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elas são hackers e invadem o mercado da tecnologia masculina

Bolsonarismo:

A origem das ideias do atual Presidente

Modelos rígidos

de mulher e homem afetam as escolhas profissionais de meninas e meninos

Socorro, seu Descartes,

os contra-iluministas estão de volta

quarta-feira, 28 de março de 2018

Condenação após segunda instância sempre prevaleceu no direito penal brasileiro

Querem uma outra lei Fleury
Em 70 dos últimos 77 anos, direito penal determinava que condenado seria preso após primeira ou segunda instância

Resumindo a história: de 1941 a 1973, a regra no Brasil era a prisão após a condenação em primeira instância; de 73 a 2009, vigorou a prisão em segunda instância; de 2009 a 2016, o condenado só poderia ser preso depois da sentença transitada em julgado, ou seja, após a última das últimas instâncias; de 2016 até hoje, voltou-se à norma da execução da pena após a segunda instância.

Portanto, em 70 dos últimos 77 anos, o direito penal brasileiro determinava que o condenado seria preso após a primeira ou segunda instância. Essa é a tradição que, aliás, se alinha com o sistema vigente nas democracias. Já viram no noticiário ou nos filmes americanos: o condenado sai do tribunal já algemado, condenado pelo juiz de primeiro grau.

A exceção foi o curto período de sete anos em que prevaleceu a prisão só em última instância ─ situação que favoreceu um sem-número de condenados ricos e bem posicionados no mundo político, que podiam pagar a advogados e recorrer até o Supremo Tribunal Federal, passando antes pelo Superior Tribunal de Justiça. Um processo longo, que permitia a prescrição e, pois, a garantia de que especialmente os crimes do colarinho branco jamais seriam punidos.

Voltar a essa norma de exceção não beneficiaria apenas o ex-presidente Lula, mas o amplo número de empresários, executivos, altos funcionários e políticos que já foram apanhados pela Lava-Jato ou que estão na sua mira.

Mas não seria o primeiro casuísmo nessa história.

A primeira virada de mesa se deu em novembro de 1973. O delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops, conhecido chefe da repressão, torturador, estava para ir a júri. Pronunciado ou condenado em primeira instância, iria para a cadeia. Aí o regime militar determinou, e o Congresso aprovou a Lei 5.941, que manteve a prisão após a condenação ou pronúncia para o júri, mas abriu a possibilidade de concessão de fiança com a qual a pessoa apelava em liberdade.

Não por acaso, ficou conhecida como Lei Fleury.

Em 1988, veio a nova Constituição, dizendo que a presunção de inocência vale até o trânsito em julgado da sentença.
Claro que se estabeleceu uma questão: se há a presunção de inocência, a pessoa pode ser presa antes de se esgotarem todos os recursos? Pois o STJ respondeu que pode, com a Súmula 09. Ali a Corte disse, em resumo, que a prisão do condenado em segunda instância não ofende a presunção de inocência. A regra, portanto, era clara: para apelar, a pessoa precisava iniciar o cumprimento provisório da pena.
E assim foi até 2009, quando o STF mudou o entendimento e estabeleceu o direito do condenado em segunda instância de recorrer em liberdade.

Mudou por quê? Doutrina ou casuísmo?

Era a época do mensalão, esse julgamento extraordinário, que começou a punir e colocar em cana o pessoal do colarinho branco. Quem liderou a mudança no STF foi o então ministro Eros Grau, que hoje se arrepende. Conforme registramos em nossa coluna de 1º de março, ele comentou em debate recente: 
Agora, neste exato momento, eu até fico pensando se não seria bom prender já na primeira instância esses bandidos que andam por aí”.
Foi em 2016, na era da Lava-Jato, quando se expôs o tamanho da corrupção e o grau de envolvimento da política e dos negócios, que o STF, pressionado pela conjuntura, voltou à regra pela qual a prisão pode ser decretada após a condenação em segundo grau. Foi um placar apertado, 6 a 5.

