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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

No Brasil, há 13 feminicídios por dia



Combate à cultura da violência
No Brasil, há 13 feminicídios por dia — um crime de acentuada gravidade, a revelar a violência contra a mulher, que carrega um componente essencialmente cultural
Morta com golpes de martelo, tendo seu corpo carbonizado, Mayara Amaral, de 27 anos, teve sua vida brutalmente interrompida em 26 de julho. Era uma promissora e jovem violonista, pesquisadora e professora de música, em Campo Grande. Foi assassinada por ser mulher, com requintes de crueldade, vítima da violência por ser mulher, caracterizada como feminicídio.

No Brasil, dados registram 13 feminicídios por dia — um crime de acentuada gravidade, a revelar a violência de gênero, que carrega um componente essencialmente cultural, baseado em relações assimétricas de poder entre homens e mulheres. Para a ONU, a violência de gênero é uma forma de discriminação que afeta seriamente o pleno exercício de direitos e liberdades das mulheres.

Para a Corte Interamericana, o feminicídio constitui homicídio de mulher em razão de seu sexo, com um alto grau de violência (incluída a violência sexual), em um contexto de discriminação e impunidade. O feminicídio viola os direitos das mulheres à integridade física, psíquica e moral, à dignidade e à própria vida.

Em casos de violência contra as mulheres, destaca-se, ainda, a chamada “discriminação interseccional” (ou discriminação múltipla), quando à condição de mulher somam-se vulnerabilidades radicadas nas perspectivas étnico-racial, geracional, dentre outras — como é o caso da violência agravada que alcança as lésbicas, as afrodescendentes, as indígenas, as meninas, as idosas e as com deficiência.

No caso González e outras (caso “Campo Algodonero”, 2009), a Corte Interamericana condenou o México, em virtude do desaparecimento e morte de mulheres em Ciudad Juarez, sob o argumento de que a omissão estatal estava a contribuir para a cultura da violência e da discriminação.

No período de 1993 a 2003, estima-se que de 260 a 370 mulheres tenham sido vítimas de assassinatos, em Ciudad Juarez. A sentença demandou do México o dever de investigar as graves violações ocorridas, garantindo direitos e adotando medidas preventivas.

Este caso contribuiu para a adoção da lei que tipifica o feminicídio no Brasil (Lei nº 13.104/2015, que o prevê como circunstância qualificadora do crime de homicídio), bem como para a adoção do Protocolo Latino-Americano para Investigação de Mortes Violentas de Mulheres por Razões de Gênero.

Outro caso emblemático refere-se ao caso Maria da Penha, decidido pela Comissão Interamericana. Em 2001, a comissão recomendou ao Estado, dentre outras medidas, “prosseguir e intensificar o processo de reforma, a fim de romper com a tolerância estatal e o tratamento discriminatório com respeito à violência doméstica contra as mulheres no Brasil”. Adicionou que se tratava de uma tolerância sistemática, que perpetuava “as raízes e fatores psicológicos, sociais e históricos que mantêm e alimentam a violência contra a mulher”.

Em 7 de agosto de 2006, foi adotada a Lei 11.340 (a denominada Lei “Maria da Penha”), que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar, estabelecendo medidas para a prevenção, assistência e proteção às mulheres em situação de violência.

A violência contra a mulher alimenta-se da “cultura da violência contra a mulher”. Por consequência, o efetivo combate à violência contra a mulher requer o combate à “cultura da violência contra a mulher”, fomentada pela injustiça cultural dos preconceitos, estereótipos e padrões discriminatórios, que constrói a identidade de homens e mulheres, atribuindo-lhes diferentes papéis na vida social, política, econômica, cultural e familiar.

Em face da crescente intolerância e fortalecimento do discurso do ódio, em que avançam doutrinas de superioridade baseadas em diferenças (sejam de sexo, origem, nacionalidade, raça, etnia, diversidade sexual, idade, dentre outras), a diferença passa a ser tomada como fator a aniquilar direitos. Daí a importância da educação em direitos humanos, inspirada nos princípios da igualdade, da dignidade, da inclusão e da não discriminação, conforme a Declaração da ONU sobre Educação em Direitos Humanos de 2011.

Para a Unesco, o processo educacional deve ser orientado por valores, atitudes e habilidades voltadas ao pleno desenvolvimento da personalidade humana, com vistas à criação de uma cultura de respeito aos direitos humanos; ao senso de dignidade; à promoção do diálogo, tolerância e igualdade de gênero.

Para a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, a educação é essencial para a promoção dos direitos humanos, da igualdade de gênero, da cultura da paz e da não violência e da valorização da diversidade.

Afinal, o combate à cultura da negação e violação a direitos requer o fortalecimento da cultura da afirmação e promoção de direitos, sobretudo do mais essencial direito ao respeito e à dignidade.

Fonte:  O Globo, por Flávia Piovesan e Silvia Pimentel, 17/08/2017 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Funcionário do Google demitido por "perpetuar estereótipos de gênero"

James Damore demitido por justíssima causa
Funcionário do Google vomita estereótipos sexuais na tentativa de garantir clube do bolinha no Google e acaba demitido. Bem feito! 😄

Google demite funcionário que escreveu memorando contra diversidade de gênero

Engenheiro de software sênior James Damore confirmou à Bloomberg que foi demitido por 'perpetuar estereótipos de gênero'.A empresa dona do Google, Alphabet, demitiu o funcionário que escreveu um memorando interno de dez páginas na qual criticava as políticas de diversidade da companhia. O engenheiro de software sênior James Damore confirmou nesta segunda-feira (7) à agência de notícias da Bloomberg que foi demitido por "perpetuar estereótipos de gênero".

Na carta de 3 mil palavras, o funcionário, um engenheiro, afirma que "as opções e as capacidades de homens e mulheres divergem, em grande parte devido a causas biológicas, e estas diferenças podem explicar por quê não existe uma representação igual de mulheres (em posições) de liderança".

As aptidões naturais levam os homens a ser programadores de informática, enquanto as mulheres são mais inclinadas "aos sentimentos e à estética que às ideias", o que as leva a escolher carreiras nas áreas "social e artística".

"Não é um ponto de vista que a empresa e eu mesmo respaldemos, promovamos ou incentivamos", respondeu em um e-mail aos funcionários Danielle Brown, diretora da área de diversidade, que trabalhava na Intel e foi contratada pelo Google há apenas um mês.

De acordo com sua mensagem, o debate interno na empresa está estimulado pelos "princípios de igualdade no emprego, que podem ser observados em nosso código de conduta, nossas políticas e nossas normas antidiscriminatórias".

Mas ela destaca que o Google sempre defendeu "uma cultura na qual aqueles que têm pontos de vista diferentes, inclusive políticos, sintam-se seguros de poder expressá-los".

Fonte: G1, 08/08/2017

terça-feira, 8 de agosto de 2017

70% das adolescentes da Inglaterra se declaram feministas

7 em cada 10 adolescentes da Inglaterra se declaram feministas
Quase 70% das adolescentes da Inglaterra se declaram feministas
46% das inglesas, em geral, defendem a igualdade entre mulheres e homens no país.

O feminismo tem cada vez mais se aproximado de mulheres jovens na Inglaterra. Sete em cada dez inglesas entre 13 e 18 anos se declaram feministas, de acordo com nova pesquisa do instituto inglês UM.

O levantamento foi realizado para entender como está a representação das mulheres na publicidade do Reino Unido. A descoberta? Os estereótipos veiculados pelas mídias não tem nada a ver com a imagem que as mulheres tem sobre si mesmas.

As mulheres responderam que as mídias mais sexistas são os jornais (71%), os programas de televisão (58%), os shows de comédia (41%) e as revistas femininas (38%).

