8 de Março:

A origem revisitada do Dia Internacional da Mulher

Mulheres samurais

no Japão medieval

Quando Deus era mulher:

sociedades mais pacíficas e participativas

Aserá,

a esposa de Deus que foi apagada da História

terça-feira, 14 de maio de 2013

Contra o dualismo esquerda x direita

Roberto DaMatta
Mais um que aponta a obviedade da estupidez do fla-flu esquerda x direita ou da maldição do esquerdo-direitismo. Ótimo texto de Roberto DaMatta. 

Destaque: Ora, isso é o justo oposto de quem deseja que esquerda e direita sejam termos balizadores finais quando o que o momento demanda é que esse poderoso dualismo seja como as nossas mãos. Esses maravilhosos órgãos que nos tornam humanos e que podem ser usadas de modo diverso porque, como sabem os liberais, ambas tem um uso alternado e são importantes na nossa vida pessoal e coletiva.

Direita & esquerda

Não é por acaso que a esquerda tem sofrido de estadofilia, estadomania e estadolatria. Dai a sua alergia a tudo o que chega da sociedade e dos seus cidadãos

Hoje vou começar com espinhos — com uma dualidade que define o nosso mundo. Qual é o ponto central da oposição entre esquerda e direita — esse dualismo que levou tanta gente (de um lado e do outro) para a prisão, para a tortura, para o exílio, o abandono, a rejeição e a morte? Qual é o rumo desses lados?

Penso que a pior resposta cairia na decisão de ancora-los num fundamentalismo: numa oposição com conteúdo definitivo. Uma sendo correta e a outra errada já que sabemos que direita e esquerda admitem segmentações infinitas, pois toda esquerda tem uma esquerda mais a esquerda; do mesmo modo que toda direita também tem a sua direita extremadamente direitista. No plano religioso somos ainda dominados pelo sagrado (situado à "direita" do Pai); mas no plano político ninguém — pelo menos no Brasil — é de "direita". Como ninguém é rico ou poderoso.

Deus e o Diabo seriam os avatares dessa dualidade? Mas as dualidades não tendem a sumir quando delas nos aproximamos? Ademais, não seriam os dualismos, como sugere um antigo texto de Lévi-Strauss, modos de encobrir hierarquias porque um equilíbrio perfeito jamais existe, e a dualidade mistifica com perfeição as múltiplas diferenças entre grupos e pessoas, juntando tudo de um lado ou do outro ?

O ministro presidente do STF, Joaquim Barbosa — depois de fazer um diagnóstico impecável de nossa hierarquia e do nosso personalismo que realizam a indexação de pessoas, tirando-as da universalidade da lei; essas dimensões centrais do meu trabalho de interpretação do Brasil — disse que os principais jornais do país se alinhavam para a direita. Joaquim Barbosa seria meu candidato definitivo à presidência da república e estou certo que ele venceria no primeiro turno mas ao exprimir tal opinião eu acho, com devida vênia, que ele perdeu de vista o contexto sócio-político do Brasil.

Os jornais estão a "direita" porque todo o governo (e, com ele quase todo o Estado brasileiro) está englobado numa "esquerda" de receitas estatizantes que recobre o dualismo político inaugurado com a Revolução Francesa. A razão para o Estado figurar como o nosso personagem político mais importante e decisivo, revela um fato importante. A crença segundo a qual a nossa sociedade malformada, mestiça e doente (destinada, como diziam Gobineau e Agassiz, a extinção pelas enfermidades da miscigenação) teria que ser corrigida por um "poder público" centralizador, autoritário, aristocrático que varreria seus costumes primitivos, híbridos, intoleráveis e atrasados.

A "esquerda" sempre teve como central a ideia de que somente um "estado forte", poderia endireitar as taras, como dizia Azevedo Amaral, da sociedade brasileira. Essas depravações — carnaval, comida, sensualidade, dança, preguiça, musica popular... — de origem. Taras que um Estado devidamente "tomado" por pessoas bem preparadas (a honestidade não vinha ao caso porque não se tratava de uma questão de "moral", mas de "política") iria mudar por meio de decretos .

Não é por acaso que a esquerda tem sofrido de estadofilia, estadomania e estadolatria. Dai a sua alergia a tudo o que chega da sociedade e dos seus cidadãos. Coisas tenebrosas como meritocracia, lucro, ambição, mercado, competição e eficiência. Tudo o que afirma um viés não determinista do mundo.

