Mulheres samurais

no Japão medieval

Quando Deus era mulher:

sociedades mais pacíficas e participativas

Aserá,

a esposa de Deus que foi apagada da História

Intelectuais lançam manifesto

contra cultura do cancelamento da esquerda identitária

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Dia do professor foi criado por iniciativa de Antonieta de Barros, primeira deputada negra do Brasil

Antonieta foi a primeira mulher a ocupar um cargo no Legislativo em Santa Catarina — Foto: Reprodução/ NSC TV
A partir de 1963 o Dia do Professor passou a ser comemorado oficialmente em 15 de outubro em todo o Brasil. Mas a data já era celebrada em Santa Catarina desde 1948 por iniciativa de Antonieta de Barros, a primeira mulher negra a ser eleita deputada no país. Professora por formação e filha de uma ex-escrava, ela teve papel fundamental na luta pela igualdade racial e pelos direitos das mulheres.

O dia 15 de outubro foi escolhido como Dia do Professor em referência à data em que o imperador D. Pedro I instituiu o Ensino Elementar no Brasil, em 1827. No ano de 1947, o professor paulista Salomão Becker já havia proposto a criação de um dia de confraternização e homenagem aos professores. No ano seguinte, Antonieta de Barros apresentou à Assembleia Legislativa catarinense o projeto de lei que criava o Dia do Professor. Somente 15 anos depois é que a data passou a ser oficializada em todo o Brasil, após a assinatura de um decreto do presidente João Goulart.

Projeto de lei de Antonieta de Barros — Foto: Reprodução Alesc/Divulgação

A trajetória de vida de Antonieta de Barros é admirável. Nascida em Florianópolis, em 1901, ela teve uma infância difícil. Após ser libertada da escravidão, sua mãe trabalhou como lavadeira e, para completar o orçamento, transformou sua casa em pensão para estudantes. O pai de Antonieta, um jardineiro, morreu quando ela ainda era menina.

Foi convivendo com os estudantes na pensão de sua mãe que Antonieta se alfabetizou. Aos 17 anos, entrou na Escola Normal Catarinense, concluindo o curso em 1921. No ano seguinte, fundou o Curso Particular Antonieta de Barros, voltado para a educação da população carente.

Antonieta também trabalhou como jornalista, sendo fundadora do periódico A Semana, que circulou entre 1922 e 1927. Por meio de suas crônicas, divulgava ideias ligadas às questões da educação, dos desmandos políticos, da condição feminina e do preconceito.

Em 1934, na primeira vez em que as mulheres brasileiras puderam votar e se candidatar, filiou-se ao Partido Liberal Catarinense, elegendo-se deputada estadual. Uma das principais bandeiras de seu mandato foi a concessão de bolsas de estudo para alunos carentes. Ela exerceu o mandato até 1937, quando começou o período ditatorial de Getúlio Vargas. No mesmo ano, sob o pseudônimo Maria da Ilha, escreveu o livro Farrapos de Ideais.

Em 1947, após o fim da ditadura Vargas, ela se elegeu deputada novamente, desta vez pelo Partido Social Democrático, cumprindo o mandato até 1951. Antonieta nunca deixou de exercer o magistério. Ela dirigiu a escola que levava seu nome até morrer, em 1952.

Clipping Primeira deputada negra do Brasil criou o Dia do Professor em 1948, History, sem data. 

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Jogos Heraeanos: as Olimpíadas das mulheres gregas

Uma escultura de bronze de uma atleta de c. 560 AC. Crédito: Caeciliusinhorto / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

Os Jogos Olímpicos são o evento esportivo mais espetacular e histórico do mundo. Os Jogos normalmente reúnem mais de cem países competindo em 35 esportes diferentes e 400 eventos.

Os Jogos Olímpicos modernos evoluíram a partir dos jogos antigos realizados no início do século 8 a.C. na cidade de Olímpia, na Grécia Antiga, de onde provém seu nome. Esta versão inicial da competição foi reservada exclusivamente para os homens, como uma demonstração de sua força, habilidade e resistência.

Mas os textos do antigo geógrafo grego Pausânias descrevem jogos também para mulheres, chamados Jogos Heraeanos,  realizados no século II d.C.

