meio-irmão do rei, Guezo, que não apenas o livrou da prisão (o rei Adandozan decidira perseguir os mercadores estrangeiros) como, após assumir o trono, concedeu-lhe o título honorífico de Chachá (ainda hoje concedido aos descendentes do brasileiro), vice-rei de Ajudá e o monopólio na exportação de escravos. Félix era nobre e rico.

Em Ajudá construiu sua casa-grande assobradada num bairro que, pouco depois, passou a ser conhecido como Quartier Brésil. Quando saía pelas ruas, tinha direito a um escravo que o protegia do sol com um pára-sol, guarda armada, tamborete e uma escolta de músicos. Esperto, construiu uma rede de alianças com os microestados que povoavam a costa africana e chamou outros mercadores brasileiros de escravos em operação para sócios. Dessa forma, conseguiu vencer em tempos difíceis, com os ingleses policiando a costa em busca de depósito de negros.

Os europeus passaram a ver nele um interlocutor de prestígio e importância. Mesmo o vice-cônsul britânico no Daomé, John Duncan, ainda que lamentando o fato de Félix se dedicar ao comércio de escravos, chamava-o de “o homem mais generoso e mais humano das costas da África”. O Chachá queria se europeizar e mandou o filho caçula estudar em Portugal, anos após ter enviado o primogênito para o Brasil. Em sua casa reinava o luxo: a mesa era adornada com talheres de prata e louças monogramadas.

Ao receber o príncipe de Joinville para um almoço, saudou o nobre com salvas de 21 tiros de canhão. Certos costumes, porém, não perdia: adorava servir feijoada, feijão de leite de coco, sarapatel, moqueca de peixe e cozidos. Em 1846 foi condecorado por Portugal com a Ordem de Cristo como “benemérito patriota”. Félix foi o mercador negro mais bem-sucedido, mas não foi um caso isolado. Há muitos exemplos de brasileiros, vários negros, que, na esteira do Chachá e aprendizes do seu método de trabalho, se deram bem como escravagistas, como Domingos José Martins, rei do tráfico em Lagos, ou João José de Lima, comandante do mercado em Lomé, entre tantos outros.

Mas Félix era ainda o mestre.
Quando assinava uma letra, esta era aceita sem hesitação em Liverpool, Nova York, Marselha e outras praças. Dele dizia-se que a palavra bastava, não sendo necessário documento escrito para firmar um compromisso”, conta Costa e Silva.
Apenas a velhice corroeu o seu poder. Em 1844, aos 90 anos, com reumatismo, ele parecia, ao rei Guezo, ter perdido a antiga força mercantil e, aos poucos, foi deixado de lado no comércio de escravos. Mas teve tempo ainda de ser quase um dos pioneiros na substituição lucrativa do tráfico de negros pela exportação do óleo de palma ou azeite-de-dendê, que cada vez mais era usado como lubrificante e também como matéria-prima da incipiente mania européia de usar sabonetes para higiene pessoal.

O dendê sempre esteve associado aos negreiros, pois era um dos alimentos dados aos cativos durante a travessia do Atlântico.
Vendia-se azeite aos britânicos e franceses e, muitas vezes, era com mercadorias apuradas nesse comércio que se adquiriam escravos no interior para embarque nos navios negreiros”, explica o historiador.
Félix logo percebeu o alcance dessa hipocrisia e o potencial da mudança de um pólo de comércio, que em breve seria ilegal (sem falar nos riscos crescentes inerentes ao tráfico como doenças, perda de escravos, apreensão de navios etc.) para outro, ligado e inócuo.
Os mesmos grandes portos negreiros e as mesmas empresas dedicadas ao comércio de gente continuaram a comandar as transações com a África. Os navios negreiros foram readaptados para receber os barris de óleo e os seus capitães eram os mesmos que antes negociavam com escravos”, observa o autor.
Félix deixa de ser símbolo do “comércio odioso” para se transformar em capitalista empreendedor e criativo. A raiz dos dois homens é, infelizmente, a mesma.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