Pois a Lava-Jato avançou, prendeu um monte de gente. Agora, quando chega a vez de Lula, cresce o movimento para o STF mudar de novo e voltar à norma de exceção que vigorou entre 2009 e 2016. Mas não é só por Lula, claro.

A mudança na regra tiraria muita gente da cadeia e impediria que outros tantos fossem levados a ela no futuro. Isso inclui, por exemplo, o presidente Temer, atuais ministros e parlamentares, hoje protegidos pelo foro privilegiado, mas que estarão na chuva quando terminarem seus mandatos.

Proteger esse pessoal, com uma mudança de interpretação no STF, isso seria a exceção, uma outra Lei Fleury.

No mundo democrático, civilizado, a norma dominante determina a prisão após condenação em primeira ou segunda instância, como foi no Brasil durante 70 dos últimos 77 anos. É sustentada pela boa doutrina.

Fonte: Veja, por Carlos Alberto Sardenberg, 22/03/2018

segunda-feira, 26 de março de 2018

Computação já foi e precisa voltar a ser "coisa de mulher"

Primeira turma de Ciências da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da USP -
Foto: Arquivo Pessoal/Inês Homem de Melo

Por que as mulheres “desapareceram” dos cursos de computação?
Na década de 1970, cerca de 70% dos alunos do curso de Ciências da Computação, no IME, eram mulheres; hoje, 15%
Inicialmente, as imagens acima e abaixo podem parecer simples fotografias antigas de colegas em qualquer curso da USP. Mas ela deixa de ser comum ao descobrir que se trata da primeira turma do Bacharelado em Ciências da Computação do Instituto de Matemática e Estatística (IME), em São Paulo. A informação pode causar espanto nos dias de hoje, em que a área de tecnologia é ocupada, majoritariamente, por homens. No entanto, essa não era a realidade em 1974, quando a turma se formou. Antes de nomes como Alan Turing, Steve Jobs e Bill Gates, a computação era uma área ocupada por mulheres, sendo elas as criadoras de diversas tecnologias e linguagens de programação. Mas, então, o que aconteceu? Para onde foram essas mulheres?

A primeira turma de Ciências da Computação do IME contava com 20 alunos, sendo 14 mulheres e 6 homens. Ou seja, 70% da turma era composta de mulheres. Já a turma de 2016 contava com 41 alunos, sendo apenas 6 meninas, ou seja, 15%.

Primeira turma de alunos do curso de Bacharelado em Ciências da Computação do IME, em 1974
 Foto: montagem sobre reprodução de fotografia de Inês Homem de Melo


A baixa presença feminina também se verifica em cursos de outra unidade da USP. Nos últimos cinco anos, apenas 9% dos alunos formados no curso de Ciências de Computação do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP em São Carlos eram mulheres; no Bacharelado em Sistemas de Informação, foram 10% e em Engenharia de Computação, 6%.

Segundo a presidente da comissão de graduação do ICMC, Simone Souza, o baixo número de alunas no curso já vem desde a escolha no vestibular, que tem pouca procura entre as jovens. Na Fuvest, as carreiras em computação do IME e do ICMC são as de menor proporção entre homens e mulheres, juntamente com as engenharias.

Em 1997 (primeiro ano disponível para consulta), a proporção de candidatas inscritas no Bacharelado em Ciências da Computação do IME foi de 26,4%, enquanto em 2017, a proporção foi de 13,66%. Nos anos de 2010 e 2016, o curso teve a menor proporção entre todos da Fuvest.

Essa realidade não se restringe à USP. Entre as décadas de 1970 e 1980, houve uma grande inversão nos sexos da área de tecnologia no mundo todo, mesma época em que surgiu o computador pessoal.

Estigma masculino

Antes da criação do personal computer (PC), o computador era uma grande máquina de realizar cálculos e processamento de dados, atividades associadas à função de secretariado. A sua chegada na casa das pessoas, por meio de empresas como IBM e Apple, popularizou o uso pessoal das máquinas, principalmente, com a finalidade lúdica dos jogos.