A História dos Jogos Heraeanos
Templo Olympia Hera
As ruínas do Templo de Hera em Olímpia. Crédito: Ingo Mehling / Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0
Existem bem poucos registros históricos dos Jogos Heraeanos, mas acredita-se que eles tenham ocorrido logo após os Jogos Olímpicos tradicionais, por volta de 776 a.C. Ambas as versões dos jogos foram realizadas no estádio de Olímpia.

Os Jogos Heraeanos, em homenagem à deusa grega Hera, aconteciam a cada quatro anos. Os jogos, associados à adolescência, eram considerados um rito de passagem das jovens para a idade adulta.

A competição inicialmente incluía apenas esportes de corrida. Os Jogos Heraenos não incluíam esportes de combate, que eram básicos nos jogos masculinos. Os Jogos Heraeanos incluíam:

Stadion: corrida de velocidade de curta distância na pista do estádio (177 metros)
Diaulos: duas corridas de velocidade consecutivas ao longo da pista do estádio (354 metros)
Hípios: quatro corridas consecutivas por todo o comprimento do estádio (708 metros)
Dolichos: uma corrida de resistência de 18 a 24 voltas ao redor do estádio (cerca de 5 quilômetros)

As vencedoras de cada corrida eram coroadas com folhas de oliveira, e os animais, sacrificados em nome de Hera. Os gregos acreditavam que as vencedoras seriam dotadas de força especial comendo a carne dos animais sacrificados.

As vencedoras também podiam dedicar retratos e estátuas a Hera e comemorar seus feitos atléticos inscrevendo seus nomes nas colunas do templo da deusa.

Mulheres vestindo o quíton

As mulheres dos Jogos Heraeanos competiam vestindo um quíton, uma espécie de túnica usada pelos antigos gregos, enquanto os homens participavam das competições completamente nus.

Tanto os jogos masculinos quanto os femininos foram interrompidos em 393 d.C., quando o imperador romano Teodósio proibiu os jogos pan-helênicos e outros festivais religiosos que eram celebrados na Grécia antiga.

A história de Cinisca e o atletismo das mulheres espartanas

As mulheres espartanas não eram forçadas a usar vestidos longos, um costume comum na maior parte da Grécia. Podiam usar túnicas curtas, uma característica da moda feminina local tida como símbolo da liberdade, força e agilidade pelas quais as mulheres de Esparta eram conhecidas.

A sociedade espartana se manteve firme na crença de que mulheres atléticas davam à luz a filhos fortes. Assim, as mulheres espartanas podiam andar a cavalo e viajar como quisessem bem como caçar e usar túnicas curtas.

Daí se acreditar que a maioria das participantes dos Jogos Heraeanos era espartana.

Cinisca, filha de Arquidamo II, Rei de Esparta, a primeira mulher a vencer os Jogos Olímpicos. Ela era a dona de uma carruagem que venceu a corrida de carruagem nos Jogos. Crédito: Sophie de Renneville / Wikimedia Commons / Domínio Público

Na verdade, Cinisca, filha de Arquidamo II, o rei de Esparta, foi a primeira mulher na história a vencer os jogos olímpicos masculinos.

Cinisca venceu as corridas de carruagem de quatro cavalos nos Jogos Olímpicos de 396 e 392 a.C, com carruagem de sua propriedade. Ela foi homenageada com uma estátua de bronze com sua imagem, e sua carruagem e seus cavalos foram exibidos no Templo de Zeus em Olímpia.

A inscrição na estátua diz:

Reis de Esparta, que são meu pai e irmãos, e
Cinisca, vitoriosa com uma carruagem de cavalos de patas velozes,
ergueram esta estátua. Eu me declaro a única mulher
em toda a Grécia que ganhou esta coroa.
Apelleas, filho de Kallikles, a esculpiu.

Tradução do grego antigo :

Σπάρτας μὲν βασιλῆες ἐμοὶ: πατέρες καὶ ἀδελφοί, ἅρματι δ’ὠκυπόδων ἵππων: νικῶσα Κυνίσκα εἰκόνα τάνδ’ ἔστασεν μόναν: δ’ἐμέ φαμι γυναικῶν Ἑλλάδος ἐκ πάσας τόν [-]: δε λαβεν στέφανον. Ἀπελλέας Καλλικλέος ἐπόησε.

