Programe como uma garota:

elas são hackers e invadem o mercado da tecnologia masculina

Bolsonarismo:

A origem das ideias do atual Presidente

Modelos rígidos

de mulher e homem afetam as escolhas profissionais de meninas e meninos

Socorro, seu Descartes,

os contra-iluministas estão de volta

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Programe como uma garota: elas são hackers e invadem o mercado da tecnologia masculina


Minas hackers Elas invadem o mercado da tecnologia para mudar o sistema feito por homens 
Ei, garota, já passou pela sua cabeça que as tecnologias não te representam? Talvez você nunca tenha reparado nisso, mas essa inquietação fez com que um grupo de mulheres se reunisse para combater às desigualdades no mundo de hardwares e softwares. Elas chegam para invadir o sistema dominado, desde sempre, por homens brancos e com algum dinheiro. São as chamadas hackers feministas --ou seriam feministas hackers?

A hacker feminista Antes que você estranhe, é preciso esclarecer uma coisa. Há dois termos para designar pessoas que conseguem criar e modificar os sistemas computacionais: hackers e crakers. A diferença é como cada um (ou uma) usa o conhecimento e as ferramentas que possui para alterá-lo. Hackers fazem isso de forma legal, sem invasão ou quebra de dispositivos protegidos, enquanto os crackers são vistos como criminosos, porque ignoram possíveis danos a empresas e à sociedade. Ao usar o termo hacker, então, a ideia dessas mulheres é invadir um espaço bem masculino, o setor de tecnologia, para mudar o jeito com as coisas são feitas e pensadas --não só os espaços virtuais, mas também os reais, de discussão e de ação.
Ser hacker feminista é reprogramar as redes de poder e informação da nossa sociedade para que as conexões humanas sejam mais baseadas em equidade e empatia que em dominação e hegemonia. Eu tento fazer isso por meio da educação e tecnologia
Karen Ribeiro, professora do Instituto de Computação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMG) e coordenadora do Programa Meninas Digitais
Ser hacker é não se contentar com o que lhe é dado e ir atrás de mais conhecimento e inovação. Também pode ser ativista, porque se preocupa com questões éticas, políticas, liberdade de expressão, colaboração e difusão do conhecimento

Mônica Paz, pesquisadora do GIG@ (Grupo de pesquisa em Gênero, Tecnologias Digitais e Cultura da UFBA) e professora do Centro Universitário Estácio da Bahia
Para isso, elas investem, por exemplo, em novos aplicativos e plataformas digitais, capacitam outras mulheres para que, sabendo como a rede funciona, decidam melhor quais dados querem ou não disponibilizar e montam redes para formar e encaminhar profissionais qualificadas para o mercado de trabalho. O grande hackeamento é no modo como os produtos tecnológicos são pensados e realizados e como a informação é selecionada e circula. Com um olhar mais diverso, eles passam a ser concebidos carregando as experiências de quem está de fora do sistema --não só as mulheres, como negros, indígenas, gays e lésbicas, populações periféricas e demais grupos excluídos. 

O olhar muda tudo: apps para todos...

Mete a Colher

497 pessoas, na maioria mulheres, financiaram coletivamente o app que conecta vítimas de violência doméstica e pessoas dispostas a ofereça ajuda. Você deixa um relato, com segurança e privacidade, e outras mulheres ajudam para te tirar de relações abusivas.

Homo Driver


É um app de transporte, como os outros de carona que já existem, mas voltado para a comunidade de gays e lésbicas. Funciona para dar mais tranqüilidade e empatia aos passageiros durante as corridas e mais empoderamento os motoristas gays.

Black Bird


"Viajar é uma experiência transformadora, por que não pode ser também inclusiva?" Com esse lema esta plataforma oferece hospedagem e experiências voltadas aos negros, que normalmente são preteridos em sites como Airbnb, por racismo.

Construindo pontes
Caminhar por baias quase que totalmente ocupadas por seres humanos carregados de doses maiores ou menores de machismo não é fácil. As poucas mulheres que se aventuram relatam uma série discriminações, que começam quando não são ouvidas em sala de aula e terminam com a perda de salários e cargos por serem mulheres.

Então, diz Iana Chan, jornalista e fundadora da PrograMaria, é preciso olhar para esse ambiente hostil, onde eles chegam ao topo mais rápido e reproduzem uma cultura de discriminação --tanto no local de trabalho e nas relações profissionais quanto na hora de colocar produtos no mercado. 


