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quinta-feira, 28 de março de 2019

Vícios de linguagem politicamente correta: nem tudo é preto ou branco

Eduardo Afonso, colunista do jornal O Globo, questiona o politicamente correto na linguagem, mostrando que termos, hoje considerados ofensivos, como "mulato", não têm, em sua etimologia, conotação pejorativa.

O preto no branco na linguagem

Palavras são armas poderosas. Talvez por isso haja tanta gente empenhada num estatuto do desarmamento do vocabulário, e a treta (sobre quem pode falar sobre o quê e quais termos estão autorizados) não dá trégua.

Todos, todas e todxs já devem ter ouvido que uma linguagem neutra ajudaria a criar uma sociedade mais justa — mesmo que para isto brasileiros, brasileiras e brasileirxs tenham que ser redundantes e pronunciar coisas impronunciáveis como todxs e brasileirxs .

Claro que para neutralizar a linguagem será preciso rever a concepção de que claro queira dizer exato, correto, inequívoco, luminoso, e que escuro seja sinistro, sombrio, suspeito. Será preciso revogar a dicotomia entre luzes e trevas que nos acompanha desde o big bang bíblico, e reparar a injustiça de o branco ser a soma de todas as cores e o preto, a ausência de luz. Tarefa complicada — mas não para quem acredita que branco e preto , claro e escuro, onde quer que apareçam, estejam a serviço da opressão racial.

Por isso não se deveria mais falar em magia negra, mercado negro, buraco negro, lista negra ou ovelha negra, que têm tanto a ver com afrodescendência quanto amarelar tem com os asiáticos ou vermelho de raivacom os apaches. (Sem contar a caixa-preta dos aviões, da qual só se tem notícia quando acontece uma tragédia, e a inveja branca, uma improvável inveja do bem.)

Dois milênios antes de haver tráfico humano da África para as Américas, a palavra grega mélas já significava não só negro, escuro, mas também triste, funesto. E esta acepção não tinha qualquer vínculo com cor de pele: era uma metáfora, uma construção cultural. Se o verbo denegrir é um insulto e merece ser eliminado, a eugenia linguística deveria atingir também a palavra “melancolia”, que vem de melanós (negro) + kholé (bílis, veneno). E levar junto a “Aquarela do Brasil” com sua merencória (variação de melancólica) luz da lua e o mulato inzoneiro.
O mulato é objeto (ou sujeito) de outra falsa polêmica. Venha do latim mulus (ser híbrido, não necessariamente uma mula), ou de muladi (mestiço de árabe com não árabe), a palavra não evoca animais de carga, mas miscigenação. Negar palavras que definam as nuances étnicas (pardo, moreno, mulato, mameluco) é ter em mente um mundo em preto e branco, uma espécie de apartheid lexical.
Quanto a judiar (outro termo teoricamente a ser proscrito), é o rabino Henry Sobel quem diz:
O significado está claro: não há nada de pejorativo. Não fomos nós que maltratamos. Nós, os judeus, fomos maltratados. (...) O termo não deve ser eliminado. Pelo contrário, é bom que o mundo se lembre do preconceito do passado, para que não o permita no presente e no futuro.”
Mesmo não tendo originalmente cunho racista, muitas palavras podem vir a ferir suscetibilidades. Evitar usá-las com quem se sinta ofendido é uma questão de empatia. Uma espécie de “não falar de corda em casa de enforcado” — o que não implica banir corda, cordão e cordel dos dicionários.

Haveria motivos de sobra para qualquer um de nós se magoar ao ser chamado de brasileiro (e brasileira e brasileirx). Os nascidos nesta terra eram conhecidos como brasis, brasílicos ou brasilienses. Brasileiro não era nacionalidade; era profissão. Ser brasileiro era depreciativo, sinônimo de gente xucra, incivilizada, que vivia da exploração do pau-brasil. O que fazer se parte da população entrar nessa vaibe e resolver que não é mais brasileiro com muito orgulho, com muito amor, exigindo a abolição de termos que evoquem desmatamento ou cor de brasa?