Para a professora do IME Renata Wassermann, foi neste momento que o computador ganhou a “marca” de masculino que o acompanha até hoje.

Quando os jogos começaram a se popularizar, acabou ficando estigmatizado como ‘coisa de menino’. Já no início dos anos 1970, era tudo muito abstrato, ninguém tinha computador em casa, então computação tinha mais a ver com a matemática, e o curso de matemática tinha mais meninas do que o de computação. O curso de computação não era muito ligado à tecnologia porque a gente não tinha computadores pessoais. Isso mudou bastante e agora o curso se refere mais à tecnologia do que à matemática.

Um gráfico produzido por um dos podcasts da National Public Radio (NPR) expõe essa quebra, comparando o número de mulheres em cursos de computação em relação aos cursos de medicina, direito e física nos Estados Unidos:
Em verde: Direito, Medicina, Ciências Físicas. Em vermelho: Ciências da Computação
Segundo o professor e coordenador do curso de Ciência da Computação do IME, Marco Dimas Gubitoso, um fator que pode explicar o grande interesse das mulheres pela graduação na década de 1970 é a sua associação com o curso de Matemática.

A turma do início desta reportagem se constituiu a partir da migração de alunos da licenciatura em Matemática, que sempre teve um histórico maior de presença de mulheres.

Esse foi o caso de Maria Elisabete Bruno Vivian, que se formou na primeira turma de Ciência da Computação do IME e foi professora no mesmo instituto. Desde cedo, ela sabia que queria fazer computação, mas o curso ainda não existia quando se matriculou na licenciatura. A transferência só ocorreu no segundo semestre de 1971. Na época, a área era uma novidade e não se tinha ideia do quão competitiva ela se tornaria.
A licenciatura é um curso para formar professores e ser professor sempre foi uma carreira majoritariamente feminina até hoje. Por isso, quando criaram o Bacharelado em Ciência da Computação havia muita mulher porque a maioria veio da licenciatura. O cenário mudou quando a carreira ficou interessante. Com muitas vagas e ótimos salários, ela acabou atraindo mais homens”, afirma Maria Elisabete.
Camila Achutti – Foto: montagem sobre fotografia de divulgação de Mastertech
O que os alunos dessa primeira turma não imaginavam, quando fizeram a fotografia, era de que ela seria o estopim para a criação do blog Mulheres na Computação por Camila Achutti, que também se formou no curso de Bacharelado em Ciência da Computação do IME.

Em 2010, quando Camila chegou para a primeira aula de Introdução ao Algoritmo, ela notou que era uma das poucas mulheres na sala. Em 2013, quando se formou, era a única. O choque de estar sozinha numa turma masculina a obrigou a pesquisar referências de mulheres na computação. Foi, então, que encontrou a foto no acervo de relíquias do IME.
Comparando essa foto de 1974 com a foto da minha turma, você vê que caiu muito. Como pode cair de 70% para 3% o número de mulheres na turma? Tem alguma coisa muito errada. Então eu pensei: ‘já que isso existe, eu quero mostrar para todo mundo. E toda vez que uma menina digitar Mulheres na Computação ou na Tecnologia vai aparecer alguma coisa’. E esse foi meu primeiro ato empreendedor, tudo por causa dessa foto.
Hoje, Camila dirige duas startups e é conhecida por lutar pela inserção feminina na área da tecnologia.

Essa inversão de realidade causou espanto também em Inês Homem de Melo, ex-aluna e professora no IME. Durante os 15 anos em que ficou na USP, a professora assistiu à predominância feminina no curso até atingir um equilíbrio entre os gêneros, mas jamais imaginou que o número se inverteria.