Vivemos, graças a Procuradoria Geral da República e ao STF, um momento especial porque a "esquerda" foi posta à prova e, ato continuo, foi implacavelmente desnudada. Posta à prova definitiva do poder, ela revelou-se incapaz de honrar com os papeis sociais cabíveis na administração publica e de dizer não aos seus projetos mais autoritários. O resultado tem sido uma reação no sentido de modificação por decreto de mecanismos que buscam arrolhar a imprensa, o judiciário e o ministério público. O ideal, eis o vejo como reação, seria uma aristocratização total dos eleitos, tornando-os em seres inimputáveis. Seria isso algo de esquerda ou de direita?

Uma das forças da democracia é, como viu Tocqueville, a educação continua do seu estilo de vida. A próprio divisão de poderes demanda empatia e não antipatia entre eles. Do mesmo modo, a democracia leva a uma visão para além do econômico, do político, do religioso e do jurídico. É justamente o esforço de uma visão de conjunto que obriga as sociedades abertas a se redefinirem continuamente por meio do bom-senso que Joaquim Barbosa tem de sobra.

Ora, isso é o justo oposto de quem deseja que esquerda e direita sejam termos balizadores finais quando o que o momento demanda é que esse poderoso dualismo seja como as nossas mãos. Esses maravilhosos órgãos que nos tornam humanos e que podem ser usadas de modo diverso porque, como sabem os liberais, ambas tem um uso alternado e são importantes na nossa vida pessoal e coletiva.

Roberto DaMatta é antropólogo

Fonte: O Globo, 08/05/2013

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Sade Adu, bio da cantora e seu último show Bring Me Home

Sade em Bring Me Home (2011)
Uma de minha cantoras preferidas, Sade Adu, ou Helen Folasade Adu, nasceu em Ibadan, na Nigéria, filha de um professor de Economia nigeriano e uma enfermeira inglesa. O casal se conheceu em Londres quando ele estudava na London School of Economics e se mudou para a Nigéria logo depois de se casar.

Quando Sade tinha quatro anos, os pais se separaram, e a mãe a levou e ao seu irmão mais velho, Banji, de volta à Inglaterra, onde cresceram perto dos avós, em Essex. Embora apreciadora do soul americano,  desde menina, Sade se formou em moda, na St Martin's School of Art, e começou a cantar meio por acaso quando amigos de escola a convidaram para ajudar nos vocais de sua banda juvenil.

Sade descobriu que gostava de cantar e de compôr e, superando o medo dos palcos, começou sua carreira  com um grupo de funk chamado Pride (incrível imaginar a Sade num grupo de funk), com o qual percorreu a Inglaterra a partir de 1981. 

Em uma das turnês, o olheiro de uma gravadora descobriu Sade cantando Smooth Operator,  e, um ano e meio depois, lá estava ela assinando contrato com a Epic Records, com a condição de poder levar  três de seus colegas de banda que até hoje a companham: o saxofonista Stuart Matthewman, o tecladista Andrew Hale e o baixista Paul Denman. Em fevereiro de 1984,  Sade já emplacava o single Your Love Is King entre os 10 mais da Inglaterra, apresentando também ao mundo a bela, exótica e sensual figura da cantora.  Logo vieram os álbuns de sucesso, firmando sua carreira bem-sucedida. 

1984: Diamond Life
1985: Promise
1988: Stronger Than Pride
1992: Love Deluxe
2000: Lovers Rock
2002: Lovers Live (ao vivo)
2010: Soldier of Love

As interrupções prolongadas nas gravações entre um álbum e outro, sobretudo a partir dos anos 2000, deveram-se a percalços de sua vida particular, à sua decisão de dedicar-se à filha, nascida em 1996, e à família e à sua mudança de Londres para a região rural de Gloucestershire, onde vive até hoje. Só em 2010, Sade saiu da hibernação, lançou o álbum Soldier of Love e também fez uma turnê, em 2011, chamada Bring Me Home (em 2012, foi lançado o DVD e o CD do show) que posto abaixo. Veio também ao Brasil (e a besta aqui perdeu a chance de vê-la) quando concedeu entrevista ao Zeca Camargo do Fantástico que também se segue.

Avessa ao culto de celebridades, Sade é uma dessas cantoras que se elevou ao panteão das divas por seu estilo único e pela qualidade musical. Vale a pena ver e ouvir seu show. Sabe lá quando e se virá outro.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Animação conta a trajetória de Lula das fábricas ao status de assombração política do Brasil


Animação bem legal com música estilo Renato Russo. A trajetória de Lula desde as fábricas até o status de ex-presidente que não quer desencarnar do poder. E tudo que aprontou em sua trajetória!  

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A morte lenta do chavismo e as agressões à oposição venezuelana

A deputada da oposição venezuelana, Maria Corina Machado,
teve o nariz fraturado por agressão de agente chavista
Reproduzo abaixo texto do Nobel Mario Vargas Llosa, analisando o que parece ser o início da derrocada do chavismo na Venezuela e os perigos decorrentes, e dois vídeos do talk show do jornalista peruano radicado nos Estados Unidos, Jaime Bayly, exibido em espanhol pela emissora americana MegaTV. Neles, há imagens inéditas das agressões sofridas pelos parlamentares da oposição venezuelana, no dia 30/04/2013, durante sessão da Assembleia Nacional do país.


