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O sequestro do termo "gênero":

uma perspectiva feminista do transgenerismo

Mulheres na Ciência

Estudantes criam bactéria que come o plástico dos oceanos

Mulheres na Ciência:

Duas barreiras que afastam as mulheres da ciência

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Realidade














Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorgeio de ninho…
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho…

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada…
E a minha cabeleireira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho…

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci…

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei… se te perdi…

(Florbela Espanca )

domingo, 17 de agosto de 2008

Agosto: Mês da Palhaçada Lésbica

Todo ano, desde 2003, quando foi lançado do Dia do Orgulho Lésbico, em homenagem a primeira manifestação lésbica contra o preconceito ocorrida no Brasil, em 19 de agosto de 1983, em São Paulo, o mês de agosto virou uma palhaçada lésbica.

Explico. É que, em 1996, algumas ativistas lésbicas (na época havia uns 5 grupos no máximo no Brasil) se reuniram no que veio a ser chamado Seminário Nacional de Lésbicas, na cidade do Rio de Janeiro. Uma das propostas desse seminário foi lançar o dia da visibilidade lésbica que calhou de ser 29 de agosto.

Como as outras decisões desse seminário, a proposta de se comemorar o tal dia da visibilidade lésbica não saiu do papel, durante os 6 anos seguintes a seu lançamento, limitando-se a alguma atividade intramuros de um grupo ou outro, algo bem surreal considerando tratar-se de um dia da visibilidade.

De fato, a idéia dos Seminários Nacionais de Lésbicas foi uma boa idéia, naufragada pelo clima de clube de comadres que se estabeleceu nesses eventos, por causa principalmente da presença de algumas lésbicas ligadas ao movimento feminista, movimento onde as lésbicas formaram uma espécie de guetão de mulheres de classe média, autocentrado, autoreferencial e ironicamente enrustido.

Em 2003, quando o SENALE teve sua versão paulistana, no período de realização da Parada do Orgulho, o clima de clube de comadres ficou ainda mais acentuado e a postura mais excludente. Inclusive para tentar estabelecer outras vias mais democráticas para a organização lésbica brasileira e/ou simplesmente para ter um dia para comemorar, a Rede de Informação Um Outro Olhar e a Secretaria de Lésbicas da Associação da Parada GLBT de SP, lançaram o Dia do Orgulho Lésbico publicamente, em junho de 2003, e passaram a celebrá-lo no mesmo ano, em agosto.

Essa data já era uma data referencial desde 1991, quando foi dedicada à memória de Rosely Roth, que encabeçou o protesto no Ferro’s Bar, local da manifestação citada, e reiterada em outubro de 2000, como Dia do Orgulho Lésbico Brasileiro, embora só tenha sido lançada publicamente em 2003. A projeção que o dia ganhou, pela divulgação na imprensa, por ocasião de seu lançamento público, contudo, provocou a sanha competitiva da turma do dia da visibilidade, o tal que nunca havia sido comemorado, cujo apelido era inclusive dia da invisibilidade.

Na guerra suja que se seguiu, uniram-se à turma do dia da visibilidade seus congêneres políticos, como os ativistas glpetistas (lembrando que o lulo-petismo estava chegando ao poder em 2003) e as feministas homossexuais e de outras orientações, agora em maior número. Estas, desde 2002, estavam buscando uma brecha por onde se infiltrar na mal-alinhavada organização lésbica brasileira e se encarrapatar na evidência da questão homossexual e lésbica que as Paradas do Orgulho GLBT conseguiam, cada vez mais, no cenário social e político do país, sem falar no resto do mundo. A disputa dos dias caiu como uma luva para elas. Inflado artificialmente por essas duas forças, que antes nunca haviam dado a mínima para a questão lésbica, o dia da visibilidade ganhou volume, vendendo-se com base na história da carochinha de que teria sido lançado por uma plenária de 100 ativistas lésbicas em 1996 (sic) e sido comemorado desde então (sic).


Paralelamente a isso, essa turma lançou uma ofensiva pesada contra o dia do orgulho lésbico como detalho no texto Dia da Visibilidade: 12 anos de história mal contada , onde se incluíram expedientes como difamação, pressão para que as pessoas não o apoiassem (a ponto de um rapaz que até fez doações a uma das versões da celebração do evento pedir para não ser identificado), a extensão da data da visibilidade para todo o mês de agosto, que virou mês da visibilidade, e o mantra autoritário de que esse dia é o que teria validade porque seria comemorado desde 1996 (sic) em todo o país. Isso sem falar nas mais xiitas que tem a cara-de-pau de dizer que “são do movimento e não reconhecem essa data (em referência ao dia do orgulho)”. Estou há 29 anos na organização lésbica brasileira e acho muita graça dessas que apareceram nos últimos 5 e se acham donas de um movimento cuja história desconhecem.

Na verdade, inconformadas com a manutenção das celebrações do dia do orgulho lésbico, apesar de toda a pressão em contrário, pois elas não conseguem conviver com a diversidade, embora cobrem isso da sociedade, a turma da visibilidade vem se esmerando a cada ano nas formas de tentar invisibilizar a data do orgulho, em ações que até parecem um contrasenso.

Neste ano de 2008, por exemplo, não se sabe se por confusão de alguns ou de algumas ou só por má-fé mesmo, a nova foi citar o histórico do dia 19 de agosto mas apontá-lo como dia da visibilidade ou, numa outra variante, dizer que se está comemorando, no dia 29 de agosto, o dia do orgulho e da visibilidade e assim vai. Como as datas são parecidas e se são dão no mesmo mês, a história, a cada ano, vem descambando, mais e mais, para o circo pura e simplesmente. Claro, haveria alternativas para nos poupar do ridículo crescente, mas não há gente séria para entender isso.

Daí, agosto, que sempre foi o mês do desgosto, também ter virado, o mês da palhaçada lésbica no Brasil.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

SONETO DE DEVOÇÃO - Vinicius de Moraes

Sambesi - Joachim Schneider
Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez... — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

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