Quer um exemplo? Enquanto eu escrevia este texto, o Word me sinalizava como errado o termo "uma hacker" e mandava eu corrigir para "um hacker".

Além disso, se você, assim como eu, é mulher e está na faixa dos 30 anos, deve ter notado propagandas de roupas ou artigos para bebê nas suas redes sociais. Isso acontece mesmo que você ainda não seja ou não tenha planos de ser mãe, mesmo que não acompanhe páginas sobre o assunto ou mesmo que informe a plataforma de que não tem interesse nesse assunto. É como se os algoritmos dissessem que já está na hora de você ser mãe.

E não sou eu quem está falando isso. As responsáveis pela plataforma Coding Rights resolveram analisar dois tipos de anúncios no Facebook: os que tinham produtos para bebês e os relacionados à palavra "fertilidade". Nas duas pesquisas, ainda que algumas propagandas fossem direcionadas pelos anunciantes para "pessoas", o algoritmo optou mostrá-los majoritariamente para mulheres. E nenhuma propaganda sobre bebês ou fertilidade estava direcionada apenas para homens.
Queríamos desvendar e expor como funciona a fábrica de propaganda direcionada do Facebook. Ou seja, averiguar como os dados que produzimos de graça são matéria-prima para todo um modelo de negócios bilionário que alimenta também estereótipos de gênero, raça e classe. Joana Varon, fundadora e diretora executiva da Coding Rights.
Dessa inquietação, ela e mais duas pesquisadoras decidiram criar o Fuzzify.me, uma extensão para navegadores (há versões para Chrome e Firefox) que reúne e explica por que cada anúncio foi parar na sua linha do tempo. E se as explicações incomodarem, a ferramenta te ajuda a fazer uma limpeza das categorias que o Facebook atribui ao seu perfil.

Mudança necessária

Olhar para o ambiente: foi o que fez Camila Achutti quando ainda era uma estudante de ciência da computação na Universidade de São Paulo e percebeu a enorme discriminação que as mulheres sofrem na sua área. Para tentar mudar de alguma forma a realidade, deu um primeiro passo, logo no primeiro dia de aula: criou o blog Mulheres na Computação.

Desde 2010, ele fala sobre o gap de gênero na tecnologia e hoje virou uma referência. Já ajudou a trazer para o Brasil, por exemplo, o Technovation Challenge Brasil, desafio de empreendedorismo e tecnologia só para garotas. Ela sonhava em trabalhar na Nasa, mas foi parar num estágio no Google da Califórnia (EUA) assim que terminou a faculdade. E isso mudou tudo.
Perceber que eu era programadora como todos os outros que estavam ali fez com que eu percebesse que poderia ser quem eu quisesse.
De volta ao Brasil, viu que "era preciso mudar a realidade da indústria de tecnologia por aqui, tão diferente da que eu tinha visto no Vale do Silício", diz. O passo seguinte foi a criação de duas startups, a Ponte21 e a Mastertech, que já formaram mais de 5.000 alunos e têm o foco na promoção da diversidade na tecnologia.
Precisamos de mais mulheres na TI [tecnologia da informação] para resolver problemas que não são os mesmos do menino branco do Vale do Silício. Ele, por exemplo, não tem tempo de fazer compra, então faz um app de entrega; não consegue se relacionar, aí faz o Tinder. Precisamos de diversidade para dar vieses mais igualitários à tecnologia. Camila Achutti, fundadora do blog Mulheres na Computação e de duas startups com foco com em inovação e diversidade.
E onde estão as mulheres?

Educação

Elas são apenas 15% dos alunos matriculados em cursos de ciência da computação e engenharia, percentual que se repete no mercado de trabalho. As mulheres representam só 17% das programadoras, segundo a Sociedade Brasileira de Computação.

Interesse

74% das meninas manifestam interesse em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. O problema é que apenas 30% das pesquisadoras do mundo são mulheres, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas).

