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uma perspectiva feminista do transgenerismo

Mulheres na Ciência

Estudantes criam bactéria que come o plástico dos oceanos

Mulheres na Ciência:

Duas barreiras que afastam as mulheres da ciência

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

São Paulo, amada, feliz aniversário!

91 mil ruas e avenidas, 15 mil bares, 12,5 mil restaurantes, 410 hotéis, 110 museus, 260 salas de cinema, 88 bibliotecas, 78 parques e 600 espetáculos teatrais por ano. Minha amada superlativa, cosmopolita, empreendedora, liberal, libertária, sem você o meu dono é a solidão.

Quem é seu dono? Ninguém, São Paulo. Desperta, desperta. Deixe de ser Atlas e vire nação!

Da banda 365, São Paulo, uma homenagem em música e letra nos seus 462 anos!

Tem dias que eu digo "não" /Inverno no meu coração/Meu mundo está em tua mão/Frio e garoa na escuridão...
Sem São Paulo/O meu dono é a solidão/Diga "sim"/Que eu digo "não"...(2x)
Tem dias que eu digo "não"/Inverno no meu coração/Meu mundo está em tua mão/Frio e garoa na escuridão...
Sem São Paulo/Oh! Oh! Oh!/O meu dono é a solidão/Diga "sim"/Que eu digo "não"(2x)
Quem é seu dono?/Ninguém, São Paulo/Quem é seu dono?/Ninguém, São Paulo...
Tem dias que eu digo "não"/Inverno no meu coração/Meu mundo está em tua mão/Frio e garoa na escuridão...
Sem São Paulo/O meu dono é a solidão/Diga "sim"/Que eu digo "não"(2x)
Desperta São Paulo!/Desperta São Paulo!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Só os ingênuos ou os de má-fé ainda resistem a admitir que os black blocs são a outra face do MPL


A verdadeira face do MPL

Agora não há mais dúvida. Com a divulgação de manual no qual instrui seus militantes e simpatizantes sobre como bloquear vias importantes e empregar outras táticas truculentas para atingir seus objetivos, o Movimento Passe Livre (MPL) confirma as avaliações mais pessimistas – sugeridas pelo seu comportamento tortuoso – sobre a sua verdadeira natureza e as suas verdadeiras intenções. Desaparece a imagem de bom-mocismo que sempre cultivou e surge a de um grupo aguerrido, frio e calculista, que não hesita em apelar para o emprego de métodos de ação violentos, que lembram ações precursoras da guerrilha urbana. 

“Para aumentar as chances de vitória contra o aumento (da tarifa dos transportes coletivos), chegou a hora de começar a travar terminais de ônibus, grandes avenidas e ruas no entorno dos atos para garantir que a cidade pare até que tarifa baixe”, diz o manual. Com as minúcias de quem traça um bem pensando plano de batalha, o MPL propõe “sete passos” para parar vastas áreas da cidade e, por esse meio, potencializar os efeitos de suas manifestações, se é que a essa altura tal palavra ainda pode ser empregada para designar suas estripulias. 

Primeiro, ensina, é preciso convocar amigos, grupos políticos – e pensar que o MPL se vangloria de ser apartidário – e outras pessoas para participar dos protestos, por meio de mensagens de WhatsApp. Depois, deve-se escolher, em grupo, os locais que serão travados, “durante, depois e em outros dias além do ato”. Ou seja, são ações continuadas, que estão a léguas de distância da ideia vendida à população de protestos espontâneos, puros, ditados pela indignação contra a tarifa alta de um serviço ruim, que a seu ver deveria ser gratuito, como se se vivesse num mundo de sonhos onde não é preciso pagar contas.

O manual orienta os grupos – embora isso não seja dito, supõe-se que sejam integrados por militantes bem treinados, do contrário não teriam como fazer o que deles se espera – a organizar ações logo pela manhã e dialogar com a população para conseguir sua adesão. “Não podemos fazer essa ação isolada. Temos de convencer os trabalhadores”, recomenda. 