Era melhor focar no combate às atitudes discriminatórias concretas e em expressões como “serviço de preto”, “programa de índio” ou “coisa de mulherzinha”. Aí, sim, há discriminação, etnocentrismo, misoginia — e se está falando de gente de carne e osso, não de metáforas cromáticas. Por aí se perpetuam o racismo e o machismo estruturais. Mas parece que os justiceiros (e justiceiras e justiceirxs) do vernáculo estão mais focados em nos salvar dos monstros que eles mesmos inventaram.

Fonte: O Globo,  por Eduardo Afonso, 14/03/2019

terça-feira, 26 de março de 2019

A americana Karen Uhlenbeck vence um dos prêmios mais importantes da matemática


A americana Karen Uhlenbeck, especialista em equações derivadas parciais  
Imagem: Andrea KaneNorwegian Academy of Science and Letters/AFP

Pela 1ª vez, mulher vence um dos prêmios mais importantes da matemática


O Prêmio Abel de Matemáticas foi atribuído pela primeira vez a uma mulher, a americana Karen Uhlenbeck, especialista em equações derivadas parciais - anunciou a Academia Norueguesa de Ciências e Letras nesta terça-feira (19).
Karen Uhlenbeck recebe o Prêmio Abel 2019 por seu trabalho fundamental em análise geométrica e teoria de calibre, que transformou dramaticamente o cenário matemático", afirmou o presidente da comissão Abel, Hans Munthe-Kaas, em um comunicado.
Suas teorias revolucionaram nossa compreensão de superfícies mínimas, como a formada por bolhas de sabão, e problemas de minimização gerais em dimensões mais altas", acrescentou.
Uhlenbeck, de 76 anos, é professora visitante na Universidade de Princeton e professora associada do Instituto de Estudos Avançados (IAS) dos Estados Unidos.

Nascida em Cleveland, "desenvolveu técnicas e métodos de análise global que estão atualmente na caixa de ferramentas de cada geômetra e analista", indicou a Academia Norueguesa de Ciências e Letras.

Também é uma ativista em favor da igualdade de sexos nas ciências e matemáticas.

É a primeira mulher a receber o Prêmio Abel, criado em 2003 pelo governo norueguês com o objetivo de compensar a ausência de um Prêmio Nobel para matemática.

O prêmio é uma homenagem ao matemático norueguês Niels Henrik Abel (1802-1829) e é dotado com seis milhões de coroas (620.000 euros), sendo uma das mais prestigiosas distinções no mundo das matemáticas, junto com a Medalha Fields.

Fonte: UOL Ciência, via AFP, 19/03/2019

quinta-feira, 21 de março de 2019

Presença de mulheres no Congresso brasileiro é muito menor que nos parlamentos da maioria das nações do G-20 e da América Latina

Deputada Tábata Amaral (PDT-SP) tem na educação a sua principal plataforma.
 Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Brasil é vice-lanterna em representação feminina no Congresso
Presença de mulheres no Congresso é muito menor que maioria das nações do G-20 e da América Latina; no mundo, País é apenas o 157º

Apesar de o número de mulheres no Congresso ter quase dobrado em 20 anos, o Brasil ocupa a vice-lanterna no quesito representação política feminina em duas listas de 20 países. Em comparação com os integrantes do G-20 - os países mais ricos do mundo - e com os conterrâneos da América Latina, o País amarga a 19ª colocação, com apenas 10,7% de mulheres no Congresso (somando Câmara e Senado), de acordo com dados do Banco Mundial. 

Dentre os membros do G-20, que reúne as maiores economias do mundo, o México é quem tem o maior porcentual de mulheres no parlamento: 48,2%. A única nação que perde para o Brasil — e por pouco — é o Japão, com 10,1%. Na América Latina, dois países têm mais mulheres do que homens como parlamentares: Cuba e Bolívia. Quem perde para o Brasil é o Haiti, com pífios 2,5% de representação feminina.

Apesar de ainda estar num patamar baixo, o Brasil vem registrando aos poucos um aumento no número de mulheres na política. Há 20 anos, em 1998, o porcentual era de 6,6% e chegou a cair para 5,7% nos dois anos seguintes, antes de começar a crescer.

