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sábado, 1 de agosto de 2026

Raio X da Campanha de desinformação contra o PL da Misoginia

Como o tema do PL da Misoginia e da consequente campanha de desinformação contra ele estão em suspenso, com o recesso parlamentar, resolvi aproveitar o intervalo para resgatar as discussões que levantou (discursos de ódio, misoginia) e as fake news de que foi vítima.

Fiz uma espécie de raio X das três principais estratégias desinformativas da citada campanha: a atribuição de trechos de outros projetos ao PL 896/2023, a descontextualização da resposta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher à emenda do deputado Capitão Alden e a acusação de que o projeto seria vago ou censório.

A Agência Lupa já havia realizado um bom levantamento do fenômeno em maio, que permanece válido como registro e porque algumas das fakes continuaram centrais na campanha citada. Nesse levantamento, a agência afirma que o PL da Misoginia estava sendo “alvo de uma ofensiva digital coordenada, marcada pela disseminação de desinformação por lideranças da direita”. De fato, a campanha reuniu diferentes setores da direita brasileira, inclusive aqueles que tratam a liberdade de expressão como salvo-conduto para discursos discriminatórios, além de adesões pontuais de outros campos políticos.

Antes de adentrar o raio X do projeto, porém, considero importante conceituar o significado de “discurso de ódio” em geral e no que diz respeito às mulheres. Assim como descrever o cenário atual que justifica um projeto contra a misoginia.

Discurso de ódio

O discurso de ódio se caracteriza pela depreciação, desumanização e demonização de coletividades inteiras, com base, por exemplo, no sexo, na orientação sexual, na etnia e na combinação entre religião e etnia das pessoas. Em outras palavras, para ficar nos bodes expiatórios clássicos da História, ataca as mulheres, as pessoas homossexuais, os judeus e os negros.

Outra característica do discurso de ódio é seu caráter de pregação, diferenciando-se de uma simples ofensa isolada por tentar mobilizar a sociedade para a exclusão de direitos, silenciamento ou hostilização do grupo estigmatizado. Ele incita à violência contra grupos vulneráveis e sempre esteve na raiz não só da exclusão de direitos, mas também na dos massacres e genocídios.

Onda de antissemitismo

Um exemplo recente das consequências do discurso de ódio foi a onda de antissemitismo, provocada pelas marchas globais travestidas de pró-palestina, desde outubro de 2023, em função da guerra em Gaza. Sem limites, essas marchas de ódio aos judeus intoxicaram as redes sociais e o mundo e mostraram que os discursos de ódio levam a crimes na vida real. Em todo o mundo, houve episódios de sinagogas e estabelecimentos da comunidade judaica sendo atacados, judeus sendo feridos e mortos, culminando com o ataque antissemita na praia de Bondi (14/12/2025), em Sydney, na Austrália, onde 15 pessoas foram mortas e cerca de 40 ficaram feridas durante uma celebração de Hanukkah. A gente sabe que os nazistas pavimentaram o caminho para os campos de concentração com os discursos de ódio aos judeus, mas outra coisa é ver a história se repetindo diante dos nossos olhos. Fiquei realmente impactada, pois inclusive supunha que o antissemitismo fosse mais marginal.

Felizmente, o antissemitismo no Brasil passou a ser incluído na Lei do Racismo em 1997 através da Lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997. Também em 2003, o Superior Tribunal Federal (STF), ao analisar o caso do editor Siegfried Ellwanger, que publicava livros antissemitas e negacionistas, conhecido como “caso Ellwanger”, afirmou:

“...antissemitismo é racismo, porque raça é conceito social, não biológico; racismo não prescreve; e a liberdade de expressão não é absoluta, ela não protege discurso de ódio e cede diante da dignidade humana. Até hoje é essa a principal referência do tema no Brasil”.

Onda de Misoginia

Se o machismo é a ideia tola (sendo delicada) de que homens seriam superiores às mulheres, a misoginia é o ódio ou aversão às mulheres que se traduz em extinção de direitos, mutilações genitais e de outras partes do corpo, abusos sexuais de meninas a idosas (vide pedofilia, estupros, prostituição, tráfico sexual) e violência em geral, como espancamentos e assassinatos.

A misoginia é fruto do discurso de ódio contra as mulheres que se caracteriza pela depreciação, desqualificação,  desumanização, demonização do sexo feminino. Bem como outros fenômenos odiosos, a misoginia não nasce no vácuo. Acreditar que a linguagem e os atos pertencem a esferas incomunicáveis ou autônomas nega a própria humanidade que, para o bem e para o mal, se constrói e se organiza por meio da linguagem.

Uma das razões por que a direita, conservadora em particular, propõe atacar os sintomas da misoginia, ou seja, a violência física contra as mulheres via repressão (castração de abusadores sexuais, aumento de penas para os feminicidas), mas não ataca suas causas (o discurso misógino) é por ela própria ser causa destacada do problema.  Por exemplo, em maio de 2026, durante congresso evangélico, em Santa Catarina, a pastora Helena Raquel denunciou a violência doméstica, a violência sexual e a cultura de acobertamento de abusadores e pedófilos dentro das igrejas evangélicas. Estariam exercendo o direito à liberdade de expressão religiosa os pastores que pregam o silêncio das vítimas diante desses crimes, sua cumplicidade, em nome da unidade familiar, da comunidade, de deus?

Problema Global

Nem de longe o problema é apenas nacional. Como declarou a famosa escritora e feminista J.K. Rowling já em 2020, com a qual concordo inteiramente:

"Estamos vivendo o período mais misógino que já presenciei. Entre a reação negativa contra o feminismo e uma cultura online saturada de pornografia... Nunca vi mulheres serem denegridas e desumanizadas a esse ponto como agora." 

Realmente, além do usual sexismo e machismo, temos agora o fenômeno da chamada “machosfera”, que deixou de ser meramente um nicho de homens recalcados, com muito músculo e pouco cérebro, para virar modelo de negócios e influenciar políticos. Trata-se de misoginia pura sendo monetizada para enriquecer homens que vivem de rebaixar mulheres ao rés do chão (tipo “valor da mulher está nas tetas e na vagina”).

Feministas de fato e homens mais civilizados já acenderam o sinal amarelo quanto ao transbordamento do discurso da “machosfera” para a cultura geral e a política. Segundo o jornalista e sociólogo Muniz Sodré, em seu artigo Um Conto ao Pé da Letra (FSP, 18/07/2026), Pete Hegseth, o titular da pasta da Secretaria de Defesa do governo Trump, prega “a abolição da Emenda 19 à Constituição dos EUA, um dos baluartes dos direitos políticos e da luta pela igualdade de gênero”. Ventríloquo do pastor Doug Wilson, voz extrema da direita cristã, Hegseth não tem pejo em afirmar que mulheres não deveriam votar.”

Vimos um exemplo nacional desse discurso sobre o voto feminino em live do bolsonarista Paulo Figueiredo, residente nos EUA, onde afirmou que mulheres, sobretudo as solteiras, não sabem votar. Ele  ecoa o discurso da “machosfera”, provando que a falação red pill deixou de ser exclusiva dos marombados-descerebrados e chegou ao homem comum. Explica também a moda de homens se fazendo de vítimas e chamando mulheres de privilegiadas num mundo ainda fundamentalmente patriarcal. Alguns chegam a negar até que o patriarcado exista, o que é mais ou menos como dizer que o Sol gira em torno da Terra.


O PL da Misoginia, em debate na Câmara, busca, em particular, combater exatamente a chamada “machosfera” que propaga ideologias misóginas e lucra com elas. Trata-se de pregação de ódio contra as mulheres em larga escala, o que justifica sim um projeto contra a misoginia.


Raio X da Campanha de desinformação contra o PL da Misoginia

Apesar de termos agora a pregação diuturna e global da “machosfera“ contra as mulheres, apesar de, no Brasil, segundo Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança, a cada feminicídio cometido, haja uma história anterior de, em média, 500 ameaças, os 50 tons da direita brasileira resolveram fazer campanha de desinformação contra um projeto de alteração da Lei do Racismo que inclui termos como “misoginia” e “condição de mulher” no texto da citada lei.