Outras orientações são fotografar e filmar as ações para divulgá-las e incentivar os participantes das manifestações a repeti-las. Finalmente, propõe-se que se marque uma concentração antes do protesto e que seus participantes sigam “em marcha travando as ruas até o local do grande ato”. Isso já aconteceu na manifestação de quinta-feira passada – o ato preliminar foi na Praça da Sé – e o objetivo, mais uma vez, é explorar todas as possibilidades de tumultuar a vida da cidade.

É importante assinalar esses pormenores das instruções do manual porque são eles que dão uma ideia precisa do que é de fato o MPL – uma organização politizada, sim, ao contrário do que ela pretendia ser, e determinada a utilizar meios violentos para atingir seus objetivos. Violência que se revela de várias formas. Uma delas é o bloqueio de vias importantes, com a deliberada intenção de complicar ainda mais o trânsito já difícil e paralisar a cidade, prejudicando a vida de milhões de paulistanos. 

Violência não é apenas jogar coquetéis molotov e promover vandalismo. Mas também essa violência explícita, escancarada, faz parte do MPL, embora ele espertamente queira posar de bonzinho. A essa altura, só os ingênuos ainda resistem a admitir que os black blocs são a outra face do MPL. Não se viu até agora por parte desse movimento nenhuma ação concreta para combater a violência dos black blocs, nem mesmo – o que seria pouco tendo em vista a gravidade do caso – uma palavra de condenação clara do rastro de destruição que eles deixam a cada manifestação. 

Essa omissão só pode ser entendida como cumplicidade. E cumplicidade é crime. Já está mais do que na hora de fazer cair a máscara de movimento pacífico, que o MPL espertamente carrega. A sociedade precisa acordar para essa realidade. Especialmente aquela sua parcela que engrossa as fileiras das manifestações do MPL e, assim, se deixa usar como massa de manobra de inocentes úteis.

Fonte: O Estado de São Paulo, 17/01/2015

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

9,1 milhões trabalhadores estão na lista de desempregados


Destaque:
 
O desemprego tornou-se um problema mundial. Mas é pior no Brasil do que na maioria dos países com nível de desenvolvimento igual ou superior ao nosso. Numa lista de 34 países, o desemprego no Brasil é maior do que o de 25 deles, de acordo com estatísticas referentes ao terceiro trimestre de 2015 divulgadas há pouco pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O pior está por vir

Em um ano, mais 2,5 milhões de brasileiros entraram para a lista de desempregados, elevando para 9,1 milhões o total de trabalhadores procurando emprego. Esses números, que constam da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referente ao trimestre agosto-outubro de 2015, mostram a rapidez com que o desemprego se alastra e dão a dimensão social da crise em que o País está mergulhado.

O pior é que não há indicações de melhora no horizonte. Com o agravamento da crise a partir do início do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, o desemprego parece ter adquirido força própria. Foram rompidos padrões observados em anos anteriores, quando o número de desempregados aumentava no início do ano, por causa das demissões dos trabalhadores temporários contratados para atender ao aquecimento dos negócios no fim do ano anterior, mas decrescia rapidamente nos meses seguintes.

Colocados num gráfico, os números da Pnad Contínua mostram que o desemprego não diminuiu em nenhum período do ano passado. O que se observa nesse gráfico é o crescimento ininterrupto do número de desempregados desde o trimestre móvel setembro-novembro de 2014, com a eliminação do pico normalmente atingido no primeiro semestre do ano seguinte. No trimestre setembro-novembro de 2014, havia 6,45 milhões de desempregados, o que significa que, até o trimestre agosto-outubro de 2015 (9,1 milhões de desempregados), o aumento foi de 40,7%.

Observe-se que esse aumento decorre principalmente do fato de que pessoas que antes não estavam à procura de trabalho, e por isso não eram contabilizadas na população economicamente ativa, passaram a buscar uma ocupação, incorporando-se imediatamente à lista dos desempregados. Este é outro efeito da crise. Entre os fatores que levaram essas pessoas a procurar trabalho está um dos aspectos mais nocivos da crise do mercado de trabalho: o fechamento de vagas no mercado formal, que oferece melhores salários e garantias como férias remuneradas, previdência social e décimo terceiro salário.