Discriminação

Pesquisa de 2018 feita pelo site de recrutamento Catho com a consultoria UPWIT mostrou que 51% das 1.000 entrevistadas da área relatam discriminação no trabalho por gênero, sendo que 46,6% delas consideram as chances de crescer em suas empresas ruins ou péssimas.
Somos ensinadas desde pequenas a sermos cuidadoras e a servir, ganhamos bonecas e panelas para brincar, enquanto aos homens são reservadas outras expectativas. Durante muito tempo, o computador e o videogame foram objetos para os meninos. Tudo isso cria esse estereótipo tão difundido de que mulher e tecnologia não combinam. Iana Chan
Nem todas são iguais

Se não está fácil para as mulheres brancas e com acesso, imagina para negras, indígenas e garotas da periferia. Segundo estudo feito em 2010 nos Estados Unidos, apenas 10% das mulheres que obtiveram diplomas como engenheiras ou cientistas naquele país eram negras. No mercado, elas ocupavam menos de 1% do total de mulheres empregadas nessa indústria. No Brasil, segundo a PretaLab (iniciativa para capacitar mulheres negras e indígenas para a tecnologia), não há dados precisos sobre o assunto.

Silvana Bahia, diretora de projetos do Olabi e coordenadora do PretaLab, conta que sempre achou que, como negra e periférica, o universo da tecnologia estava distante demais da sua realidade:
Só consegui aprender quando encontrei mulheres com paciência e boa vontade, e aquilo me fez achar que eu era capaz. Isso tem a ver com afeto e acolhimento, mulheres que estão a fim de ensinar, o que é muito revolucionário.
Ela ressalta é preciso entender o quanto a tecnologia está associada aos direitos humanos. "Porque nós somos diretamente afetadas por elas", diz.


Programe como uma garota

Se animou? Essa noção cada vez mais óbvia de que é muito mais fácil inovar quando se tem diversidade de gênero, étnico-racial, cultural e social é o que tem movido, portanto, mulheres de distintas áreas do conhecimento a lançar projetos, cursos, incubadoras, startups e hackatons específicos para tentar corrigir as distorções de gênero. 

Essa riqueza traz diferentes perspectivas sobre um mesmo problema e faz com que as soluções 'fora da caixa' apareçam", diz Iana. E há dados que prova isso: estudo da consultoria McKinsey and Co. em doze países mostrou que as empresas com maior diversidade de gênero têm 21% mais chances de apresentar resultados acima da média do mercado. Quando se trata de diversidade cultural e étnica, a vantagem sobe 33%.
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Programaria Trabalha para aumentar o número de mulheres qualificadas na área. As atividades vão desde oficinas de introdução ao desenvolvimento web (algumas orientadas a adolescentes ou pessoas trans) até cursos de programação front-end (HTML, CSS e JavaScript). A atuação em rede faz com que muitas alunas sejam indicadas para vagas de trabalho logo depois da formação.

Programa Meninas Digitais A Sociedade Brasileira de Computação também criou em 2011 o curso que envolve alunas do ensino fundamental e médio na produção de aplicativos, jogos eletrônicos e projetos de robótica ou eletrônica. O programa hoje está presente em 21 estados e já recebeu mais de 3.000 crianças e adolescentes, sendo 70% meninas.
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A pioneira 
Se você está lendo esta reportagem na tela de um computador ou de um smartphone, saiba que é graças a uma mulher, a britânica Ada Lovelace, que ainda no século 19 escreveu o primeiro código complexo de programação do mundo. Ada viveu entre 1815 e 1852 no Reino Unido. Aos 17 anos, conheceu o inventor Charles Babbage, que na época trabalhava em duas máquinas, uma delas era uma espécie de ancestral computador moderno. Anos depois, ele pediu que Ada que traduzisse do francês as anotações do matemático italiano Luigi Federico Menabrea sobre a máquina analítica. máquina analítica. Ada não só fez a tradução, como decidiu acrescentar notas próprias, que descreviam o funcionamento da máquina e elaborou um plano para que ela pudesse executar cálculos, ou seja, criou o primeiro algoritmo.

Fonte: UOL Tecnologia, por Marcelle Souza, 19/01/2019

Veja também: Mulheres Inspiradoras da área de Tecnologia da Informação 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Mulheres Inspiradoras da área de Tecnologia da Informação

Conheça mulheres inspiradoras da área de TI

Os cursos de tecnologia da informação e computação apresentam um aumento crescente no número de alunos e egressos. De acordo com a Sociedade Brasileira de Computação (SBC), em 2014 quase 40 mil pessoas se formaram nos cursos de informática no país. Embora o percentual de mulheres nesses cursos esteja crescendo nos últimos anos, elas representam apenas 6 mil (cerca de 16%) do total de alunos.