Clipping The Heraean Games: When Greek Women Held Their Own Olympicspor Luisa Rosenstiehl, tradução de Míriam Martinho, Greek Reporter, 26/08/2021

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Com QI maior que o de Einstein e Stephen Hawking, Adhara Pérez (9) estuda engenharia na universidade e quer ser astronauta

Aos 9 anos, Adhara faz dois cursos de engenharia
Com apenas 9 anos a mexicana Adhara Pérez planeja ser astronauta quando crescer. E se a maioria de nós também sonhava em voar entre as estrelas na infância, o caso da jovem natural da cidade de Véra Cruz tem um importante diferencial: com um QI de 162 que supera o quociente de grandes gênios de todos os tempos como Albert Einstein e Stephen Hawking, ambos com índice estimado em 160, Pérez já é uma sensação nos círculos acadêmicos por seus feitos impressionantemente precoces – e pelo futuro promissor que se sugere: o sonho de se tornar astronauta possivelmente se tornará realidade nesse caso.

Ainda que o ofício esteja ainda em seu futuro, o caminho da mexicana para o espaço já começou, e não é por acaso que ela veste com todo orgulho um boné da NASA em algumas de suas mais recentes publicações: em novembro próximo ela irá participar do IASP, o Programa Internacional Aéreo e Espacial, ligado à Agência americana. Reunindo jovens promissores do mundo todo em Huntsville, no estado do Alabama, nos EUA, por cinco dias o programa irá reunir engenheiros da NASA e estudantes para um mergulho em temas como trabalho de equipe, solução e comunicação para a “adaptação e solução de qualquer problema inesperado”.

Material oficial de divulgação da IASP, programa para qual Pérez foi selecionada
A participação no programa é mais um passo rumo ao futuro que deseja sem conter suas ambições, e além de viajar ao espaço, Pérez pretende participar das missões colonizadoras de Marte. Para isso ela não economiza esforços e, após concluir a escola com 8 anos, ela atualmente se dedica a dois cursos universitários: Engenharia de Sistemas na CNCI, e Engenharia Industrial na UNITEC, ambas no México. Antes de chegar ao espaço, portanto, seus planos imediatos ainda são terrenos, e a garota prodígio sonha em migrar para os EUA a fim de estudar para justamente se tornar uma astronauta.

Como era de se esperar, o caminho para chegar à Marte não é fácil, e com Pérez não foi diferente: diagnosticada com um quadro leve de Síndrome de Asperger aos 3 anos, ela sofreu bullying intenso em sua escola antes de ter seu quadro compreendido e seu potencial verdadeiramente estimulado – a situação levou a jovem a desenvolver um quadro de depressão nos primeiros anos de estudo. Felizmente tudo mudou, e hoje Instituições importantes nos EUA, como a Universidade do Arizona e a Rice University já convidaram a futura astronauta para estudar: as dificuldades financeiras da família, porém, fazem com que cada passo seja devidamente planejado – até chegar às estrelas.⭐

Clipping Menina de 9 anos com QI maior que Albert Einstein e Stephen Hawking quer ser astronauta, por Vítor Paiva, Hypeness, 23/08/2021

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Tarsila do Amaral: um pouco da obra da mais renomada pintora brasileira

Tarsila do Amaral



A mais renomada pintora brasileira e um dos pilares do movimento modernista brasileiro, Tarsila do Amaral, nasceu em 1886 em Capivari, no interior de São Paulo. Filha de ricos proprietários de terra, terminou o ensino escolar em Barcelona, na Espanha, onde teve os primeiros contatos com a pintura. Sua obra-prima é o Abaporu, atualmente exposta em Buenos Aires, na Argentina, e com um valor de mercado inestimado. Mas suas outras pinturas também atraem o público em exposições e são desejadas por colecionadores, chegando a ser vendidas ou leiloadas por milhões de reais. Tarsila do Amaral morreu em 17 de janeiro de 1973, em São Paulo, de causas naturais. Relembre:

Início da carreira

A carreira de Tarsila nas artes plásticas começou em 1917, ao ter aulas com o pintor naturalista Pedro Alexandrino Borges. Em 1920, ela se mudou para Paris, onde estudou na Academia Julian e no ateliê de Émile Renard, recebendo uma vasta experiência vanguardista. De volta ao Brasil em 1922, aderiu ao modernismo. Apresentada por Anita Malfatti aos modernistas Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia, formou o “Grupo dos Cinco”, que nos anos seguintes influenciou a arte brasileira com o Manifesto Antropofágico. As reuniões do grupo eram realizadas no ateliê de Tarsila.