Três quartos (77%) das mulheres alegaram que a publicidade retrata as mulheres de forma pejorativa e 65% dos homens concordaram.

Quando questionadas sobre quais os estereótipos elas achavam que eram mais comuns, elas citaram as imagens da mulher como "dona de casa perfeita", "louca por compras", "infantilizada" e "neurótica".

Para 68% das inglesas, o pior deles é o de que a mulher "bonita" não é e não precisa ser "inteligente".

A pesquisa foi realizado entre 2.000 britânicos com mais de 13 anos e é uma resposta ao recente anúncio de que a Autoridade de Padrões de Publicidade (ASA) do país quer proibir os anúncios que reforçam os estereótipos de gênero.

O estudo, ainda, compartilhou dados sobre como as propagandas influenciam a vida dessas mulheres.

Metade das entrevistadas afirmaram se sentir pressionadas a seguir determinados padrões e agir de certa maneira para "se encaixar" no que a publicidade vende. Enquanto isso, 44% delas observaram que os anúncios faziam com que elas nunca se sentissem boas o suficiente.

Talvez seja por isso que o feminismo tem sido um movimento bastante defendido por essas mulheres.

O estudo mostra que 46% delas se autodefinem como feministas. Essa taxa aumenta drasticamente entre os grupos mais jovens. Sete em cada dez meninas de 13 a 18 anos defendem o feminismo.

Quando foram perguntadas sobre o significado do movimento, a resposta que prevaleceu era de que homens e mulheres precisam ter as mesmas oportunidades e os mesmos tratamentos.

Emma Watson, Beyoncé e Angelina Jolie foram eleitas as mulheres mais inspiradoras entre as feministas mais jovens. Enquanto para as mulheres de 35 anos ou mais, as figuras mais populares foram Emmeline Pankhurst, Germaine Greer e Michelle Obama.

Fonte: HuffPost Brasil, Ana Beatriz Rosa, 05/08/2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Crime brutal contra musicista Mayara Amaral em Campo Grande (GO) não pode ficar impune

Mayara Amaral, barbaramente assassinada em Campo Grande (Arquivo Pessoal/Reprodução)
Três homens contra Mayara Amaral. Ela está morta. Carbonizada
A polícia embarca na versão dos agressores, investiga como latrocínio e desconsidera a hipótese de feminicídio. O jornalismo erra junto com ela

O jornalismo está devendo muito às mulheres. Devendo respeito à verdade delas. As informações publicadas na chamada grande imprensa sobre a barbaridade cometida contra a musicista Mayara Amaral, 27 anos, são um vexame. A violonista, que vivia em Campo Grande, foi dada como desaparecida na segunda-feira (24/7). Seu corpo ressurgiu carbonizado na terça. Embora tenha todas as características de feminicídio, de crime horrendo que envolveu três homens, rito machista que subjugou a mulher e abuso sexual seguido de morte, as autoridades do caso conduzem as investigações no escopo do latrocínio — o roubo que se completa na extinção da vida.

Foi preciso que Pauliane Amaral, irmã mais velha de Mayara, se insurgisse contra o tratamento dado por policiais e jornalistas. Só assim soubemos o que aconteceu de verdade. Antes de ela postar seu texto nas redes sociais, nenhum veículo havia usado a palavra feminicídio. Pior, as notícias induziam à versão de uma Mayara que topou uma balada pesada com os estupradores, deu brechas para o triste fim. A escolha de fotos dela para ilustrar jornais físicos e digitais recaiu na linha batom vermelho ou em poses que, no contexto, tentam conferir contornos de frivolidade, volúpia e erotização. Fora dele, as fotos são de uma mulher como todas nós. Uma brasileira comum.

No mínimo, Tiago Macedo, o delegado responsável pela apuração, devia se atentar para isto: um dos três homens presos, Luís Alberto Bastos Barbosa, 29 anos, não era um estranho, mas alguém com quem Mayara havia saído algumas vezes. Segundo os jornais, Luís é músico e tocava com Mayara. Eles foram a um motel. Ali, um outro homem participou do estupro contra ela. Os acusados disseram que a violonista aceitou. Doutor Tiago Macedo: o senhor não caiu nessa, né? Havia um martelo. Com o qual Mayara fora golpeada até perder os sentidos. Concordo com a pergunta de Pauliane: Se Mayara consentiu com a transa a três, por que um martelo na jogada?

Pauliane diz no texto:
Eis a versão do monstro: minha irmã consentiu em ser violada, eles decidiram roubá-la, ela reagiu fisicamente, e eles, sob o efeito de drogas, golpearam-na com o martelo – ela morreu por acidente.”
O acusado, bem instruído por seu advogado, pode dar a versão que mais gostar. Mas o delegado, não.

Bem, Luís e o amigo contaram que puseram Mayara, morta, no carro dela (um Gol velhusco, de 1992), foram até a casa de um terceiro fulano, dividiram os pertences da violonista (o tal produto do roubo), lançaram o corpo em um matagal perto da estrada e tacaram fogo. Apenas as mãos da violonista ficaram inteiras, os outros membros viraram carvão.

O trio parece ter convencido o delegado. O veículo Campo Grande News atribuiu estas pérolas a Tiago Macedo:
Neste caso, ao que tudo indica até o momento, não houve homicídio. O que aconteceu ali é que o autor, verificando a possibilidade de cometer um roubo, atraiu a vítima e teve como resultado deste crime, que é um crime contra o patrimônio, a morte da vítima. Nós verificamos que existe uma tendência das pessoas afirmarem que porque uma mulher morreu é feminicídio, mas isso não corresponde ao ordenamento jurídico”.
Ora, se não foi feminicídio, o hediondo crime de ódio contra as mulheres, o que aconteceu, então? E o estupro? Não conta, doutor Tiago? Trata-se de mero detalhe? Dispensa investigação? Não é crime, e sim, consenso!

Três dias após os fatos não li reportagem investigativa. Não foram ouvidos a família, os amigos, os funcionários do motel. Ninguém reconstituiu a trajetória macabra. Os jornalistas esqueceram como se faz bom jornalismo.

Mayara, aos 27 anos, termina carbonizada. Fim dos sonhos, da breve carreira de musicista, que incluiu um mestrado na Universidade Federal de Goiás. Seu tema na dissertação: as mulheres compositoras e intérpretes no violão erudito. Queria dar visibilidade a elas em um mundo ainda muito másculo. Some uma cidadã que podia ir longe, amar muito, desenvolver projetos profissionais, pessoais e familiares…

Foram três homens contra uma mulher. Não vai ficar assim. Haverá uma manifestação em Campo Grande pedindo apuração severa, rigorosa e pena pesada. Outro ato está sendo planejado em São Paulo. Nós vamos apoiar.

Transcrevo aqui o desabafo de Pauliane Amaral, postado por ela nas redes sociais. Trata-se de uma importante reflexão sobre a polícia e o desrespeito que a imprensa reserva às mulheres.

“Quem é Mayara Amaral?

Minha irmã caçula, mulher, violonista com mestrado pela UFG e um dissertação incrível sobre mulheres compositoras para violão. Desde ontem Mayara Amaral também é vítima de uma violência que parece cada vez mais banal na nossa sociedade. Crime de ódio contra as mulheres, contra um gênero considerado frágil e, para alguns, inferior e digno de ter sua vida tirada apenas por ser jovem, talentosa, bonita… por ser mulher.

Mais uma vez a sociedade falhou e uma mulher, uma jovem professora de música de 27 anos, foi outra vítima da barbárie de homens que não podem nem serem considerados humanos. Foram três, três homens contra uma jovem mulher.

Um deles, Luis Alberto Bastos Barbosa, 29 anos, por quem ela estava cegamente apaixonada, atraiu-a para um motel, levando consigo um martelo na mochila. Lá, ele encontrou um de seus comparsas.