O mesmo ocorre no mercado de trabalho: segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2016, dos mais de 580 mil profissionais de TI no Brasil, apenas 20% são do sexo feminino.

Em um mundo em que homens dominam as áreas de exatas como ciência, tecnologia, engenharia e matemática, a presença de mulheres ainda pode causar um certo “espanto” das pessoas.

A seguir, um resumo das histórias de mulheres internacionalmente conhecidas por fazer a diferença na área da tecnologia.

Andressa Martins, Narrira Lemos e Luciana Silva
Fundadoras da ONG Mulheres na Tecnologia, organização brasileira sem fins lucrativos com objetivo de aumentar a participação das mulheres na área de Tecnologia da informação. O grupo realiza encontros nacionais sobre o reconhecimento do potencial da mulher na área de TI.
Camila Achutti
A paulistana, única mulher na sua turma de Ciência de Computação da USP, criou o blog Mulheres na Computação. O blog virou referência para dezenas de mulheres. Camila participou de um estágio na sede do Google, na Califórnia, e hoje é diretora do Technovation Challenge Brasil, um programa de incentivo à participação das mulheres na área de TI .
Inovadora no campo da computação compartilhada (baseada em rede) que se tornou a base para a Internet. Seus pais a viam como um “fracasso” e na faculdade sofreu preconceito por querer ter aulas de Química.

Kim Wilkens
Fundadora da Tech-Girls, uma organização sem fins lucrativos que incentiva o interesse das mulheres em campos STEM. Apaixonada por transformar usuários em criadores de tecnologia, colaboradores e ativistas, é presença garantida no Mozfest, evento organizado pela Mozilla na promoção da livre circulação de conhecimento.

Janet Shufor Fofang
Janet ensina engenharia elétrica há mais de 15 anos na Faculdade D’enseignement Technique Industriel et Commercial. Criou uma escola privada K-12, um modelo educacional que oferece educação de qualidade via uso da tecnologia. Em 2007, fundou a Girls in Tech (GIT), uma organização global sem fins lucrativos focada no envolvimento, educação e capacitação de mulheres em tecnologia.

Kiran Mazumdar Shaw
Kiran Mazumdar-Shaw é uma empresária indiana Diretora geral e Presidente da Biocon, a maior empresa de Biotecnologia da Índia. A Fundação Biocon é uma organização filantrópica que realiza programas ambientais e de saúde, cujo objetivo é ajudar os mais vulneráveis da sociedade. Em 2007, Shaw criou um centro de tratamento do câncer em Bangalore.

Sisi Wei
Pesquisadora e desenvolvedora de jogos para jornalismo, atua como jornalista investigativa, designer e desenvolvedora da ProPublica, onde cria histórias interativas. Wei trabalhou como professora adjunta na New York University, The New School e CUNY, e também é co-fundadora da “Code with me”, uma oficina sem fins lucrativos que ensina jornalistas a codificar.

Tara Chklovski
Em 2006, Tara fundou a Iridescent para criar uma educação poderosa em tecnologia, engenharia e ciência a fim de capacitar jovens subrepresentados. A organização cresceu para se tornar uma comunidade de mais de 7000 mentores e mais de 90.000 participantes em todo o mundo através de seus programas emblemáticos Technovation e Curiosity Machine. A Forbes destacou Tara em 2016 como “a pioneira na capacitação de meninas para a tecnologia do futuro”, e ela foi destaque no documentário Codegirl.

Presença Feminina
Nos dias atuais, a presença das mulheres na área de TI têm aumentado à medida que, cada vez mais cedo, as crianças estão em contato com a tecnologia e a Internet.

O Internet Health Report, iniciativa da Mozilla que tem por objetivo inspirar ações mundiais para uma internet mais saudável, traz a história de Lauren de apenas 11 anos, que lançou sua própria empresa de robótica, e Latasia de 12 anos, que construiu uma página na internet com objetivo de reduzir a violência contra as mulheres indígenas no Canadá.