O que mais impressiona, no vídeo, é a identificação de um dos agressores como possivelmente um cubano, Michel Milán Reyes, ex-congressista e presidente da Assembléia Municipal do Poder Popular de Cotorro, periferia da capital cubana, que teria se metido no parlamento venezuelano a fim de agredir políticos da oposição. Como o chavismo é uma espécie de filial do castrismo cubano, a ideia não é fantasiosa. O jornal Noticias Venezuela diz, contudo, que o matón (capanga em espanhol) se chama Michael Reyes Argote, professor e atual suplente de outro deputado, Elvis Amoroso, que, no entanto, estava presente na sessão de pugilato.

Como além de muito parecidos, ainda têm não só o mesmo nome como sobrenome, até agora não se chegou a uma conclusão sobre a identidade do espancador (ver no vídeo a partir das 05:10). Fora que a estratégia de trazer cubanos para os países que estão sob governo de membros do Foro de São Paulo não é novidade. Agora mesmo o governo brasileiro decidiu importar 6000 médicos cubanos para trabalhar no Brasil. O Conselho Federal de Medicina já condenou a decisão não só por questionar a qualidade dos médicos estrangeiros como por duvidar das reais intenções do governo brasileiro com a medida. Será que chegaremos ao ponto de ver cubanos agredindo brasileiros em nosso próprio país?

A Morte Lenta do Chavismo

MARIO VARGAS LLOSA

Um animal ferido é mais perigoso do que um que não está, isso porque a raiva e a impotência fazem com que ele provoque grandes destroços antes de morrer. Este é o caso do chavismo depois do tremendo revés sofrido nas eleições de 14 de abril em que, apesar da desproporção de recursos e o descarado nepotismo do Conselho Nacional Eleitoral – quatro de seus dirigentes são militantes governistas convictos e confessos – o herdeiro de Hugo Chávez, Nicolás Maduro, perdeu cerca de 800 mil votos e provavelmente só conseguiu vencer o opositor Henrique Capriles por meio de uma gigantesca fraude eleitoral. (A oposição documentou mais de 3.500 irregularidades em seu prejuízo durante a votação e a contagem de votos.)

O “socialismo do século 21″, como Chávez denominou seu programa para promover o regime, começou a perder apoio popular: a corrupção, o caos econômico, a escassez, a altíssima inflação e o aumento da criminalidade estão esvaziando a cada dia suas fileiras e engrossando as da oposição. Além disso, a incapacidade evidente de Nicolás Maduro para liderar um sistema abalado por discórdias e rivalidades internas, explica as manifestações exacerbadas e o nervosismo que nos últimos dias levaram os herdeiros de Chávez a mostrar a verdadeira cara do regime: sua intolerância, sua vocação antidemocrática e suas inclinações à bravata e à delinquência.

Assim deve ser explicada a emboscada da qual foram vítimas na terça-feira deputados da oposição, membros da Mesa de Unidade Democrática, durante uma sessão presidida por Diosdado Cabello, ex-militar que acompanhou Chávez no seu frustrado golpe contra o governo de Carlos Andrés Pérez. O presidente do Congresso iniciou a sessão retirando o direito dos parlamentares de oposição de se manifestar sobre a fraude eleitoral e ordenou que seus microfones fossem desligados. Quando os deputados protestaram, levantando uma faixa que denunciava um “golpe contra o Parlamento”, membros oficialistas e seus guarda-costas lançaram-se contra eles com socos e pontapés que deixaram alguns deputados, como Julio Borges e María Corina Machado, com lesões e edemas. Para evitar provas da arbitrariedade, as câmaras da TV oficial foram direcionadas oportunamente para o teto da assembleia. Mas os celulares de muitos participantes filmaram o ocorrido e o mundo inteiro tomou conhecimento da selvageria cometida, assim como das gargalhadas de Diosdado Cabello com o fato de María Corina Machado ser arrastada pelos cabelos e espancada pelos valentes revolucionários chavistas.