Inês Homem de Melo – Foto: montagem sobre fotografia de Inês Homem de Melo
Eu trabalhei na USP, depois fui para uma fabricante de hardwares e softwares e meu último emprego, onde me aposentei, foi em um banco. Em todos esses lugares, era equilibrado o número de homens e mulheres, não havia a predominância de homens igual havia na engenharia. Não sei o que houve para diminuir tanto assim.”
Falta incentivo

Um estudo realizado na Southeastern Louisiana University, nos Estados Unidos, buscou investigar por que o número de estudantes mulheres em ciências da computação da universidade tinha diminuído. A conclusão do estudo, que pode ser encontrado no Journal of Computing Sciences in Colleges, mostra que as meninas são menos estimuladas às carreiras de tecnologia.

Propagandas midiáticas, a educação escolar e a própria família têm influência na criação do estereótipo de que homens são melhores na área de exatas, enquanto mulheres se dão melhor nas humanas. A falta de representação de mulheres na área também é um fator fundamental para repelir as meninas dos cursos de tecnologia.

Quando você fala de computação, a primeira imagem que vem à cabeça é do homem nerd que programa desde os cinco anos e criou uma grande empresa aos 18, e isso não é verdade”, conta Camila.
Existem muitas mulheres que participaram da história da computação, mas, de alguma forma, houve um apagamento dessas mulheres.”
Ela lembra que, embora os nomes de homens sejam os mais citados, mulheres como Ada Byron (Lady Lovelace) e Grace Murray Hopper foram fundamentais para a informática.

Uma pesquisa realizada pela Microsoft mostrou que as mulheres tendem a se considerar menos aptas para as carreiras de exatas conforme crescem. As meninas costumam se interessar por tecnologia e exatas, em geral, aos 11 anos, mas aos 15 elas começam a desistir. As razões, segundo a pesquisa, são: ausência de modelos femininos na área, falta de confiança na equidade entre homens e mulheres para exatas e a ausência de contato com cálculo e programação antes da faculdade.

Camila sentiu essa falta de contato maior com as exatas já no primeiro dia de aula, quando notou que todos os alunos sabiam o que era algoritmo e já tinham uma noção básica de lógica de programação, enquanto, para ela, aquilo era tudo novidade. 
Eu virei o patinho feio da sala, a burra. Comecei a me questionar do por quê estava ali.”
Anos depois de ter encontrado a fotografia, a ex-aluna do IME trabalha para desmistificar a computação como atividade exclusivamente masculina. A proposta do blog Mulheres na Computação é incentivar, discutir e difundir assuntos relacionados a tecnologia e empreendedorismo sob a ótica de jovens mulheres.

Por meio de cursos e workshops, a equipe do blog leva programação, lógica, cálculo, internet das coisas, entre outros temas, para as meninas. A intenção, segundo Camila, é acabar com a ideia de que tecnologia é difícil e tarefa de gênios.

Para ela, pequenas atitudes podem contribuir para atrair as mulheres de volta para a área. 
Aos homens, cabe o papel de ‘evangelizar’, não deixar que o amigo faça piadas contra a colega de profissão, e quando uma menina perguntar o que ele faz, explicar de fato e não dizer que é algo difícil que ela não entende. E, às meninas, cabe refletir se aquela sensação de que não é para elas a área, é de fato verdade ou uma ideia que foi imposta a elas.”
Além do trabalho de Camila, outras iniciativas buscam atrair as mulheres para a tecnologia. São projetos como Meninas na Computação, que incentiva o ingresso de jovens sergipanas na ciência da computação, Cunhatã Digital, que visa a atrair mulheres da região amazônica para a tecnologia e, principalmente, o Meninas Digitais, da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), direcionado a alunas do ensino médio e últimos anos do fundamental.
O Meninas Digitais envolve centenas de meninas, em todo o Brasil, durante o ano todo, em práticas educacionais na computação”, explica a ex-presidente da SBC e ex-embaixadora do Comitê Mulheres da Associação Americana de Computação (ACM), Claudia Bauzer Medeiros.
A SBC tem atividades regulares iniciadas há 11 anos. Começaram com um evento de um dia, o Women in Information Technology (WIT), que hoje é realizado durante três dias, com atividades de laboratório de programação para meninas, debates e apresentações. Há, além disso, um grupo bastante ativo de docentes e alunas na área de bancos de dados, o Women in dataBases (WomB), que se reúne anualmente durante o Simpósio Brasileiro de Bancos de Dados.