Ambas são alunas da Ladies Learning Code, uma organização canadense que encoraja a presença feminina no campo da Internet.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A origem das ideias do bolsonarismo



As ideias esdrúxulas do bolsonarismo vêm em boa parte do astrólogo-filósofo Olavo de Carvalho que, por sua vez, bebeu na fonte do conservador americano chamado William S. Lind. No documentário chamado The History of Political Correctness (a história do politicamente correto), de 1999 (ver abaixo), Lind apresentou suas teses do "marxismo cultural", a suposta luta da esquerda no campo da cultura para se apropriar das escolas, universidades, editoras, da imprensa e das artes via movimentos sociais, professores, jornalistas e outros agentes esquerdistas. O objetivo dessa articulação toda seria destruir a civilização ocidental, judaico-cristã e a família tradicional.

Na imaginação direitista, o centro irradiador dessa nova forma de tomada de poder teria sido a Escola de Frankfurt, instituto de pesquisa, criado na Alemanha em 1923, por intelectuais neomarxistas, cujo pensamento se baseava na união do materialismo marxista com a psicanálise. Os estudos desses filósofos ficaram conhecidos como Teoria Crítica, teoria que buscava analisar as condições sociopolíticas e econômicas, reinantes em seu tempo, visando aplicá-la à transformação da realidade. Com a ascensão do nazismo, alguns membros da Escola, que eram judeus, como Adorno, Horkheimer, Marcuse e outros, fugiram para os Estados Unidos,  de onde teriam continuado seu trabalho de perverter não só a sociedade americana mas o mundo todo (na teoria conspiratória, claro).

De fato, existe uma tradição de esquerda que critica os valores da sociedade capitalista e defende a disputa das instituições culturais com a direita. Antonio Gramsci, comunista italiano, foi um dos notórios defensores da conquista da hegemonia cultural de esquerda que realmente prevalece na intelectualidade, no meio artístico e na imprensa do Brasil e do mundo ocidental no todo. Igualmente Herbert Marcuse, da Escola de Frankfurt, foi um dos grandes mentores da contracultura (e da libertação sexual) dos anos 60/70, que, por sua vez, gerou os chamados modernos movimentos sociais como o negro, feminista, gay e ambientalista.


Os ativistas destes movimentos, aliás, na teoria do marxismo cultural, seriam agentes destacados da desconstrução da família nuclear patriarcal e da invenção da tal ideologia de gênero, onde crianças poderiam definir seu sexo/gênero à revelia da natureza. Colaboram para essa mistificação, o fato do atual movimento de travestis, transsexuais e transgêneros, um agregado do movimento de gays e lésbicas, ir sim por essa linha com a chamada identidade de gênero. Aliás, há muito mais em comum entre a ideologia de gênero e a identidade de gênero do que sonham as vãs filosofias.

Agora, com base nesses dados dispersos, os bolsominions, olavetes et caterva fizeram e fazem o samba do conservador doido misturando personagens e eventos desconexos no tempo e no espaço para fomentar a teoria conspiratória do marxismo cultural mundial que existiria na imprensa, em Hollywood ou na Globo, financiado pelo bilionário George Soros (sic). 

Por mais desconjuntada que seja essa teoria, ela pegou no Brasil, culminando com a chegada de Bolsonaro ao poder, e no mundo. Combater o suposto marxismo cultural, em suas respectivas áreas, está na boca dos ministros da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, das Relações Exteriores, Ernesto Araújo (indicados por Olavo de Carvalho) e da Ministra Damares Alves, Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que não para de dizer bobagens reacionárias. Pelo mundo, outras lideranças conservadoras, em países como a Hungria, a Itália e a Polônia, também embarcaram na teoria conspiratória do marxismo cultural, a ponto da universidade criada na Hungria por George Soros, suposto financiador do marxismo cultural internacional, estar sendo expulsa do país pelo presidente Viktor Orbán.