Em uma das matérias que noticiaram, o crime os suspeitos dizem que mantiveram relações sexuais com minha irmã com o consentimento dela. Para que o martelo então, se era consentido?

Estranhamente, nenhuma das matérias aparece a palavra ESTUPRO, apesar de todas as evidências.

Às vezes tenho a sensação de que setores da imprensa estão tomando como verdade a palavra desses assassinos. O tratamento que dão ao caso me indigna profundamente.

Quando escrevem que Mayara era a “mulher achada carbonizada” que foi ensaiar com a banda, ela está em uma foto como uma menina. Quando a suspeita envolvia “namorado” hiper-sexualizam a imagem dela. Quando a notícia fala que a cena do crime é um motel, minha irmã aparece vulnerável, molhada na praia.

Quando falam da inspiração de Mayara, associam-na com a história do pai e avô e a foto muda: é ela com o violão, porém com sua face cortada. Esse tipo de tratamento não representa quem minha irmã foi. Isso é desumanização. Por favor, tenham cuidado, colegas jornalistas.

Para nossa tristeza, grande parte das notícias dão bastante voz aos assassinos e fazem coro à falsa ideia de que os acusados só queriam roubar um carro. Um carro que foi vendido por mil reais. Mil reais. Um Gol quadrado, ano 1992. Se eles quisessem só roubá-la, não precisariam atraí-la para um motel.

Um dos assassinos, Luís, de família rica, vai tentar se livrar de uma condenação alegando privação momentânea dos sentidos por conta de uso de drogas. Não bastando matar a minha irmã, da forma que fizeram, agora querem destruir sua reputação. Eis a versão do monstro: minha irmã consentiu em ser violada por eles, elas decidiram roubá-la, ela reagiu fisicamente e eles, sob o efeito de drogas, golpearam-na com o martelo – e ela morreu por acidente. Pela memória da minha irmã, e pela de outras mulheres que passaram por esta mesma violência, não propaguem essa mentira! Confio que a Polícia e o Ministério Público não aceitarão esta narrativa covarde, e peço a solidariedade e vigilância de todos para que a justiça seja feita.

Na delegacia disseram à minha mãe que uma outra jovem já havia registrado uma denúncia contra Luís por tentativa de abuso sexual… Investiguem! Se essa informação proceder, este é mais um crime pelo qual ele deve responder. E uma prova de como a justiça tem tratado as queixas feitas por nós, mulheres. Se naquela ocasião ele tivesse sido punido exemplarmente, talvez minha irmã não tivesse sofrido este destino.

Foi tudo premeditado: ela foi estuprada por dois desumanos.

O terceiro comparsa – não menos monstruoso – ajudou a levar o corpo da minha irmã para um lugar ermo, e lá atearam fogo nela, como se a brutalidade das marteladas no crânio já não fosse crueldade demais. Minha irmã foi encontrada com o corpo ainda em chamas, apenas de calcinha e uma de suas mãos foi a única parte de seu corpo que sobrou para que meu pai fizesse o reconhecimento no IML. “Parece que ela fazia uma nota com os dedos”, disse meu pai pelo telefone.

A confirmação veio logo depois, com o resultado do exame de DNA. Era ela mesmo e eu gritei um choro sufocado.

Eu vou dedicar o meu luto à memória da minha irmã, e a não permitir que ela seja vilipendiada pela versão imunda de seus algozes. Como tantas outras vítimas de violência, a Mayara merece JUSTIÇA – não que isso vá diminuir nossa dor, mas porque só isso pode ajudar a curar uma sociedade doente, e a proteger outras mulheres do mesmo destino” Pauliane Amaral

Fonte: Cláudia, por Patrícia Zaidan, 28/07/2017

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Maryam Mirzakhani foi a primeira mulher a receber o Fields Medal, o nobel da matemática

Maryam Mirzakhani: morre jovem as que os deuses amam
Além da matemática: A premiada Maryam Mirzakhani também foi revolucionária
A notícia de sua morte surpreendeu o seu país de origem e os Estados Unidos, onde morava e era professora na Universidade de Stanford.

Em 2014, aos 37 anos, Maryam Mirzakhani recebeu o prêmio de matemática Fields Medal, uma espécie de Nobel do gênero, pelo conjunto da obra de seus estudos. A iraniana foi a primeira mulher da história a vencer tal premiação desde sua criação, em 1936.

Por sua genialidade e representatividade, no última sábado (14) a notícia de sua morte surpreendeu o seu país de origem e os Estados Unidos, onde morava e era professora na Universidade de Stanford. A matemática enfrentava um câncer de mama, de acordo com nota oficial da universidade.
Ela era uma teórica matemática particularmente atraída pela resolução de alguns dos problemas mais difíceis em matemática. Ela foi particularmente excelente no desenvolvimento de formas de calcular as superfícies de objetos curvos com a maior precisão, o que tem muitas implicações na vida cotidiana", descreve a nota.
Mirzakhani descreveu o seu trabalho, que muitas vezes é compreendido como uma nova linguagem, como a necessidade de encontra soluções com um único recurso possível: o seu conhecimento.
Eu não tenho nenhuma receita particular [para desenvolver novas teorias]. É como estar perdido em uma selva e tentar usar todo o conhecimento que você pode reunir para criar novos truques e, com alguma sorte, você pode encontrar uma saída."
Apesar da natureza altamente teórica, as descobertas da iraniana têm impactos sobre os estudos de física da origem do universo, além de aplicações para a engenharia.

Dentro da matemática, teve influências no estudo de números primos e na criptografia.

Para o presidente da Stanford, Marc Tessier-Lavigne, a contribuição da matemática vai muito além das teorias.
Maryam se foi muito cedo, mas seu impacto continuará em torno das milhares de mulheres que ela inspirou para pesquisar a matemática e fazer ciência. Maryam era uma brilhante teórica matemática, e também uma pessoa humilde que aceitou honras apenas com a esperança de encorajar os outros a seguir seu caminho. Suas contribuições tanto como estudiosa quanto como modelo são significativas e duradouras, e ela será muito sentida aqui em Stanford e em todo o mundo."

Uma joia do Irã

Mirzakhani nasceu em Teerã e sonhava em se tornar escritora, mas os números e fórmulas atravessaram o seu caminho.

De acordo com a nota da Stanford, ela frequentou uma escola secundária de meninas na capital iraniana.

Mirzakhani ganhou reconhecimento internacional durante as competições da Olimpíadas Internacionais de Matemática. Ela era uma das poucas mulheres a integrar os times e levou ouro nas edições de 1994 e 1995.

Depois da graduação, foi aceita em Harvard, onde começou a trilhar o caminho de suas teorias. Apesar da barreira linguística, não deixava de interpelar seus professores em inglês, enquanto escrevia suas teorias em persa.

A notícia de sua morte levou os jornais estatais do Irã romperem com as estritas regras do país sobre o uso do hijab pelas mulheres.

Para homenagear a matemática, eles publicaram uma foto dela com a cabeça descoberta.

Até o presidente Hassan Rouhani publicou uma foto de Mirzakhani em seu Instagram.
A grave passagem de Maryam Mirzakhani, a eminente matemática iraniana e de renome mundial, é muito dolorosa", escreveu.
Em uma das raras entrevistas ao Guardian, Maryam Mirzakhani descreveu o momento em que se sentiu atraída pelas fórmulas:
Quando criança, eu sonhava em me tornar uma escritora. Meu passatempo mais emocionante era ler romances; Na verdade, eu leria qualquer coisa que eu pudesse encontrar. Nunca pensei na matemática até meu último ano no ensino médio. Cresci em uma família com três irmãos. Meus pais sempre foram muito solidários e encorajadores. Era importante para eles que tivéssemos profissões significativas e satisfatórias, mas não se importavam tanto com o sucesso e a realização.
Em muitos aspectos, foi um ótimo ambiente para mim, embora estes tenham sido tempos difíceis durante a guerra do Irã-Iraque. Meu irmão mais velho foi a pessoa que me despertou o interesse pela ciência em geral. Ele costumava me dizer o que ele aprendia na escola. Minha primeira lembrança da matemática é provavelmente o momento em que ele me contou sobre o problema de adicionar números de 1 a 100. Eu acho que ele havia lido em um jornal científico popular como Gauss resolveu esse problema. A solução foi bastante fascinante para mim. Essa foi a primeira vez que eu gostei de uma solução bonita, embora não conseguisse encontrá-la sozinha."