Operários, obra da fase Social da pintora -1933 (Foto: Wikimedia Commons)
Fases artísticas

O estilo de Tarsila tem influências do cubismo de Pablo Picasso e Fernand Léger, pintores que ela conheceu pessoalmente durante uma viagem à Espanha em 1923. O movimento influenciou a primeira fase de Tarsila, denominada “Pau Brasil”, em que a pintora buscou representar as paisagens do Brasil rural e urbano. A segunda fase, chamada de “Antropofágica”, começou com o Abaporu, em 1928. Com ela, Tarsila passou a usar cores mais vivas, como o amarelo, o vermelho, o roxo e o verde, para ilustrar obras mais oníricas. Por fim, veio a fase “Social”, inspirada pelos ideais comunistas e por sua passagem pela União Soviética em 1931. As obras têm cores sóbrias e acinzentadas para ilustrar a precariedade da vida operária.

Obra símbolo do modernismo

O Abaporu, obra mais conhecida de Tarsila, é o maior símbolo visual do Modernismo brasileiro, movimento cultural estabelecido na década de 1920. Foi mantida em segredo durante meses, até ser entregue como uma surpresa de aniversário para o escritor e então marido da artista, Oswald de Andrade, em 11 de janeiro de 1928. Perplexo, ele mostrou a tela para um amigo, o poeta Raul Bopp, e juntos eles começaram a ver na pintura a figura de um índio canibal, um antropófago que devoraria a cultura para em seguida reinventá-la. Daí surgiu o título da obra: com um dicionário de tupi-guarani, Tarsila encontrou as palavras “aba” e “poru”, significando “homem que come”.

O Abaporu, obra mais conhecida de Tarsila, é o maior símbolo visual
do Modernismo brasileiro (Foto: Wikimedia Commons)
De mão e mão

O casamento de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade terminou em 1929. Na partilha, a pintora acabou ficando com o Abaporu. Em 1960, o quadro foi vendido ao colecionador Pietro Maria Bardi, fundador do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Em menos de um mês, o quadro foi revendido a Érico Stickel. Em 1984, foi adquirido pelo galerista Raul Forbes por US$ 250 mil. Até que, em 1995, Forbes decidiu leiloar a tela na casa de leilões Christie's, em Nova York. Quem a arrematou foi o empresário argentino Eduardo Constantini, que pagou US$ 1,35 milhão e a doou para o acervo do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba), onde ela permanece até hoje.

A Caipirinha, leiloada por R$ 57,5 milhões
Recordista

Tarsila do Amaral é detentora do recorde de maior valor pago por uma obra de arte no Brasil. Em um leilão realizado em 17 de dezembro de 2020, a pintura “A Caipirinha” foi arrematada por R$ 57,5 milhões. O quadro entrou em disputa após ser penhorado judicialmente. Ao todo, recebeu 19 lances, e acabou adquirida por um colecionador. O recorde anterior de obra mais cara pertencia a “Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard, comprada em 2015 por R$ 5,7 milhões.

No site oficial da pintora, pode-se encontrar sua biografia e completa. Clique aqui para seguir até lá.

Clipping Tarsila do Amaral: 5 curiosidades sobre a vida e a obra da pintora, por Marília Marasciulo, 12/01/2021, Galileu

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Quando Deus era mulher: sociedades mais pacíficas e participativas

Um deusa de Malta: obesidade e fertilidade

Nas culturas mais antigas as mulheres tinham um papel importante e, por vezes, superior ao dos homens. Ainda hoje existem no mundo várias sociedades matriarcais como as que existiram no passado. História, glória e tragédia dos matriarcados. Esta estatueta de marfim (abaixo) encontrada na gruta de Hohle Fels (Alemanha), vista de lado e de frente é a figura de uma Deusa-Mãe. Idade: 35 mil anos. Possui a cabeça pequena, seios enormes, quadris largos e ventre protuberante. A vulva é acentuada e sobre o corpo existem diversos signos e traçados rituais.