A campanha de desinformação contra o PL da Misoginia contou com várias fakes que, como disse no início do texto, em sua maioria, a Agência Lupa listou no artigo PL da Misoginia. A escalada da desinformação no debate sobre o projeto de lei. De fato, a campanha começou porque o projeto foi aprovado, por unanimidade, no Plenário do Senado Federal em 24 de março de 2026. Começando com o deputado Nikolas Ferreira e se espalhando por todas as redes sociais, as fakes, na base do pânico moral e das teorias conspiratórias, visaram impedir que o projeto também fosse aprovado na Câmara.

Detalho agora três dessas alegações falsas utilizadas para induzir as pessoas a erro: 1) a mistura de trechos de outros projetos com o do PL 896/2023; 2) um texto do colegiado de mulheres da Câmara destacado sem a informação de que se tratava de resposta à emenda de um tal capitão Alden; 3) a fake mais prevalente sobre suposta vagueza do texto do projeto e suposta censura à liberdade básica de expressão. Cito novamente a Agência Lupa. 

Entre as narrativas críticas ao PL da Misoginia, a que mais se destacou no período analisado foi a ideia de que o projeto restringe a liberdade de expressão e que pode ser usado para “perseguir a direita". Nesse universo, também se consolidou a ideia de que o projeto é “subjetivo, ou seja, amplo demais e sem critérios suficientes para definir o que é misoginia.”

Trechos de outros projetos sendo atribuídos ao PL da Misoginia (PL 896/2023)

Além do PL nº 4224/2024, também foi atribuído ao PL da Misoginia o texto do PL 6194/2025 de autoria da deputada Ana Pimentel (PT-MG) que visa a responsabilização civil para o discurso de ódio contra o gênero feminino, considerando como mulheres todas as pessoas que se identificam como tais (trans, travestis e pessoas não binárias),

O PL da Misoginia em pauta, PL 896/2023, proposto pela senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), nada tem a ver com identidade de gênero e foca apenas na inclusão da misoginia na Lei do Racismo, tornando a discriminação e o ódio contra mulheres crimes inafiançáveis e imprescritíveis.

Entretanto, apesar da confusão entre os dois projetos ter sido esclarecida, os detratores do PL da Misoginia continuaram pregando que Erika Hilton queria aprová-lo para poder processar mulheres que não aceitam a ideia de mulheres do sexo masculino.

Primeiro, como vimos, a simples leitura do projeto desmente isso, já que não há qualquer referência à identidade de gênero nele.

Segundo, Erika Hilton não precisa desse projeto para processar mulheres por suposta transfobia, tanto que já o fez sem ele. Esse direito quem lhe deu foi a decisão do Superior Tribunal Federal (STF), de 13/06/2019, ao enquadrar as condutas homofóbicas e transfóbicas na tipificação da Lei do Racismo até que o Congresso Nacional edite lei específica.

Terceiro, vai-se deixar de fazer projetos para mulheres porque o pessoal transgênero pode pegar carona neles? Então não se fará mais nada nessa perspectiva. De qualquer forma, essa questão complexa e espinhosa é extrínseca ao projeto em pauta.

Emenda-resposta do colegiado da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher à emenda do deputado Capitão Alden (PL-BA)

Os detratores do PL da Misoginia destacaram, sem contextualização, o trecho da emenda-resposta do colegiado da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara à emenda do tal capitão Alden para alimentar a narrativa de que o projeto restringe a liberdade de expressão. Eis o enquadramento que fizeram dessa resposta e divulgaram nas redes:

O deputado, autodefinido como conservador, patriota, antiesquerdista, armamentista, restringiu tanto o escopo do projeto que, na prática, o anulou. Veja o texto de Alden que motivou a emenda-resposta do colegiado da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher:

‘Art. 20. Praticar, induzir ou incitar discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional ou discriminação contra a mulher, na forma desta Lei:

§ 5º Não configura o crime previsto neste artigo a manifestação de opinião, convicção religiosa, filosófica, científica, acadêmica ou política, desde que não constitua incitação direta e inequívoca à violência ou à prática de discriminação vedada por esta Lei.’”

Por isso, o colegiado da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara, representado por Erika Hilton (PSOL-SP), como presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e a deputada Jack Rocha (PT-ES), como Coordenadora da Bancada Feminina da Câmara Federal, respondeu e justificou:

Justificativa

“A redação proposta na emenda apresentada perante esta Comissão [a do capitão Alden] estabelece verdadeira cláusula geral de exclusão de tipicidade para manifestações de natureza religiosa, filosófica, científica, acadêmica ou política. Embora a Constituição assegure amplamente a liberdade de expressão, de consciência e de crença (art. 5º, IV, VI, VIII e IX), tais direitos não possuem caráter absoluto.

[...]

Nesse contexto, a Câmara dos Deputados tem o dever constitucional de aperfeiçoar e aprovar a proposição, e não de criar cláusulas e excludentes que esvaziem sua eficácia normativa. Alertamos que, se transposta para a Lei nº 7.716, de 1989, a criação de excludentes comprometeria não apenas a tutela penal da misoginia, mas também a própria efetividade da Lei do Racismo, pois permitiria que manifestações discriminatórias dirigidas a grupos vulnerabilizados fossem justificadas como meras opiniões ou convicções pessoais.

A emenda-resposta do colegiado não só nada tem de assustadora como está em sintonia com as leis e a jurisprudência brasileiras sobre discursos de ódio estabelecidas já há 38 anos. Recomendo sua leitura integral. Assustadora é a emenda do deputado Capitão que, por meio de cópia de regra de legislação estrangeira, visa esvaziar a eficácia punitiva do PL da Misoginia.

Transplante Jurídico, incompatibilidade sistêmica

A manobra, aprovada na Comissão de Segurança Pública, adota o critério do "clear and present danger" (perigo claro e iminente) da Primeira Emenda da Constituição americana, exigindo "incitação direta e inequívoca à violência" (direct and unequivocal incitement) para tipificar o discurso de ódio

Entretanto, na maior parte das democracias, incluindo a brasileira, textos constitucionais e leis penais punem a incitação ao ódio, à discriminação ou ao preconceito de forma ampla, sem exigir que a violência seja imediata ou garantida. Portanto, o deputado incorre no que se chama tecnicamente de transplante jurídico (deslocamento de uma regra ou sistema de leis de um país para outro) e em incompatibilidade sistêmica (quando a norma estrangeira ignora o histórico, a cultura jurídica e as leis vigentes locais, gerando conflitos de aplicação).

O Direito Constitucional brasileiro aceita a influência externa, mas exige a validação formal e a compatibilidade absoluta com a Constituição Federal de 1988 (CF/88). A emenda do capitão deputado, apelidada de Emenda Red Pill, está em franca incompatibilidade com a Constituição de 88, na qual, em três artigos, já se condena o racismo e outras formas de discriminação. Cito dois deles:

 Art. 3º, inciso IV: Estabelece como objetivo fundamental da República promover o bem de todos, sem preconceitos de raça, cor e outras formas de discriminação.

 Art. 5º, inciso XLII: Define que a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão.

Também é incompatível com a jurisprudência brasileira formada sobre o tema das discriminações desde a promulgação da Lei do Racismo de 1989 e de todos os seus adendos ao longo de décadas. Assim sendo, a emenda do capitão Alden não se sustenta e deve ser refutada pela relatora do PL.

Suposta vagueza do texto do projeto e suposta censura à liberdade de expressão

Projeto de lei não é tese acadêmica para que seus autores tenham que ficar tecendo grandes elaborações conceituais ao longo do texto. Muito menos um projeto de alteração de lei já existente que apenas acrescenta ou faz emendas no texto-alvo tem essa obrigação.

Disponibilizo a Lei do Racismo, nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, com as alterações que o PL da misoginia busca inserir nela, tanto a versão da autora do projeto, Ana Paula Lobato, quanto a emenda recente da relatora Tabata Amaral. As alterações similares, na verdade, inserções, são apenas cinco e giram em torno dos termos “misoginia, ato de misoginia e condição de mulher”. As maiores inserções são recentes, da relatora Tabata Amaral, estabelecendo a suspensão de contas que propaguem misoginia, lucrem com elas e as penalidades correspondentes, embora em consonância com o restante da lei que já prevê coisas análogas e penalidades idem.