Na verdade, a teoria conspiratória do marxismo cultural é como uma monumental fofoca, assentada em dados reais mas distorcida no resultado pelas misturas díspares das quais se constitui (na base do "quem conta um conto aumenta um ponto"), e que cresceu para se transformar em simples paranoia e mistificação. Serve mais aos eternos propósitos conservadores de evitar mudanças, ou desfazê-las, a qualquer preço e, sobretudo, de evitar a igualdade de oportunidades perante às leis e perante à vida para todas e todos.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Impor modelos rígidos de mulher e homem afeta as escolhas das profissões de meninas e meninos

Os estereótipos de gênero afetam o que as meninas e os meninos escolhem como profissão no futuro
Impor clichês de gênero na sociedade limita o desenvolvimento das habilidades e capacidades. Das garotas que chegam à universidade, só um terço opta por ciências

Elas querem ser atrizes, estilistas ou professoras quando crescerem. Embora haja exceções, perguntadas sobre o que gostariam de ser quando forem adultas, a maioria das meninas escolhe profissões estereotipadas. Mas, e se elas fossem meninos? Foi isso que a ONG Liga da Educação perguntou a um grupo de crianças em Fuenlabrada, Madri. Muitas mudaram sua resposta inicial, como você pode ver no vídeo experimental de sua campanha contra a violência de gênero. Astronauta, policial, médica ... seriam suas opções de vida se tivessem nascido homem. "Os meninos gostam mais da lua", explica uma das entrevistadas.

Os meninos não estão isentos de estereótipos de gênero. Eles imaginam um futuro como jogadores de futebol, bombeiros ou construtores, mas, se fossem meninas, gostariam de ser cabeleireiros de cachorros, professores ou atrizes. "O fato de estarem escolhendo profissões feminilizadas (elas) e masculinizadas (eles) nada mais é do que um reflexo da cultura na qual vivem imersos em uma desigualdade tradicional e estrutural entre homens e mulheres", diz. Rosa Martínez, secretária de Infância da Liga de Educação. E isso, continua ela, "limita o desenvolvimento de suas habilidades e capacidades".
A primeira coisa a fazer é tomar consciência da realidade em que nos encontramos e romper a miragem de igualdade em que vivemos imersos", sugere Martínez. Só então a transformação pode acontecer, diz. "Na Liga da Educação acreditamos que o feminismo ainda é uma questão em falta nas escolas e, com campanhas como essa, pretendemos que isso mude", acrescenta Ana Rodríguez Penín, diretora de Igualdade da ONG.
Por isso, elas acreditam que um dos principais campos de batalha é a escola. Essa é a mesma opinião de Paulo Speller, secretário Geral da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, Ciência e Cultura (OEI).
É necessária uma educação em que tudo seja o mesmo para meninos e meninas", disse ele durante seu pronunciamento em um debate sobre meninas e mulheres na ciência nas Jornadas Europeias do Desenvolvimento, em Bruxelas, em 6 de junho.

A consolidação dos estereótipos no futuro

Apenas 30% das universitárias escolhem carreiras relacionadas à ciência, tecnologia ou matemática (denominadas STEM, por sua sigla em inglês), segundo dados da Unesco. O peso dos estereótipos forjados desde a infância se reflete no que se busca quando adulto. Não só na vida profissional, mas, também, na pessoal. "A escolha da profissão é apenas uma amostra de como os papéis de gênero influenciam o desenvolvimento cognitivo ou afetivo", diz Martinez.

Em relação à primeira, a baixa proporção de mulheres em carreiras STEM é significativa. Mas, como corrobora o experimento da Liga da Educação, a escolha de profissões tradicionalmente atribuídas a um ou outro gênero se estende a outros campos. Assim, o estudo Goleando Sem a Bola, Praticamente Bonecas,realizado pela Federação de Mulheres Progressistas em 2012 – no qual a campanha da ONG se baseia –, mostrou que 50% dos 153 adolescentes entrevistados mudaram a opção de profissão quando lhes perguntaram o que fariam se fossem do sexo oposto. Especialmente elas.
Em relação às escolhas de carreira, ambos os sexos demonstram valores semelhantes em profissões como medicina, educação e veterinária, mas se observam diferenças na opção por trabalhos tradicionalmente atribuídos a um ou outro sexo. Por exemplo, engenharia, jogador de futebol ou policial apontados em maior medida pelos meninos, enquanto as que estão mais ligadas ao mundo da beleza ou do cuidado com os outros, como aeromoça ou professora de jardim de infância, são preferencialmente marcadas por meninas", diz o relatório.
Os especialistas concordam em que a educação no ensino básico é essencial para reverter essa situação de desigualdade. Isso é enfatizado na Liga da Educação, na OEI e também na Fundação Descobrir.
Temos que começar desde o início, desde o ensino fundamental. E temos que aproveitar o movimento feminista agora", disse Carmen Segura, chefe de Ciência nesta organização, em sua fala nas Jornadas Europeias do Desenvolvimento, em Bruxelas, no mesmo debate sobre as mulheres em STEM do qual Speller participou.
Nesse sentido, Martinez (da Liga de Educação) dá ênfase especial ao chamado currículo oculto nas escolas.
Todos nós sabemos que os alunos aprendem muitas coisas vistas e ouvidas, mas, acima de tudo, aprendem o que lhes é transmitido", explica ela. Por exemplo, quando tratados de forma diferente por um professor (mais autoritário) e uma professora (mais maternal)" estão recebendo uma mensagem que reproduz e consolida o papel feminino relacionado com o cuidado e o papel masculino, com poder e liderança ", observa.
Não se deve esquecer ainda aspectos como a ambientação das salas de aula ou a configuração de elementos de jogo nos espaços ao ar livre das escolas (pátios), as ilustrações de livros didáticos, o tipo de atividade proposta para abordar a aprendizagem ou personalidades que aparecem como protagonistas nas diferentes áreas do conhecimento transmitido, enfatiza a especialista.