Em um ano, 1,184 milhão de pessoas perderam emprego com carteira assinada, de acordo com a Pnad Contínua. “Diante disso, outros membros da família, antes inativos, acabam saindo para buscar emprego”, na interpretação do coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo. É um fenômeno que deve se manter nos próximos meses. “Enquanto ocorrer redução na carteira assinada, a tendência é (a procura por vaga) aumentar”, previu Azeredo. Ou seja, o número de desempregados deve continuar crescendo, pois, ao aumento do desemprego no mercado formal, há, no início de cada ano, o fechamento das vagas temporárias. O pior ainda está por vir.

Mesmo quem continua trabalhando sente os efeitos da crise. A renda real média do trabalhador até outubro era 1,0% menor do que a de um ano antes. A massa real habitual paga aos ocupados, por sua vez, teve queda de 1,2% em um ano até outubro.

O desemprego tornou-se um problema mundial. Mas é pior no Brasil do que na maioria dos países com nível de desenvolvimento igual ou superior ao nosso. Numa lista de 34 países, o desemprego no Brasil é maior do que o de 25 deles, de acordo com estatísticas referentes ao terceiro trimestre de 2015 divulgadas há pouco pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Fonte: O Estado de SP, 17/01/2016

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Liberais vão continuar a ser assassinados politicamente enquanto não entenderem que a solidariedade é tão importante quanto a liberdade

O economista Paulo Guedes durante entrevista, na Bozano Investimentos,
em São Paulo (Foto: Letícia Moreira/ÉPOCA)

Transcrevo abaixo a entrevista que o economista Paulo Guedes deu à revista Época (José Fucs) não só por ser interessante no geral como também porque ele aponta - acertadamente no meu entender - a razão pela qual o liberalismo perdeu o protagonismo da cena política a partir do século XX. Sua colocação vai bem ao encontro do que eu disse, coincidentemente, na minha postagem O fato é que a direita não tem respostas para dar às demandas da maioria da população. Segue o destaque:
ÉPOCA – A que o senhor atribui essa predominância do pensamento de esquerda no país?Guedes - O que o socialismo tem de poderoso, tribal, secular, milenar e que assassinou politicamente as versões mais ingênuas do liberalismo? A solidariedade. Porque o Lula foi eleito quatro vezes? Porque ele entendeu que a solidariedade é importante. Então, os liberais vão continuar a ser assassinados politicamente enquanto não entenderem que a solidariedade é um instrumento tão importante quanto a liberdade. Tem que ter os dois. O liberalismo, criado no século XVIII e predominante no século XIX, foi assassinado, merecidamente, no século XX, porque não pensou na solidariedade. Aí vem o socialismo, absolutamente ignorante em matéria econômica. Desastroso. União Soviética, China, o capeta. Um fracasso do ponto de vista de liberdade política, aprisionando milhões de pessoas no mundo inteiro, guerra civil, Gulag, Revolução Cultural. Essa indignação da Dilma com os militares é muito merecida. Agora, se estivesse sido do lado de lá, ela não estaria como presidente hoje, porque o sistema varria os dissidentes muito mais rápido. Mas eles tinham uma coisa que sempre falaram e sempre falarão: “la solidariedad de los hermanos, la igualdad, el socialismo”. Quando os liberais se esqueceram disso, acreditando que isso é voluntário, a gente dá se quiser, dá o voucher saúde, o voucher educação, dá igualdade de oportunidade e, se tudo falhar, deixa ir para o saco, perderam o bonde. A solidariedade está além de direita e esquerda. É um traço humano.
[...] Agora, eu aposto na sociedade aberta. A grande sociedade aberta está além da direita e da esquerda. Quem estiver preocupado com isso ainda está saindo da Revolução Francesa no século XVIII. Aliás, esquerda naquela época eram os liberais. Se eu vivesse naquela época, estaria lá, com o Tocqueville, lutando contra a velha ordem. Essa é a pobreza mental brasileira. Você é de direita ou de esquerda? Eu sou da nova sociedade aberta.