Em toda a base de dados do Banco Mundial, o Brasil aparece na 157ª posição de um total de 187.
Mudanças

Algumas medidas foram adotadas pela Justiça Eleitoral nos últimos anos para tentar mudar o histórico de baixa representação. Em 2009, ficou definido que 30% das candidaturas dos partidos devem ser de mulheres. E, para as eleições do ano passado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que 30% dos recursos do fundo eleitoral precisam ser destinados a elas.

A professora Vera Chaia, da PUC-SP, que coordena uma pesquisa sobre lideranças políticas no Brasil, atribui a subrepresentação à falta de espaço, de oportunidade e ao controle interno dos partidos. Segundo ela, existe também uma questão cultural e machista de desqualificar a mulher como se ela fosse incapaz de exercer um cargo político. "A ênfase maior das campanhas é na participação masculina", diz.

Vera avalia ainda que há uma falta de sensibilidade dos homens em relação à representação feminina. Ela pondera, no entanto, que apenas o fato de ser mulher não significa que a parlamentar representará "interesses eminentemente" desse público.
Se fizermos uma leitura apenas nesse sentido, está equivocada. A mulher no Parlamento tem também uma representação dos ideais de seu partido e não somente de uma posição ligada a um determinado do setor da sociedade", diz.
Para o professor José Alvaro Moisés, que conduz pesquisas sobre a qualidade da democracia na Universidade de São Paulo, os números de subrepresentação mostram a dificuldade de obtenção de financiamento, o que atrapalha a organização de campanhas de sucesso. Além disso, ele diz que as oligarquias que comandam os partidos são, em geral, machistas e não aceitam bem a presença de mulheres nem de mudanças.
Há um controle muito grande de quem dirige os partidos e essas oligarquias tendem a se perpetuar e, em muitos casos, favorecer pessoas ligadas a eles ou a seus interesses".
A deputada Tábata Amaral (PDT-SP), em seu primeiro mandato, é uma das 77 parlamentares que atuarão na Câmara nos próximos quatro anos. Para ela, é motivo de comemoração o maior número de mulheres na Casa – eram 51 na última legislatura -, mas é necessário trabalhar para elevar essa quantidade. “Sei o quanto foi difícil chegar aqui e temos que ampliar a participação das mulheres na política”, diz. No Senado, o número passou de 13 para 12 mulheres com as eleições do ano anterior. 
A mulher não tem apoio para se candidatar, para ir para a escola, para fazer faculdade. O Brasil é extremamente violento contra as mulheres”. Tábata defende que sejam dadas mais oportunidades para meninos e meninas no âmbito da educação. “A desigualdade começa no universo acadêmico”, afirma, defendendo sua principal bandeira.
Fonte: O Estado de S.Paulo, Alessandra Monnerat, Caio Sartori e Paulo Beraldo, 07 de março de 2019

terça-feira, 19 de março de 2019

Marcelle Soares-Santos, astrofísica brasileira, vence prêmio da ciência mundial

Marcelle e a câmera que ajudou a construir, usada no projeto Dark Energy Survey
Astrofísica brasileira vence prêmio da ciência mundial
Marcelle Soares-Santos foi reconhecida pela Fundação Alfred P. Sloan, que seleciona os melhores jovens cientistas do mundo

Uma capixaba de 37 anos foi reconhecida como uma das melhores jovens cientistas trabalhando atualmente. A astrofísica Marcelle Soares-Santos vai receber uma bolsa de US$ 70 mil, para investir da maneira que julgar melhor em seu trabalho, da Fundação Alfred P. Sloan, que desde 1955 escolhe os mais proeminentes jovens cientistas.

Marcelle é professora assistente de Física na Universidade Brandeis, nos Estados Unidos, e estuda a natureza da expansão acelerada do universo usando dados de alguns dos telescópios mais poderosos já construídos.

Além disso, ela coordena uma equipe no Fermilab, um dos mais renomados centros de pesquisa em física de partículas, que ajudou a detectar uma fusão de estrelas de nêutrons pela primeira vez e atualmente está ajudando a criar um método novo para determinar a constante de Hubble.