Para Claudia, a maneira mais eficaz de atrair mais meninas não só para a computação, mas para as carreiras de Ciência e Tecnologia como um todo, é pela educação e esclarecimento desde o ensino fundamental sobre essas áreas. O projeto inspirou uma iniciativa dentro do IME de mesmo nome.

Camila Achutti destaca que incentivar as mulheres para essas carreiras é uma necessidade urgente e que traz apenas benefícios. 

Você não precisa ser feminista para concordar comigo, você pode ser só capitalista para notar que essa conta não fecha. Você tem o setor com a maior demanda do mercado e está isolando metade do País. Como continuar desenvolvendo e inovando sem utilizar a mão de obra dessas mulheres?”

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A professora Edith Ranzini foi uma das quatro mulheres que contribuíram
com a construção do primeiro computador brasileiro
Professora integrou equipe que projetou e construiu o primeiro computador do Brasil

Considerado o primeiro computador totalmente desenvolvido e construído no Brasil, o Patinho Feio, como ficou conhecida a máquina, foi fruto de um projeto da Escola Politécnica (Poli) da USP, coordenado pelo professor Antônio Hélio Guerra Vieira, ex-reitor da Universidade.

A professora Edith Ranzini foi uma das quatro mulheres que contribuíram com o projeto. Além da criação do computador, ela também foi responsável por implantar o curso de Engenharia Elétrica com ênfase em Computação na Poli.

Ela conta que entre os 360 colegas de sua turma, apenas 12 eram mulheres. Contudo, acredita que fazer parte da minoria nunca foi motivo para ser discriminada ou subjugada.
Não existe essa história de que, pelo fato de ser mulher, uma pessoa é engenheira ou professora de segunda categoria”, defende.
Ranzini passou a integrar o corpo docente da Poli em 1971 e se aposentou em 2003, mas continua contribuindo com a Universidade. Foi presidente da Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE) e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC).

Da Assessoria de Imprensa da Poli
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Fonte: Jornal da USP, 07/03/2018

quarta-feira, 21 de março de 2018

Querer censurar obras de arte do passado, com base em valores do presente, gera grandes distorções

"Hilas e as Ninfas": o objetificado é o homem
Sob a desculpa de promover debate a respeito da objetificação do corpo feminino na arte, em fins de janeiro deste ano, o quadro "Hilas e as Ninfas", de John William Waterhouse (1849 – 1917), foi temporariamente retirado de exibição no Museu de Manchester, Inglaterra. A retirada, porém, provocou revolta do público local e até internacional, e o quadro teve que voltar ao seu lugar de origem bem antes do planejado.

No texto abaixo, Laura Ferrazza, doutora em História da Arte pela Sorbonne/PUCRS, analisa a obra e seu ator de forma contextualizada tanto no que diz respeito à época de sua produção quanto no refente à história da arte. Demonstra então que, no quadro em pauta, o objetificado é o homem, Hilas, e os sujeitos do desejo são as ninfas. Assim aponta para as distorções que ocorrem quando se projeta sobre o passado os olhos do presente. E questiona as tentativas de censura de obras antigas que não se encaixam nas exigências da correção política atual. Sempre vale lembrar que a arte não tem que bater continência nem para o moralismo de direita nem de esquerda nem de qualquer facção.