Na prática, quem critica a suposta vaguidão do PL da Misoginia está criticando o texto de uma lei vigente no Brasil há 37 anos. Cumpre salientar, aliás, que, na Lei do Racismo, não consta definição de racismo. Lê-se apenas “Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, etnia, religião, procedência nacional (e misoginia ou condição de mulher, se o projeto for aprovado).” As definições de misoginia apresentadas na versão original do projeto e na da relatora, do PL da Misoginia, em parágrafo único, existem para explicitar o significado de um termo ainda pouco usual que inclusive pode nem ser transplantado para a Lei do Racismo, pois cria assimetria no texto legal.

De qualquer forma, não obstante a relatora ter especificado melhor a definição de “misoginia”, que, na versão original, aparece apenas comoódio ou aversão às mulheres”, o projeto continuou sendo acusado de imprecisão. “Ofender a dignidade da mulher” seria muito vago, mas no Art. 2º-A da Lei do Racismo está lá redigido que “Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro, em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional” é algo a ser penalizado. A dignidade da pessoa humana também é considerada princípio fundamental na Constituição brasileira (artigo 1º, inciso III).

praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional” não é má redação do PL da misoginia, como chegaram a levantar, para alegar a suposta subjetividade do projeto, mas sim o artigo 20 da Lei do Racismo, definição presente em todos os projetos contra as várias discriminações existentes que usam a Lei do Racismo como base.

O grau de disparates dessa campanha de desinformação contra o PL da Misoginia chegou ao surrealismo de se dizer que o texto é mal escrito, sem técnica legislativa e um risco evidente ao Estado de Direito e a Democracia. Como é que o texto da Lei do Racismo que regulamentou o Art. 5º, inciso XLII da Constituição de 88 que define “a prática do racismo como crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão”, vigente há 37 anos, poderia ser risco ao Estado de Direito e à Democracia?  É espantoso.

No mais, como toda a campanha de desinformação, cheia de falácias do espantalho e pânico moral, Tabata Amaral e Erika Hilton foram acusadas de querer impor uma ideia particular de misoginia à sociedade, embora, ao mesmo tempo, o projeto seja acusado de vaguidão. O fato de a relatora querer votar o projeto antes das eleições foi tratado como algum plano maquiavélico para já censurar os 50 tons da direita no próximo pleito. Isso quando qualquer um sabe que a votação de projetos polêmicos acaba evitada em período eleitoral porque pode afastar os candidatos de fatias do seu eleitorado. E porque ninguém sabe quem será eleito, o que pode comprometer a aprovação do projeto posteriormente.

O mau uso do termo “misoginia” por duas mulheres, incluindo a atual primeira-dama, passou a ser tratado como prova insofismável do grande "Perigo, perigo, Will Robinson!” contra a liberdade de expressão (da direita). A emenda-resposta do colegiado da Câmara à emenda Red Pill, de inspiração americana do capitão Alden, também foi rotulada como assustadora "Perigo, perigo, Will Robinson!” contra a liberdade de expressão.

Seria mais digno se os detratores do PL da Misoginia assumissem que simplesmente não querem coibir o discurso de ódio contra mulheres no Brasil em vez de criar o festival de espantalhos que criaram. Deveriam assumir essa posição e o ônus que ela carrega e explicar por que aceitam a criminalização do discurso racista, antissemita, xenofóbico, mas não do misógino.

Fator Erika Hilton

Se na resposta ao capitão Alden Erika Hilton acertou, errou feio ao tentar conter essa medonha campanha de desinformação procurando retirar os posts desinformativos das redes sociais via Advocacia-Geral da União (AGU), pois não cabe a essa instituição de Estado monitorar posts em redes sociais. Como Hilton também tem a mania de responder às críticas a seus hábitos glamurosos ou à sua identidade de gênero com processos contra uns e outras, sua imagem autoritária e sua ação desastrada acabaram por permitir que os 10 perfis acionados pela AGU pudessem posar de meras vítimas de censura, por suas supostas críticas ao PL da Misoginia, quando de fato estavam mesmo promovendo desinformação. Claro, também só ajudou a aumentar a grita de censura dos detratores do projeto.

Conclusão

Aproveitei a pausa das discussões sobre o PL da Misoginia, durante o recesso parlamentar, para revisitar o projeto e as fake news que o atingiram. Para isso, delimitei o conceito de discurso de ódio e seus efeitos sobre grupos estigmatizados, tomando como exemplos a onda recente de antissemitismo e a atual onda de misoginia.

Examinei particularmente a campanha de desinformação contra o PL da Misoginia e suas principais estratégias: atribuir ao projeto trechos de outras propostas, retirar de contexto respostas legislativas durante sua tramitação e apresentar como ameaça inédita à liberdade de expressão uma estrutura jurídica já existente há décadas, a Lei do Racismo. De modo geral, a campanha associou o PL a temas e riscos que não decorrem do seu próprio texto, o que demonstra a intenção de “enterrá-lo” e não de aprimorá-lo.

Eu mesma fui induzida a erro algumas vezes por essa campanha de desinformação. Demorei a perceber que algo estava errado nos debates sobre o projeto porque não tinha acompanhado o início das fakes sobre ele e porque elas estavam sendo reproduzidas por gente que considerava razoavelmente confiável. Além disso, nem sempre encontramos tempo para fazer pesquisas sobre todos os temas que aparecem em redes sociais.

O fato é que preocupações com restrições à liberdade de expressão, com possíveis censuras, nesses tempos hostis à democracia, são legítimas e válidas. Entretanto, a disseminação deliberada de notícias falsas não é opinião nem simples erro de avaliação, mas sim estratégia para enganar as pessoas e demonstração de falta de argumentos. Assim como o discurso de ódio não é liberdade de expressão, divulgação de fake news não se confunde com debate verdadeiro.

“O problema com a mentira e o engodo é que só são eficientes se o mentiroso e o impostor têm uma clara ideia da verdade que estão tentando esconder.” Hannah Arendt (A mentira na política)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Sobre meritocracia e a jovem bilionária brasileira

Luana Lopes Lara, bilionária self-made
Incrível como o sucesso de Luana Lopes Lara, jovem brasileira que se tornou milionária aos 29 anos, suscitou o despeito, misturado a muito sexismo, da esquerda anacrônica e retrógrada que temos no Brasil. 

Um sujeito teve a "capacidade" de levantar a árvore genealógica da moça pra tentar diminuir seu mérito porque ele não adviria de seu talento e esforço, mas sim de condição social privilegiada. Lembrei daquela frase do Churchill: "O socialismo é a filosofia do fracasso, o credo da ignorância e o evangelho da inveja". Também do velho ditado "A inveja é a homenagem que a mediocridade presta ao talento".

A família da moça é tradicional, bem de vida, mas não milionária. A mãe, professora de matemática; o pai, engenheiro elétrico. Provavelmente colocaram a filha para estudar balé no Bolshoi Brasil a fim de lhe inculcar disciplina, já que o treinamento dos bailarinos é pra deixar o de qualquer atleta no chinelo.

Chegou a atuar como bailarina profissional na Áustria por pouco tempo, mas decidiu investir na outra área com a qual sempre teve familiaridade, a área de matemática e tecnologia, entrando no MIT (Massachusetts Institute of Technology), uma das mais prestigiadas universidades do mundo. Saiu de lá para fundar a empresa Kalshi de previsões de mercado. 

Luana não recebeu a empresa de herança. Ela fundou a empresa, com um colega, Tarek Mansour que, em 6 anos, a transformou em bilionária. Ainda no Brasil, Luana foi medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Astronomia e bronze em matemática. Nos EUA, antes de sua empresa, ela passou por processos seletivos nas conceituadas hedge funds Bridgewater e Citadel (de Ken Griffin). O dinheiro compra muita coisa - dizem que até amor verdadeiro - mas não compra inteligência, não compra talento, não compra resiliência. Essas características individuais são dadas pela natureza, não por condições sociais. Mulher rica sem talento vira socialite. As com talento virão empresárias, cientistas. 