A importância do prêmio é tanta que 47 dos vencedores da bolsa foram posteriormente reconhecidos pelo Nobel.
É uma honra receber a Bolsa de Pesquisa Sloan", disse Soares-Santos. "Encontrar-me ao lado das pessoas de destaque que foram reconhecidas ao longo dos anos é o que me deixa mais orgulhosa com esse prêmio."
SIMI Academy

O Sistema Mineiro de Inovação, por meio do Simi Academy, disponibiliza conteúdos educativos e gratuitos, com a colaboração de especialistas, que compartilham o conhecimento com o propósito de fortalecer cada vez mais a cultura da inovação em Minas Gerais e no Brasil. Conheça!

quinta-feira, 14 de março de 2019

As mulheres são biologiamente mais "fortes" do que os homens

Diferença na expectativa de vida entre mulheres e homens surge ainda na infância
Ciência comprova: mulheres são mais ‘fortes’ que os homens
Em tempos de crise, como fome e epidemias, elas sobrevivem mais que eles

Não é novidade que hoje as mulheres vivem mais que os homens em praticamente todos os países do mundo, mas um levantamento reunindo dados dos últimos 300 anos mostra que elas também eram mais resilientes no passado , até nas piores circunstâncias, como fome e epidemias. Segundo os pesquisadores, mesmo na infância, quando as diferenças comportamentais são mínimas, as meninas têm mais chances de sobrevivência que os meninos , o que indica que a explicação para o fenômeno deve ter algum componente biológico .

A equipe liderada por Virginia Zarulli, da Universidade do Sul da Dinamarca, e James Vaupel, da Universidade Duke, analisou sete episódios históricos que tiveram forte impacto sobre a expectativa de vida da população, como a chegada de ex-escravos americanos na Libéria, entre 1820 e 1843; a fome na Suécia em 1772 e 1773; e as epidemias de sarampo na Islândia em 1846 e 1882.
As condições experimentadas pelas pessoas nas populações analisadas eram horríveis. Apesar de as crises reduzirem a vantagem da sobrevivência feminina na expectativa de vida, as mulheres ainda sobreviveram mais que os homens”, revelaram os cientistas em estudo publicado semana passada na revista científica "PNAS".
Na Libéria, por exemplo, os escravos libertados nos EUA experimentaram as piores taxas de mortalidade já registradas no mundo. Mais de 40% dos realocados no país do oeste africano morreram no primeiro ano após a chegada, provavelmente por doenças tropicais. No nascimento, a expectativa de vida para os meninos era de 1,68 ano e, para as meninas, de 2,23 anos.

A fome na Suécia de 1772/1773 é considerada a pior na história do país, provocada por condições climáticas anormais no verão de 1771, que quebrou a safra e provocou aumento expressivo nos preços dos alimentos. Em 1973, a expectativa de vida da população desabou para apenas 17,15 anos para os homens e 18,79 anos para as mulheres. Na Islândia, a epidemia de sarampo fez a expectativa de vida em 1846 cair de 35,35 anos para 17,86 anos entre os homens e de 40,81 anos para 18,82 anos entre as mulheres.
Em todas as populações os homens tinham taxas de mortalidade iguais ou maiores que as mulheres em todas as faixas etárias”, apontam os pesquisadores.
Quando os cientistas analisaram os dados por faixa etária, descobriram que a vantagem de sobrevivência das mulheres se desdobram a partir de diferenças na mortalidade infantil. Em todos os casos analisados, as meninas eram mais resilientes que os meninos. Como nos primeiros anos de vida os impactos ambientais e comportamentais são mínimos, os resultados sugerem que a diferença na expectativa de vida entre homens e mulheres não pode descartar a influência biológica.
Nossos resultados adicionam uma nova peça ao quebra-cabeças das diferenças de sobrevivência entre os gêneros”, concluem os pesquisadores. “Eles sugerem que a vantagem feminina tem raízes biológicas e é influenciada por riscos, oportunidades e recursos ambientais e comportamentais”.