"Todas as mulheres dos presidentes": livro conta a história das primeiras-damas brasileiras

A História das Primeiras-Damas do Brasil
Trajetória pouco conhecida, livro destaca a participação das primeiras-damas ao longo de 130 anos de República. Salvo exceções, elas foram ofuscadas por uma sociedade machista e conservadora

“Filha de um senador, fui esposa de um presidente e mãe de um ministro de Estado.” Trinta e oito anos depois de encerrado o mandato de Arthur Bernardes – na Primeira República, entre 1922 e 1926 –, assim se definiu sua esposa, Clélia Vaz de Melo (1876-1972), em entrevista concedida à revista Manchete em 1964. Natural de Viçosa, de tradicional família de políticos mineiros, Clélia, a mais longeva primeira-dama em 130 anos de República – morreu lúcida aos 96 anos – forjou a própria identidade na trajetória política dos homens de sua família, muitas vezes influenciando decisões à sombra. A história de Clélia, mulher dedicada ao lar e discreta, traduz o itinerário da maioria das primeiras-damas em 130 anos de República.

E se é inequívoco que os postos-chave da política no Brasil foram e continuam ocupados por homens – apenas uma mulher, Dilma Rousseff, foi eleita presidente da República –, é fato que a maior parte das primeiras-damas que orbitaram o poder durante o exercício do mandato de seus respectivos maridos fizeram vistas grossas aos casos extraconjugais e não cultivaram a carreira profissional.

Nesse sentido, a antropóloga, pesquisadora e pós-doutora Ruth Cardoso foi ponto fora da curva. Ser “do lar”, a “retaguarda” dos homens de poder, foi o padrão esperado, assim expresso por Scylla Gaffré Nogueira (1907-2003), mulher de Emílio Garrastazu Médici, presidente entre 1969 e 1974, auge do período da repressão da ditadura militar:
Sou e serei sempre o que fui: a esposa de meu marido, duas vezes mãe. Ao longo de minha vida, não me tem feito maior diferença a função que ele exerce, desde que permitido me seja estar ao seu lado. Minha valia é tão pouca, minha missão é tão fácil e tão suave. A mim, toca fazer-lhe a casa amiga e serena (…)”.
A história não contada das primeiras-damas brasileiras está registrada no óleo sobre tela de Gustavo Hastoy, que retrata, no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, o momento em que o marechal Deodoro da Fonseca, chefe do Governo Provisório, rodeado por 18 homens, assina em 20 de junho de 1890 o projeto da primeira Constituição da República do Brasil. “A mulher que inauguraria o cargo de primeira-dama no Brasil é a única figura de costas na pintura; impossível ver seu rosto.

A cena explicita uma contradição que vai se repetir ao longo dos 130 anos de República: o Brasil teve muitas primeiras-damas marcantes, mas suas histórias, quando não foram apagadas, são como Mariana Cecília de Sousa Meireles, esposa de Deodoro da Fonseca, na pintura de Hastoy: sem rosto, sem que se possa ao menos adivinhar seus sentimentos, mas presentes, mesmo que às sombras”, escrevem os jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiúza de Melo, autores do livro Todas as mulheres dos presidentes – A história pouco conhecida das primeiras-damas do Brasil desde o início da República (Editora Máquina de Livros).
Todas as primeiras-damas, até mesmo Ruth Cardoso, uma acadêmica reconhecida, cuja trajetória profissional se destaca como exceção entre a maioria das primeiras-damas que não cultivaram carreira profissional, tiveram vidas regidas por opção política do homem com o qual se casaram”, avalia Ciça Guedes.
“Com raras exceções, essas mulheres invisíveis passaram à história como citações nas biografias de homens fortes”, acrescentam.
“Sobre os presidentes da República há grande volume e variedade de biografias, perfis, ensaios e trabalhos. Mas sobre as primeiras-damas há pouca informação. Quisemos contar a história da República com esse viés feminino”, diz Murilo Fiúza de Melo, lembrando que para a historiografia nacional – narrada sobretudo por homens – elas são ignoradas, praticamente “não existem”.
A invisibilidade das primeiras-damas do Brasil fala muito da trajetória social da mulher, numa sociedade machista e conservadora, afirma Murilo Fiúza.
O espaço das mulheres tem sido conquistado com muito esforço”, afirma. Foi apenas no Código Civil de 2002 que as mulheres deixaram, pelo menos perante a lei, de ser subjugadas pelo homem, considerado o “chefe da sociedade conjugal”, e, inclusive, passaram a escolher se queriam ou não adotar o sobrenome do marido. 
Ambos lembram que no Código Civil de 1916 as mulheres precisavam da autorização do marido para exercer uma profissão, o que deixou de existir apenas em 1962, com o Estatuto da Mulher Casada. 