Mulheres que vieram de condições sociais adversas também conseguem ser bem-sucedidas por meio de seus talentos. A deputada federal Tabata Amaral veio da periferia, pai motorista de caminhão, mãe vendedora de flores, diarista, muitas dificuldades econômicas, mas seu talento chamou a atenção de professores, já na escola primária, que a ajudaram com despesas educacionais. Depois obteve uma bolsa de estudos no colégio Etapa. Participou em cinco competições internacionais de ciências, como a Luana. Em 2012, com mentoria do programa da Fundação Estudar para jovens talentos, que também financiou Luana, teve a chance de estudar e se formar na Universidade de Harvard em Astrofísica e Ciência Política. Deveria ter ficado na área tecnológica em vez de se meter na política brasileira capaz de rebaixar o QI até do Einstein.

A famosa JK Rowling, terror dos tonhões peruqueiros, tornou-se bilionária exclusivamente por seu talento literário. Antes da fama, Rowling era uma mãe solteira e desempregada, vivendo de assistência social na Escócia. Seu primeiro livro, Harry Potter e a Pedra Filosofal, reza a história, foi escrito em cafés, enquanto sua filha dormia no carrinho de bebê. A saga inteira de Harry Potter, com sete livros, vendeu mais de 600 milhões de cópias em todo o mundo, foi traduzida para mais de 80 idiomas e a tornou uma mulher rica.


Contra a meritocracia, pela mediocracia

Os críticos da meritocracia aparentam partir da ideia de que, como existem muitas diferenças sociais entre as pessoas, um sistema baseado em mérito seria impossível, já que o ponto de partida das pessoas é desigual. De fato, porém, seus problemas com a meritocracia advêm de ela supostamente levar a resultados desiguais entre as pessoas. O pesquisador e educador australiano Professor Steven Schwartz cita, em seu texto "Em Defesa da Meritocracia", dois trechos de Michael Sandel, autor de A Tirania do Mérito: o que aconteceu com o bem comum, bíblia dos antimeritocráticos:
Mesmo que fosse possível garantir que todos tenham igualdade de oportunidade de competir por bens sociais (como a entrada em uma universidade de elite), a sociedade permaneceria estratificada porque diferenças inatas de talento e perseverança produziriam resultados desiguais.
Uma meritocracia perfeita bane todo senso de dom ou graça", escreve ele. "Isso diminui nossa capacidade de nos vermos como compartilhando um destino comum. Deixa pouco espaço para a solidariedade que pode surgir quando refletimos sobre a contingência de nossos talentos e fortunas."

Estes trechos mostram claramente que, para os antimeritocráticos, o que veem de errado na meritocracia é que ela se opõe à ideia contranatural de igualdade de resultados defendida por essa turma. Contranatural porque é a Mãe Natureza quem nos faz desiguais. Ela não distribui nada igualitariamente: nem beleza, nem inteligência, nem talentos, nem características de personalidade e caráter, como a perseverança, a resiliência. Não há como existir igualdade de resultados a não ser nivelando forçosamente todo mundo por baixo, coibindo os talentos, promovendo a estagnação do progresso humano que advém de indivíduos destacados. É o que vemos hoje com a substituição do mérito acadêmico pela ascensão educacional via sistema de cotas por identidades grupais. Em vez de produzir espaço para a solidariedade, como diz Sandels, esses esquemas produzem conflitos, discórdias e ressentimentos. Produzem sobretudo muita mediocridade. 

Lutar por sociedades que deem igualdade de largada para todos, a chamada igualdade de oportunidades, é dever de quem quer progresso social e justiça. Combater a pobreza e as discriminações sociais é parte indissociável desse pacote. Entretanto, como diz o professor Schwartz em seu artigo:
Evitar a meritocracia é contraproducente tanto social quanto economicamente. Em vez disso, vamos nos esforçar para refiná-la e aperfeiçoá-la. Uma meritocracia verdadeiramente liberal trata todas as pessoas de forma justa, reconhece nossa humanidade compartilhada e oferece a todos os membros da sociedade a oportunidade de se elevarem com base em seus méritos.
Usar condições sociais como desculpa para inveja, mediocridade, sexismo é ridículo. A jovem Luana Lopes Lara é um claro exemplo de sucesso. O Brasil precisa deixar de ser o país que curte o fracasso.

sexta-feira, 18 de abril de 2025

As garotas atropeladas, a imprensa irresponsável e os apologistas da imprudência

O artigo 254 do Código de Trânsito Brasileiro afirma que
é proibido ao pedestre VI – desobedecer à sinalização de trânsito específica
A imprensa brasileira anda de mal a pior. Quando não é chapa-branca, é desinformativa. Há mais de 2 anos, vivemos com o factoide da tentativa de golpe bolsonarista que não aconteceu. A cúpula bolsonarista até cogitou, planejou uma quebra institucional, em dezembro de 22, mas nada foi executado por falta de apoio. E se nada foi executado, por óbvio não houve sequer tentativa. A baderna da turba bolsonarista do dia 8/1/23 foi vandalismo, alguma pichação e micagens em frente de quartel, mas nada disso é capaz de produzir um golpe de estado. Acusam os bolsonaristas de um crime impossível, com a ajuda da imprensa sucursal de governo e de juízes politiqueiros.

Casamento de imprudências

Agora, duas jovens, Isabelli Helena de Lima Costa e Isabela Priel Regis, de 18 anos, foram atropeladas, em 9 de abril de 2025, na Avenida Goiás de São Caetano do Sul, cidade do ABCD paulista com um dos maiores índices de desenvolvimento humano do país. A tragédia decorreu da imprudência das moças, que atravessaram a faixa de pedestres com o sinal fechado para elas, e da irresponsabilidade de um celerado, Breno dos Santos Sampaio, de 26 anos, dirigindo a altíssima velocidade dentro de perímetro urbano (mais de 100 por hora). A culpa do sujeito é inequívoca. Quanto maior a velocidade, maior o risco de se produzir acidentes fatais.

Se bem que, num aparte, já presenciei uma mulher ser atropelada na Av. Paulista (em frente à Faculdade Cásper Líbero), em meio a um congestionamento, porque ela decidiu cruzar a avenida entre os carros e não na faixa de pedestres. Na primeira andada a mais que os carros deram, ela foi atingida, embora a velocidade máxima fosse de uns 40 por hora.

Imprensa irresponsável negligenciando imprudência de pedestre

Então, no caso das garotas de São Caetano, não vi ninguém questionar a culpa do motorista. Problema é que a imprensa resolveu passar pano total para a imprudência das garotas. As manchetes se tornaram exclusivamente do tipo “duas jovens foram mortas na faixa de pedestres por motorista que dirigia em alta velocidade em São Caetano do Sul.” O “detalhe”, nada irrelevante para entender a tragédia, de que elas atravessaram a avenida de três faixas com o sinal vermelho ou desapareceu ou ficou perdido no meio de textos mais preocupados em dizer que o pedestre tem preferência na faixa de pedestres mesmo com o sinal vermelho para ele. Em outras palavras, a culpa do desastre teria sido exclusivamente do motorista por estar correndo demais, embora o sinal estivesse verde para ele.

A história de que o pedestre tem preferência absoluta na faixa de pedestres está mal contada e induz as pessoas a erro. Quando há semáforo em ruas e avenidas, tanto motoristas quanto pedestres TÊM QUE RESPEITAR O SINAL correspondente. Os carros só podem seguir com o semáforo verde, os pedestres só podem atravessar com o sinal verde para eles. Apenas no caso de o pedestre ter atravessado direitinho no sinal verde para ele, mas no final de sua travessia o sinal mudar para o vermelho, os carros devem esperar até que termine sua passagem, mesmo que o semáforo esteja verde para os veículos. Obviamente, trata-se da situação em que os carros estão esperando no semáforo sua hora de passar, atrás da faixa de pedestres.

