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Mulheres na Ciência:

Duas barreiras que afastam as mulheres da ciência

segunda-feira, 19 de junho de 2017

As Amazonas, além do mito

Meiramgul, aos 9 anos (1995), descendente das amazonas
Fui assistir a Mulher Maravilha e me encantar com a beleza da atriz Gal Gadot que interpreta a heroína. Como toda história de heróis tirados de HQ, o filme tem seus altos e baixos, mas algumas cenas realmente memoráveis como a luta das amazonas contra os soldados alemães que invadem Temiscira, a fala da mãe de Diana de que a humanidade não a merecia, e a cena em que a heroína sai da trincheira para atacar os inimigos e abrir caminho para seus amigos aliados. Uau! Gal Gadot só precisaria adquirir um pouco de músculos para ficar uma amazona perfeita. No mais, veio pra ficar.


E vendo as amazonas da ficção, lembrei deste texto, sobre as amazonas de carne e osso, que escrevi há oito anos, e resolvi repostá-lo. Trata-se da saga da arqueóloga Jeaninne Davis-Kimball que resolveu rastrear a trajetória das Amazonas, descritas no relato de Heródoto, História, até encontrar uma de suas descendentes, Meiramgul, então uma menina de 9 anos, nos rincões da Mongólia.

Pintura de amazona, em antigo vaso grego,
trajando armadura hoplita.
As Amazonas, além do mito

Registros de mulheres guerreiras na história da humanidade não são incomuns, mas sempre estiveram envoltos em muita conjectura. Para boa parte dos estudiosos, as Amazonas nunca passaram de lenda, excesso de imaginação, figuras da mitologia grega, como os centauros, os sátiros, a Medusa, a despeito de sua presença em vasos de cerâmica, esculturas, pinturas e outros artefatos. Entretanto, descobertas recentes de tumbas (em 1995), com restos mortais de mulheres acompanhados de armas, mudaram um pouco essa visão.

Atualmente arqueólogos e historiadores passaram a ver os relatos dos escritores e historiadores gregos Homero e Heródoto com um outro olhar, buscando resgatar das mitológicas filhas do deus Marte e da ninfa Harmonia, as guerreiras de carne e osso. Nessa nova perspectiva, as Amazonas aparecem como originárias da grande cordilheira do Cáucaso, próxima ao Mar Negro, região hoje ocupada pela Armênia, Azerbaijão, Geórgia e Rússia, onde viveram por volta de 5500 anos atrás. Seriam alouradas, de pele clara, altas, fortes e musculosas, subsistindo da caça e da pesca e se relacionando com homens de outros agrupamentos da mesma região apenas para fins reprodutivos.

Em 3500 a. C, teriam migrado para o Mar Mediterrâneo, povoando a ilha de Creta e formando a base da sociedade minóica, de características matriarcais, e estabelecido também outros reinos na Trácia (Grécia), na ilha de Lemnos (no Mar Egeu), no Cáucaso (junto ao Mar Negro), e em Temiscira, banhada pelo rio Termodonte (hoje rio Terme Çayi, na atual Turquia). Durante a idade do bronze (3000 a 700 a.C.) do mundo mediterrâneo, o amazonato também teria se espalhado pelo Egito, Líbia e Itália (na ilha da Sicília) e por outras regiões da Europa, África e Ásia. Vale lembrar que, igualmente no Brasil, o nome de nosso maior rio se deve ao fato de o conquistador espanhol Francisco Orellana ter avistado na região um bando de índias tapuias que identificou como amazonas.

Jeaninne Davis-Kimball
Entretanto, o que deu mais consistência a tese das Amazonas, como mais do que mito, foi o trabalho da arqueóloga Jeaninne Davis-Kimball que resolveu rastrear a trajetória das Amazonas, descritas no relato de Heródoto, em sua fuga após a derrota para uma expedição grega na cidade de Temiscira (atual Ünye, na região da Capadócia), junto à foz do rio Termodonte (atual Terme Çayi). Em seu clássico História, Heródoto afirma que os gregos venceram as amazonas, em data não definida, e levaram várias, como cativas, em barcos. Em alto-mar, contudo, as prisioneiras se rebelaram, mataram todos os gregos e, como não sabiam navegar, acabaram chegando meio à deriva na Cítia, na costa do Mar de Azov, atual Rússia. Os citas e as amazonas teriam se unido e emigrado para as estepes russas entre os rios Don e Volga, dando origem ao povo sauromata que, por sua vez, em 400 a. C. foi colonizado pelos sármatas, povo indo-europeu vindo da Ásia Central. Seguindo nesses processos de conquista e assimilação, os sármatas foram vencidos por góticos, hunos e por fim mongóis, com quem se miscigenaram.

Percorrendo a trajetória dos sármatas, a arqueóloga Jeannine Davis-Kimball encontrou na cidade de Pokrovka, fronteira da Rússia com o Cazaquistão, cerca de 150 túmulos desse povo, datados de 2500 anos atrás, dentre os quais 15% das covas eram de mulheres altas, muitas com pernas arqueadas, ferimentos de batalhas, e que estavam enterradas com flechas de bronze, espadas e adagas. Davis-Kimball e sua equipe procederam a uma análise do DNA dos ossos encontrados para identificar o sexo dos esqueletos, confirmando tratar-se de mulheres.

Amazons: The Quest for Warrior Women Trailer from Story House Productions on Vimeo.

Em seguida, a arqueóloga, consciente de que o último processo de miscigenação dos sármatas havia sido com mongóis, embrenhou-se pela Mongólia, indo de acampamento nômade em acampamento nômade, em busca de alguém que lembrasse a velha herança genética das mulheres guerreiras. Por fim, em uma das aldeias nômades, encontrou uma estranha menina de traços mongóis mas loura. Colheu amostra da saliva da garota e enviou-a ao laboratório para comparação com o DNA colhido dos ossos das guerreiras de Pokrovka. O resultado revelou que o DNA mitocondrial da menina, chamada Meiramgul, de 9 anos na época (1995), era o mesmo contido nos esqueletos datados de mais de 2 mil anos atrás.

Ficou provado assim que as Amazonas eram bem mais de carne e osso do que se supunha, tendo deixado descendência que chegou milagrosamente até os tempos atuais. Não se duvida que novas descobertas possam trazer outras provas da existência dessas guerreiras, ainda que não como as da mitologia, mas importantes por confirmar a realidade de mulheres que viveram fundamentalmente com mulheres ou construíram sociedades onde as mulheres não eram submissas aos homens. Mulheres que eram capazes de lutar e derrotar seus inimigos, que as temiam e as admiravam.

Por isso, as amazonas não podem deixar de constar de uma cronologia da história lésbica, sendo o amazonato o primeiro controle de natalidade que se conhece e que as lésbicas empregam até hoje. Não por menos também, a machadinha de dupla face, utilizada pelas amazonas, conhecida como labrys (imagem ao lado), é um dos símbolos da organização lésbica em todo o mundo atual. E numa hora de necessidade vale invocar os nomes de algumas rainhas amazonas para ganhar coragem: Myrine, Antíope, Pentesiléia, Hipólita, Maroula, Califia, Hipólita... Abaixo um vídeo com imagens das guerreiras. As fotos são da menina Meiramgul, da Jeannine Davis-Kimball e novamente da menina. O desenho é de um labrys estilizado.

A saga de Jeaninne David-Kimball foi registrada no DVD The Secret of the Dead: Amazon Warrior Women (O Segredo dos Mortos: Amazonas, Mulheres Guerreiras) que pode ser adquirido pela loja da National Geographic ou pela Amazon.com. Também, na Amazon, acha-se o livro da arqueóloga  Jeaninne Davis-Kimball. O documentário já passou igualmente no canal da National Geographic legendado, valendo a pena uma pesquisa. 

Publicado originalmente em 16/06/2009

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Jornalista Míriam Leitão agredida por petistas em viagem de avião

Comento brevemente a agressão sofrida pela jornalista Miriam Leitão por petistas numa viagem de avião. Vamos deixar claro que quem se comporta assim nunca tem razão. Pessoas que fulanizam divergências políticas, xingam e atacam outras com todo o tipo de vitupério NUNCA TÊM RAZÃO. Quem tem argumentos não precisa disso, não é mesmo? Segue abaixo o artigo de Míriam sobre o imbróglio.