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Machismo no Vale do Silício: mulheres contra a "bro culture" ou clube do bolinha

Machismo no Vale do Silício: ativistas defendem mudança na cultura de startup
A luta das mulheres contra o machismo no Vale do Silício
Em universo predominantemente masculino, mulheres relatam assédio sexual e discriminação. Dos investimentos feitos no celeiro das startups americanas, parcela ínfima vai para empresas com líderes do sexo feminino.

No Vale do Silício, o celeiro das startups americanas, cada vez mais mulheres vêm relatando abusos no local de trabalho. Entre as empresas acusadas estão Uber, Twitter, Apple, Oracle, Google e Tesla. Além das queixas, pesquisas conduzidas com mulheres que trabalham na região apontaram que 60% delas são vítimas de assédio no emprego, destacando a necessidade de uma dramática mudança da cultura de startup.
De assédio sexual e toque indesejado a discriminação e retaliação, histórias de mulheres sujeitas a vários tipos de abuso estão surgindo numa proporção alarmante. Das consultadas nas pesquisas, por volta de dois terços disseram ter passado por investidas sexuais indesejadas no trabalho, muitas vezes por parte de superiores.
Muitos atribuem isso ao domínio machista e de homens brancos no Vale do Silício e à a perpetuação da "bro culture", originalmente "brother culture" ou "cultura de irmão". Trata-se de uma cultura de nepotismo em que os fundadores de empresas colocam seus amigos e familiares nas primeiras posições, os investimentos em recursos humanos são quase inexistentes e o coeso grupo de empresários é mantido por meio da ligação entre indivíduos do sexo masculino em oposição ao verdadeiro profissionalismo.
Vê-se esse grupo insular de pessoas com mentalidade e aparência semelhantes a quem são dadas, de repente, imensos privilégios, oportunidade e riqueza", afirmou Jahan Sagafi, advogado do escritório especializado em reivindicações trabalhistas Outten & Golden. "E em pouco tempo, essas pessoas podem se sentir como se estivessem acima da lei."
Enfrentando a "bro culture"

Lakshmi Balachandra, que trabalhou tanto como empresária quanto como investidora, acumulou ampla experiência no assunto na época em que era a única mulher a trabalhar numa startup de investimento de risco.
Escuta-se sobre o Vale do Silício e a 'bro culture', e essa atitude é tão comum na área de tecnologia. Essa é a forma como os homens interagem entre si", aponta. "Se você não quer participar e não consegue lidar com isso, então você está fora do jogo; você não mais faz parte daquela rede e você não recebe as mesmas oportunidades", acrescentou.
Isso enfatiza outro paradoxo de misoginia no local de trabalho – as poucas mulheres que conseguem adentrar esse campo masculino têm de trabalhar em condições questionáveis, e para cada uma delas, há um punhado de outras que nunca conseguiram uma primeira contratação. Essa falta de diversidade está diretamente relacionada ao prolongamento da "bro culture" no local de trabalho.
Acho que quanto mais mulheres existirem nesse campo, mais mudanças haverá e deverá haver", considera Balachandra. "Os problemas transparecem no mundo da tecnologia onde há mais mulheres, e elas falam sobre esse comportamento e conduta inapropriada."
Apple é uma das empresas acusadas de seximo no Vale do Silício
Poucos fundos para firmas comandadas por mulheres

Apesar da ilusão de que a diversidade tem aumentado, a desigualdade entre os sexos no financiamento de capital de risco continua a aumentar, em prol dos homens. Em 2016, investidores de risco aplicaram 58,2 bilhões de dólares em empresas fundadas somente por homens, enquanto empreendedoras mulheres receberam míseros 1,46 bilhão de dólares.

Explicitando essa relação extremamente desigual, observa-se que 5.839 companhias fundadas por homens receberam fundos, enquanto o mesmo aconteceu com somente 359 startups iniciadas por mulheres. Isso significa que as empresas estabelecidas por empresários conseguiram 16 vezes mais fundos que aquelas criadas por empresárias.

Questão complexa

A lógica por trás de por que mulheres recebem menos financiamento é atribuída, geralmente, a estudos mostrando que elas são mais avessas ao risco que os homens. Ou seja, as mulheres seriam mais inclinadas a apoiar investimentos mais baixos, no entanto mais seguros, como também mais hesitantes em apostar em ideias mais arriscadas.

Os investidores de risco estão preocupados em não conseguir rendimentos tão altos se apoiarem uma empresa conduzida por uma mulher. Ao mesmo tempo, pesquisas apontam que 84% das mulheres que trabalham no Vale do Silício seriam "demasiadamente agressivas", indicando que pessoas do sexo feminino são julgadas por lentes mais paradoxais do que aquelas do sexo masculino.

A demanda por uma mudança na cultura de startup vem crescendo, assim como o reconhecimento de que a causa e o efeito da questão não têm um diagnóstico simples.
Alguns reclamam que se trata de um problema estrutural, que não temos um número suficiente de mulheres graduadas nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática. Outros afirmam que isso se deve a uma diferença na preferência feminina e masculina em relação ao risco", aponta Sahil Raina, especialista financeiro que leciona na Universidade de Alberta.
Eu não acredito que haja uma resposta única para essa questão. Sei de resultados de pesquisas mostrando evidências de que as mulheres podem ter uma menor taxa de participação, parcialmente por saberem que as startups delas estão menos propensas a ter sucesso com o financiamento de risco", diz.
É inevitável que mais mulheres participem da força de trabalho no Vale do Silício. A verdadeira questão é por quanto tempo as startups fundadas por homens vão continuar a operar sem o verdadeiro cuidado e preocupação frente a todos os seus funcionários, e quantos executivos ainda terão de renunciar devido a escândalos de assédio no ambiente de trabalho.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Mulheres têm mais dificuldade do que homens para conseguir emprego no Brasil

Trabalhadora da indústria têxtil
Mulheres têm mais dificuldade que os homens de conseguir emprego


Taxa de participação feminina no mercado de trabalho é 22,1 pontos percentuais menor que a masculina. 

Segundo Organização Internacional do Trabalho, redução dessa lacuna significaria aumento de 3,3% do PIB do país.

Apesar de inferior à média mundial, a desigualdade entre os sexos no mercado de trabalho permanece alta no Brasil, mostra um relatório sobre tendências empregatícias em 2017 divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) nesta quarta-feira (14/06).

Para este ano, a OIT estima que a taxa de participação feminina no mercado de trabalho brasileiro seja de 56% – uma diferença de 22,1 pontos percentuais em comparação com a participação masculina, estimada em 78,2%. A diferença média global é de 26,7 pontos percentuais – a participação dos homens alcança 76,1%, enquanto a das mulheres é de 49,4%.

A organização ressaltou que a desigualdade entre os sexos no mercado de trabalho persiste de maneira generalizada e se inicia com o acesso limitado de mulheres a vagas de emprego. Preencher essa lacuna é um dos desafios mais urgentes enfrentados pela comunidade mundial, segundo a OIT.

Globalmente, a taxa de desemprego para mulheres é de 6,2% em 2017, representando uma diferença de 0,7 pontos percentuais em relação à taxa de desemprego masculina, de 5,5%. Para 2018, a organização estima que as taxas de desemprego permaneçam relativamente inalteradas.