No caso das garotas, contudo, elas começaram a travessia com o sinal vermelho para elas - um primeiro carro já passou em boa velocidade em sua frente nessa trajetória - e foram atropeladas quando o sinal continuava vermelho. Mesmo depois da colisão, o sinal levou ainda alguns segundos para ficar verde para os pedestres. Isso significa que o sinal estava verde para o motorista (como ele afirma), ou mudando para o amarelo (como afirma a polícia) no momento da colisão. Como disse, a culpa do motorista é inequívoca, por estar trafegando em alta velocidade em via urbana, o que facilitou a tragédia, mas não é possível nem responsável ignorar a imprudência das garotas. Imprudência seguramente derivada do hábito que pedestres têm no Brasil de atravessar ruas e avenidas com sinal vermelho para eles.

Os surreais apologistas da imprudência

Entretanto, seja por esse mau hábito de não respeitar sinal vermelho e/ou por causa da história mal contada de que o pedestre sempre tem razão mesmo quando tenta se jogar embaixo de um carro, um bocado de gente parece ter se identificado com o comportamento imprudente das garotas e decidiu transformar o sem noção do motorista no único vilão da história. Algo que, objetivamente falando, só teria sentido se o motorista tivesse perdido o controle do carro, por estar em altíssima velocidade, invadido a calçada onde estavam as moças, que estariam responsavelmente esperando o sinal abrir para elas, e as atropelado ali mesmo. Casos assim já aconteceram de fato e não são, infelizmente, incomuns, acrescidos muitas vezes do agravante do motorista estar bêbado.

Não foi o que aconteceu, claro, no caso em pauta, mas, no clima histérico e maniqueísta que transforma qualquer assunto em briga de torcida nas redes sociais, as gurias viraram as inocentes mártires do trânsito insano do país, o motorista, um monstro digno de linchamento e qualquer pessoa apontando que essa dicotomia não se sustenta virou passadora de pano para o criminoso assassino de donzelas. A situação foi tomando ares cada vez mais surreais com gente afirmando que identificar a participação das gurias no próprio infortúnio era a demonstração de que o Brasil é um país bárbaro, desumano que jamais atingirá a civilização. É para acabar.

Lembrei do choque civilizatório que sofri quando estive em Genebra, na Suíça, a terra dos relógios, chocolates e bancos. Foram vários os choques, entre eles, para não sair muito do tema dessa postagem, o comportamento dos suíços em frente a uma faixa de pedestres. Fiquei parada com eles e uma amiga brasileira na calçada de uma dessas faixas esperando o sinal ficar verde para atravessar uma rua de duas mãos relativamente larga. Não vinha viva alma de carro em nenhuma das direções da rua, e eu já querendo atravessar, mas nenhum nativo moveu um músculo nesse sentido, e, por constrangimento, nem eu. Só quando o sinal abriu mesmo, o pessoal atravessou a faixa diante de um ou dois carros que enfim haviam aparecido.

Isso foi há muito tempo e não sei se, hoje, com a política de imigração em massa criando sérios problemas culturais e sociais na Europa, continua havendo essa demonstração de civilidade em Genebra. Você pode até achar exagerado pedestre não atravessar rua mesmo não havendo carro algum à vista, mas isso sim é exercício de civilidade, mesmo porque a gente não fica horas parada na calçada, ao contrário do que os apologistas da imprudência andaram dizendo em torno da tragédia envolvendo as garotas.


Nota: Por coincidência, entrando hoje, dia 21/04/2025, no X, me deparei com esse vídeo do perfil Rafael Zattar impressionado com o fato dos europeus, no caso espanhóis, não cruzarem a faixa mesmo não avistando carro por perto. Então, parece que os europeus permanecem civilizados. 

Como já disse anteriormente, esse pessoal identificado com a imprudência das gurias, certamente pelo costume de também atravessar ruas com o sinal fechado, saiu dizendo que qualquer pessoa teria atravessado a faixa porque ninguém iria ficar plantado numa esquina tarde da noite sem ver carro à vista. Que era hipócrita e idiota (sic) quem argumentava que elas deveriam pelo menos ter olhado melhor antes de atravessar porque as gurias não poderiam calcular que numa via com limite de 50 a 60 por hora iriam se deparar com um motorista a mil por hora e não tinham como avistá-lo(sic).

Sério que há tempos não lia tal cascata de bobagens falaciosas e, ainda por cima, vinda de gente resmungando que o Brasil está condenado à barbárie enquanto, ao mesmo tempo, referenda, paradoxalmente, comportamentos irresponsáveis no trânsito. Para começar, ninguém fica plantado na calçada em frente de faixa de pedestres em qualquer horário. O tempo médio de espera para atravessar, segundo o Estatuto do Pedestre, deve ser de um minuto e meio, mas a ONG  Instituto Corrida Amiga encontrou um tempo de espera de abertura de dois minutos e 11 segundos, em uma pesquisa com 167 semáforos analisados em 21 cidades de seis Estados. A partir dessa pesquisa, a ONG também relatou que o sinal verde para os pedestres atravessarem leva uma média entre 7 a 10 segundos aberto, tempo ínfimo considerando a diversidade etária e de mobilidade física dos pedestres. Não por menos, quando na travessia em semáforo, como comentei anteriormente, os motoristas devem esperar o pedestre concluir a passagem mesmo que o sinal já esteja verde para os carros. De qualquer forma, desde quando 2 minutos de espera para atravessar uma avenida pode ser encarado como ficar plantado numa esquina, principalmente considerando que disso pode depender sua vida? E, no caso das jovens, elas estavam numa avenida bem iluminada com bastante gente circulando ainda, apesar de ser cerca de 23:00. Não havia qualquer pressão extra para que arriscassem a vida cruzando a faixa de pedestres no vermelho.

Quanto a chamar de idiota e hipócrita a sensata ponderação de que as garotas ao menos deveriam ter olhado melhor antes de atravessar porque supostamente elas não teriam como identificar o perigo do motorista a mil por hora, vale lembrar que, primeiro, exatamente porque não há como saber  que tipo de motorista está trafegando e em que velocidade, não se deve atravessar faixa de pedestres no vermelho. Aliás, qual o sentido de ir para uma faixa de pedestres para passar no vermelho? Em termos de segurança, são duas atitudes que se anulam. Depois, que, no caso das das jovens de São Caetano, elas só olharam uma vez na direção de onde vinham os carros antes de iniciar a travessia. Nenhuma outra vez, embora a recomendação das autoridades de trânsito aos pedestres é de sempre atravessar em sua faixa respectiva, respeitar a sinalização de trânsito, olhar para ambos os lados antes de atravessar e não correr.

Isabelli e Isabela morreram atropeladas em São Caetano do
  Sul ao atravessarem a faixa de pedestres com o sinal vermelho

 Os vídeos sinceros e as responsabilidades devidas

Observando dois vídeos que registraram mais do que a travessia propriamente dita das jovens rumo ao atropelamento, percebe-se em um (abaixo) que elas vêm caminhando pela calçada enquanto alguns carros e uma moto, que estavam parados no semáforo, iniciavam a partida porque o sinal de pedestres já estava no vermelho. Quando elas chegaram na faixa de pedestres, o sinal continuava vermelho para elas, mas elas apenas deram uma olhada na direção de onde vinham os carros e iniciaram a travessia. Aí temos o primeiro carro que passa em boa velocidade na frente delas, e o próximo que as atropela. Apenas um segundo antes da colisão, a garota de blusa preta olha na direção da trajetória dos carros quando parece se dar conta do veículo que ia atropelá-la (de arrepiar). A outra nem isso. Então, procede a ponderação de que, ao menos, deveriam ter olhado melhor ao travessar. Quem sabe não teriam tido tempo de evitar a colisão quando ainda estavam na segunda faixa, sendo que o atropelamento foi na terceira?

No segundo vídeo, seguindo a marcação de tempo das imagens, elas foram atropeladas aos 7 segundos da travessia, e, 5 segundos depois, o sinal passa para o verde e permanece verde durante os 17 segundos restantes da gravação. Não dá para saber por quanto tempo o sinal fica verde ao todo porque o vídeo não vai até a nova mudança para o vermelho. No entanto, pode-se concluir que se elas tivessem esperados 12 segundos para atravessar no verde, elas não teriam cruzado com o celerado a mais de 100 p/hora. Elas somente teriam visto o carro passar voando, mas não teriam sido suas vítimas.