O ódio a bordo

Sofri um ataque de violência verbal por parte de delegados do PT dentro de um voo. Foram duas horas de gritos, xingamentos, palavras de ordem contra mim e contra a TV Globo. Não eram jovens militantes, eram homens e mulheres representantes partidários. Alguns já em seus cinquenta anos. Fui ameaçada, tive meu nome achincalhado e fui acusada de ter defendido posições que não defendo.

Sábado, 3 de junho, o voo 6237 da Avianca, das19h05, de Brasília para o Santos Dumont, estava no horário. O Congresso do PT em Brasília havia acabado naquela tarde e por isso eles estavam ainda vestidos com camisetas do encontro. Eu tinha ido a Brasília gravar o programa da Globonews.

Antes de chegar ao portão, fui comprar água e ouvi gritos do outro lado. Olhei instintivamente e vi que um grupo me dirigia ofensas. O barulho parou em seguida, e achei que embarcariam em outro voo.

Fui uma das primeiras a entrar no avião e me sentei na 15C. Logo depois eles entraram e começaram as hostilidades antes mesmo de sentarem. Por coincidência, estavam todos, talvez uns 20, em cadeiras próximas de mim. Alguns à minha frente, outros do lado, outros atrás. Alguns mais silenciosos me dirigiram olhares de ódio ou risos debochados, outros lançavam ofensas.

— Terrorista, terrorista — gritaram alguns.

Pensei na ironia. Foi “terrorista” a palavra com que fui recebida em um quartel do Exército, aos 19 anos, durante minha prisão na ditadura. Tantas décadas depois, em plena democracia, a mesma palavra era lançada contra mim.

Uma comissária, a única mulher na tripulação, veio, abaixou-se e falou:

— O comandante te convida a sentar na frente.

— Diga ao comandante que eu comprei a 15C e é aqui que eu vou ficar — respondi.

O avião já estava atrasado àquela altura. Os gritos, slogans, cantorias continuavam, diante de uma tripulação inerte, que nada fazia para restabelecer a ordem a bordo em respeito aos passageiros. Os petistas pareciam estar numa manifestação. Minutos depois, a aeromoça voltou:

— A Polícia Federal está mandando você ir para frente. Disse que se a senhora não for o avião não sai.

— Diga à Polícia Federal que enfrentei a ditadura. Não tenho medo. De nada.

Não vi ninguém da Polícia Federal. Se esteve lá, ficou na porta do avião e não andou pelo corredor, não chegou até a minha cadeira.

Durante todo o voo, os delegados do PT me ofenderam, mostrando uma visão totalmente distorcida do meu trabalho. Certamente não o acompanham. Não sou inimiga do partido, não torci pela crise, alertei que ela ocorreria pelos erros que estavam sendo cometidos. Quando os governos do PT acertaram, fiz avaliações positivas e há vários registros disso.

Durante o voo foram muitas as ofensas, e, nos momentos de maior tensão, alguns levantavam o celular esperando a reação que eu não tive. Houve um gesto de tão baixo nível que prefiro nem relatar aqui. Calculavam que eu perderia o autocontrole. Não filmei porque isso seria visto como provocação. Permaneci em silêncio. Alguns, ao andarem no corredor, empurravam minha cadeira, entre outras grosserias. Ameaçaram atacar fisicamente a emissora, mostrando desconhecimento histórico mínimo: “quando eles mataram Getúlio o povo foi lá e quebrou a Globo”, berrou um deles. Ela foi fundada onze anos depois do suicídio de Vargas.

O piloto nada disse ou fez para restabelecer a paz a bordo. Nem mesmo um pedido de silêncio pelo serviço de som. Ele é a autoridade dentro do avião, mas não a exerceu. A viagem transcorreu em clima de comício, e, em meio a refrões, pousamos no Santos Dumont. A Avianca não me deu — nem aos demais passageiros — qualquer explicação sobre sua inusitada leniência e flagrante desrespeito às regras de segurança em voo. Alguns dos delegados do PT estavam bem exaltados. Quando me levantei, um deles, no corredor, me apontou o dedo xingando em altos brados. Passei entre eles no saguão do aeroporto debaixo do coro ofensivo.

Não acho que o PT é isso, mas repito que os protagonistas desse ataque de ódio eram profissionais do partido. Lula citou, mais de uma vez, meu nome em comícios ou reuniões partidárias. Como fez nesse último fim de semana. É um erro. Não devo ser alvo do partido, nem do seu líder. Sou apenas uma jornalista e continuarei fazendo meu trabalho.

(Com Alvaro Gribel, de São Paulo)

Fonte:  Blog da Míriam Leitão, 13/06/2017

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Casamento infantil: Mais de 30% das brasileiras casam antes dos 18 anos

Nacho Doce/Reuters - Brasil é quarto país no ranking global de casamento infantil
Brasil está no topo do ranking de casamento infantil na América Latina
Mais de 30% das brasileiras casam antes dos 18 anos.

Levantamento recente do Banco Mundial revela que o Brasil tem o maior número de casos de casamento infantil da América Latina e o quarto no mundo. No país, 36% da população feminina se casa antes dos 18 anos. As informações são da ONU News.

O estudo "Fechando a Brecha: Melhorando as Leis de Proteção à Mulher contra a Violência" lembra que a lei do Brasil estipula 18 anos como a idade legal para a união matrimonial e permite a anulação do casamento infantil. O problema é que há muitas brechas na legislação.

Consentimento

Se houver consentimento dos pais, por exemplo, as meninas podem se casar a partir dos 16 anos. A autora do estudo, Paula Tavares, fala sobre outras brechas na lei.
Um dispositivo ainda comum em todo o mundo é a permissão do casamento infantil – e em geral sem limite de idade – se a menina estiver grávida. Esse é o caso do Brasil".
Segundo ela, o país também não prevê punição para quem permite que uma menina se case fora dos casos previstos em lei, nem para os maridos nesses casos.
Na América Latina, 24 países preveem pena a quem autorize o casamento precoce, mas o Brasil não está entre eles," observou.
Segundo o documento do Banco Mundial, a cada ano, 15 milhões de meninas em todo o mundo se casam antes dos 18 anos. Em muitas culturas, o casamento precoce muitas vezes é visto como uma solução para a pobreza, por famílias que acreditam que assim terão uma boca a menos para alimentar. No Brasil, os principais motivos incluem gravidez na adolescência e desejo de segurança financeira.

Evasão escolar e renda menor

No entanto, o estudo destaca que o casamento infantil responde por 30% da evasão escolar feminina no ensino secundário a nível mundial e faz com que as meninas estejam sujeitas a ter menor renda quando adultas. Também as coloca em maior risco de sofrer violência doméstica, estupro marital e mortalidade materna e infantil.

Por outro lado, o documento ressalta que eliminar o matrimônio infantil traz ganhos econômicos. Por isso, as recomendações para o Brasil e a América Latina são eliminar as brechas na legislação e adotar punições para a união não prevista em lei.

Fonte: HuffPost, 13/03/2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

O calote biliardário dos irmãos Batista no Brasil

Eliane Cantanhêde
Excelente texto da Eliane Cantanhêde dissecando o calote biliárdario dos irmãos Ley Batista no Brasil.

E algumas perguntinhas fundamentais: porque Lula e o BNDES jorraram tantos bilhões na JBS a ponto de a empresa ter virado um fenômeno internacional? A empresa usou dinheiro público do Brasil, para sediar 70% de seus negócios nos EUA, 10% em dezenas de outros países e só 20% no Brasil. 

E por que, enquanto Marcelo Odebrecht conclui seu segundo ano na cadeia, já condenado a mais de 10 anos, os Batista estão livres da prisão, sem tornozeleira e sem restrição para sair do País?

Tem gato nessa tuba, e revolta em nosso coração.