Fonte: O Globo, 15/01/2018 

terça-feira, 12 de março de 2019

“Violência contra mulher é epidêmica no Brasil”, segundo a Human Rights Watch

“Violência contra mulher é epidêmica no Brasil”, afirma Human Rights

Relatório divulgado em janeiro deste ano (17/1) pela ONG internacional classifica a violência contra a mulher como um dos maiores problemas do país.

O relatório global 2019 da ONG internacional Humans Rights Watch (HRW – Observatório dos Direitos Humanos, em tradução livre), divulgado em janeiro deste ano (17/01), define que há uma “epidemia” de violência doméstica no Brasil. Com dados apurados no começo de 2018, o documento denuncia que há mais de 1,2 milhão de casos de agressões contra mulheres pendentes na Justiça brasileira.

A ONG considera que apesar de a Lei Maria da Penha ser uma das mais avançadas do mundo ela não está sendo aplicada com a eficácia necessária e alerta para a escalada do abuso doméstico não notificado. Em 2017, 4.539 mulheres morreram no Brasil, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e, dentre essas mortes, 1.333 homicídios foram tipificados como feminicídio.
O número real é, provavelmente, maior, uma vez que a polícia não registra como feminicídio os casos nos quais a motivação não está clara”, alerta o relatório.
O documento também denuncia a precariedade da rede de apoio às vítimas da violência de gênero. Segundo dados recolhidos pela ONG internacional, 23 casas que recebiam mulheres e crianças em necessidade foram fechadas por corte de gastos nos últimos anos. Atualmente, há 74 abrigos abertos, em um país com mais de 200 milhões de habitantes. A quantidade de delegacias de atendimento à mulher ou os núcleos especializadas que existem em delegacias também caíram: passaram de 504 para 497 no período analisado pelo relatório.

A queda no orçamento é ainda mais drástica. Segundo a HRW, em 2014, R$ 73 milhões foram utilizados pela Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres. Em 2017, foram R$ 47,3 milhões e, até março de 2018, apenas R$ 3,3 milhões foram gastos pela pasta. 
 A violência doméstica virou uma epidemia, e as autoridades não estão priorizando a rede de proteção à mulher – enxergamos isso pela diminuição da rede de apoio e pelos problemas de acesso à Justiça enfrentados pelas vítimas”, afirma o pesquisador César Muñoz, da Human Rights Watch, em entrevista ao Metrópoles.


César Muñoz considera que os 1,2 milhão de casos de violência doméstica pendentes no Judiciário são apenas uma pequena parte do enorme problema que é a violência de gênero. 
Muitas mulheres que são agredidas não denunciam por vários motivos, entre eles, por não acreditar que a polícia vá, de fato, protegê-las”, explica o pesquisador da Human Rights Watch.
Em documento encaminhado à imprensa, a ONG internacional sugere nove passos para combater a violência doméstica:

– Abrir as delegacias da mulher nos horários em que há mais violência doméstica: à noite e aos fins de semana;
– Obter a declaração imediata da vítima no momento em que a denúncia é feita;
– Disponibilizar salas privativas nas delegacias para depoimentos;
– Aumentar o número de delegacias da mulher e unidades especializadas;
– Fornecer treinamento permanente a policiais sobre como lidar com casos de violência doméstica;
– Elaborar protocolos de atuação de policiais em casos de violência doméstica;
– Investigar todas as denúncias de violência doméstica;
– Monitorar todas as medidas protetivas;
– Publicar dados sobre a atuação das forças policiais e do sistema de justiça em casos de violência doméstica.

Fonte: Metrópoles, por Juliana Contaifer, 18/01/2019



quinta-feira, 7 de março de 2019

Mulheres conquistam chefia das instituições que influenciam economia global

Gita Gopinath, Laurence Boone, Pinelopi Koujianou Goldberg, Beata Javorcik

FMI, Banco Mundial, OCDE e ERDB têm agora economistas-chefe mulheres


São Paulo – As mulheres estão conquistando cada vez mais espaços de poder e um exemplo é o ramo da economia.