Mundialmente, essa diferença não sofreu grandes alterações nos últimos anos, embora tenham sido registradas variações consideráveis em determinadas classes de poder aquisitivo. Por exemplo, em países emergentes a diferença aumentou: de 0,5 para 0,7 pontos percentuais. Em contrapartida, as lacunas em países desenvolvidos e em desenvolvimento diminuíram e atingiram 0,5 e 1,8 pontos percentuais, respectivamente.

Países árabes, norte-africanos e do sul da Ásia com menores taxas

O texto do relatório – intitulado Tendências para Mulheres no Mercado de Trabalho 2017 – afirma que, em 2017, a maior diferença entre os sexos nas taxas de participação no mercado de trabalho, de quase 31 pontos percentuais, é enfrentada por mulheres em países emergentes.

Na sequência, vêm as mulheres de países desenvolvidos – pouco mais de 16 pontos percentuais de diferença com os homens – e de países em desenvolvimento, com uma diferença de 12 pontos percentuais.

Em termos regionais, as lacunas mais amplas entre homens e mulheres são registradas em Estados árabes, no Norte da África e no Sul da Ásia, onde excedem os 50 pontos percentuais. Essas três regiões têm as mais baixas taxas de participação feminina no mercado de trabalho – menos de 30%.

Redução de desigualdade aumentaria PIB brasileiro em 3,3%

A redução dessas diferenças entre os sexos no mercado de trabalho produziriam benefícios econômicos significativos e melhorariam o bem-estar individual, segundo a OIT. Em 2014, os líderes do G20 se comprometeram com o objetivo denominado "25 por 25", ou seja, reduzir a diferença na taxa de participação entre homens e mulheres em 25% até o ano de 2025.

No Brasil, por exemplo, essa diminuição de 25% poderia gerar um aumento de 3,3% do PIB (382 bilhões de reais) e acrescentar 131 bilhões de reais em receitas tributárias. Ou seja, se a participação feminina crescesse 5,5 pontos percentuais, o mercado de trabalho brasileiro ganharia uma mão de obra de 5,1 milhões de mulheres e um aumento considerável no Produto Interno Bruto.

Para a OIT, melhorar a participação feminina no mercado de trabalho requer uma abordagem em campos diversos, que inclui políticas focadas no equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho e na eliminação da discriminação sexual, além de criação e proteção de empregos de qualidade no setor da saúde.

Fonte: DW, 14/06/2017

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Omitir sexo de criança em documentos não mudará sua forma de se apresentar no mundo

Omitir o sexo da criança não vai fazer qualquer diferença na forma como ela irá
 se apresentar em sociedade. Sua apresentação dependerá da educação que receberá.
Para nós que ainda não enlouquecemos com as insanidades dos adeptos da teoria de gênero, vamos lembrar que sexo é o que vem com o nosso corpo quando nascemos. Gênero é como nos ensinam a nos apresentarmos em sociedade. Sexo é obra da natureza. Gênero é fruto de educação. Nem sexo nem gênero são determinados ao nascer. Sexo é determinado quando da concepção, encontro do óvulo com o espermatozoide (lembram?) Gênero é adquirido por um longo processo de adestramento. Quando a gente nasce, o médico ou a parteira apenas comunica ou reitera aos pais da criança o sexo do bebê. Eles não dizem: "-Parabéns, vocês ganharam uma feminina ou um masculino". Eles dizem que os pais ou a mãe da criança ganharam uma bebê do sexo feminino (menina) ou um bebê do sexo masculino (menino).

Omitir o sexo da criança não vai fazer qualquer diferença na forma como ela se apresentará em sociedade. Sua apresentação dependerá da educação que receberá. Basta ver que o monte de malucos, girando em torno dessa patacoada de gênero, teve seu sexo bem definido na certidão de nascimento. Nem por isso deixam de viver hoje loucos no crack de gênero.

Agora, omitir o sexo das crianças e das pessoas em geral, negando a materialidade dos corpos, terá consequências (aliás, já está tendo) das mais funestas para toda a sociedade.


Bebê terá documento sem identificação de sexo para 'decidir gênero quando crescer'
Segundo imprensa canadense, este pode ser o primeiro caso do mundo de um cartão de saúde de um bebê sem uma definição de gênero.

Um bebê canadense de oito meses é provavelmente o primeiro caso no mundo de recém-nascido que recebeu um cartão de saúde sem um identificador de gênero.

Seu progenitor Kori Doty - uma pessoa transgênero não binária que não se identifica com pronomes nem no masculino nem no feminino - afirma que quer dar oportunidade ao filho de descobrir seu próprio gênero.

O cartão de saúde da criança terá um "U" no espaço reservado para "sexo", letra que simbolizará "indeterminado" ou "não atribuído".

Kori Doty agora está tentando omitir o gênero do filho também da certidão de nascimento.

Doty dey à luz Searyl Atli em novembro no Estado de Colúmbia Britânica. Doty, que se refere à criança com o pronome "they" (que pode ser traduzido como "eles" ou "elas" em português), em vez de "ele" ou "ela", argumenta que não é necessariamente pelo gênero determinado ao nascer que uma pessoa se identificará ao longo da vida.

El quer tirar a categoria sexo de todos o documentos oficiais de Searyl.
Eu estou criando Searyl de modo que até que elx tenha seu senso de si e capacidade de vocabulário para me dizer quem é, eu x reconheço como bebê e tento dar a elx todo o amor e apoio para ser a pessoa mais inteira que puder fora das restrições que vêm com o rótulo menino ou o rótulo menina", disse Doty à rede de TV CBC.
Kori Doty, que trabalha com educação comunitária e é parte da Coalizão de Identidade sem Gênero, disse que aqueles que se sentem diferentes da indicação de gênero feita no momento do nascimento enfrentam vários problemas ao tentar mudar seus documentos mais tarde na vida.
Quando eu nasci, médicos olharam para os meus genitais e fizeram suposições sobre quem eu seria, e essas suposições me seguiram e seguiram minha identificação ao longo da vida", afirma. "Essas suposições estavam erradas e eu acabei tendo que fazer vários ajustes desde então".
No caso de Searyl Atli, Doty diz que as autoridades se negaram a emitir a certidão de nascimento sem uma designação de gênero. O caso foi decidido judicialmente.

A advogada da família, barbara findlay, que prefere escrever seu nome sem maiúsculas, disse ao site Global News que "a designação de gênero nesta cultura é feita quando um(a) médico(a) abre as pernas e olha para os genitais de um bebê. Mas nós sabemos que a identidade de gênero do bebê só será desenvolvida alguns anos após o nascimento".

A imprensa canadense disse que o cartão de saúde do bebê pode ser o primeiro do mundo sem uma definição de gênero.

Fonte: G1, 04/07/2017

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Inocentada garota mexicana que matou seu estuprador


Uma garota de 15 anos consegue matar seu agressor e ainda é acusada de homicídio? Outra que também matou seu estuprador foi até presa. Depois, ainda há quem diga que não existe cultura do estupro. Nem patriarcado.