O calote do século
Temer tem muito a explicar, mas perdão a Joesley Batista é premiar a corrupção

Antes que a gente se esqueça, Joesley Batista, da JBS, que já foi um dos “campeões nacionais” do BNDES, é agora campeão internacional do calote, um calote não numa pessoa, numa empresa ou num banco, mas num país inteiro. Um país chamado Brasil, onde não sobra ninguém para contar uma história decente e abrir horizontes.

Enquanto amealhava R$ 9 bilhões do BNDES, mais uns R$ 3 bilhões da CEF, mais sabe-se lá quanto de outros bancos públicos nos anos beneficentes de Lula, Joesley saiu comprando governos, partidos e parlamentares. Quando a coisa ficou feia, explodiu o governo Temer, a recuperação da economia e a aprovação das reformas, fez um acordo de pai para filho homologado pelo STF e foi viver a vida no coração de Nova York.

O BNDES, banco de fomento do desenvolvimento nacional, foi usado para fomento de empregos, fábricas e crescimento nos Estados Unidos, onde Joesley e o irmão, Wesley, usaram o rico e suado dinheirinho dos brasileiros para comprar tudo o que viam pela frente. Detalhe sórdido: os frigoríficos que adquiriram lá competem com os exportadores brasileiros de carne. Uma concorrência para lá de desleal.

Eles se negam a pagar os R$ 11 bilhões do acordo de leniência com a PGR, até porque o dinheiro público camarada do Brasil foi usado para sediar 70% dos negócios nos EUA, 10% em dezenas de outros países e só 20% no Brasil. Se esses procuradores encherem muito a paciência, eles jogam esses 20% pra lá, fecham as portas e esquecem a republiqueta de bananas.

Além de sua linda mulher (como nos clássicos sobre gângsteres), Joesley levou para a grande potência seu avião Gulfstream G650, de 20 lugares e US$ 65 milhões. Também despachou num navio para Miami seu iate do estaleiro Azimut, de três andares, 25 lugares e US$ 10 milhões. Quando enjoar de Nova York, vai passar uns tempos nos mares da Flórida.

Enquanto arrumava as malas, Joesley aplicou US$ 1 bilhão no mercado de câmbio, fez megaoperações nas Bolsas e ficou aguardando calmamente o Brasil implodir no dia seguinte, para colher novos milhões de dólares. E deixou para trás sua vidinha de açougueiro no interior de Goiás, uma sociedade pasma e um monte de interrogações.

Por que, raios, Lula e o BNDES jorraram tantos bilhões numa única empresa? Joesley podia usar o dinheiro com juros camaradas e comprar aviões e iates para uso pessoal? Os recursos não teriam de gerar desenvolvimento e emprego para os brasileiros? E, se o seu amigão (como dos Odebrecht) era Lula, a JBS virou uma potência planetária na era Lula e se ele diz que despejou US$ 150 milhões para Lula e Dilma Rousseff no exterior, por que Joesley, em vez de gravar Lula, foi direto gravar Temer?

Mais: como um biliardário, que adora brinquedos caros e sofisticados, partiu para uma empreitada de tal audácia com um gravadorzinho de camelô? Como dar andamento e virar o País de ponta-cabeça sem uma perícia elementar na gravação? Enfim, por que abrir monocraticamente um processo contra o presidente da República? E, enquanto Marcelo Odebrecht conclui seu segundo ano na cadeia, já condenado a mais de 10 anos, os Batista estão livres da prisão, sem tornozeleira e sem restrição para sair do País.

Nada disso, claro, significa livrar Aécio ou Temer, que tem muchas cositas más a explicar, como R$ 1 milhão na casa do coronel amigo, R$ 500 mil da mala do assessor Rocha Loures, um terceiro andar do Planalto onde assessores só produziam escândalos.

A sociedade, porém, reage mal ao final feliz dos Batista. A não ser que não seja final ainda, pois a homologação do STF é uma validação formal, mas cabe ao juiz, na sentença, fixar os benefícios da delação. Em geral, o juiz segue os termos do acordo original, mas não obrigatoriamente, e pode haver, sim, fixação de penas. Oremos, pois!

Fonte: O Estado de S.Paulo, Eliane Cantanhêde, 26/05/2017

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Prostituição: regular ou abolir, eis a questão!

É proibido pagar por sexo na Suécia, França e outros seis países
Modelo nórdico, que castiga o cliente para lutar contra as redes e o proxenetismo, ganha força
Na Suécia, quem paga para ter relações sexuais é um delinquente. O país nórdico foi pioneiro, em 1999, em penalizar os clientes da prostituição, que podem pegar até um ano de cadeia. Esse modelo, apoiado no princípio de que a prostituição é uma forma de violência contra as mulheres – elas são uma esmagadora maioria – e um sinal de desigualdade dos gêneros, tem se expandido pelo mundo. O mais recente país a adotá-lo foi a França, que dias atrás aprovou, após um longo trâmite parlamentar, uma lei que prevê multa de até 3.750 euros (cerca de 15.000 reais) para quem pagar por sexo.

A lei francesa reacendeu o debate sobre a prostituição e a conveniência de regulá-la ou aboli-la. A Suécia e a França apostam num novo modelo de abolicionismo, que em vez de penalizar as prostitutas – consideradas vítimas sem liberdade de escolha – propõe acabar com o comércio sexual fechando o cerco sobre sua clientela. Em outras palavras, sem demanda não há oferta. No lado oposto estão as correntes pela legalização, para as quais o trabalho sexual é uma atividade que pode ser exercida livremente, e por isso precisa ser regulamentada. É o que acontece na Holanda, onde as profissionais do sexo pagam impostos e obtêm contrapartidas sociais, e também na Dinamarca e na Alemanha.

Nos últimos tempos, o chamado modelo sueco – ou nórdico, já que os primeiros a copiá-lo foram alguns de seus vizinhos escandinavos – está ganhando impulso. Depois da Suécia, a criminalização dos clientes da prostituição já foi aprovada na Islândia, Canadá, Cingapura, África do Sul, Coreia do Sul, Irlanda do Norte e agora na França. A medida vigora também na Noruega, com o detalhe de que esse país pune também cidadãos seus que fizerem turismo sexual. Além disso, o Parlamento Europeu insistiu em 2014 para que os Estados membros da UE adotassem fórmulas semelhantes, e Bélgica, Irlanda e Escócia debatem atualmente projetos de lei baseados nesse novo abolicionismo. Outros países, como a Finlândia, apostaram num sistema híbrido: castigam a compra de serviços sexuais, mas só se a prostituta for vítima das redes de tráfico humano.

Mas, segundo partidários do neoabolicionismo, esse vínculo entre prostituição e escravidão sexual é praticamente automático. Os defensores do modelo nórdico afirmam que quem vende seu corpo nunca o faz livremente – ao invés de ser uma escolha, seria uma imposição feita por redes de tráfico ou exploração sexual, ou pela pressão da pobreza ou de outro tipo de desigualdade.
A lei se baseia em que é vergonhoso e inaceitável que, numa sociedade com igualdade sexual, os homens obtenham relações sexuais casuais com mulheres em troca de dinheiro”, afirma Kajsa Wahlberg, diretora da unidade de combate ao tráfico humano da polícia sueca, acrescentando que a legislação local enviou um “sinal” importante a outros países. Hoje, o neoabolicionismo se transformou em parte importante da política externa sueca, uma espécie de marca do país. “A prostituição causa um grave dano, tanto aos indivíduos como à sociedade”, argumenta a agente, salientando que pessoas que pagam por sexo não só ferem a dignidade das mulheres como também estão contribuindo para a proliferação dessa arquitetura criminal.
Duas mulheres em uma vitrine do Red Light em Amsterdã, em 2015.  CORBIS
Wahlberg diz que a lei funciona bem. Dez anos depois de ela entrar em vigor, o número de compradores de sexo caiu de 13,6% para menos de 8% da população, segundo dados do Instituto Sueco.
A norma tem um objetivo dissuasivo sobre os potenciais compradores de sexo. Também serviu para reduzir o interesse de diversos grupos ou indivíduos em estabelecer atividades organizadas de prostituição na Suécia”, acrescenta. Desde a adoção das medidas, 6.600 pessoas – todos homens, salvos raríssimas exceções – foram detidas por comprar ou tentar comprar sexo. Destes, aproximadamente metade foi condenada (os dados sobre os julgamentos de 2015 ainda não estão disponíveis). Mas ninguém foi preso, já que todos pagaram a multa, equivalente a um terço da renda pessoal obtida durante dois meses.
E essa falta de condenações graves é uma das principais críticas a uma lei que, segundo as pesquisas, tem grande aceitação social no país. Outra é que, na verdade, o sistema não acaba com a prostituição, apenas a esconde, deixando assim as prostitutas em situação ainda mais perigosa e vulnerável.