A Maldição e a Beleza

Em fins de janeiro deste ano, o museu de Manchester, no interior da Inglaterra, mandou retirar de sua exposição permanente o quadro “Hilas e as Ninfas”, de 1896, de autoria de John William Waterhouse (1849 – 1917). Além do quadro propriamente dito, os souvenires inspirados na pintura também sumiram da loja do museu. A decisão, segundo curadores, era suscitar o debate sobre a objetificação do corpo feminino na arte e na exposição permanente do espaço. Na parede onde antes ficava a obra, foi fixado um texto explicando ao público os motivos da desaparição. O público foi estimulado a expressar sua opinião em post-its, a serem fixados no mesmo local. A retirada de uma das obras mais emblemáticas do acervo provocou, de fato, rápidas e loquazes manifestações. As declarações dos visitantes, bem como dos internautas nas redes sociais ficaram bem divididas: alguns afirmaram que retirar a obra significa abrir um precedente perigoso, pela rendição à tendência de se apagar ou censurar a produção visual do passado; outros elogiaram a decisão por considerá-la politicamente correta.

Segundo a equipe do museu, a retirada seria temporária. Tanto o desaparecimento da obra quanto as reações do público seriam registradas pela artista contemporânea Sonya Boyce em uma obra que integraria uma próxima exposição. Contudo, o repúdio do público intensificou-se tanto na esfera local quanto na internacional, e o quadro acabou retornando a seu local de origem após apenas sete dias, bem antes do prazo programado. A curadora Clare Gannaway defendeu o projeto afirmando que, no período em que a obra fora produzida, “as personagens femininas aparecem como objetos passivos e decorativos ou como mulheres fatais.”

Todo esse alvoroço aguçou meu desejo de refletir mais sobre a referida pintura e seu autor e sobre as visões do feminino na arte do período, para tentar entender como uma produção de mais de cem anos pode se tornar objeto de tamanho debate nos dias atuais.

Autor e obra contextualizados

Comecemos pelo autor da obra. Afinal, quem foi Waterhouse? Nascido em Roma em 1849, filho de artistas ingleses, foi para Londres em 1853. Ingressou na Academia Real Inglesa em 1871, formando-se em 1888, época em que já estava produzindo ativamente. Continuou pintando até 1915, quando um câncer o obrigou a abandonar o trabalho. Em 2 de fevereiro de 1917, um dia após seu falecimento, uma nota no jornal Times de Londres o descreveu nos seguintes termos: “Este pintor pré-rafaelita pintava de uma maneira moderna.”

A Irmandade Pré-Rafaelita foi fundada em 1848 por três artistas: Dante Gabriel Rossetti, John Everett Millais e William Holman Hunt. O grupo iria influenciar a pintura inglesa de toda segunda metade do século XIX. O nome indicava uma oposição à arte inspirada no modelo clássico do Renascimento, personificada na figura do pintor italiano Rafael de Sanzio (1483 – 1520), que exaltava as formas perfeitas. Esse era o modelo seguido pela academia de arte inglesa. Tomando a corrente contrária, o grupo pretendia explorar, entre outros temas, o romance medieval e mesmo temas míticos, mas de maneira diferente do que acontecia na arte tradicional. O grupo oferecia aos novos artistas uma direção alternativa à arte acadêmica da época, e Waterhouse sucumbiu a esse apelo.

A confraria pré-rafaelita se dissolveu em 1862, mas seus protagonistas tiveram carreiras longevas. Seguiram produzindo e formando novos artistas com tendências semelhantes. Além da exploração de temas cavalheirescos, o espírito pré-rafaelita primava pela precisão no traço e a atenção aos detalhes. Waterhouse embebeu-se desse espírito, mas também foi influenciado pelas paisagens de pinceladas fluídas dos Impressionistas franceses e os temas carregados de simbologias obscuras do movimento Simbolista, também francês. Em suma, observou as transformações na arte do mundo ao seu redor e, a partir disso, desenvolveu um estilo único.