Adolescente mexicana é declarada inocente depois de matar estuprador
Procuradoria de Justiça da Cidade do México determinou que a jovem atuou em legítima defesa

Ela foi acusada de homicídio por matar o estuprador. O mesmo que a ameaçou de morte com uma faca em 1º de junho, perto da estação de Taxqueña, ao sul da Cidade do México. Na terça-feira, dia 27/06, quase um mês depois, a Procuradoria de Justiça da Cidade do México determinou que Itzel, de 15 anos, atuou em legítima defesa e a declarou inocente.
Como puderam investigar uma menina que só se defendeu de seu agressor?”, pergunta indignada a advogada da adolescente, Karla Micheel Salas. Foram 27 dias de calvário em que, segundo denuncia a advogada, a família recebeu ameaças por telefone e sofreu pressão constante das autoridades.
Supomos que alguém próximo ao agressor morto entrou em contato com a mãe. Por telefone disseram que sabiam onde mora. Além disso, agentes de investigação da Procuradoria começaram a ir aos trabalhos do pai e da mãe fazendo-se passar por clientes”, conta.
Itzel, que expôs no YouTube (ver vídeo abaixo) a injustiça que estava sofrendo, denunciou o pesadelo que viveu naquele dia depois de sair da escola. Seu agressor, um homem de 30 anos, a rendeu e abusou dela por duas horas em plena rua, enquanto “as pessoas e os carros passavam e ninguém fazia nada”, conta nesta gravação.
Tinha gente que olhava estranho, percebia que havia algo errado. Mas só olhavam. Eu estava com a faca no pescoço e ele me ameaçava para que não gritasse, que não fizesse nada”.
Entre lágrimas, relata como conseguiu tomar a faca do agressor enquanto ele repetia que ia sacar outra faca. Na luta, a arma “se enterrou”.
Empurrei-o com minhas pernas, tirei-o de cima de mim e ele me disse que o tinha furado no peito. Pedi socorro, mas ninguém deu atenção”.
O pesadelo continuou para a adolescente depois que ela conseguiu escapar, denuncia a advogada. “Os protocolos estabelecem que a vítima deve primeiro receber atendimento médico. Mas Itzel, que estava gravemente lesionada, em vez de ser levada a um hospital, foi conduzida ao Ministério Público. A família teve que comprar a pílula do dia seguinte e (as autoridades) não lhe deram imediatamente os antirretrovirais”, conta Salas.

Desde 1º de junho até esta terça-feira, Itzel vivia praticamente trancada em casa. Só saía para ir às consultas médicas e sempre acompanhada pelos pais. “Continuo me perguntando por que há uma investigação aberta por homicídio”, contava a adolescente antes de ser inocentada pela Procuradoria, que não quis dar declarações a este jornal.
Estão me culpando por algo que desconheço. Tudo que ouço são boatos de que podem vir atrás de mim e não entendo por quê”, dizia.
Nesta terça-feira o pesadelo começou a se desfazer e Itzel deixou de sentir que vivia perseguida. A pressão midiática e a enorme repercussão que seu testemunho teve nas redes sociais foram fundamentais para encerrar o caso, esclarece Salas.
Tivemos que recorrer à denúncia pública para expor essas irregularidades. Mas o que acontece com aquelas vítimas que não têm acesso aos meios de comunicação ou a advogados particulares?”, pergunta a advogada.
De fato, o caso de Itzel não é o único que indignou o México. Há mais de três anos, Yakiri Rubio passou três meses na prisão por matar seu estuprador. Acusada de homicídio aos 20 anos, a jovem só foi absolvida um ano e meio depois da agressão.
Não queremos só a minha filha livre, queremos estabelecer um precedente, para que isso não se repita”, dizia o pai em 2013, depois de Yakiri ser presa.

Fonte: El País, por Víctor Usón, 30/06/2017

segunda-feira, 19 de junho de 2017

As Amazonas, além do mito

Meiramgul, aos 9 anos (1995), descendente das amazonas
Fui assistir a Mulher Maravilha e me encantar com a beleza da atriz Gal Gadot que interpreta a heroína. Como toda história de heróis tirados de HQ, o filme tem seus altos e baixos, mas algumas cenas realmente memoráveis como a luta das amazonas contra os soldados alemães que invadem Temiscira, a fala da mãe de Diana de que a humanidade não a merecia, e a cena em que a heroína sai da trincheira para atacar os inimigos e abrir caminho para seus amigos aliados. Uau! Gal Gadot só precisaria adquirir um pouco de músculos para ficar uma amazona perfeita. No mais, veio pra ficar.


E vendo as amazonas da ficção, lembrei deste texto, sobre as amazonas de carne e osso, que escrevi há oito anos, e resolvi repostá-lo. Trata-se da saga da arqueóloga Jeaninne Davis-Kimball que resolveu rastrear a trajetória das Amazonas, descritas no relato de Heródoto, História, até encontrar uma de suas descendentes, Meiramgul, então uma menina de 9 anos, nos rincões da Mongólia.

Pintura de amazona, em antigo vaso grego,
trajando armadura hoplita.
As Amazonas, além do mito

Registros de mulheres guerreiras na história da humanidade não são incomuns, mas sempre estiveram envoltos em muita conjectura. Para boa parte dos estudiosos, as Amazonas nunca passaram de lenda, excesso de imaginação, figuras da mitologia grega, como os centauros, os sátiros, a Medusa, a despeito de sua presença em vasos de cerâmica, esculturas, pinturas e outros artefatos. Entretanto, descobertas recentes de tumbas (em 1995), com restos mortais de mulheres acompanhados de armas, mudaram um pouco essa visão.

Atualmente arqueólogos e historiadores passaram a ver os relatos dos escritores e historiadores gregos Homero e Heródoto com um outro olhar, buscando resgatar das mitológicas filhas do deus Marte e da ninfa Harmonia, as guerreiras de carne e osso. Nessa nova perspectiva, as Amazonas aparecem como originárias da grande cordilheira do Cáucaso, próxima ao Mar Negro, região hoje ocupada pela Armênia, Azerbaijão, Geórgia e Rússia, onde viveram por volta de 5500 anos atrás. Seriam alouradas, de pele clara, altas, fortes e musculosas, subsistindo da caça e da pesca e se relacionando com homens de outros agrupamentos da mesma região apenas para fins reprodutivos.

Em 3500 a. C, teriam migrado para o Mar Mediterrâneo, povoando a ilha de Creta e formando a base da sociedade minóica, de características matriarcais, e estabelecido também outros reinos na Trácia (Grécia), na ilha de Lemnos (no Mar Egeu), no Cáucaso (junto ao Mar Negro), e em Temiscira, banhada pelo rio Termodonte (hoje rio Terme Çayi, na atual Turquia). Durante a idade do bronze (3000 a 700 a.C.) do mundo mediterrâneo, o amazonato também teria se espalhado pelo Egito, Líbia e Itália (na ilha da Sicília) e por outras regiões da Europa, África e Ásia. Vale lembrar que, igualmente no Brasil, o nome de nosso maior rio se deve ao fato de o conquistador espanhol Francisco Orellana ter avistado na região um bando de índias tapuias que identificou como amazonas.

Jeaninne Davis-Kimball
Entretanto, o que deu mais consistência a tese das Amazonas, como mais do que mito, foi o trabalho da arqueóloga Jeaninne Davis-Kimball que resolveu rastrear a trajetória das Amazonas, descritas no relato de Heródoto, em sua fuga após a derrota para uma expedição grega na cidade de Temiscira (atual Ünye, na região da Capadócia), junto à foz do rio Termodonte (atual Terme Çayi). Em seu clássico História, Heródoto afirma que os gregos venceram as amazonas, em data não definida, e levaram várias, como cativas, em barcos. Em alto-mar, contudo, as prisioneiras se rebelaram, mataram todos os gregos e, como não sabiam navegar, acabaram chegando meio à deriva na Cítia, na costa do Mar de Azov, atual Rússia. Os citas e as amazonas teriam se unido e emigrado para as estepes russas entre os rios Don e Volga, dando origem ao povo sauromata que, por sua vez, em 400 a. C. foi colonizado pelos sármatas, povo indo-europeu vindo da Ásia Central. Seguindo nesses processos de conquista e assimilação, os sármatas foram vencidos por góticos, hunos e por fim mongóis, com quem se miscigenaram.