Esse é também o argumento fundamental dos críticos da nova lei francesa.
A penalização do cliente não beneficia as trabalhadoras do sexo, apenas as expõe mais à violência – tanto das quadrilhas como da polícia – e ao isolamento”, afirmam integrante do coletivo Strass, que reúne prostitutas na França e se mobilizou contra a nova lei. A medida também enfrenta restrições de ONGs como a Médicos do Mundo, que argumenta que o abolicionismo leva as prostitutas à clandestinidade e as deixa à mercê do cliente ou das máfias, e que a rede de proteção prevista para ajudar as mulheres a deixar a prostituição é precária demais. As entidades sociais estimam que haja entre 30.000 e 40.000 meretrizes na França
Este modelo legal obriga as trabalhadoras sexuais, sobretudo as da rua, a trabalharem nas periferias, em zonas menos visíveis e acessíveis, onde a polícia não possa surpreender os seus clientes”, argumentam integrantes do Tampep, um coletivo europeu de trabalhadoras do sexo, para o qual a penalização do cliente impede a autodeterminação das prostitutas, reforçando o estigma e a discriminação contra elas.
À luz das estatísticas, a policial Wahlberg tem razão: estreitar o cerco sobre o cliente reduziu a prostituição na Suécia, ao menos a sua parte visível. Antes da lei, 600 mulheres vendiam sexo nas ruas de Estocolmo, segundo a polícia. Atualmente são menos de 10. Entretanto, os bordéis e as calçadas se transferiram para a Internet. Um campo muito mais difícil de controlar.

ABOLIR, PROIBIR OU REGULAR
Há vários modelos na Europa
Legalista. Holanda, Alemanha, Dinamarca. Na Holanda, a prostituição é regulamentada como um trabalho desde 2000. A lei obriga os proprietários dos bordéis a pagarem impostos e a contribuição previdenciária das prostitutas. Estas, que precisam de uma licença municipal, têm direito a Previdência Social e seguro-desemprego. A mesma situação se dá na Alemanha. Na Dinamarca, as prostitutas pagam impostos, mas não têm direito a benefícios previdenciários ou seguro-desemprego.
Novo abolicionismo. Suécia, Noruega, Islândia. A Suécia foi pioneira, em 1999, na adoção de uma lei contra a compra de serviços sexuais. A norma proíbe pagar pelo sexo e penaliza o cliente com multas ou prisão. É um modelo atualmente em expansão.
Limbo jurídico. Espanha, Itália. A prostituição na Espanha está num limbo jurídico – embora sua exploração seja crime. Dois em cada dez homens espanhóis admitem que já pagaram pelos serviços de uma prostituta, segundo estudo da Universidade de Comillas para o Ministério da Saúde. Entretanto, alguns regulamentos municipais proíbem a prática e multam tanto os clientes como as profissionais. Uma situação similar ocorre na Itália, onde nos últimos anos proliferaram as situações que penalizam tanto a compra quanto a venda de sexo.
Proibicionista. Na Hungria a prostituição é ilegal. Pune-se com multa ou mesmo com prisão a meretriz que exercer a prática em “zonas protegidas”, ao passo que o cliente só é penalizado se “aceitar” os serviços de uma menor.

sábado, 13 de maio de 2017

13 de Maio: Dia da Vitória do Movimento Abolicionista no Brasil

Em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel, primeira senadora brasileira e primeira mulher a assumir uma chefia de Estado no continente americano, exercendo por três vezes a Regência no Brasil, sancionou a chamada Lei Áurea que aboliu a escravatura em todo o território nacional. Antes disso, a princesa Isabel já demonstrara sua posição como abolicionista convicta, financiando tanto a alforria de escravos quanto até quilombos (Quilombo do Leblon, onde se cultivavam camélias brancas, flor-símbolo da abolição). Seu empenho na abolição da escravidão lhe custou caro inclusive, já que os donos de escravos, sobretudo dos grandes cafezais paulistas, deixaram de apoiar a monarquia em represália à luta dos nobres pela abolição, bandeando-se para o lado dos republicanos, o que, segundo alguns estudiosos, teria apressado a instituição do regime republicano.

Luís Gama
O papel da princesa Isabel na efetivação da abolição da escravatura no Brasil não deve, portanto, ser subestimado, mas não foi ela, na qualidade de branca sensível de bom coração que botou fim a uma das páginas mais infames de nossa história. Seu gesto foi de fato fruto não só de suas crenças pessoais mas também da pressão de um movimento social de grande abrangência, comparado por alguns com as Diretas Já!, que uniu gente de várias classes sociais e várias etnias na luta contra a escravidão, juntando desde políticos e intelectuais brancos como Joaquim Nabuco, o teatrólogo Artur Azevedo e o poeta Castro Alves até negros como o advogado Luís Gama e o engenheiro André Rebouças e ainda mestiços como o jornalista José do Patrocínio. Também estudantes universitários, que começavam a se evidenciar no período, se engajaram na luta em prol da abolição bem como o exército brasileiro, formado à época por bom número de ex-escravos que haviam lutado na guerra do Paraguai. Isso para ficar em alguns exemplos, embora existam outros, pois o movimento abolicionista foi um dos maiores movimentos populares da história brasileira.

Não obstante esse histórico glorioso, movimentos negros confusos – para dizer o mínimo – passaram, a partir da década de 70, a rejeitar a data do 13 de maio sob a desculpa de que ela representaria uma efeméride das elites brancas brasileiras, pois teria sido um gesto de generosidade (sic) dos brancos, tendo a princesa Isabel como principal protagonista – o que não é verdade como vimos acima – e, além disso, uma abolição para inglês ver, já que os cerca de 700 mil escravos libertos na ocasião não foram de fato integrados à sociedade brasileira, como devido, acabando livres dos grilhões de ferro mas prisioneiros das senzalas da pobreza. Em substituição ao 13 de maio, inventaram o dia da consciência negra, em 20 de novembro, como homenagem a data da morte de Zumbi dos Palmares, líder negro que teria lutado contra a escravidão, o que simbolizaria a resistência e a bravura dos negros contra o cativeiro.

Joaquim Nabuco
Curti essa história do Zumbi por um bom tempo, pois, me amarro num herói ou heroína, como todo mundo aliás, haja vista a quantidade enorme deles e delas nas revistas em quadrinhos e nos cinemas. Curti até conhecer a verdade histórica sobre esse personagem mitologizado. Zumbi foi de fato um negro foragido que formou um quilombo, como estrutura de resistência a seu cativeiro pelos brancos, mas não era nenhum herói da luta contra a escravidão. Em Palmares, assim como em outros quilombos, havia escravos também e escravos negros. Sim, o herói da luta contra a escravidão era um escravocrata também. Simplesmente não queria ser escravo, mas não se incomodava de escravizar outros homens, pior, outros homens negros. É que, de fato, o sistema escravagista era onipresente na África, na época do tráfico negreiro, encontrando-se presente também em outros continentes. Na África, os vencidos das eternas guerras tribais, entre as diversas etnias existentes, eram escravizados pelos vencedores que por sua vez os vendiam para árabes e europeus. Então, a escravidão era um sistema comum no período, que a maioria das pessoas aceitava como natural, e que os vencedores em qualquer tipo de batalha aplicavam aos vencidos. Em Palmares, Zumbi era vencedor e, portanto, escravizava outros negros, geralmente negros que não queriam ter saído das fazendas dos brancos. De repente, as senzalas dos brancos ofereciam melhores condições de vida do que as galés dos quilombos.