Portanto, mais uma vez, a tragédia que se abateu sobre as jovens começou, em primeiro lugar, com sua decisão imprudente de cruzar a avenida no vermelho e terminou com a irresponsabilidade do motorista trafegando a mais de 100 por hora em via urbana. Elas foram as protagonistas da tragédia, ele, o coadjuvante. Como elas morreram na flor da vida, o cara sobreviveu (o acidente poderia ter sido  fatal para ele também) e, em relação ao carro, o ser humano sempre é a parte mais frágil da situação, foi fácil transformar o motorista no boneco de Judas da história e o sair malhando a torto e a direito sem ver mais nada. Além disso, pelo histórico que se levantou dele, já vinha acumulando multas por excesso de velocidade e carma suficiente para produzir uma fatalidade, o que ampliou seu linchamento virtual. No entanto, com mais distanciamento emocional, repito, constata-se de forma irrefutável, pela marcação do tempo do vídeo, como já citado, que elas teriam sobrevivido a ele se tivessem esperado 12 segundos pelo sinal verde porque ele passou aos 7. O que custa esperar 12 segundos para garantir até possíveis 2.524.608.000 segundos de vida (80 anos)?

Como disse no início do texto, a imprensa foi muito irresponsável por espalhar a visão enviesada de que o pedestre tem a preferência em qualquer circunstância, mesmo atravessando no vermelho numa faixa de pedestres. Fiquei de cara ao ver um vídeo da Globo onde inclusive o repórter reconhecia que as garotas tinham atravessado no vermelho, mas como se fosse algo naturalíssimo e não tivesse a ver com a tragédia, embora haja sido o cerne dela. A imprensa perdeu a grande chance de enfatizar junto à população, com toda a delicadeza necessária pela dor das famílias das moças, que pedestres também precisam respeitar o sinal por uma questão de sobrevivência inclusive.

Parece que a péssima apuração dos fatos para a criação das reportagens, o espírito lacrador e a mentalidade maniqueísta, dicotômica e histérica vigentes em redes sociais, fora a malfadada sinalização de virtude,  ajudaram a produzir um clima nada propício, ao contrário do que andaram dizendo, a amenizar a barbárie do trânsito brasileiro com a qual motoristas e pedestres contribuem.  Só para citar um exemplo que questiona o mantra do “pedestre sempre tem preferência (duh!)” como desculpa para tudo, o artigo 254 do Código de Trânsito Brasileiro afirma que, entre outras coisas, é proibido ao pedestre V – andar fora da faixa própria, passarela, passagem aérea ou subterrânea; VI – desobedecer à sinalização de trânsito específica podendo até arcar com multa (que não creio que seja cobrada, mas deveria). Pedestre sempre tem preferência? Depende de onde ele está circulando (A legislação brasileira rege as normas que devem ser seguidas nas estradas, e os pedestres têm deveres assim como os automóveis).

Por fim, ainda houve os que levantaram uma suposta falta de empatia na indicação da participação das jovens na própria tragédia. Mas não é possível ter empatia com os mortos, só com os vivos. Pelos mortos, a gente tem respeito, quando se dão ao respeito, ou luto compassivo quando se vão, por exemplo, tão jovens por um ridículo descuido. O verdadeiro respeito que devemos ter por Isabelli Helena de Lima Costa e Isabela Priel Regis é no sentido de alertar a todas as pessoas, como deveria ter feito a imprensa, para que não cometam o mesmo erro que elas cometeram a fim de salvar suas vidas. Perder a vida por não esperar 12 segundos por uma mudança de sinal é de partir o coração em muitos pedaços. Quanto ao motorista, Breno dos Santos Sampaio, por sua participação nesse drama, espera-se que, no mínimo, perca a carta de habilitação mas também pague por homicídio com dolo eventual (quando se assume o risco de matar, de acordo com o Código Penal, no Art. 121). 

Código de Trânsito Brasileiro:

Art.70 Capítulo IV – DOS PEDESTRES E CONDUTORES DE VEÍCULOS NÃO MOTORIZADOS


Os pedestres que estiverem atravessando a via sobre as faixas delimitadas para esse fim terão prioridade de passagem, exceto nos locais com sinalização semafórica, onde deverão ser respeitadas as disposições deste Código.

Parágrafo único. Nos locais em que houver sinalização semafórica de controle de passagem será dada preferência aos pedestres que não tenham concluído a travessia, mesmo em caso de mudança do semáforo liberando a passagem dos veículos.

Portanto, faz-se necessário ressaltar que nos locais em que há sinalização semafórica, tanto o condutor como o pedestre, devem corresponder com as respectivas luzes.

Ou seja, se a luz do semáforo estiver vermelha para os condutores, significa que está no momento do pedestre atravessar; enquanto que quando a luz do semáforo estiver verde para os condutores, significa que os pedestres precisam esperar para alterar a sinalização. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Penny Dreadful: revendo uma das melhores séries de terror e fantasia

Sir Malcom Murray, Vanessa Ives, Ethan Chandler (à frente),
Dorian Gray, Dr. Frankenstein 
(atrás)

Decidi rever Penny Dreadful, oito anos após seu final em 19 de Junho de 2016, pois ela entrou no catálogo da Paramount + no ano passado e já fazia algum tempo que vinha programando reassisti-la. Embora o impacto tenha sido menor do que na primeira audiência, asseguro que ela continua uma das melhores séries de horror e fantasia que conheço. Inclusive entendi melhor o enredo agora do que da primeira vez, quando me pareceu um pouco confuso. Imperdível não só para os aficionados do gênero como também para quem aprecia simplesmente um trabalho bem-feito.

A série foi muito curta, apenas três temporadas, e me pareceu na época que poderia ter rendido mais uma temporada ao menos, sem risco de perder sua qualidade característica. A propósito, qualidades foram sua marca registrada: roteiro originalíssimo (costurando a história dos monstros da literatura gótica numa única história), atores incríveis, boa pesquisa de época, figurino, cenários, fotografia e efeitos especiais de primeira. A principal nota destoante de toda essa cascata de qualidades me pareceu exatamente o "the end", numa terceira temporada um pouco inferior às duas primeiras. Foi como se, na pressa de terminar a série, porque foi prevista para apenas três temporadas mesmo ou porque era muito cara e não estava compensando, a história tivesse que obrigatoriamente se encaixar nessa necessidade, culminando num final um tanto distante do brilhantismo da obra no geral e mesmo um pouco contraditório com a evolução da personagem principal.

Penny Dreadfuls originais
Mesmo assim, em apenas três temporadas, Penny Dreadful, que o diretor John Logan afirmou ter sido um soneto, fez e aconteceu, inspirada nos reais penny dreadfuls, livretos baratíssimos (centavos), que contavam histórias macabras, em circulação nas terras da rainha do século XIX (a partir de 1830). A série reuniu, num mesmo roteiro, tendo como cenário a Inglaterra vitoriana (em meio ao avanço científico e o processo de industrialização), personagens baseados em figuras icônicas do período, como exploradores da África, egiptólogos e prostitutas e em personagens clássicos  da literatura de terror. 

Assim desfilaram, na telinha, figuras como o desbravador ou explorador do novo mundoSir Malcom Murray (Timothy Dalton), seu mordomo africano Sembene (Danny Sapani), o egiptólogo Ferdinand Lyle (Simon Russell Beale) e a prostituta Brona Croft (Billie Piper). Ao lado deles,  personagens clássicos do horror como o Dr. Victor Frankenstein (Harry Treadaway) e suas criaturas Calibã/John Clare e Lily (Rory Kinnear e Billie Piper novamente), Dorian Gray (Reeve Carney), o lobisomem americano Ethan Chandler (Josh Hartnett) e o lobisomem apache Kaetenay (Wes Studi), bruxas (inspiradas nas das peças Macbeth e A Tempestade de Shakespeare), com destaques para Madame Kali (Evelyn Poole) e Joan Clayton (Patti LuPone que também reaparece como a psicoterapeuta Florence Seward), vampiros, vários, incluindo obviamente Drácula (Christian Camargo), Dr Jekill/Mister Hide (Shazad Latif), além de, claro, o eixo de toda a história, a médium perseguida e atormentada pelo mal, Vanessa Ives (Eva Green dando showzaço). Todos se encaixando com a maior naturalidade numa história sombria, melancólica e passional.