Paulo Guedes: “Não tem como a credibilidade voltar com a Dilma na presidência”

Para o economista, reputação e credibilidade se constroem ao longo do tempo, mas são perdidas rapidamente – e Dilma “participou do início, do meio e do fim do crime do desequilíbrio fiscal”

O economista Paulo Guedes, de 66 anos, Ph.D. pela Universidade de Chicago, é um dos poucos entre seus pares com um pensamento genuinamente liberal. Crítico duro dos social-democratas que predominam no país desde a redemocratização, Guedes atribui a eles a atual crise econômica e não perdoa nem mesmo o PSDB e seus líderes. “Hoje, no Brasil, a direita é o Fernando Henrique, o homem que se envergonha das próprias privatizações, o homem que soltou o câmbio depois de perder US$ 50 bilhões para ser reeleito”, diz. Segundo Guedes, não há possibilidade de a credibilidade do governo voltar com Dilma na presidência. “A Dilma foi o primeiro braço importante a fulminar o equilíbrio fiscal no governo Lula”, afirma. “É preciso levar em conta que as pessoas têm uma história. Reputação e credibilidade são coisas que se constroem ao longo de muitos anos, mas são perdidas rapidamente.” Nesta entrevista, que reúne os trechos não publicados na edição em papel de ÉPOCA, fruto de quase três horas de conversa, Guedes fala também sobre a dificuldade de os liberais entenderem que a solidariedade é tão importante quanto a liberdade para a prosperidade. “A solidariedade está além da direita e da esquerda. É um traço humano”, diz.

ÉPOCA – Hoje, muitos analistas atribuem boa parte dos problemas econômicos do Brasil ao modelo de proteção social embutido na Constituição de 1988. O senhor também pensa assim?
Paulo Guedes - Muita gente reclama que a Constituição de 1988 aumentou muito os gastos sociais, mas não foi bem assim. No período militar, houve uma dívida externa excessiva, especialmente no período Geisel. Houve muita ênfase em estrutura física e quase nada em saúde e educação, que é algo típico de uma sociedade politicamente fechada. Com a pressão da redemocratização, era natural que houvesse uma mudança de eixo, uma inclusão maior nos orçamentos públicos. É compreensível que tenham existido essas pressões orçamentárias numa democracia emergente. Foram anos de subinvestimento em capital humano, anos de recursos centralizados sob o antigo regime. Também era natural que houvesse uma tentativa de descentralização dos recursos, que também foi embutida na Constituição. Uma democracia emergente exige as duas coisas: inclusão social nos orçamentos públicos e descentralização orçamentária.

ÉPOCA – Se o problema não foi a Constituição de 1988, qual foi então?
Guedes - O problema é que houve uma aliança entre um grupo de economistas muito interessados em assuntos políticos, porque a redemocratização estava em andamento, e políticos completamente ignorantes em matéria econômica, em decorrência da alienação em que ficaram durante 25 anos. Foi uma combinação trágica. O (José) Sarney, que era uma das estrelas do regime antigo, tornou-se sucessor por um golpe do acaso, e teve uma síndrome de ilegitimidade. Ele queria ser popular e encontrou jovens economistas inebriados por assuntos políticos, que lhe venderam a ideia de que o processo inflacionário brasileiro era apenas uma questão inercial, um reflexo do antigo regime, que já abusava de gastos públicos excessivos. O que se viu foi uma aliança que está em vigor até hoje. O Sarney continua por aí, era o presidente do Congresso até pouco tempo atrás, e seu discípulo Renan (Calheiros, atual presidente do Senado Federal), preparado por ele, também está aí. Com o Tancredo, a ordem seria conter os gastos, refletindo um pouco de experiência de um homem que havia experimentado a inflação no início dos anos 1960 e que acabou criando uma ruptura política, em 1964. Não iria haver qualquer aventura. Agora, morto Tancredo, o despreparo dos sucessores e a síndrome de legitimidade do Sarney, com o desejo desesperado de popularidade de um velho apoiador de militares, acabou nos levando a outro caminho.