Pois, é! Então, a maioria dos ativistas do movimento negro rejeita uma data fruto de um movimento social popular, multi-étnico, multiclassicista e, portanto, pra lá de democrático, para afirmar uma outra data que celebra a existência de um personagem supostamente heróico contra a escravidão mas que também escravizava?!!! Arrisco uma explicação para esse paradoxo. O atual movimento negro – em sua maioria – tem um viés nitidamente racista, tanto que todo o seu programa de atuação é calcado na afirmação do conceito de raça (uma ideia já sepultada pela ciência), onde a raça negra teria sido subjugada e oprimida pela raça branca que lhe deveria consequentemente uma reparação pelos maus-tratos oriundos da escravidão. Toda a estrutura desse programa de ação é assentada no antagonismo racial que, por sua vez, é alimentado pelo vitimismo. É preciso descrever os negros como vítimas dos brancos, os negros como vítimas e os brancos como algozes, assim tudo na base do preto ou branco, sem nuances.

André Rebouças
Para alimentar essa ideologia, inclusive brutais distorções históricas têm sido feitas. Na historinha da carochinha dos racialistas negros, os negros viviam numa África paradisíaca, correndo apenas dos leões, quando os europeus, brancos e malvados, chegaram e os levaram escravizados para seu continente e para outros, submetendo-os a exploração e a brutais agressões físicas. Como já disse acima, a verdade é outra. Os africanos viviam às voltas com suas guerras tribais (até hoje, aliás) e vendiam seus cativos para quem os comprasse, no caso, os europeus que, por acaso, eram brancos. No Brasil, com o passar dos anos, mesmo antes da Abolição, muitos negros começaram a ser alforriados e, por sua vez, passaram a ter terras também e a comprar escravos, seus irmãos de “raça”. Nos próprios quilombos, os negros fugidos das senzalas brancas também escravizavam outros negros, portanto, não existem bandidos e mocinhos nessa história como, aliás, raramente existem em qualquer período da sombria história humana. A escravidão foi um sistema nefasto – que até hoje existe embora proscrito – de que todos os povos e etnias participaram.

Mas a política do movimento negro atual, em sua grande maioria, rejeita a verdade histórica por uma leitura altamente ideologizada dos fatos, maniqueísta e perigosa, baseada no antagonismo racial. O 13 de maio, como descrevi acima, foi um movimento onde brancos, negros e mestiços, de diferentes classes, lutaram juntos contra a escravidão e venceram a batalha juntos. A Abolição foi uma conquista de pessoas de bem, e pessoas de bem não têm cor. O fato de a inserção dos negros libertos na sociedade brasileira, pós-Abolição, não ter sido realizada como deveria ter sido não invalida a conquista do movimento abolicionista. O que aconteceu após a Abolição é uma outra história, uma história que passa de um regime monárquico para um regime republicano, igualmente negligentes quanto à situação social dos ex-escravos negros. As conseqüências dessa negligência jogaram a população negra na pobreza, mas nunca impediram a miscigenação, nunca promoveram o apartheid racial no Brasil, tanto que somos essencialmente um país de mestiços, sendo a população negra -propriamente dita – minoritária. Mesmo a pobreza não é só desprivilegio de negros e pardos, havendo também um razoável número de brancos pobres. Deveriam estar todos, como nos tempos dos abolicionistas, lutando juntos para tirar a todos da pobreza através de uma revolução educacional, através do resgate da sucateada educação brasileira e de sua melhoria e universalização, pois é ela que permite democraticamente a ascensão social de qualquer um(a). Mas, ao contrário, o movimento negro, em sua maioria, tem preferido o caminho das cotas e do malfadado Estatuto da “Igualdade” racial, em análise pelo Senado no momento, que promovem coisas inacreditáveis como a divisão da população em negra ou branca, tribunais raciais em universidades, para julgar quem é de fato negro ou não (inspiração nazista), e a destruição do critério de mérito, um dos pilares da democracia. A picaretagem chegou a ponto de estarem propondo 60% de vagas para cotistas em universidades, o que, na realidade, praticamente acaba com o vestibular.

José do Patrocínio
O 13 de maio mostra brancos, negros e mestiços lutando juntos contra um sistema absurdo e não se encaixa na visão do atual movimento negro porque este quer brancos e negros separados, brancos e negros antagônicos, o mulato inzoneiro Brasil se definindo como negro ou branco, embora sempre tenha sido mestiço e continue sendo mestiço. Por isso, prefere o dia que homenageia Zumbi e os quilombos, pois representariam uma luta só de negros, protagonizada por um negro herói, mesmo tendo sido esse "herói" um escravista. Por isso, hoje, o 13 de maio, não apenas por ter entrado no calendário das datas oficiais do país, merece ser lembrado como um dia de celebração da união de todos, independente da cor da pele, contra sistemas injustos e crenças equivocadas.

Fotos na sequência: Princesa Isabel, Luis Gama, Joaquim Nabuco, André Rebouças e José do Patrocínio, brancos, negros e mestiços pela Abolição.

Fontes: Divisões Raciais: políticas raciais no Brasil contemporâneo. Editora Civilização Brasileira; Dossiê Abolicionismo; Monstros Tristonhos (excelente texto de Demétrio Magnoli sobre os tribunais raciais que vêm sendo instalados nas universidades brasileiras); Zumbi: Símbolo da Consciência Negra?

P.S. A propósito, sou mestiça e bisneta de um abolicionista, Martinho Rodrigues de Souza, que como advogado, deputado e jornalista, lutou, em sua terra natal, Fortaleza (CE), pela abolição da escravidão no Brasil.

Atualização 13/05/2013
: O racialismo continuou avançando no Brasil, desde a publicação deste artigo, com mais cotas em universidades (até em nível de pós-graduação) e agora também cotas no funcionalismo público.

Publicado originalmente em 13/05/09


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Sheryl Sandberg: "A batalha do feminismo ainda não acabou"

Sheryl Sandberg: "A batalha do feminismo ainda não acabou"
 ( Erin Lubin/Bloomberg/Getty Images )


Publiquei, em junho de 2011, uma matéria, de março daquele ano, intitulada Executivas 'neofeministas' dos EUA pregam ascensão agressiva. Nela, duas executivas americanas, Sheryl Sandberg (Facebook) e Marissa Mayer (Yahoo) foram destaque no debate sobre o avanço da mulher no mercado de trabalho e os obstáculos que permanecem à sua ascensão. No dia 09/11, a VEJA publicou entrevista com a Sheryl Sandberg dando conta de que o livro da executiva Faça Acontecer – Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar está na lista dos mais vendidos nos EUA e também no Brasil.

O feminismo de Sandberg busca, no comportamento das próprias mulheres, sem negar os fatores externos naturalmente, a origem dos problemas femininos de ascensão no trabalho. Sem mimimi, procura incentivar as mulheres a serem mais assertivas em busca do sucesso profissional. Naturalmente, faltou falar, na entrevista, da raiz do problema das desigualdades entre os sexos: a educação diferenciada, uma educação mutiladora da individualidade de mulheres e homens desde o berço. Mas também aí já é querer demais.

Entretanto, apesar de ser um livro que busca a melhoria das condições de vida das mulheres na área do trabalho, neste ano de 2017,  organizadoras da marcha comemorativa do 8 de março, nos EUA, resolveram se opor a ele e seu feminismo empresarial que representaria apenas 1% das mulheres. O título do manifesto foi exatamente Para além do “faça acontecer”: por um feminismo dos 99% e uma greve internacional militante em 8 de março. Porque o feminismo que não é anticapitalista seria fauxminismo (feminismo falso) e outros blá-blá-blás.  