Vanessa Ives (Eva Green)
Além da  intertextualidade dos romances góticos do século XIX, Penny Dreadful faz também referências, em vários episódios, a poetas românticos como Percy Shelley, John Keats, William Wordsworth e John Clare, este último inclusive tendo o nome incorporado pela criatura do Dr. Frankenstein. Aliás, é principalmente pela voz da criatura de Frankestein, um aficcionado de poesia, que a série  apresenta seus momentos mais tocantes. Um exemplo no vídeo abaixo de um encontro entre Vanessa Ives e John Clare (a criatura de Frankenstein) onde ambos declamam o poema "Eu Sou", do poeta John Clare, que os representa tão bem.

Na cena desse encontro, Vanessa pergunta à criatura de Frankenstein se ele sabia que tinha o mesmo nome de um poeta morto. Ele responde que sabia sim e pergunta a Vanessa se ela gostava de poesia, ao que ela responde que todas as pessoas tristes gostavam de poesias, as felizes, gostavam de canções. A criatura então diz que a história do poeta John Clare sempre o havia emocionado. Que ele só tinha 1,52, era bem baixinho, por isso considerado bizarro. Por causa disso, o poeta provavelmente sentia uma afinidade singular com os excluídos, os odiados. Os animais feios. As coisas quebradas. Em seguida, ele declama a parte inicial do poema Eu sou, e Vanessa a parte final. Coloquei a tradução do poema abaixo.

I Am!

John Clare

I am! yet what I am who cares, or knows?
My friends forsake me like a memory lost.
I am the self-consumer of my woes,
They rise and vanish in oblivious host,
Like shadows in loves frenzied stifled throes
And yet I am—and live—like vapor tossed.

I long for scenes where man has never trod, 
A place where woman never smiled or wept;
There to abide with my Creator, God,
And sleep as I in childhood sweetly slept
Untroubling and untroubled where I lie
The grass below; above, the vaulted sky.

Eu sou — mas ninguém conhece ou se importa com o que sou
Meus amigos me abandonam como uma memória perdida;
Eu sou o autoconsumidor de minhas aflições;
Elas surgem e desaparecem no exército do esquecimento,
Como sombras nas agonias frenéticas e sufocadas do amor:
E ainda assim eu sou, e vivo — como vapores que se dissipam.

Anseio por cenários onde o homem nunca pisou,
Um lugar onde a mulher nunca sorriu ou chorou,
Para ali habitar com meu Criador, Deus;
E dormir como eu dormia docemente na infância,
Tranquilo e imperturbável onde eu deito,
A grama abaixo — acima, o céu abobadado.

 De fato, destoando do terror tradicional, Penny Dreadful, embora não fuja totalmente ao estilo, se dedica mais a tematizar as agruras da existência humana, em particular as agruras daqueles à margem da sociedade bem estabelecida (apesar de alguns personagens serem imortais). Os conflitos entre o desejo de as pessoas viverem plenamente sua individualidade e as pressões da sociedade em contrário, em particular no caso das mulheres, os amores correspondidos e não correspondidos, possíveis e impossíveis, em suas múltiplas formas, as ambições, as culpas, o sexo, as perdas, a morte sempre à espreita  e, sobretudo, a solidão.

Reeve Carney, perfeito como Dorian Gray
Do sempre rico, jovem e belo dândi Dorian Gray (e o ator Reeve Carney está perfeito no papel) à criatura meio desfigurada do dr. Victor Frankestein, todos os personagens sofrem de uma solidão profunda seja por suas singularidades "monstruosas" rejeitadas pela sociedade seja por seu destino inexorável. Mesmo Gray, que tem um ar blasé e vive na busca incessante de novas emoções para suportar o tédio de sua vida especial, revela por um momento que o preço da imortalidade era a eterna solidão, já que todos ao seu redor envelheciam, adoeciam e morriam e apenas ele permanecia sozinho e imutável como seus retratos na parede (temporada 3, ep. 9).

Outro tópico que a série tematiza, ao retratar a Inglaterra do séc. XIX, é o da passagem de uma sociedade rural, natural, religiosa, com a Bíblia como bússola, para uma sociedade urbana, fabril, de motores a vapor, iluminada por lampiões e lamparinas a óleo ou gás e já por alguma eletricidade, com a ciência desbancando a religião de seu lugar de mestra sobre a origem de tudo. Aparentemente, isso seria uma evolução, uma saída de uma era de superstições para a era da Razão que explicaria os fenômenos objetivamente.

Entretanto, Penny Dreadful nos leva a perguntar  se, entre essas duas eras ainda parcialmente coexistentes, não haveria mais em comum do que sonham as vãs filosofias. Seriam as torturas que Vanessa Ives sofre das e dos mensageiros do diabo, que a quer como esposa, piores das que ela sofre da moderna psiquiatria que tenta normalizá-la apelando até para a trepanação (cirurgia no cérebro)? Não me parece coincidência também que a bruxa boa Joan Clayton que ajudara Vanessa a conhecer e a controlar seus poderes reapareça como a psicoterapeuta Florence Seward que igualmente busca ajudar Vanessa, mas não com tanto sucesso como sua parenta bruxa.

É também nos porões de um hospício, com os insanos presos por correntes às paredes, que os dois cientistas da série, ninguém menos que Dr. Frankenstein e Dr. Jekyll, usam os doentes como cobaias para novas drogas visando deixá-los menos doidos mas também mais dóceis, algo que Dr. Jekyll sonhava em fazer com sua criatura rebelada, Lily, por quem se apaixonara mas que o rejeitava. De fato, Penny Dreadful mantém o questionamento original, dos romances de onde esses dois personagens emergem, sobre a ambição dos cientistas em adulterar a ordem natural das coisas, das consequências da curiosidade científica sem considerar suas implicações éticas. Do século XX, com o nazista Dr. Mengele fazendo experimentos em crianças judias, ao século XXI, com a suposta medicina transgênero, impedindo o desenvolvimento natural de crianças e adolescentes, com bloqueadores de puberdade e cirurgiais mutiladoras e esterilizantes, essa discussão não poderia ser mais atual. Todo o século tem novos Frankensteins?


Por fim, Penny Dreadful aborda também a questão da sexualidade, seja a da homossexualidade seja a da sexualidade feminina, e a condição da mulher no século XIX. A homossexualidade aparece na figura do egiptólogo Ferdinand Lyle e na dos homens com quem o bissexual Dorian Gray se relaciona, a travesti Angelique e Ethan Chandler. Também num triângulo amoroso entre Dorian, Lily e Justine, garota prostituída que o casal Dorian-Lily salva da morte.

O Lupus Dei, Ethan Chandler, e Vanessa Ives
A abordagem da condição e da sexualidade femininas estão presentes principalmente na história da protagonista Vanessa Yves e na da prostituta tornada criatura do Dr. Frankenstein, Brona Croft/Lily. Vanessa cresce numa família da elite da época, mas desde pequena destoou do modelo de mulher  vigente, sendo muito ousada e livre para a era vitoriana. Popularmente se diria que tinha parte com o diabo, mas a série acaba mostrando que ela tinha mesmo, sendo acossada pelo dito em diferentes formas e por diferentes vias. Uma dessas vias preferenciais era a luxúria, o grande pecado capital da moça  e fonte de eterna culpa (culpa aguçada por ser católica). Foi por um ato de luxúria que perdeu sua amiga de infância Mina, pela luxúria os demônios a possuíram a ponto de ela ficar com receio até de se relacionar com o Lupus Dei, o Lobo de Deus, Ethan Chandler, por quem de fato se apaixonou. Quando conseguiu se relacionar com outro homem foi só para descobrir no fim que era o Drácula em pessoa. Desditosa Vanessa que, após superar tantos sofrimentos e se tornar guerreira, merecia escapar desse destino de tragédia grega incrementado por uma Inglaterra puritana.