ÉPOCA – O que essa aliança representou para o país naquela época?
Guedes – Ela revelou a nossa incapacidade como sociedade civil emergente de equacionar o conflito entre o aumento das demandas sociais e as limitações do orçamento. Para enfrentar o desafio das novas demandas, o Brasil deveria ter feito as reformas estruturais na economia. Só que ninguém percebeu que tinha uma nova ordem chegando, ampliando gastos, e que era necessário fazer uma transformação. Eu também não tinha essa visão. Sabia da importância do controle fiscal e monetário, falava isso na época, mas não tinha ideia do tamanho da onda de gastos sociais que estavam por vir, que eram totalmente legítimos. Questões como o Banco Central independente, o câmbio flexível e o ajuste fiscal não faziam parte da agenda política. Se eles tivessem feito isso, o Brasil estaria em outra agora.
No Plano Cruzado, a mídia apanhou maciçamente, sem saber que estava apoiando uma experiência bolivariana, tipo caçar boi no pasto, prender gente, tabelar preços”
ÉPOCA – Como o adiamento das reformas afetou o país?
Guedes - Em vez de fazer as reformas, eles fizeram o Plano Cruzado, com a complacência e a ignorância da mídia na ocasião. A mídia apanhou maciçamente, sem saber que estava apoiando uma experiência bolivariana, tipo caçar boi no pasto, prender gente, tabelar preços. Depois, vieram o “Plano Cruzeta”, o “Plano Brechola”, o plano não sei o quê. Terminamos na política do feijão com arroz, que foi o modesto reconhecimento de que não havia mais nada a fazer, no final do governo. Veio a hiperinflação, que não se pode desperdiçar sem reformas. Um plano anti-inflação tem de atingir furiosamente a velha ordem e derrubar o antigo regime. É a ocasião de fazer o orçamento base zero, em que cada item precisa ser explicitamente aprovado, e não apenas as alterações feitas em relação ao ano anterior. As grandes hiperinflações da história foram oportunidades de mudança dos regimes fiscal, monetário, cambial e também de descentralização de recursos. Mas, no Brasil, nós somos apaixonados pela acomodação. Não fizemos nenhuma reforma extraordinária. Aí veio o (Fernando) Collor. Teve uma chance, mas deu o tiro errado. O Collor foi o único que enfrentou o velho regime. Chamou o Lula de vagabundo e o Sarney de ladrão. Foi uma promessa de renovação. O Lula, na ocasião, também. Mas, de novo, o fator político falhou. O congelamento da poupança foi ridículo.