Entretanto, fauxminismo, feminismo falso, é somente aquele que fica apenas paparicando homem na Internet e alhures, passando pano para macho, no jargão atual das jovens feministas, e metendo o pau em outras correntes feministas, sem efetivamente fazer nada de concreto pelas mulheres. Infelizmente, é o caso de muitas feministas ditas liberais em nosso país, mas não o de Sandberg, uma mulher rica que tem a vida ganha e não precisaria estar se incomodando com a ascensão profissional de outras mulheres. Fora que essa história de que seu feminismo empresarial só representaria 1% das mulheres não corresponde aos fatos. Aqui no Brasil mesmo, as mulheres já são donas de 43% das empresas, e o número de empreendedoras não para de crescer. Então, mesmo neste nosso fim de mundo machista, Sandberg não está falando para somente 1% das mulheres. 

As brigas entre correntes feministas são um pé no peito descomunal e só demonstram que, mesmo feministas, não conseguem superar a educação para a rivalidade feminina que lhes é incutida desde o berço pela nossa cultura machista. Este caso da marcha do 8 de março americano mostra bem isso, refletindo inclusive uma grande incoerência das organizadoras. Enquanto resolviam fazer marcha atacando uma corrente feminista particular, de uma mulher de fato, convocavam mulheres de fachada, de fato homens (as tais trans), para participar do evento. Diga-se de passagem as mesmas trans que, na marcha anterior feita em protesto contra a eleição de Trump, deram um verdadeiro show de sexismo, querendo que as participantes não usassem cartazes com imagens de órgãos femininos porque isso as ofenderia.

Então, outra boa definição para fauxminismo é "aquele que tem mais solidariedade com homens personificando mulheres do que com mulheres de fato e de direito". Pessoalmente, sou totalmente favorável ao empreendedorismo, uma forma bastante concreta de empoderamento das mulheres reais dentro da realidade em que vivemos. 

Segue abaixo a entrevista e vídeo com palestra de Sandberg sobre o tema de seu livro.


Sheryl Sandberg: a paladina das mulheres

Em entrevista exclusiva, a COO do Facebook diz que as mulheres deveriam ocupar metade dos postos de liderança de governos e empresas. Esse é o tema de seu livro 'Faça Acontecer'

A executiva americana Sheryl Sandberg se consagrou neste ano como a principal porta-voz de uma espécie de feminismo revisado. Em seu best-seller Faça Acontecer – Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar (Companhia das Letras; 272 páginas; 34,50 reais, ou 24 reais na versão digital), ela apresenta o problema:
“Faz mais de vinte anos que estou no mercado de trabalho, e muita coisa continua igual. É hora de encarar o fato: nossa revolução empacou. Promessa de igualdade e igualdade de fato são coisas diferentes.” E a solução? “Um mundo de fato igualitário seria aquele em que as mulheres comandassem metade dos países e das empresas e os homens dirigissem metade dos lares.”
Ela dá cara autobiográfica ao livro para mostrar como mulheres podem e devem alcançar a liderança em empresas. Além de suas palavras, o currículo de Sheryl, que há pouco completou 44 anos, é exemplar por si só. Formada em administração pela Universidade Harvard, ela trabalhou no Banco Mundial, foi chefe da equipe do secretário do Tesouro americano e vice-presidente do Google. Mas ganhou fama mesmo – e se tornou uma das mulheres mais influentes dos Estados Unidos –, ao assumir como COO (chefe do departamento de operações, na sigla em inglês; um dos cargos mais altos da companhia) do Facebook em 2008. Tornou-se uma famosa advogada dos direitos das mulheres dois anos depois, em 2010, ao apresentar uma inspiradora palestra sobre o assunto (confira o vídeo abaixo). Papel que se fortificou com a publicação de seu livro neste ano – que figurou nas listas de mais vendidos nos Estados Unidos e no Brasil. Na entrevista que Sheryl concedeu a VEJA, ela não quis se aprofundar nos negócios do Facebook, mas muito disse sobre o papel das mulheres como líderes globais.

Por que é importante ter mais mulheres em cargos de liderança?
Não há país no mundo com mais de 5% de suas empresas sob o comando de mulheres. Na América Latina, o porcentual é ainda menor, de menos de 2%. Mas temos 50% da população mundial de mulheres. Isso mostra o quanto não sabemos aproveitar o potencial e o talento dessa população. Warren Buffet [investidor americano e quarto homem mais rico do mundo] uma vez disse que só foi tão bem-sucedido por ter competido apenas com metade da população, a formada pelos homens. Imagine o aumento em produtividade que teríamos se homens e mulheres trabalhassem como iguais, dividindo postos de liderança. Também veríamos ambientes familiares mais saudáveis se homens repartissem com mulheres as tarefas domésticas.

No passado havia mais feministas, como você. O que mudou?
Na geração anterior à minha a batalha pelos direitos das mulheres era intensa. Mas minha geração começou a sentir, de forma falsa, que o trabalho estava feito. A vida me fez uma feminista quando vi que as mulheres ainda não são iguais no mercado de trabalho. Foi aí que reparei que a batalha não acabou.

O que as mulheres podem fazer para conquistar mais cargos de liderança?
Homens costumam se sentir mais confiantes no trabalho do que as mulheres. Vi isso em todos os lugares onde já fui fazer negócios no mundo. Em uma reunião, homens tendem a se sentar no centro da mesa ou na ponta dela. Mulheres, mesmo as de mesmo nível hierárquico que eles, escolhem cadeiras em posições desfavoráveis. Nas reuniões, homens falam mais e são mais ouvidos. Mulheres são interrompidas continuamente. Minhas dicas para as mulheres são: sente-se no melhor lugar da mesa, você merece, e fale com confiança. Para homens, digo: se você notar que a fala de uma mulher foi interrompida, pare a reunião e explique que ela deve continuar a falar. Nesse cenário, as empresas também têm de se adequar para compreender os desafios que as mulheres têm pela frente.

No Facebook as mulheres são mais participativas do que os homens. Isso pode indicar que elas são mais ouvidas agora do que no passado?
Esse não é o ponto. A questão é que mulheres têm de ser ouvidas no poder, no corpo executivo de uma empresa, em governos. Vemos muito mais homens do que mulheres nessas mesas. O Brasil tem uma mulher na presidência. E Dilma Rousseff conseguiu multiplicar por três a presença de mulheres em cargos de comando do governo, se comparado com a administração anterior. É algo bom, mas as mulheres ainda representam apenas um terço do gabinete de Dilma. Por que não 50%? Nos Estados Unidos foi tido como uma grande notícia o anúncio de que 20% do Senado seria composto por mulheres. Isso não é ideal. Novamente, precisamos de 50%.

O mundo digital é muitas vezes visto como sexista. No livro The Boy Kings (Os Reis Garotos, em tradução livre), Katherine Losse, uma ex-funcionária do Facebook, conta como se sentia num ambiente hostil às mulheres dentro da empresa e como via Mark Zuckerberg como um machista. Você sente isso no Facebook?
Não vou comentar esse livro. Mas considero o Facebook um grande lugar para as mulheres. Temos direitos de licença maternidade e paternidade iguais para mulheres e homens que trabalham no Facebook. E, o principal, falamos abertamente dos problemas que envolvem as questões de gênero. Trabalho com o Mark faz cinco anos e ele me dá todo o apoio para debater esse assunto.

Alguns podem achar que é mais fácil para você, uma executiva de sucesso, falar sobre o assunto do que para uma mulher pobre em um país como o Brasil ou de uma nação muçulmana onde reprimem as mulheres.
Sou sortuda por ter tido boas oportunidades na vida. Mas também tive de encarar problemas. Certa vez falei que escolho sair do trabalho às cinco e meia da tarde para ficar com meus filhos. A reação foi extremamente negativa por parte de muitos executivos. Mas eu ter mostrado que isso é possível e saudável agora ajuda muitos a poder tomar a mesma decisão. Por ter tido sucesso, vejo que tenho a responsabilidade de ajudar as mulheres a perceber as oportunidades pelas quais elas devem lutar.