Já o direito à participação política por meio do voto chegou apenas no governo de Getúlio Vargas, em fevereiro de 1932, quando, por meio de decreto, um novo Código Eleitoral estendeu o direito de voto às mulheres.
Apesar dos avanços da luta pelos direitos das mulheres, a esposa do principal líder do país continua sendo coadjuvante – quanto mais bela, recatada e do lar for, mais feliz estará a nação”, destacam Ciça Guedes e Murilo Fiuza, que lembram, em contraponto, como, nos estertores da monarquia, a princesa Isabel deixou a sua marca na história, nas três oportunidades em que assumiu a regência: assinou a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei Áurea (1888).
Ciça Guedes e Murilo Fiúza fizeram a pesquisa bibliográfica de 34 primeiras-damas, inclusive de Risoleta Neves (1917-2003) – esposa de Tancredo Neves, que morreu em 1985, antes de assumir o primeiro governo civil após a ditadura militar –, e Antonieta Castelo Branco (1922-2010), filha do marechal Castelo Branco (1897-1967), que era viúvo, o primeiro presidente militar a assumir após o golpe de 1964. Os autores também consideraram a biografia de Ana Guilhermina de Oliveira Borges (1855-1891), que morreu antes de Rodrigues Alves (1848-1919) chegar à Presidência, cargo que exerceu entre 1902 e 1906. Ele foi eleito para um segundo mandato como presidente em 1º de março de 1918, mas contraiu a gripe espanhola e morreu.

Entre as 34 primeiras-damas abordadas no livro, oito foram mineiras, com especial destaque para a trajetória de Sarah Luísa Gomes de Sousa Lemos Kubitschek (1908-1996) e Risoleta Neves. Um dos presidentes mais marcantes da história brasileira, sob Juscelino Kubitschek (1902-1976) o Brasil viveu a arrancada desenvolvimentista, expressa no slogan “50 anos em 5”. Os autores destacam, sobre o político apelidado de Presidente Bossa Nova:
Por todos os ângulos em que se examina, parece que nunca fomos tão felizes como no governo de JK, um homem charmoso, descendente de ciganos, que adorava dançar e se divertir”. Classificando Sarah como uma “das mais importantes primeiras-damas” da República, ao lado de Darcy Vargas e Ruth Cardoso, os autores registram a forma como ela impulsionou a carreira política de Juscelino, abrindo-lhe as portas das “famílias poderosas de Minas”.
Mas demonstram que ela foi muito além do papel de coadjuvante, sendo citada pela Fundação Oswaldo Cruz como autora das primeiras iniciativas de prevenção e tratamento de câncer ginecológico no país.
A importância de suas obras assistenciais resistiu ao tempo, mas ela não é tão lembrada quanto outras primeiras-damas de destaque. Foi também vítima do massacre que a ditadura militar promoveu contra a imagem de Juscelino”, afirmam Ciça Guedes e Murilo Fiuza. Ao longo de sua carreira, Juscelino teve diversos casos amorosos.