ÉPOCA – Em 1994, com o Plano Real, os tucanos não deram a volta por cima em relação aos erros do Plano Cruzado?
Guedes – Com o Plano Real, caiu um pouco o número de erros, tivemos algo de concreto. Na verdade, eles tiraram da sala o bode que tinham colocado lá. Estabilizamos a inflação, apesar de ter saído caro, em função da puxada dos juros, e depois – voluntariamente ou não – adotamos o câmbio flexível e a responsabilidade fiscal. Excelente. Criamos o tripé macroeconômico. Uma conquista. Continuamos avançando. Ao contrário do que aconteceu no Plano Cruzado, os tucanos entenderam que a inflação é sempre e em qualquer lugar, como dizia Milton Friedman, um fenômeno monetário. Os economistas do PSDB aprenderam a lição de que não se faz programa anti-inflacionário sem política monetária, mas não aprenderam a outra, que é a necessidade de usar a política fiscal como âncora, porque dói muito menos. Resultado: os juros foram a 40% ao ano. Uma política muito dura. Anos e anos a fio. A dívida pública explodiu. Surgiram as críticas das esquerdas, do Lula, desse pessoal, dizendo que o governo “entregou o patrimônio público”. Apesar do conteúdo populista da crítica, a verdade é que começou ali um importante desequilíbrio patrimonial do Estado brasileiro. Embora eles acreditassem que estavam privatizando e ajudando o Brasil, a dívida pública estava crescendo muito mais rápido que o valor das estatais.
Como é possível combater a inflação durante três décadas com os gastos públicos saindo de 18% do PIB, no fim do regime militar, para 35% do PIB hoje?”
ÉPOCA – O senhor não pensa que o saldo do Plano Real foi positivo?
Guedes - Com o regime de meta inflacionária, o Armínio (Fraga, então presidente do Banco Central) deixou um legado institucional. O Gustavo Franco (antecessor de Armínio) primeiro e o Armínio e o Meirelles, depois. Foram três indivíduos que nos deram a estabilidade monetária, que agora está sendo perdida de novo. Mas foi estritamente em cima do Banco Central. Não usamos a dimensão fiscal. Resultado: nós estamos há 20 anos nesse drama e a inflação ainda não foi embora definitivamente. Nós temos de perguntar por que todas as hiperinflações no mundo acabaram sem o uso da moeda indexada, os juros desabaram e a inflação nunca mais voltou e no Brasil isso não aconteceu. Será que fazer a reforma com moeda indexada foi novamente uma forma de adiar o ataque frontal aos problemas da estrutura econômica brasileira? Será que empurramos a crise para frente? Como é possível combater a inflação durante três décadas com os gastos públicos saindo de 18% do PIB, no fim do regime militar, para 35% do PIB hoje? Essa é a questão.

ÉPOCA – A Lei de Responsabilidade Fiscal não foi uma boa iniciativa para buscar o equilíbrio das contas públicas?
Guedes - A Lei de Responsabilidade Fiscal não foi um ato intelectual, de livre e espontânea vontade. Hoje, quando o PSDB exige que o PT venha a público e confesse seus erros, pergunto o seguinte: o Fernando Henrique explodiu a flexibilidade cambial, em 1999, ou foi explodido por ela, com a banda diagonal endógena, do Chico Lopes, então presidente do Banco Central? Eles foram estuprados pela explosão cambial. Na tentativa de reeleição do príncipe florentino, eles queimaram US$ 50 bilhões em seis meses. Fala-se hoje que a Dilma prometeu um negócio e fez outro, foi parecido. O Fernando Henrique, o príncipe florentino da sociologia brasileira, disse na campanha que não ia ter problema cambial e depois soltou o câmbio. Está errado soltar? Não. Tem de soltar mesmo. Mas a verdade é que não foi por causa de uma adesão intelectual ao sistema de câmbio livre. O Fernando Henrique descobriu o regime de metas de inflação ou foi também explodido por ela?Aí, é preciso fazer uma menção honrosa ao Gustavo Franco, que lutou sozinho no Banco Central, sem apoio fiscal, pela estabilidade. Não houve a mudança de regime fiscal na época, só juros absurdamente elevados, reflexos de uma luta isolada do Banco Central. O Gustavo Franco lutou sozinho, atacado ferozmente pelo (José) Serra, que era ministro do Planejamento, sem a cobertura do (Pedro) Malan (então ministro da Fazenda), que não o ajudou fiscalmente. O Malan o ajudou a se manter no cargo, mas não deu apoio operacional na Fazenda. Não fez uma reforma fiscal. O Malan foi um bom ministro da Fazenda, mas poderia ter ajudado muito mais na parte fiscal, na flexibilização da legislação trabalhista, na reforma da Previdência e na descentralização dos recursos, em vez de salvar bancos estaduais com a centralização da dívida pública. No governo Fernando Henrique, já com o Malan na Fazenda, criaram-se vários impostos não compartilhados com os estados e os municípios. São tributos reacionários, não progressistas. Entre os tucanos, quem melhor falou sobre esse problema foi sempre o Aécio Neves. Ele disse que, hoje, a centralização dos recursos não só tem sido foco das disfunções administrativas, com 39 ministérios, mas também de corrupções bilionárias.
Qual é o PIB brasileiro? São trilhões. Não dá para falar que não tem como cortar mais gastos. É possível, sim, derrubar essa estrutura"
ÉPOCA – O senhor faz críticas pesadas à gestão do ex-presidente Fernando Henrique e ao PSDB. E quanto ao PT? O ex-presidente Lula e a presidente Dilma não têm responsabilidade na atual crise econômica?
Guedes – A Dilma pegou um país relativamente estável e corre o risco de devolver um país completamente desestabilizado. Ela foi um dos mais importantes fatores de destruição do tripé macroeconômico, baseado nas metas de inflação e fiscais e no câmbio livre. É preciso levar em conta que as pessoas têm uma história. Reputação e credibilidade são coisas que se constroem ao longo de muitos anos, mas são perdidas rapidamente. A Dilma participou do início, do meio e do fim do crime do desequilíbrio fiscal. É por isso que não há possibilidade de a credibilidade voltar com ela na presidência. No primeiro governo Lula, o (Antonio) Palocci (ex-ministro da Fazenda) esteve a três passos do paraíso. Quando percebeu o circulo virtuoso do equilíbrio fiscal, com juro mais baixo e crescimento, ele propôs o déficit público zero. Se ele conseguisse isso, eles nunca mais sairiam do poder. Com a bandeira da solidariedade, estavam dizendo “estamos com o povo”. E, com a austeridade fiscal, em vez de ter crescido 7% ao ano, o país iria crescer 5,5%, mas para sempre. Não teria esse gasto anual de R$ 500 bilhões de juros que temos hoje. Em vez disso, foram com tudo na social-democracia, gastaram mais, como sinal de solidariedade. Só que foram para uma social-democracia aliada ao capitalismo de quadrilha, ao conservadorismo. Deram dinheiro para a Odebrecht e para o Prouni (Programa Universidade para Todos), também. Tinha de ser mais para o Prouni e menos para a Odebrecht e para o (ex-senador) Gilberto Miranda, com a zona franca de Manaus.