Estatueta de marfim (abaixo) encontrada na gruta de Hohle Fels (Alemanha),
vista de lado e de frente é a figura de uma Deusa-Mãe.

A primeira escultura de forma humana que se conhece foi realizada há 35 mil anos. Trata-se de um pendant de marfim de mamute, longo apenas 6 centímetros, encontrado na gruta de Hohle Fels, na Alemanha. Descoberta em 2008, a estatueta representa uma mulher gorda, com seios enormes, nádegas grandes e uma vulva muito acentuada. Trata-se, com toda probabilidade, de uma divindade feminina, para ser levada ao pescoço.

Quando Deus era mulher

Se, naqueles tempos, a divindade principal era feminina, o papel das mulheres devia ser muito importante, certamente não inferior ao dos homens. Por sinal, durante o Paleolítico, especialmente no período entre 25 mil e 20 mil anos atrás, as assim chamadas “Vênus”, estatuetas encontradas na Europa e na Ásia, reforçaram o conceito da “divindade feminina”.

Não apenas: estátuas e estatuetas de mulheres grandes, gordas e grávidas, símbolos de regeneração e nutrimento, eram muito difundidas durante todo o Neolítico, o período quando os humanos aprenderam a cultivar as plantas e a criar os animais. Em Çatal Huyuc, na Turquia, por exemplo, existem inúmeras evidências de que tais figuras femininas eram objeto de culto nas primeiras aldeias agrícolas. Divindades femininas obesas, que representam uma deusa-mãe, foram encontradas entre as ruínas das construções gigantes (megalitos) da ilha de Malta, onde uma importante civilização realizou muitos templos utilizando enormes blocos de pedra, no 5o milênio antes de Cristo, 1500 anos antes que no Egity fosse construída a pirâmide em degraus de Saqara.

Em Malta os estoques alimentares de grãos eram armazenados em silos públicos, anexos aos templos, e neles aconteciam cerimônias para a distribuição do alimento em nome da deusa. As quantidades que sobravam permitiam a manutenção de obreiros nas construções públicas bem como de um corpo sacerdotal, constituído sobretudo de mulheres. Como a própria deusa-mãe, essas sacerdotisas deviam ter corpos grandes e muito gordos.

Uma deusa de Malta: obesidade e fertilidade. O sono da deusa representava a morte, entendida como antecâmara do renascimento e do retorno à vida.

Populações pacíficas

Esses agrupamentos humanos do megalíticos, como regra geral não construíam fortificações, sinal de que as guerras eram praticamente desconhecidas para eles. Essa mesma característica surge também nas primeiras aldeias humanas sedentárias das atuais Grã Bretanha, França, Espanha, Itália e em outras localidades da Europa centro-oriental. A importante antropóloga Marija Gimbutas (1921-1994), em dezenas de campanhas de escavações, recolheu signos em espiral, símbolos femininos e um enorme número de esculturas de divindades femininas ligadas ao culto da fertilidade. Encontrou também estatuetas de “mulheres-pássaro”, encontradas em sepulturas que não indicavam diferenças sociais entre os defuntos. Gimbutas pertenceu a uma linha de antropólogos que concluíram ter existido na Europa e arredores uma grande civilização que precedeu os sumérios e os gregos. Uma civilização de mulheres, construída a partir dos valores do princípio feminino: uma civilização igualitária, pacífica, dedicada ao culto da deusa mãe.

Uma história feminina

Já na segunda metade do século 19, o historiador Johann Jacob Bachofen (1815-1887) lançara a ideia de um passado matriarcal da humanidade. Ele sustentava que alguns mitos gregos, desde o das amazonas até o da Medusa (veja ilustração abaixo), não eram o fruto de problemas psicológicos com o sexo oposto, mas sim a lembrança de conflitos sociais verdadeiros que, depois, conduziram ao patriarcado, ou seja, ao domínio do homem sobre a mulher. Para resumir, o herói Perseu que mata a Medusa elimina uma antiga e poderosa matriarca, depois apresentada como criatura monstruosa no relato mítico. Bachofen considerava que a sociedade patriarcal venceu quando os homens tomaram o poder religioso até então reservado às mulheres.