Na década de 1880, Waterhouse tornou-se conhecido como “o pintor das feiticeiras”. Isso, por haver transformado as mulheres no tema principal de suas pinturas. Em sua obra, abundaram, de fato, as criaturas mágicas – mas havia também mulheres de outros tipos. Suas figuras femininas eram inspiradas em personagens literárias medievais ou da antiguidade greco-romana; nesse sentido, a literatura inglesa da segunda metade do século XIX teve grande influência sobre as escolhas artísticas de Waterhouse e dos demais pintores pré-rafaelitas. Na primeira metade do século, a figura literária dominante era masculina: os heróis byronianos, libertinos, sedutores, rebelados contra a autoridade divina. Na segunda metade, ocorre a ascensão da mulher fatal, às vezes anjo luminoso, às vezes demônio crepuscular. Nesse contexto, os artistas pré-rafaelitas, situados entre o romantismo e o movimento decadentista do fim de século, haverão de criar uma imagem ambivalente da feminilidade.

Waterhouse representou uma mulher multifacetada, que podia desempenhar diferentes papéis. Em suas telas, encontramos heroínas, mártires, santas e bruxas. Isso é notável se pensarmos no contexto em que produziu suas obras: a era Vitoriana (reinado da Rainha Vitória, de 1837 a 1901) e a era Eduardiana (reinado de Eduardo VII, de 1901 a 1910). Foi nesse período que as mulheres inglesas iniciaram sua luta por igualdade social, como, por exemplo, o movimento das sufragistas, que data de 1897. Por outro lado, foi também um período de repressão contra a sexualidade feminina. Waterhouse mostra-se sensível a essas questões ao escolher figuras femininas como protagonistas e, muitas vezes, únicas personagens em suas telas. As mulheres de Waterhouse são poderosas, feiticeiras que comandam os acontecimentos, ou figuras livres, que exibem sua própria nudez sem pruridos.

Um dos motivos da recente polêmica em torno à tela “Hilas e as Ninfas” é a representação de um grupo de jovens nuas. A questão do nu, por sinal, estava no coração do debate artístico inglês na segunda metade do século XIX. Antes disso, na arte britânica, o nu era tido como um gênero menor, até mesmo vulgar. É por volta de 1850 que os críticos de arte reconhecem a ausência do nu como uma carência na tradição acadêmica do país; surge então a ideia do nu inglês. A Inglaterra desse período cria seu estilo de nu a partir da união entre três vertentes: o idealismo limpo do neoclassicismo francês, a volúpia dos nus italianos (principalmente venezianos) e o realismo inglês. Dessa maneira, os pintores ingleses produziram a imagem enigmática e sedutora, vulnerável e independente da mulher vitoriana. Sobre o véu literário e mitológico, haverá de esconder-se uma sensualidade bastante subversiva.

Em "Hilas e as Ninfas" é o homem o objetificado

Nas telas de Waterhouse, assim como em outros pintores pré-rafaelitas, a Antiguidade não é a dos grandes deuses do Olimpo, nem dos músculos modelados sob as vestes. O que interessa é a sensualidade das pequenas figuras, principalmente as femininas. Um exemplo é o próprio episódio que inspirou a tela “Hilas e as Ninfas”. Hilas tornou-se escudeiro do semideus Herácles ‒ ou Hércules ‒ após ser poupado por ele em uma batalha. Héracles encantou-se pela beleza do rapaz, e juntos embarcaram na expedição dos Argonautas. Em uma parada na ilha de Mísia, Hilas foi apanhar água junto à fonte Pegea, onde vivia um grupo de náiades (ninfas dos lagos e das fontes). Encantadas pela beleza do jovem, as ninfas o atraíram para dentro das águas e fizeram com que se afogasse; em outra versão, conferiram-lhe vida eterna e permitiram que morasse para sempre na fonte, junto delas. O fato é que Hilas nunca mais foi visto; Héracles pôs-se a procurar seu efebo pela ilha e perdeu a partida do navio Argos. O quadro de Waterhouse revela o instante mesmo em que Hilas sucumbe às ninfas e sela seu destino. É uma espécie de maldição da beleza: nesse caso, a beleza de Hilas, que desperta a cobiça das ninfas e o leva ao fim trágico. Ou seja: aqui, ironicamente, quem parece ser o objeto do desejo é o homem, e não as moças. Na pintura, o transbordamento amoroso e o êxtase são sugeridos de forma controlada, e a nudez dialoga com o tema: é principalmente nos olhares incisivos e nos gestos contidos que a sedução acontece.