Dito e feito, a Fundação Búlgara de Pesquisa e Tecnologia para Educação de Gênero implementou um projeto na Bulgária, Grécia, Romênia e Croácia para que haja mulheres em todas as disciplinas obrigatórias.
Os estereótipos estão nos livros didáticos. Quando você lê, parece que todos os avanços e invenções foram obra dos homens, de tal modo que os alunos acreditam que eles, os homens, criaram tudo e são capazes de qualquer coisa. E as meninas acabam acreditando que não valem nada", critica Jivka Marinova, diretora da organização, em sua intervenção nas Jornadas Europeias do Desenvolvimento.
Por isso, reuniram um grupo de especialistas cuja missão era encontrar mulheres de referência que pudessem ser mostradas como exemplos em diferentes assuntos.
No começo nos disseram que não era possível, que não havia mulheres", confessa. Mas havia. "Para cada assunto, temos quatro", diz, com orgulho.
Assim, estudantes de escolas dentro de seu programa sabem hoje que a britânica Hertha Marks Ayrton é a cientista que inventou o arco elétrico.
Não se trata de mudar a história, mas de contar bem", resume ela. Seu projeto mostra que isso é possível.
Fonte: El País, 04/01/2019


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Januhairy: mulheres de carne, osso e pelos

Laura Jackson, de 21 anos, iniciou o movimento Januhairy

Januhairy: Campanha pede que mulheres não se depilem em janeiro por uma boa causa

Movimento lançado por estudante da Inglaterra quer arrecadar mil libras para instituição de caridade. Termo é uma junção das palavras 'january' (janeiro) e 'hairy' (peludo) .

Se você pesquisar pela hashtag #januhairy nas redes sociais, vai encontrar fotos de mulheres orgulhosas de suas axilas ou pernas peludas. O termo é uma junção das palavras january (janeiro) e hairy (peludo) e dá nome a uma campanha por aceitação do corpo feminino.
É uma experiência para as mulheres se unirem e encorajarem umas às outras. A aceitação de pelos corporais em mulheres infelizmente ainda é uma situação difícil”, diz o texto de lançamento da campanha.
Mas o movimento não se trata apenas de fotos e curtidas. O objetivo é arrecadar mil libras para a instituição de caridade Body Gossip. Em poucos dias, foram arrecadadas 330 libras.

A instituição realiza trabalhos de educação e artes para desenvolver uma imagem positiva sobre todos os tipos de corpo.
É evidente que a imagem corporal tem um grande impacto em todos nós, isso é especialmente desafiador em ambientes escolares”, explica a campanha.
O movimento surgiu na Inglaterra, com a estudante Laura Jackson, de 21 anos. Mas já chegou a vários países, como EUA, Alemanha, Canadá e Espanha.
Campanha Januhairy pede aceitação dos pelos femininos — Foto: Reprodução/Facebook/Januhairy
A campanha recebeu depoimentos de dezenas de meninas ao redor do mundo que já sofreram bullying por este motivo.
Meus pelos crescem muito rápido e riem de mim por isso desde meus 12 anos. Quero provar que não devemos ter vergonha disso”, diz uma das apoiadoras.
Nas redes, muitas mulheres expressaram apoio à campanha, mas algumas revelaram que não têm coragem de andar peludas por aí.