A cabeça de Medusa: o medo que os homens têm do sexo feminino
Medusa era a única mortal das três monstruosas irmãs chamadas Górgonas. Mas a imagem inicial de Medusa (em grego “aquela que domina”), era a de uma mulher belíssima. O deus Poseidon se apaixonou por ela e a seduziu. Por causa disso, a deusa Atena a puniu transformando-a em um monstro com serpentes no lugar dos cabelos. Além disso, quem visse o rosto de Medusa era imediatamente transformado em pedra. O mito narra que, com o ânimo atiçado pelo rei da ilha de Serifo, Polidete, o jovem herói Perseu prometeu que traria para o rei a cabeça de Medusa. Perseu foi ajudado pelos deuses Atena e Hermes, que deram a ele um escudo reluzente e uma foice. Usando o escudo para não ter de fita-la diretamente, Perseu conseguiu cortar a cabeça da Górgona. Na visão do historiador Johann J. Bachofen, seres femininos monstruosos como a Medusa (“aquela que domina”) ou a Esfinge representavam o medo que os homens têm do sexo feminino. Os gregos, de modo mais pragmático, reviviam com tais mitos as antigas vitórias alcançadas contra as grandes matriarcas da antiguidade.

Idade do Ouro

A antropóloga e mitóloga italiana Momolina Marconi (1912-2006) confirmou, por seu lado, a hipótese de um matriarcado dominante na Antiguidade. Ela desenvolveu com suas pesquisas a ideia que do sul da Itália à Sardenha, atingindo as costas africanas e o litoral da Anatólia turca existiu uma civilização marcadamente matriarcal, a dos Pelágios, que acreditava na existência de uma Grande Mãe mediterrânea considerada divindade principal. Mas outros pensadores preferem acreditar que essa fase matriarcal é muito mais uma utopia feminista do que uma verdade histórica, embora fosse avalizada inclusive pelo grande filósofo e economista Friedrich Engels (1820-1895) que explicou o seu fim como consequência do surgimento do conceito de propriedade privada.

As sociedades matriarcais hoje

As coisas, nos últimos anos, parecem ter se tornado mais claras. Em 2005, em San Marcos, no Texas (EUA), arqueólogos e antropólogos de todo o mundo se reuniram em um grande congresso de “estudos matriarcais”, confrontando dados arqueológicos e observações sobre algumas populações atuais. Resultado: a civilização megalítica do Neolítico era claramente centrada nas mulheres. E dezenas de etnias até hoje são matriarcais. Por exemplo, os Mosuo, da província do Yunan, na China, os Bemba e os Lapula das florestas da África Central, os indígenas Cuna “isolados em ilhas ao largo do Panamá, ou os trobriandeses da Melanésia.

Um estudo sobre os Minangkabau da Sumatra – uma etnia com cerca 4 milhões de indivíduos – é muito importante. Dirigidas pela antropóloga Peggy Reeves Sanday, da Universidade da Pensilvânia (EUA), essas pesquisas descobriram que valores fundamentais dessa cultura são centrados na cura das moléstias de todos os tipos e nas necessidades da comunidade, em vez de se basearem sobre os princípios patriarcais da “justiça divina”, dos sacrifícios e das rígidas prescrições sexuais pretensamente ditadas pelo plano divino. Esses valores ligados à cura, bem como aqueles cerimoniais em honra dos ciclos da natureza descendem claramente de antepassadas míticas que foram divinizadas.

O matriarcado, entre os Minangkabau bem como nos outros grupos estudados, não é o simples rebaixamento do patriarcado, ou seja, a dominação de um sexo sobre o outro, mas uma cultura de equilíbrio e balanceamento dos papeis de gênero naquelas sociedades. As esposas permanecem na aldeia da mãe, nas quais a organização do cotidiano e os cuidados com os filhos são tarefas que tocam aos homens, mas estes últimos são quase sempre os irmãos da esposa, tios e avós.