Qual é sua opinião sobre mulheres que abandonam suas carreiras para se dedicar à família?
Acho que as mulheres têm de ter o poder de decidir sobre suas vidas. Se elas querem trabalhar, devem trabalhar. Se elas querem cuidar da família, é isso que devem fazer. Se querem fazer os dois, há essa opção. Temos de acabar com estereótipos. Mulheres podem trabalhar e chegar à liderança. Assim como homens devem ter a opção de abandonar suas carreiras para administrar tarefas domésticas. Ou ambos podem dividir ambas as responsabilidades.

Fonte: Veja, Vida Digital, 09/11/2013


Publicado originalmente em 11/11/2013

terça-feira, 9 de maio de 2017

Nazismo se apresentava como uma "terceira via" entre o liberalismo e comunismo

Em meio a crise econômica e política na Alemanha, nazismo trazia ideia de "revolução social". mas só para os "arianos"
Artigo muito interessante sobre a definição política do nazismo, identificando-o como uma terceira via entre a esquerda e a direita, com uma perspectiva racista e ultranacionalista. De fato, tanto o nazismo e o fascismo quanto o comunismo tinham em comum um profundo antiliberalismo, embora empresários tenham contribuído com os dois primeiros, um apreço por regimes totalitários e a criação de bodes-expiatórios (como os judeus para os nazistas) e a burguesia (para os comunistas) a serem eliminados em campos de extermínio e nos paredões da vida. Tinham mais em comum do que sonham as vãs filosofias, daí também ser complicado rotulá-los de esquerda ou de direita simplesmente. Conhecer suas diferenças, como apresentadas pelo texto abaixo, ajuda a esclarecer o fenômeno nazista.

O nazismo era um movimento de esquerda ou de direita?

"Cara, cai na real! Ser de esquerda é ser a favor de milhares de mortes causadas pelo comunismo e nazismo no mundo. Reflita!", diz uma mensagem de janeiro no Twitter. "O socialismo/comunismo é uma ideologia de esquerda irmã do nazismo", diz outra do final de abril. Outro participante da rede social pergunta: "Quantas pessoas será que estão em grupos de libertários no Facebook discutindo se nazismo é esquerda ou direita neste exato momento?".

A discussão sobre se o movimento nazista alemão - cujo governo matou milhões de pessoas e levou à Segunda Guerra Mundial - teria as mesmas origens do marxismo ferve nas redes sociais há alguns meses, com a crescente polarização do debate político no Brasil.

Mas historiadores entrevistados pela BBC Brasil esclarecem o que dizem ser uma "confusão de conceitos" que alimenta a discussão - e explicam que, na verdade, o movimento se apresentava como uma "terceira via".

Tanto o nazismo alemão quanto o fascismo italiano surgem após a Primeira Guerra Mundial, contra o socialismo marxista - que tinha sido vitorioso na Rússia na revolução de outubro de 1917 -, mas também contra o capitalismo liberal que existia na época. É por isso que existe essa confusão", afirma Denise Rollemberg, professora de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Não era que o nazismo fosse à esquerda, mas tinha um ponto de vista crítico em relação ao capitalismo que era comum à crítica que o socialismo marxista fazia também. O que o nazismo falava é que eles queriam fazer um tipo de socialismo, mas que fosse nacionalista, para a Alemanha. Sem a perspectiva de unir revoluções no mundo inteiro, que o marxismo tinha."
O projeto do movimento nazista, segundo Rollemberg, previa uma "revolução social para os alemães", diferentemente do projeto dos partidos de direita da época, "que vinham de uma cultura política do século 19, de exclusão completa e falta de diálogo com as massas".

Mesmo assim, ela diz, seria complicado classificá-lo no espectro político atual. 

Eles rejeitavam o que era a direita tradicional da época e também a esquerda que estava se estabelecendo. Eles procuravam um terceiro caminho", afirma.

Nacionalismo

A ideia de uma "revolução social para a Alemanha" deu origem ao Partido Nacional-Socialista alemão, em 1919. O "socialista" no nome é um dos principais argumentos usados nos debates de internet que falam no nazismo como um movimento de esquerda.

Me parece que isso é uma grande ignorância da História e de como as coisas aconteceram", disse à BBC Brasil Izidoro Blikstein, professor de Linguística e Semiótica da USP e especialista em análise do discurso nazista e totalitário.
O que é fundamental aí é o termo 'nacional', não o termo 'socialista'. Essa é a linha de força fundamental do nazismo - a defesa daquilo que é nacional e 'próprio dos alemães'. Aí entra a chamada teoria do arianismo", explica.
De acordo com Blikstein, os teóricos do nazismo procuraram uma fundamentação teórica e filosófica para defender a ideia de que eles eram descendentes diretos dos "árias", que seriam uma espécie de tribo europeia original.
Estudiosos na Europa tinham o 'sonho da raça pura' nessa época. Quanto mais próximos da tribo ariana, mais pura seria a raça. E esses teóricos acreditavam que o grupo germânico era o mais próximo. Daí surgiu a tese de que, para serem felizes, tinham que defender a raça ariana, para ficar longe de subversões e decadência. (Alegavam que) a raça pura poderia salvar a humanidade."
A ideia de uma defesa do povo germânico ganhou popularidade em um momento de perda de territórios, profunda recessão e forte inflação após a Primeira Guerra Mundial - e tornou-se o centro do movimento nazista.
Era preciso recuperar a moral do pobre coitado, que não tinha dinheiro e era 'massacrado pelos capitalistas'", explica Blikstein. Nesse contexto, afirma, o nazismo vendia a ideia de "reeguer o orgulho da nação ariana. O pressuposto disso seria eliminar os não arianos. E essa teoria foi aplicada até as últimas consequências".
Segundo especialistas, judeus eram perseguidos por simbolizarem dois "inimigos" do nazismo: o capitalismo liberal e o socialismo marxista
'Marxistas e capitalistas'

Mesmo propagando a ideia de que o nazismo planejava uma revolução que garantiria justiça social na Alemanha - o que incluía, por exemplo, maior intervenção do Estado na economia -, o partido fazia questão de deixar clara sua oposição ao marxismo.

Os comícios hitleristas eram profundamente antimarxistas", disse à BBC Brasil a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, que é estudiosa de movimentos neonazistas.
O nazismo e o fascismo diziam que não existia a luta de classes - como defendia o socialismo - e, sim, uma luta a favor dos limites linguísticos e raciais. As escolas nacional-socialistas que se espalharam pela Alemanha ensinavam aos jovens que os judeus eram os criadores do marxismo e que, além de antimarxistas, deveriam ser antissemitas."
Os judeus, aliás, tornaram-se o ponto focal da perseguição nazista porque representavam tanto o socialismo como o capitalismo liberal, mesmo que isso possa parecer antagônico nos dias de hoje.
Havia uma simbologia do judeu como representante, por um lado, do socialismo revolucionário - porque Marx vinha de uma família judia convertida ao protestantismo, assim como muitos bolcheviques", diz a historiadora Denise Rollemberg.
Por outro lado, os judeus eram associados ao capitalismo financeiro porque os judeus assimilados (que assumiram as culturas de outros países, para além da nação religiosa) que viviam na Europa tinham uma tradição de empréstimos de dinheiro e de negócios."
'Precisão científica'

A "precisão científica" do extermínio de judeus na Alemanha nazista também dificulta as comparações com a perseguição política no regime socialista soviético, na opinião de Izidoro Blikstein.
Há muitos genocídios pelo mundo, mas nenhum igual ao nazismo, porque este era plenamente apoiado por falsa teoria científica e linguística e levada até as últimas consequências. A União Soviética também tinha campos de trabalhos forçados, mas não existia uma doutrina para justificar isso", afirma.
Mas há traços comuns entre o nazismo o regime (soviético) de Stálin. A propaganda, por exemplo, e o fato de que ambos eram regimes totalitários, que controlavam e legislavam sobre a vida pública e também privada do cidadão", admite.
Além dos judeus, o regime nazista também perseguiu democratas liberais, socialistas, ciganos, testemunhas de Jeová e homossexuais - algo que, nos dias de hoje, associa o movimento a partidos de extrema-direita que pregam contra a comunidade LGBT, contra imigrantes e contra muçulmanos, por exemplo.
Todo esse projeto de repressão, censura, campos de concentração e extermínio nazista era direcionado a quem estava fora do que eles chamavam de 'comunidade popular', o povo alemão. Mas alemães que eram democratas liberais e socialistas também eram excluídos por serem contrários ao projeto nazista e colocarem em risco a comunidade popular", explica Denise Rollemberg.
No entanto, para Blikstein, a ideia de raça é tão central ao nazismo que, assim como não se pode usar o projeto de revolução social para classificá-lo como "esquerda", também é difícil defini-lo como "direita".
Dizer apenas que Hitler era um político de direita é apequenar o nazismo. Foi mais do que direita ou esquerda. Foi uma doutrina arquitetada para defender uma raça, embora esse conceito seja discutível e pouco científico", diz.
'Crise de referências'