Quatro das principais organizações multilaterais do planeta escolheram recentemente mulheres para o posto de economista-chefe.

Isso significa que elas que estarão responsáveis por coordenar as projeções que embasam as instituições, servem como referência para o mercado e influenciam nos rumos da economia global.

Conheça as quatro economistas:

Gita Gopinath (Fundo Monetário Internacional)

Esta americana nascida na Índia, de 47 anos, foi escolhida para o cargo em outubro e assumiu em janeiro no lugar de Maurice Obstfeld.

Gita tem um Ph.D. em Economia de Princeton e já vinha chamando a atenção como professora, primeiro na Universidade de Chicago e depois em Harvard, de onde tirou uma licença.

Em 2011, foi escolhida pelo Fórum Econômico Mundial como uma das “jovens líderes globais”. O FMI também é dirigido desde 2011 por outra mulher, a francesa Christine Lagarde.

A instituição foi criada em 1945 e tem como objetivo manter a estabilidade do sistema financeiro global.

Laurence Boone (OCDE)

Escolhida em junho de 2018, esta francesa de 49 anos entrou no lugar de outra mulher: Catherine Mann, que ficou no posto entre 2014 e 2017.

Boone começou sua carreira no Merrill Lynch, já havia passado por instituições como Barclays e AXA e tem mestrado pela London Business School.

Entre 1998 e 2004, já havia trabalhado como economista na OCDE, organização fundada em 1961 e que define padrões para seus 61 países-membros, na maioria desenvolvidos (o Brasil pleiteia uma vaga).

Sua experiência prévia no setor público inclui um período, entre 2014 e 2016, em que assessorou a presidência francesa nas relações com instituições internacionais como FMI e G20.

Pinelopi Koujianou Goldberg (Banco Mundial)

Pinelopi tem um PhD da Universidade de Stanford e tirou licença de Yale, onde passou uma boa parte da sua carreira acadêmica, para assumir o posto no Banco Mundial.

Nascida na Grécia, mas também com cidadania americana, a economista de 56 anos tem no seu currículo pesquisas sobre o efeitos do comércio sobre desigualdade e inovação em países emergentes.

A experiência será valiosa para uma instituição que tem como foco o financiamento de projetos de desenvolvimento nestes países.

Beata Javorcik (Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento)

A economista polonesa de 48 anos assume em setembro o posto no ERBD, instituição fundada em 1991 para promover financiamentos para desenvolver mercados em 27 países da Europa Central à Ásia Central.

Beata é atualmente professora na Universidade de Oxford e seu currículo inclui um PhD de Yale e uma passagem pelo Banco Mundial.

Fonte: Exame, 04/03/2019

terça-feira, 5 de março de 2019

O frevo mais popular do Brasil foi composto por Joana Batista Ramos em 1909

Joana Batista Ramos
Compositora da marchinha mais popular do Carnaval pernambucano foi apagada da história
Documentaristas buscam informações para construir biografia de Joana Batista Ramos

​Há 110 anos, uma mulher negra e pobre, possivelmente filha de escravos, compôs a letra do mais popular frevo do Carnaval de Pernambuco, a "Marcha Número 1 do Vassourinhas". Mas a história oficial, moldada em território masculino, tratou de apagá-la.

Na terra do frevo, Joana Batista Ramos ainda é apenas um conjunto de indícios. As informações sobre ela são bastante escassas, quase inexistentes. Resumem-se a poucos parágrafos de jornais do início do século passado. Não há nem sequer certidões de nascimento ou de óbito.
O único documento público que comprova a sua existência é o recibo de venda por 3.000 réis dos direitos autorais da música para o tradicional Clube Vassourinhas, fundado em 1889, um ano após a assinatura da Lei Áurea. 
Escrita em 1909, a música virou uma espécie de hino popular de Pernambuco.

Ela foi gravada pela primeira vez, porém, em 1945, pela Continental, interpretada por Deo e Castro Barbosa. Na versão, a letra original acabou sendo alterada com a inserção do verso de domínio público "se essa rua, se essa rua fosse minha", cantiga popular rearranjada pelo maestro Heitor Villa-Lobos na década de 1930.