Lily Frankenstein
A irlandesa Brona Croft, ao contrário de Vanessa, cresceu na pobreza e não viu outra solução para sobreviver senão se prostituir. Nós a encontramos já bem doente de tuberculose (uma doença fatal da época bem como a cólera) mas ainda na ativa, atendendo o cliente Dorian Gray, como modelo de fotos nuas, com quem também transa, e tendo um casete com Ethan Chandler, o lobisomem americano, em uma espelunca onde os dois párias se encontraram por acaso. Chandler se afeiçoa realmente por Brona e decide levá-la a uma apresentação de teatro (a peça era baseada em um Penny Dreadful) onde ele a apresenta a Vanessa Ives e a Dorian Gray que também estavam presentes. Dorian a reconhece e a constrange, e Vanessa a cumprimenta calorosamente. 

Aqui, temos o início de uma falha dessa série tão detalhista. Depois desta cena do teatro, a saúde de Brona piora, e ela fica de cama. Por outro lado, na história do Dr. Frankenstein, a primeira criatura do doutor a quem este rejeitara desde o nascimento, John Clare, reaparece ameaçando o médico de matar todos seus conhecidos se ele não lhe produzisse uma companheira. Frankenstein estava com essa dívida quando é contatado por Chandler, que conhecera via Vanessa Ives, para atender Brona. Frankenstein vai atendê-la e usa de pretexto para ficar sozinho com a doente e abreviar-lhe o inevitável desfecho. Depois leva o corpo para seu laboratório a fim de realizar seu vudu científico e ressuscitá-la.

Brona ressuscita sem memória (temp. 2, episódio 1), e Frankenstein a rebatiza de Lily (a flor da ressurreição e renascimento), a educa e por ela se apaixona, consumando o relacionamento. Decide inclusive vesti-la como as damas de sua época e convida Vanessa Ives para ajudá-lo com a escolha das roupas. Em outra ocasião, convida Vanessa para conhecer Lily, apresentando-a como sua prima que viera do campo. Incompreensivelmente, Vanessa que já havia sido apresentada a Brona no episódio do teatro não a reconhece em Lily. E, claro, a ressuscitada só mudara a cor do cabelo para louro, em mais nada (temp. 2, episódio 5). Fora que Vanessa era bastante observadora. No episódio posterior (6), o casal Victor-Lily é convidado para um baile na casa de Dorian Gray que, ao ser apresentado a Lily, logo vê nela a Brona com quem transara. E esse encontro dos dois vai mudar o que Lily vinha sendo ou fingindo ser desde seu renascimento: uma moça tímida, totalmente dependente de Frankenstein, que fazia o tipo bela, recatada e do lar. 

Ao estreitar seu relacionamento com Dorian, ela parece também se dar conta de sua nova realidade de criatura imortal e  poderosa,  deixa Frankenstein por Dorian e passa a recrutar prostitutas para formar um exército de mulheres sequiosas por vingança contra os homens que delas abusaram. Com o tempo, Dorian começa a se enfadar com tantas prostitutas em sua casa e com a crescente desatenção de Lily e resolve entregá-la de volta a Frankenstein para que ele usasse uma droga, de autoria do Dr. Jekyll, a fim de deixá-la dócil como quando a criara. 

Mas Lily diz que preferiria morrer a viver como a esposa recatada de Frankenstein, que ela era a soma de uma mulher tão cheia de dor e indignação que se transformara na fera que ele desprezava. E que ele deveria deixá-la ser quem era. Que havia feridas que nunca saravam, cicatrizes que nos faziam ser quem somos e sem as quais não existimos. Então, ela conta como perdera a filha porque numa noite gelada teve que se prostituir e deixara a criança perto de uma lareira. O cliente que encontrara, porém, acabou espancando-a a ponto de desmair. Quando recobrou os sentidos e retornou à espelunca onde morava, a lareira havia apagado e a menina morrido de frio. A história comoveu de tal forma Frankenstein que ele desistiu de torná-la uma senhora respeitável e a libertou.

Lily segue então para a mansão de Dorian não se sabe se para confrontá-lo, rever seu exército de prostitutas, o fato é que lá chegando se depara com Justine morta e a ausência das outras mulheres. Lamentando a morte de Justine, teve de ouvir Dorian adverti-la sobre os perigos da paixão. "A paixão desfaz o melhor de nós e leva à tragédia. É sempre assim para aqueles entre nós que amam demais." E fala da solidão dos imortais - como citei anteriormente - que vê todos a seu redor envelhecerem, adoecerem, morrerem, menos eles próprios. De como com o tempo o imortal perde o interesse em se apaixonar, em se conectar, como um músculo que se atrofia por falta de uso. Lily rebate que uma vida sem paixão, sem afeição, não valia a pena ser vivida. Aproxima-se de Dorian, beija-o delicadamente na boca, o que agrada ao dândi, mas para surpresa dele, trata-se de um beijo de adeus. Lily lhe diz "adeus, Dorian. Espero que eles (os retratos na parede) cuidem de você" e sai. E Dorian retruca enquanto ela se afasta, "você voltará e eu estarei aqui, eu sempre estarei aqui."

Assim Lily deixa os homens da sua vida para trás (Frankenstein, Dorian), homens que, cada um a seu modo, tentaram criá-la e recriá-la de acordo com seus desejos. Deixa-os para seguir um caminho próprio onde a autodeterminação bem como a paixão deveriam estar presentes. Interessante observar que Brona/Lily são as únicas personagens que não tem uma ligação direta com Vanessa Ives, a protagonista da série ao redor da qual toda a história se desenrola. Cruzaram-se apenas nas duas vezes em que respectivamente o lobisomem Chandler e o dr. Frankenstein as apresentaram a Vanessa. Entretanto, Lily, uma criatura criada para ser companheira de outra criatura frankensteniana, se sai melhor do que a protagonista da história, pois supera a todos que tentaram domá-la levando suas cicatrizes que a faziam ser quem era e sem as quais não existia. Uma história a ser escrita por ela mesma, um caminho aberto. 

Penny Dreadful pinta um panorama da Inglaterra vitoriana através da literatura da época, como os penny dreadfuls, da literatura gótica, dos poetas românticos, para falar, através dos médicos e monstros, dos problemas existenciais humanos, da solidão humana, em particular a dos marginalizados,  excluídos,  não-amados, dos animais feios, das coisas quebradas. Para quem está acostumado com o terror tradicional, com muita gosma, vísceras expostas, sangue em borbotões e sustos baratos, ela pode parecer até enfadonha. 

Não que toda essas características do terror não apareçam na série, mas elas são secundárias na trama que não visa meramente assustar. Todos os monstros revelam seu lado humano. Mesmo, entre as bruxas más, encontra-se uma bruxa boa. A curiosa exceção são os vampiros que representam na série o puro mal,  sendo em geral repulsivos, mais próximos da versão original do personagem como o Nosferatu (que, aliás, está nos streamings em sua versão 2024). Digo curiosa exceção porque dos personagens do horror, os vampiros têm sido os mais humanizados dos monstros góticos desde Drácula de Bram Stoker. Na infinidade de filmes e séries em que aparecem já há mais de um século, destaca-se mais o aspecto erótico e existencial da criatura, em luta com seus instintos, por não querer matar inclusive, do que o do predador insaciável. Vê-se isso principalmente no anódino Crepúsculo, True Blood, Diários do Vampiro, etc. onde alguns representantes da espécie querem até ser humanos de novo. Em compensação, a criatura de Frankeinstein, tão mais difícil de humanizar, é uma das personagens mais sensíveis de Penny Dreadful.

A série dark que virou cult foi escrita e produzida por John Logan (foto ao lado), cuja longa filmografia inclui filmes do 007, Gladiador, O Último Samurai entre outras obras (ver aqui)

Para ler ou reler a história original dos monstros góticos que Logan tão bem entrelaçou em sua Penny Dreadful, ver abaixo:
Frankenstein ou o Prometeu Moderno, Mary Shelley (1818, 1831)
O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde/ O médico e o monstro) Robert Louis Stevenson (1886)
O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde (1890)
Drácula, Bram Stoker (1897)
 

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