Conhecida pela reserva e comedimento, Risoleta foi casada por 47 anos com Tancredo Neves (1910-1985), considerado articulador importante da transição democrática: costurou ampla aliança entre o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), oposicionista, e a Frente Liberal, dissidência do Partido Democrático Social (PDS), governista, para apoiar, a sua eleição no Colégio Eleitoral, em janeiro de 1985. Tancredo era considerado moderado, portanto, palatável pelo regime militar para consolidar a transição. Mas foi impedido de tomar posse em decorrência de uma cirurgia, morrendo antes de assumir a Presidência da República, vítima de sucessivos erros médicos.

Clipping Livro conta a história das primeiras-damas do Brasil, por Bertha Maakaroun, Estado de Minas, 09/02/2020

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Carpinteiras constroem minicasas para mulheres sem-teto em Seattle

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Minicasas construídas por carpinteiras para mulheres sem-teto em Seattle (EUA)
O texto abaixo é da Débora Spitzcovsky, do site The Greenest Post, falando sobre a iniciativa de carpinteiras da cidade de Seattle, nos EUA, de construir minicasas para mulheres sem-teto em 2018. Aqui, no Brasil, também tivemos iniciativa assemelhada quando arquitetas foram à periferia ensinar mulheres de baixa renda a construir suas próprias casas. Iniciativas como essas precisam ser conhecidas e multiplicadas também no Brasil que tem tanta gente em situação de rua.
💗


"Sabe aquelas iniciativas que só de saber a respeito já dá um quentinho no coração? Ser mulher em um mundo onde uma série de vieses machistas imperam a todo momento não é nada fácil para nenhuma de nós. E, quanto mais vulneráveis estamos, pior fica. Dá para imaginar o quão difícil é para uma mulher viver na rua?

Tendo essa consciência, um grupo de carpinteiras, o Women4Women, se voluntariou para construir uma vila de casas minimalistas em Seattle, nos EUA, para que mulheres sem-teto da cidade pudessem morar e, assim, deixar a situação de rua para trás.

Ao todo, foram construídas 15 moradias de 30 m² que, juntas, formam a comunidade Whittier Heights Village. O lugar, que a partir de agora será administrado pelo Instituto de Habitação de Baixa Renda de Seattle, ainda conta com uma área comum, que possui cozinha, banheiros e lavanderia.
Resultado de imagem para Whittier Heights Village."
Minicasas construídas por carpinteiras para mulheres sem-teto em Seattle (EUA)
As novas moradoras já estão ocupando as casas, felizes da vida! Mas talvez o mais incrível dessa história é o fato de que, por meio de seu trabalho voluntário, as carpinteiras do Women4Women conseguiram ajudar a outras mulheres e a si mesmas.

Isso porque o grupo foi criado com o intuito de divulgar a competência das mulheres para realizar trabalhos braçais na construção civil. Alice Lockridge, fundadora do movimento, ao lado de todas as outras integrantes do coletivo, luta há anos pela causa, decidida a tornar esta uma carreira viável para as mulheres. Atualmente, nos EUA, apenas 10% das 10,3 milhões de vagas de emprego na construção civil são ocupadas por pessoas do sexo feminino – que ainda têm que provar a todo tempo sua competência.

Para divulgar a causa, além de ir às escolas fazer palestras de sensibilização, o grupo atua como voluntário na construção e reparação de casas para pessoas que precisam, mostrando sua competência. Esta foi a primeira vez que se envolveram com a população de rua e a repercussão foi pra lá de grande, exatamente por se tratar de mulheres beneficiando a outras mulheres.

Alguém ainda duvida de que juntas somos muito mais fortes? ♥

Clipping De mulheres para mulheres! Grupo de carpinteiras constrói vila de casas minimalistas para mulheres sem-teto morarem, por Débora Spitzcovsky, The Greenest Post  

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