Mulheres trobriandesas durante a grande festa do inhame desfilam
 levando nas mãos alguns desses tubérculos recém recolhidos.
Maridos part-time

Os maridos, por seu lado, moram na aldeia materna, ocupando-se dos seus netos e dos campos. Eles são, com efeito, “visitantes noturnos” das esposas e, pela manhã logo cedo retornam à aldeia materna. O resultado dessa relação part-time é que as crianças são cuidadas pela mãe e pelos parentes maternos, e quase nunca está bem claro quem é o pai natural. Aquilo que conta é a paternidade social, coletiva. Ou seja, a inteira comunidade é pai e mãe da criança.

Além disso, o matrimônio de um elemento do clã A com um do clã B não constitui um fato isolado, mas faz parte de uma série de uniões. Da mesma forma que entre o clã B e o clã C. No final os clãs são compostos quase apenas de parentes. Dessa forma, cada pessoa tem uma parte dos seus genes em todos os membros do clã e todo interesse em ajuda-los e participar das suas vidas.

A antropóloga Heide Göttner-Abendroth, da Academia Internacional Hagia di Winzer (Alemanha), líder criadora de estudos modernos sobre o matriarcado, descreveu as suas características principais, no presente e no passado.

“Nas sociedades matriarcais é praticada geralmente a horticultura ou uma agricultura de tipo familiar autossustentável”, ela explica. “Vive-se na aldeia materna tomando-se o nome da mãe e herdando os seus bens. Existem matrimônios de grupo entre os clãs e relações conjugais baseadas na ‘visita’, com consequente liberdade sexual dos parceiros”.

As doações batem as vendas

A propriedade privada é reduzida ao mínimo: terrenos e animais pertencem ao clã. Em vez da economia de troca, está presente a economia da doação. “Na troca se leva em conta o valor da mercadoria e se satisfaz uma necessidade pessoal”, explica a antropóloga. “Na doação, diferentemente, não são feitas avaliações de valor, pois o objetivo é atender a necessidade do outro”. A troca interrompe a relação (quem deu, deu; quem recebeu…) A doação não, pois cedo ou tarde será compensada com outra doação, e a relação continua. Nas sociedades matriarcais pode suceder que o valor da doação seja mais alto ou mais baixo, segundo o desejo e as possibilidades da pessoa. Mas aquilo que se perde materialmente se ganha em termos de consideração social, e nos momentos de necessidade as contas sempre fecham em equilíbrio. Essa disparidade nas doações, por exemplo de um clã que teve uma colheita muito favorável e pode doar mais, também serve como fator de reequilíbrio social: a riqueza é melhor distribuída.

Estatuetas do 5o milênio antes de Cristo, encontradas em Poduri, na atual Romênia:
trata-se de uma assembleia de deusas e reproduz a vida real nas aldeias matriarcais.

Democracia participativa
O clã matriarcal”, explica Göttner-Abendroth “funciona na base de assembleias onde se verifica uma contínua busca de consenso: cada família manda um seu representante, homem ou mulher, para a assembleia do clã. Se não acontece um acordo, volta-se a consultar os familiares se fizeram representar pelo delegado. O mesmo acontece quando os delegados do clã participam de uma assembleia de aldeia, ou de uma assembleia regional: se não existe acordo, volta-se a falar com os representados. A ideia equivocada de que o matriarcado nunca tenha existido deriva exatamente da presença de homens nas assembleias: alguns antropólogos os interpretaram como chefes, mas eles eram apenas delegados”.
Outras características dos matriarcados são a fé em divindades femininas e uma crença particular relacionada à morte. Na visão matriarcal, depois da morte se renasce no interior do próprio clã: a criança não se lembra disso, mas ela foi, no passado, um tio ou uma avó. Essa ideia deriva da observação dos ciclos vegetais, que remonta ao início da agricultura. As plantas morrem no outono, mas as suas sementes repousam durante o inverno até a chegada da primavera, quando germinam e renascem iguais àquelas precedentes.

Por isto, no hipogeu fúnebre de Hal Saflieni (veja foto abaixo), em Malta, há cinco mil anos as pessoas eram sepultadas em posição fetal, à espera do seu renascimento no interior do clã. A convicção da morte-renascimento provinha também da observação dos ciclos das estações do ano, das estrelas que desaparecem para reaparecer na noite seguinte, do Sol que “morre” e logo depois “renasce”, do próprio ciclo menstrual feminino. Estes eram os referenciais naturais do matriarcado, que levaram à ideia de uma Grande-Mãe que garantia a vida e a sobrevivência a todos, fêmeas e machos indistintamente.