Nascido como uma marcha, o frevo de Vassourinhas foi sofrendo outras modificações ao longo do tempo, até que teve a letra suprimida. O garimpo mostra que a música era executada quando o Vassourinhas estava retornando para a sua sede, na chamada marcha de regresso.

Hoje, no Carnaval, o frevo funciona como uma espécie de "acorda povo", aquele momento em que os músicos estão cansados e precisam retomar a animação dos foliões.

O maior mistério do frevo
Partitura mostra os verdadeiros autores do famoso frevo:
 Matias da Rocha e Joana Batista
Uma equipe pernambucana de documentaristas iniciou um trabalho de investigação para contar quem foi Joana Batista Ramos. A produtora cultural Tactiana Braga e os jornalistas Camerino Neto e Maíra Brandão dirigem o documentário "Joana: Se essa Marcha Fosse Minha", ainda sem data para lançamento.

Uma campanha na internet também foi lançada na tentativa de encontrar parentes da compositora ou qualquer informação que contribua para construir a sua biografia.

Até agora, além de testemunhos e escassos relatos em jornais da época, conseguiram encontrar uma única imagem do rosto dela, provavelmente uma pintura, que consta no documentário "Cem Anos de Vassourinhas" (1989), pertencente ao acervo da Fundação Joaquim Nabuco.
Estamos falando do território da cana-de-açúcar, do senhor de engenho, da casa grande e da senzala, demarcado pela violência do poder. Joana é um grito neste momento em que o Brasil ameaça a fala e o direito da mulher", diz Tactiana Braga.
Camerino Neto conta que, nos antigos bailes de Carnaval, com várias orquestras, a introdução de Vassourinhas era o alerta para que os próximos instrumentistas subissem ao palco e pudessem substituir aqueles que já estavam tocando.
Isso talvez explique porque ela se popularizou tanto. Era executada várias vezes durante a mesma noite", diz.
Algumas peças do quebra-cabeça histórico estão sendo descobertas aos poucos.
Joana era possivelmente empregada doméstica, ex-escrava ou descendente de escravos", lembra Brandão.
Mas ainda não se sabe onde exatamente ela nasceu.
O próximo passo é fazer o caminho contrário. Estamos tentando localizar a certidão de óbito", aponta.
O governo de Pernambuco afirma que a Secretaria da Mulher se prontificou a acionar a estrutura de informações oficiais para encontrar qualquer documento sobre Joana.
Há o entendimento de que essa invisibilidade não é um ato falho. É um ato de machismo. É preciso reconhecer sua contribuição a partir da história de Joana", afirma Braga.
Nas pesquisas, há relatos da presença dela e de Mathias da Rocha, que também assina a música por possivelmente ter criado a melodia, num lugar em que os negros costumavam realizar celebrações, no Porto da Madeira, na zona norte do Recife. A composição teria nascido num dos mocambos do bairro.

A busca documental já chegou a algumas conclusões. Joana tinha três filhos e, provavelmente, morreu aos 74 anos, em 1952. Os registros em cartório da venda da música ao Clube Vassourinhas são de 1910, enquanto o documento de autoria é de 1949.

A pesquisadora Carmem Lelis informa que, em 1951, a marcha passou ser reproduzida também no Carnaval carioca. "Mas as informações são precárias e sem fontes para se constatar a veracidade."

O filme será composto por entrevistas com pesquisadores, maestros renomados do frevo e compositoras e cantoras pernambucanas.

Entre os entrevistados está a cantora, compositora e dançarina Flaira Ferro.
Há cem anos, a realidade era pior para as mulheres. Ainda mais sendo negra. Ela estava na margem da margem da margem", afirma ela.
Quem foi Joana Batista Ramos?
Mulher negra, compôs, junto de Mathias da Rocha, em 1909, o frevo 'Marcha Número 1 do Vassourinhas', um dos mais famosos de Pernambuco. Tudo o que se sabe sobre ela é que tinha três filhos e, provavelmente, morreu aos 74 anos, em 1952

 Fonte: Folha de SP, João Valadares, Recife, 01/03/2019

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