A cena se desenvolve num ambiente natural com densa vegetação, onde se destacam os corpos nus das ninfas e seus olhares, que demonstram perfeitamente o poder de atração. Numa época de repressão sexual feminina, mulheres nuas, que conduzem os acontecimentos, não deixam de representar uma certa transgressão. A natureza selvagem em torno aos personagens é outro subterfúgio para sugerir aquilo que não pode ser dito explicitamente. O jogo de cores intensas na paisagem revela a pulsação amorosa. Assim, a natureza encarna a faceta da sensualidade irreprimida e florescente.

Será possível julgar o passado de forma definitiva com os olhos do presente? Por um lado, é inegável que o presente está permeado de passado; mas também existe uma distância e um contexto diverso. É problemática a exigência de que a visão dos corpos, do feminino, das mulheres satisfizesse, na era vitoriana, todas as exigências da correção política atual. Como tentei demonstrar, na verdade, há um tipo de transgressão em afrontar uma época cerceadora com a imagem de um corpo feminino nu e naturalizado; há uma homenagem em colocar-se a mulher como feiticeira, quando as ideias de igualdade entre os sexos incendeiam mentes e levam bandeiras para as ruas.  Contudo, hoje, parece que o passado sempre ‒ e somente ‒ pecou; há o perigo da distorção, de vermos apenas o que desejamos ver nas imagens que nos chegam de outras eras. Parece tentador apontar apenas os erros do passado, mas isso pode levar a interpretações dúbias, ao apagamento de comportamentos sobre os quais podemos, sim, refletir e formar uma opinião crítica; o problema é o desejo de silenciar. O episódio de “Hilas e as Ninfas” demonstra a potência das imagens que, ao atravessar os tempos, chegam a nossa contemporaneidade para gerar novas, profundas e às vezes bastante complexas reflexões.

Laura Ferrazza é doutora doutora em História da Arte pela Sorbonne/PUCRS e pesquisadora do PPG de História da UFRGS

Fonte:  O Estado de São Paulo, 24/02/2018

segunda-feira, 19 de março de 2018

Jessica Jones: uma heroína à revelia e o amor entre mulheres


Terminei de assistir a segunda temporada da Jéssica Jones e gostei. A maioria achou a primeira temporada o máximo e vem criticando essa segunda. Pra mim foi o contrário. Detestei a primeira temporada, com exceção da cena em que ela mata o vilão da história (acho que não é mais spoiler passado tanto tempo).

Mas desta segunda gostei. Explica as origens dos poderes da Jessica, introduz a mãe dela supostamente morta e mais poderosa do que a filha, desenvolve mais os personagens coadjuvantes.

Pra quem gosta do binômio mocinha-vilão, vai ser meio decepcionante porque não há um vilão muito evidente e os aparentes vilões não são tão vilões quanto parecem. Todo mundo às voltas com seus defeitos e fraquezas, anseios e dramas, mas também com seu lado positivo e heroico, em particular a própria Jessica.

Gostei especialmente do amor entre mulheres da série. Tem o amor sexual da advogada Jeri Hogarth por mulheres, mas nada panfletário, graças a Zeus. Sexualmente, a maioria é hétero, faz sexo com homens, mas a história de amor é entre mulheres. Amor de mãe e filha, amor de irmãs, amor de amigas. A relação da Jessica com a mãe é conflitiva, mas intensa, bonita e triste. 😭Sua relação com a irmã adotiva, a Trish, também é intensa, e as duas estão dispostas até a morrer uma pela outra, mas nesta edição não tem happy end entre elas. Aliás, a personagem da Trish é a que sofre a maior reviravolta e promete bom desenvolvimento na próxima temporada.

Enfim, consegui desta vez sentir empatia pela rabugenta, alcoólica, meio autodestrutiva, mas muito humana e, à revelia, heroica Jessica Jones. Recomendo. 💗


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