O cemitério de Hal Saflieni (Malta, 2.500 antes de Cristo).
Os corpos eram sepultados em posição fetal, para renascerem.
Chegada dos patriarcas

Se tudo funcionava tão bem no seio das sociedades matriarcais, por que as coisas mudaram? Segundo a reconstrução histórica de Gimbutas, confirmadas depois por estudos genéticos e linguísticos, em três vagas sucessivas de 4500 a 3000 antes de Cristo, povos guerreiros provenientes das planícies do rio Volga, que tinham domesticado o cavalo e dispunham de armas de bronze, invadiram e se espalharam por vastos territórios da velha Europa, e também no Oriente Próximo, chegando até as margens do rio Indo. Falavam uma língua proto-indoeuropeia e cultuavam divindades celestes, masculinas e guerreiras.

A religião e os costumes dos povos conquistados mudou, seguindo a direção do patriarcado.
Foi um processo lento que, embora vindo do exterior, teve o apoio de muitos homens pertencentes às populações matriarcais. Teve início um processo no qual as esposas se transferiam para as aldeias dos maridos, e no qual os bens familiares e do clã passaram a ser transmitidos por linhagem masculina”, explica a antropóloga Luciana Percovich. 
A reviravolta deveu-se também ao fato de que a guerra tornara-se uma forma de economia e a força masculina passou a ser bem mais importante do que no passado. Para fazer com que as terras possuídas e conquistadas permanecessem com os próprios descendentes, os homens adotaram a segurança da paternidade e, para tanto, começaram a segregar as mulheres. As sacerdotisas foram subjugadas e subordinadas aos sacerdotes homens.

A deusa egípcia Nut se alonga para formar a abóboda celeste.
Ela era a Senhora do Céu, do Dia e da Noite, e do Renascimento.

Machos subversivos

Entre os sumérios, o povo da Mesopotâmia que deu vida às primeiras cidades-Estado, ao desenvolvimento da irrigação, da agricultura e da escritura cuneiforme, aconteceu um período de transição entre o matriarcado e o patriarcado. Essa transição ficava bem clara no processo de investidura de um rei.
Para ser investido como tal, ele devia copular com uma grande sacerdotisa que representava a deusa Inanna (ver imagem abaixo), versão local da deusa-mãe”, explica Percovich. “Os reis eram eleitos e inicialmente permaneciam no cargo apenas um ano. Com o passar do tempo, alguns foram prorrogando os seus mandatos, colocando-se no mesmo patamar do poder religioso feminino e, sucessivamente, tomaram as rédeas e passaram a designar sacerdotes homens. A partir daí o poder tornou-se dinástico”.
As guerras frequentes reforçaram o papel central dos homens que, cada vez mais, preferiam decidir as disputas através da violência das guerras, quando esta era uma opção muito menos popular nas sociedades matriarcais.
Deusa Inanna
Os sumérios refletiam o passado matriarcal e a transição ao patriarcado no ciclo mítico da deusa Inanna (análoga à deusa Ishtar, da Babilônia, e Astarte, da fenícia), todas elas evoluções locais da deusa-mãe. O mito conta que a deusa Inanna se apoderou dos fundamentos do conhecimento, das leis e das práticas civilizatórias, para dá-las aos humanos.

A Grande-Mãe teve uma variante também no Egito, com a deusa do céu Nut. Mas depois os faraós se declararam representantes terrenos de divindades masculinas, como Rá, o deus-Sol. Na Grécia, o culto a Zeus, divindade masculina, pouco a pouco mandou para o esquecimento a Deusa-Mãe, inclusive atuando uma inversão ilógica e antinatural dos papéis: foi ele quem pariu, da sua cabeça, a filha Atena.

Ver também

As Amazonas, além do mito
Matriarcados: quando as mulheres é que mandam
Aserá, a esposa de Deus que foi apagada da História

Clipping Quando Deus era mulher. A civilização das deusas gordas, por Equipe Oásis, Divina Feminina.

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