Percorrendo a trajetória dos sármatas, a arqueóloga Jeannine Davis-Kimball encontrou na cidade de Pokrovka, fronteira da Rússia com o Cazaquistão, cerca de 150 túmulos desse povo, datados de 2500 anos atrás, dentre os quais 15% das covas eram de mulheres altas, muitas com pernas arqueadas, ferimentos de batalhas, e que estavam enterradas com flechas de bronze, espadas e adagas. Davis-Kimball e sua equipe procederam a uma análise do DNA dos ossos encontrados para identificar o sexo dos esqueletos, confirmando tratar-se de mulheres.

Amazons: The Quest for Warrior Women Trailer from Story House Productions on Vimeo.

Em seguida, a arqueóloga, consciente de que o último processo de miscigenação dos sármatas havia sido com mongóis, embrenhou-se pela Mongólia, indo de acampamento nômade em acampamento nômade, em busca de alguém que lembrasse a velha herança genética das mulheres guerreiras. Por fim, em uma das aldeias nômades, encontrou uma estranha menina de traços mongóis mas loura. Colheu amostra da saliva da garota e enviou-a ao laboratório para comparação com o DNA colhido dos ossos das guerreiras de Pokrovka. O resultado revelou que o DNA mitocondrial da menina, chamada Meiramgul, de 9 anos na época (1995), era o mesmo contido nos esqueletos datados de mais de 2 mil anos atrás.

Ficou provado assim que as Amazonas eram bem mais de carne e osso do que se supunha, tendo deixado descendência que chegou milagrosamente até os tempos atuais. Não se duvida que novas descobertas possam trazer outras provas da existência dessas guerreiras, ainda que não como as da mitologia, mas importantes por confirmar a realidade de mulheres que viveram fundamentalmente com mulheres ou construíram sociedades onde as mulheres não eram submissas aos homens. Mulheres que eram capazes de lutar e derrotar seus inimigos, que as temiam e as admiravam.

Por isso, as amazonas não podem deixar de constar de uma cronologia da história lésbica, sendo o amazonato o primeiro controle de natalidade que se conhece e que as lésbicas empregam até hoje. Não por menos também, a machadinha de dupla face, utilizada pelas amazonas, conhecida como labrys (imagem ao lado), é um dos símbolos da organização lésbica em todo o mundo atual. E numa hora de necessidade vale invocar os nomes de algumas rainhas amazonas para ganhar coragem: Myrine, Antíope, Pentesiléia, Hipólita, Maroula, Califia, Hipólita... Abaixo um vídeo com imagens das guerreiras. As fotos são da menina Meiramgul, da Jeannine Davis-Kimball e novamente da menina. O desenho é de um labrys estilizado.

A saga de Jeaninne David-Kimball foi registrada no DVD The Secret of the Dead: Amazon Warrior Women (O Segredo dos Mortos: Amazonas, Mulheres Guerreiras) que pode ser adquirido pela loja da National Geographic ou pela Amazon.com. Também, na Amazon, acha-se o livro da arqueóloga  Jeaninne Davis-Kimball. O documentário já passou igualmente no canal da National Geographic legendado, valendo a pena uma pesquisa. 

Publicado originalmente em 16/06/2009

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Jornalista Míriam Leitão agredida por petistas em viagem de avião

Comento brevemente a agressão sofrida pela jornalista Miriam Leitão por petistas numa viagem de avião. Vamos deixar claro que quem se comporta assim nunca tem razão. Pessoas que fulanizam divergências políticas, xingam e atacam outras com todo o tipo de vitupério NUNCA TÊM RAZÃO. Quem tem argumentos não precisa disso, não é mesmo? Segue abaixo o artigo de Míriam sobre o imbróglio.

O ódio a bordo

Sofri um ataque de violência verbal por parte de delegados do PT dentro de um voo. Foram duas horas de gritos, xingamentos, palavras de ordem contra mim e contra a TV Globo. Não eram jovens militantes, eram homens e mulheres representantes partidários. Alguns já em seus cinquenta anos. Fui ameaçada, tive meu nome achincalhado e fui acusada de ter defendido posições que não defendo.

Sábado, 3 de junho, o voo 6237 da Avianca, das19h05, de Brasília para o Santos Dumont, estava no horário. O Congresso do PT em Brasília havia acabado naquela tarde e por isso eles estavam ainda vestidos com camisetas do encontro. Eu tinha ido a Brasília gravar o programa da Globonews.

Antes de chegar ao portão, fui comprar água e ouvi gritos do outro lado. Olhei instintivamente e vi que um grupo me dirigia ofensas. O barulho parou em seguida, e achei que embarcariam em outro voo.

Fui uma das primeiras a entrar no avião e me sentei na 15C. Logo depois eles entraram e começaram as hostilidades antes mesmo de sentarem. Por coincidência, estavam todos, talvez uns 20, em cadeiras próximas de mim. Alguns à minha frente, outros do lado, outros atrás. Alguns mais silenciosos me dirigiram olhares de ódio ou risos debochados, outros lançavam ofensas.

— Terrorista, terrorista — gritaram alguns.

Pensei na ironia. Foi “terrorista” a palavra com que fui recebida em um quartel do Exército, aos 19 anos, durante minha prisão na ditadura. Tantas décadas depois, em plena democracia, a mesma palavra era lançada contra mim.

Uma comissária, a única mulher na tripulação, veio, abaixou-se e falou:

— O comandante te convida a sentar na frente.

— Diga ao comandante que eu comprei a 15C e é aqui que eu vou ficar — respondi.

O avião já estava atrasado àquela altura. Os gritos, slogans, cantorias continuavam, diante de uma tripulação inerte, que nada fazia para restabelecer a ordem a bordo em respeito aos passageiros. Os petistas pareciam estar numa manifestação. Minutos depois, a aeromoça voltou:

— A Polícia Federal está mandando você ir para frente. Disse que se a senhora não for o avião não sai.

— Diga à Polícia Federal que enfrentei a ditadura. Não tenho medo. De nada.

Não vi ninguém da Polícia Federal. Se esteve lá, ficou na porta do avião e não andou pelo corredor, não chegou até a minha cadeira.

Durante todo o voo, os delegados do PT me ofenderam, mostrando uma visão totalmente distorcida do meu trabalho. Certamente não o acompanham. Não sou inimiga do partido, não torci pela crise, alertei que ela ocorreria pelos erros que estavam sendo cometidos. Quando os governos do PT acertaram, fiz avaliações positivas e há vários registros disso.

Durante o voo foram muitas as ofensas, e, nos momentos de maior tensão, alguns levantavam o celular esperando a reação que eu não tive. Houve um gesto de tão baixo nível que prefiro nem relatar aqui. Calculavam que eu perderia o autocontrole. Não filmei porque isso seria visto como provocação. Permaneci em silêncio. Alguns, ao andarem no corredor, empurravam minha cadeira, entre outras grosserias. Ameaçaram atacar fisicamente a emissora, mostrando desconhecimento histórico mínimo: “quando eles mataram Getúlio o povo foi lá e quebrou a Globo”, berrou um deles. Ela foi fundada onze anos depois do suicídio de Vargas.

O piloto nada disse ou fez para restabelecer a paz a bordo. Nem mesmo um pedido de silêncio pelo serviço de som. Ele é a autoridade dentro do avião, mas não a exerceu. A viagem transcorreu em clima de comício, e, em meio a refrões, pousamos no Santos Dumont. A Avianca não me deu — nem aos demais passageiros — qualquer explicação sobre sua inusitada leniência e flagrante desrespeito às regras de segurança em voo. Alguns dos delegados do PT estavam bem exaltados. Quando me levantei, um deles, no corredor, me apontou o dedo xingando em altos brados. Passei entre eles no saguão do aeroporto debaixo do coro ofensivo.