Duas semanas antes ouvi María Corina falar sobre seu país na Fundación Libertad, em Rosario, Argentina. Foi um dos discursos políticos mais inteligentes e comovedores que escutei. Sem vestígios de demagogia, com argumentos sólidos e uma desenvoltura admirável, ela descreveu as condições heroicas em que a oposição venezuelana enfrentava o oficialismo. Para cada cinco minutos na TV de Henrique Capriles, Nicolás Maduro dispunha de 17 horas. Referiu-se à intimidação sistemática, as chantagens e violências sofridas pelos opositores do regime, reais ou imaginários, em todo o país, e o estado de calamidade em que o desgoverno e a anarquia deixaram a Venezuela depois de 14 anos de nacionalizações de empresas, expropriações, populismo desenfreado, coletivismo e incompetência burocrática. Mas ela também manifestou esperança, um amor contagiante pela liberdade, a convicção de que, por maiores que fossem os sacrifícios, a terra de Bolívar acabaria por recuperar a democracia e a paz num futuro muito próximo.

Todos os que a ouviram naquela manhã saíram convencidos de que María Corina Machado desempenhará um papel importante no futuro da Venezuela, salvo se a histeria que parece ter se apoderado do regime chavista, agora que se sente em pleno processo de decomposição interna e enfrentando uma impopularidade crescente, não lhe preparar um acidente, ou colocá-la na prisão e mesmo encomende sua morte. É o que pode ocorrer com qualquer oponente, a começar por Henrique Capriles, que a ministra de Assuntos Penitenciários já alertou publicamente que tem pronta a cela onde logo ele vai parar.

Não é mera retórica: o regime começou a dar golpes à direita e esquerda. Ao mesmo tempo em que o governo de Maduro transformou o Parlamento num sabá de brutalidade, a repressão nas ruas aumentou, com a detenção do general aposentado Antonio River e um grupo de oficiais não identificados acusados de conspiração. E também perseguições contra líderes universitários e a expulsão de centenas de funcionários públicos dos seus cargos pelo fato de terem votado na oposição nestas eleições.

Os desorientados herdeiros de Chávez não compreendem que estas medidas abusivas os delatam e, em vez de conter a perda de apoio na sociedade, elas só farão aumentar o repúdio popular contra o governo.

Leviandade. Talvez diante do que vem sucedendo atualmente na Venezuela os governos dos países sul-americanos (Unasul) se conscientizem da leviandade cometida ao se apressarem em legitimar a vergonhosa eleição venezuelana e de seus presidentes (com exceção do Chile) participarem, dando um ar de legalidade, da investidura de Nicolás Maduro na presidência da república. Já terão comprovado que a recontagem de votos a que o herdeiro de Chávez se comprometeu para conseguir seu apoio, foi uma mentira flagrante, pois o Conselho Nacional Eleitoral proclamou seu triunfo sem realizar nenhuma revisão. E agirá da mesma maneira com relação ao pedido do candidato da oposição para que seja revisto todo o processo eleitoral impugnado diante das inúmeras violações do regulamento cometidas durante a votação e na contagem das atas de apuração.

Na verdade, nada disso importa muito, pois somente contribui para acelerar o desprestígio de um regime que já sofre um processo de enfraquecimento sistemático que só agravará no futuro, em razão da situação catastrófica das finanças, a deterioração da economia e o triste espetáculo oferecido por seus principais dirigentes, a começar por Nicolás Maduro.

É triste ver o nível intelectual desse governo, cujo chefe de Estado assobia, ruge ou insulta porque não sabe falar.

Quando pensamos que este é o mesmo país que nos deu Rómulo Gallegos, Arturo Uslar Pietri, Vicente Gerbasi e Juan Liscano e, no campo político, Carlos Rangel e Rómulo Betancourt, presidente que propôs a seus colegas latino-americanos se comprometerem a romper relações diplomáticas e comerciais no ato com qualquer país vítima de um golpe de Estado (naturalmente nenhum deles aceitou a proposta).

O que importa é que depois de 14 de abril vemos uma luz no fim do túnel da noite autoritária que teve início com o chavismo. Setores populares importantes que foram seduzidos pela retórica do comandante e suas promessas messiânicas, estão aprendendo diante da dura realidade quotidiana como estavam enganados, vendo a distância crescente entre aquele sonho ideológico e a queda do nível de vida, a inflação que reduz a capacidade de consumo dos mais pobres, o nepotismo que é uma nova forma de injustiça, a corrupção e os privilégios da nomenclatura.

E também a delinquência que tornou Caracas a cidade mais insegura do mundo. E nada disso pode mudar, salvo para pior diante da cegueira ideológica do presidente Maduro, formado nas escolas de dirigentes da Revolução Cubana. Que, aliás, acaba de realizar sua visita habitual a Havana para renovar sua fidelidade à ditadura mais antiga do continente americano.

Assim, assistimos ao declínio deste período autoritário de quase 15 anos na história desse maltratado país. Esperemos que sua agonia não traga mais sofrimentos e desgraças além do que já foi infligido pelos delírios chavistas ao povo venezuelano.

(Tradução de Terezinha Martino)

* É escritor e ganhador do prêmio Nobel de literatura

Fonte: Estadão, 05/05/2013

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