Em entrevista à BBC, Laura Jackson afirmou estar feliz com o resultado positivo, mas confessa que recebeu críticas de pessoas próximas. “Embora eu me sentisse livre e mais confiante em mim mesma, algumas pessoas ao meu redor não entenderam nem concordaram com o porquê de eu não me depilar”, disse a estudante.
Esta não é uma campanha raivosa contra pessoas que não veem os pelos como algo normal. Eu só quero que as mulheres se sintam mais confortáveis em seus corpos maravilhosamente únicos.”
Fonte: G1, 04/01/2019 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Socorro, seu Descartes, os contra-iluministas estão de volta


Estava lendo um texto sobre direita x esquerda de uma professora de filosofia (Direita ou gorgonzola,  Bruna Frascolla) onde a dita discorre sobre as semelhanças do populismo autoritário de esquerda e de direita em suas viagens alucinógenas.

Apesar do excesso de citações e ironias um pouco forçadas, estava até gostando do texto, principalmente quando a moça aponta, como eu mesma já pontuei, que ambas as visões atuais de esquerda e de direita são contra-iluministas, contra o racionalismo e a perspectiva científica de analisar o mundo. Não haveria "ideologia de gênero" sem a concomitante "identidade de gênero", né mesmo?

O "Penso, logo existo" do Descartes, em sua busca da verdade através da experimentação e dos fatos, foi substituído pelo "Sinto, logo existo" que hoje une esquerda e direita num romântico casamento de irracionalidade e bizarrices várias. Se eu sinto que sou um cachorro, uma gata, um dragão, um elfo ou um homem (eu que sou mulher), é o que vale. Se a maioria das pessoas não compra minha autopercepção, elas é que estão erradas. Se acho que a Terra é plana, que toda vacina faz mal, que existe mamadeira de piroca e restos de feto em garrafa de Pepsi, o que importa é que os meus frágeis argumentos e sentimentos não podem ser feridos e aferidos pela malvada realidade objetiva. Inclusive quero usar o poder de Estado para obrigar todo o mundo a concordar comigo, sob pena de cadeia e fogueira em praça pública para os novos hereges da Liberdade de Pensamento.


Então, retomando, estava até concordando com a fulana, quando ela me solta uma história de que "o patriarcado das feministas é tão ridículo quanto o globalismo", colocando ambos os termos no terreno da fantasia. Minha mãe, a mulher escreve textão e invoca Descartes num apelo de volta à racionalidade e à analise dos fatos, em vez do embalo alucinógeno das ideologias, e me sai com uma dessas?

Porque, pelamor, negar a existência do patriarcado é simplesmente como negar a existência do sol, a lei da gravidade ou as mudanças climáticas. Com exceção de alguns grupos étnicos, perdidos nos rincões do planeta, que vivem ainda em sociedades matriarcais, o patriarcado é hegemônico no mundo. Ninguém precisa ler livro feminista para sacar isso. É só abrir os olhos e ver. Quem controla o poder de Estado, com seu braços legislativo, executivo e judiciário, sem falar no braço armado? Os homens. Quem controla o poder econômico e financeiro, as grandes corporações que hoje dominam tudo? Os homens. Quem controla a ciência e a tecnologia? Os homens. Quem controla os meios de comunicação, as artes e a cultura em geral? Os homens. Isso sem falar que, em muitos países, as mulheres ainda sequer têm os direitos mais básicos de cidadania, são verdadeiras escravas. Então, como assim o patriarcado das feministas (das feministas?) é ridículo? O caso da filósofa (deve ser uma liberaleca, pelo visto) é o do peixe que não vê a água porque nela vive imerso.

Conclusão, a situação que vivemos hoje é dramática porque mesmos os liberais (os principais herdeiros do Iluminismo), que pensam pairar acima da psicodelia argumentativa da esquerda e da direita, vivem cuspindo no prato que Descartes lhes ofereceu. Também desprezam os fatos, acreditam na pseudociência da psicobiologia evolutiva (sic), em determinismo biológico, numa suposta naturalidade dos estereótipos de gênero, em identidade de gênero e, agora, ficamos sabendo, também que o patriarcado não existe (li ainda uma outra igualmente afirmando que a heterossexualidade obrigatória é invenção de feminista radical). Valei-nos nossa senhora das desamparadas da idade da razão, que esse mundo virou um hospício!!

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