Não acho que o PT é isso, mas repito que os protagonistas desse ataque de ódio eram profissionais do partido. Lula citou, mais de uma vez, meu nome em comícios ou reuniões partidárias. Como fez nesse último fim de semana. É um erro. Não devo ser alvo do partido, nem do seu líder. Sou apenas uma jornalista e continuarei fazendo meu trabalho.

(Com Alvaro Gribel, de São Paulo)

Fonte:  Blog da Míriam Leitão, 13/06/2017

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Casamento infantil: Mais de 30% das brasileiras casam antes dos 18 anos

Nacho Doce/Reuters - Brasil é quarto país no ranking global de casamento infantil
Brasil está no topo do ranking de casamento infantil na América Latina
Mais de 30% das brasileiras casam antes dos 18 anos.

Levantamento recente do Banco Mundial revela que o Brasil tem o maior número de casos de casamento infantil da América Latina e o quarto no mundo. No país, 36% da população feminina se casa antes dos 18 anos. As informações são da ONU News.

O estudo "Fechando a Brecha: Melhorando as Leis de Proteção à Mulher contra a Violência" lembra que a lei do Brasil estipula 18 anos como a idade legal para a união matrimonial e permite a anulação do casamento infantil. O problema é que há muitas brechas na legislação.

Consentimento

Se houver consentimento dos pais, por exemplo, as meninas podem se casar a partir dos 16 anos. A autora do estudo, Paula Tavares, fala sobre outras brechas na lei.
Um dispositivo ainda comum em todo o mundo é a permissão do casamento infantil – e em geral sem limite de idade – se a menina estiver grávida. Esse é o caso do Brasil".
Segundo ela, o país também não prevê punição para quem permite que uma menina se case fora dos casos previstos em lei, nem para os maridos nesses casos.
Na América Latina, 24 países preveem pena a quem autorize o casamento precoce, mas o Brasil não está entre eles," observou.
Segundo o documento do Banco Mundial, a cada ano, 15 milhões de meninas em todo o mundo se casam antes dos 18 anos. Em muitas culturas, o casamento precoce muitas vezes é visto como uma solução para a pobreza, por famílias que acreditam que assim terão uma boca a menos para alimentar. No Brasil, os principais motivos incluem gravidez na adolescência e desejo de segurança financeira.

Evasão escolar e renda menor

No entanto, o estudo destaca que o casamento infantil responde por 30% da evasão escolar feminina no ensino secundário a nível mundial e faz com que as meninas estejam sujeitas a ter menor renda quando adultas. Também as coloca em maior risco de sofrer violência doméstica, estupro marital e mortalidade materna e infantil.

Por outro lado, o documento ressalta que eliminar o matrimônio infantil traz ganhos econômicos. Por isso, as recomendações para o Brasil e a América Latina são eliminar as brechas na legislação e adotar punições para a união não prevista em lei.

Fonte: HuffPost, 13/03/2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

O calote biliardário dos irmãos Batista no Brasil

Eliane Cantanhêde
Excelente texto da Eliane Cantanhêde dissecando o calote biliárdario dos irmãos Ley Batista no Brasil.

E algumas perguntinhas fundamentais: porque Lula e o BNDES jorraram tantos bilhões na JBS a ponto de a empresa ter virado um fenômeno internacional? A empresa usou dinheiro público do Brasil, para sediar 70% de seus negócios nos EUA, 10% em dezenas de outros países e só 20% no Brasil. 

E por que, enquanto Marcelo Odebrecht conclui seu segundo ano na cadeia, já condenado a mais de 10 anos, os Batista estão livres da prisão, sem tornozeleira e sem restrição para sair do País?

Tem gato nessa tuba, e revolta em nosso coração.

O calote do século
Temer tem muito a explicar, mas perdão a Joesley Batista é premiar a corrupção

Antes que a gente se esqueça, Joesley Batista, da JBS, que já foi um dos “campeões nacionais” do BNDES, é agora campeão internacional do calote, um calote não numa pessoa, numa empresa ou num banco, mas num país inteiro. Um país chamado Brasil, onde não sobra ninguém para contar uma história decente e abrir horizontes.

Enquanto amealhava R$ 9 bilhões do BNDES, mais uns R$ 3 bilhões da CEF, mais sabe-se lá quanto de outros bancos públicos nos anos beneficentes de Lula, Joesley saiu comprando governos, partidos e parlamentares. Quando a coisa ficou feia, explodiu o governo Temer, a recuperação da economia e a aprovação das reformas, fez um acordo de pai para filho homologado pelo STF e foi viver a vida no coração de Nova York.

O BNDES, banco de fomento do desenvolvimento nacional, foi usado para fomento de empregos, fábricas e crescimento nos Estados Unidos, onde Joesley e o irmão, Wesley, usaram o rico e suado dinheirinho dos brasileiros para comprar tudo o que viam pela frente. Detalhe sórdido: os frigoríficos que adquiriram lá competem com os exportadores brasileiros de carne. Uma concorrência para lá de desleal.

Eles se negam a pagar os R$ 11 bilhões do acordo de leniência com a PGR, até porque o dinheiro público camarada do Brasil foi usado para sediar 70% dos negócios nos EUA, 10% em dezenas de outros países e só 20% no Brasil. Se esses procuradores encherem muito a paciência, eles jogam esses 20% pra lá, fecham as portas e esquecem a republiqueta de bananas.

Além de sua linda mulher (como nos clássicos sobre gângsteres), Joesley levou para a grande potência seu avião Gulfstream G650, de 20 lugares e US$ 65 milhões. Também despachou num navio para Miami seu iate do estaleiro Azimut, de três andares, 25 lugares e US$ 10 milhões. Quando enjoar de Nova York, vai passar uns tempos nos mares da Flórida.

Enquanto arrumava as malas, Joesley aplicou US$ 1 bilhão no mercado de câmbio, fez megaoperações nas Bolsas e ficou aguardando calmamente o Brasil implodir no dia seguinte, para colher novos milhões de dólares. E deixou para trás sua vidinha de açougueiro no interior de Goiás, uma sociedade pasma e um monte de interrogações.

Por que, raios, Lula e o BNDES jorraram tantos bilhões numa única empresa? Joesley podia usar o dinheiro com juros camaradas e comprar aviões e iates para uso pessoal? Os recursos não teriam de gerar desenvolvimento e emprego para os brasileiros? E, se o seu amigão (como dos Odebrecht) era Lula, a JBS virou uma potência planetária na era Lula e se ele diz que despejou US$ 150 milhões para Lula e Dilma Rousseff no exterior, por que Joesley, em vez de gravar Lula, foi direto gravar Temer?

Mais: como um biliardário, que adora brinquedos caros e sofisticados, partiu para uma empreitada de tal audácia com um gravadorzinho de camelô? Como dar andamento e virar o País de ponta-cabeça sem uma perícia elementar na gravação? Enfim, por que abrir monocraticamente um processo contra o presidente da República? E, enquanto Marcelo Odebrecht conclui seu segundo ano na cadeia, já condenado a mais de 10 anos, os Batista estão livres da prisão, sem tornozeleira e sem restrição para sair do País.

Nada disso, claro, significa livrar Aécio ou Temer, que tem muchas cositas más a explicar, como R$ 1 milhão na casa do coronel amigo, R$ 500 mil da mala do assessor Rocha Loures, um terceiro andar do Planalto onde assessores só produziam escândalos.

A sociedade, porém, reage mal ao final feliz dos Batista. A não ser que não seja final ainda, pois a homologação do STF é uma validação formal, mas cabe ao juiz, na sentença, fixar os benefícios da delação. Em geral, o juiz segue os termos do acordo original, mas não obrigatoriamente, e pode haver, sim, fixação de penas. Oremos, pois!

Fonte: O Estado de S.Paulo, Eliane Cantanhêde, 26/05/2017

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