Uma recapitulação do projeto e do regime nazista, de acordo com os especialistas no assunto, aumenta a confusão: deveria haver igualdade social e distribuição de renda, mas imigrantes, judeus, opositores políticos e até filhos "não talentosos" de alemães seriam excluídos dela por serem "menos puros"; o Estado prometia interferir mais na economia para benefício dos cidadãos, mas empresas privadas tiveram os maiores lucros com a máquina de extermínio e de guerra nazista; o movimento dizia defender os trabalhadores, mas sindicatos trabalhistas foram extintos, assim como o direito de greve; o socialismo marxista era considerado ruim, mas o liberalismo também.

Como seria possível defender todas estas ideias ao mesmo tempo?
Quando o partido foi constituído, ele tinha uma vertente mais à esquerda e uma mais à direita. No início, tinha um discurso bastante antiburguês. Mas ao assumir o poder na Alemanha, o grupo à direita foi fazendo mais alianças com a burguesia e expulsando o grupo à esquerda", diz a historiadora da UFF.
Além disso, o nazismo nasce no meio de uma crise de referências muito grande após a Primeira Guerra. Muitos passaram de um lado para outro. Os valores muitas vezes vão se embaralhar, e esses conceitos de direita e esquerda atuais não resolvem bem o problema."
Entre historiadores, a tentativa de traçar paralelos entre o nazismo e o fascismo europeus e o regime stalinista na União Soviética também não é nova, segundo Rollemberg.
Todos eles eram regimes totalitários, mas o totalitarismo pode estar de qualquer lado. Hoje entendemos que há o totalitarismo mais à direita, como o nazismo e o fascismo, e o de esquerda, como o da União Soviética."
Fonte:  BBC Brasil, por Camilla Costa, 07/05/2017

segunda-feira, 8 de maio de 2017

As sufragistas: de como as mulheres tiveram que verter sangue, suor e lágrimas pelo simples direito de votar

Cena do filme 'As Sufragistas', que aborda a luta das mulheres
por igualdade de direitos no Reino Unido. Divulgação

Nenhuma conquista social foi obtida de mão beijada. Mulheres, negros, homossexuais e tantos outros segmentos marginalizados tiveram que verter muito sangue, suor e lágrimas para conseguir os direitos mais básicos (vale assistir também o filme Selma sobre a luta dos negros americanos para poder votar). Importante ressaltar isso atualmente. Hoje, vemos, com tristeza, mulheres, negros e gays reproduzindo o discurso cínico dos conservadores, muito interessados em jogar fora o bebê junto com a água suja da bacia, de que os movimentos sociais não são mais necessários porque instrumentalizados por partidos de extrema-esquerda e outras falácias do gênero. A instrumentalização dos movimentos sociais realmente precisa acabar, mas não os movimentos sociais porque ainda falta muito o que fazer.

'As Sufragistas': metade da humanidade (no mínimo)

'As Sufragistas' é um filme que cospe na nossa cara a vergonha com verdade, raiva e paixão

por Javier Ocaña


Que duas democracias supostamente gloriosas do mundo ocidental mais avançado como o Reino Unido e a França não deram o direito de voto às mulheres, nem que fossem eleitas, até 1928 e 1944, respectivamente, deveria nos enraivecer a tal ponto que o melhor resultado seria, sem dúvida, um verdadeiro exame de consciência. E não sobre o passado, mas sobre o presente. Metade da humanidade, pelo menos, ficava à margem das decisões, e As Sufragistas, filme britânico composto principalmente por mulheres, cospe na nossa cara essa vergonha. Com raiva, com delicadeza, com elegância, com justiça, com verdade, com paixão. Porque ainda resta muito a ser feito.

Sarah Gavron é a diretora, Abi Morgan, renomada dramaturga, a roteirista, enquanto um grupo de sensacionais intérpretes, liderada pela sempre perfeita Carey Mulligan, coloca rosto naquelas mulheres com coragem suficiente para enfrentar o pior vilão, e não de quadrinhos: o homem que se acredita superior.

Gavron e Morgan relatam o processo de conversão ideológica e política de uma mulher comum. Comum? Aparentemente comum, porque essas trabalhadoras do ativismo arriscaram tudo até as últimas consequências. Até o martírio, a morte, até perder seus filhos. A imprescindível mão de obra de uma revolução que tinha seus rostos brilhantes, e necessários, em mulheres que passaram para a história por seus discursos, e que claro que se arriscaram, mas precisavam das imprescindíveis ações das que estavam na base. 

Com excelente produção, música de Alexandre Desplat, fotografia de Eduard Grau de Barcelona, já instalado confortavelmente no cinema internacional, As Sufragistas é mais do que um filme: é a configuração de uma vitória esmagadora. A encenação sem fissuras, mas sem alardes, de Gavron, entre os tons amarelados, de névoa física e tempestade moral da fotografia de Grau, que pode parecer um pouco fria em alguns momentos, mas nunca chega a rachar pela emoção do tema e das situações. Quem não ficar gelado com as imagens documentais no final, é porque tem problemas.

AS SUFRAGISTAS
Direção: Sarah Gavron.
Elenco: Carey Mulligan, Ben Whishaw, Anne-Marie Duff, Meryl Streep, Helena Bonham Carter.
Gênero: drama. Reino Unido, 2015.
Duração: 106 minutos

Abaixo o filme em baixa definição. Para assistir numa imagem melhorada clique aqui, depois em auto para subir a definição para 360. Dá pra ver legalzinho.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Bertha Lutz lutou 10 anos para instituir o voto feminino no Brasil

Bertha Lutz
Bertha Lutz seguiu carreira na política (foto US Library of Congress)

A bióloga e feminista Bertha Maria Júlia Lutz foi a responsável pela conquista da instituição do voto feminino no Brasil.

Nascida em 1894, em São Paulo, em uma família abastada, Bertha estudou Biologia na prestigiada Universidade Sorbonne, na França. Na Europa, conheceu o movimento sufragista das mulheres inglesas.

Em 1918, retornou ao Brasil e se tornou a segunda mulher a ingressar em concurso público no país, assumindo o cargo de bióloga no Museu Nacional. No ano seguinte, fundou, junto de outras mulheres, a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, iniciando as campanhas pelo direito ao voto feminino.

Bertha lutou mais de dez anos até que, em 1932, por decreto-lei do presidente Getúlio Vargas, as mulheres conquistaram o direito ao voto no Brasil. Ainda na década de 1930, organizou o primeiro congresso feminista e fundou a União Universitária Feminina, a Liga Eleitoral Independente, a União Profissional Feminina e a União das Funcionárias Públicas.

Em 1933, elegeu-se primeira suplente do deputado federal Cândido Pereira. Após a morte do deputado, assumiu a cadeira de deputada federal em 1936. Porém, a carreira política de Bertha se encerrou em 1937, quando Getúlio Vargas decretou o Estado Novo.

A passagem de Bertha pela Câmara Federal foi marcada pela luta por mudança na legislação referente ao trabalho da mulher e do menor, igualdade salarial, redução da jornada de trabalho - então de 13 horas diárias - e pela proposta de licença maternidade de três meses.

Com informações de As (outras) mulheres brasileiras sobre quem deveríamos aprender na escola, BBC Brasil, por Laís Modelli, 01/04/2017

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