ÉPOCA – Na guinada do governo Lula na economia, que papel coube à presidente Dilma, que na época havia assumido a Casa Civil?
Guedes - A Dilma foi importante nisso, porque foi o primeiro braço importante a fulminar o Palocci quando ele propôs o déficit zero, dizendo que era uma proposta rudimentar, primária. Foi aí que ela começou a atacar o equilíbrio fiscal. Depois passou para a prática. Apoiou o (Guido) Mantega (ex-ministro da Fazenda) na demolição gradual do ajuste e ao assumir o governo manteve-o no cargo. Com a crise de 2008, voltamos ao velho sistema de acomodação. Começamos com subsídio para cá, gasto para lá, crédito fácil para consumo, e deixamos a inflação de lado. Cometemos os excessos que já tinham sido cometidos no passado. O Mantega repetiu erros clássicos de 15, 20 anos atrás: congelou tarifas públicas, reteve o preço da eletricidade, segurou o câmbio, pedalou loucamente para permitir a reeleição de Dilma. Houve a explosão do desequilíbrio fiscal de novo, a falsificação de novo. Nosso período de enriquecimento temporário foi todo “queimado”, em vez de melhorarmos a nossa capacidade de enfrentar crises futuras e mexer em fundamentos econômicos. Foi um equívoco extraordinário. Agora, finalmente, estamos cumprindo o ciclo. Vamos ter de atacar o regime fiscal, fazer as reformas estruturais. Temos que mexer na Previdência, na legislação trabalhista. Qual é o PIB brasileiro? São trilhões. Não dá para falar que não tem como cortar mais gastos. É possível, sim, derrubar essa estrutura. A Dilma perdeu essa chance. Ela teve uma sorte incrível de existir um cara mais ou menos bem desenhado para ser um tampão, que foi o (Joaquim) Levy (ex-ministro da Fazenda), que era a antítese do pensamento dela. À medida que ela foi desautorizando o Levy, o mercado foi entendendo que ela queria os benefícios de uma imagem de quem reavaliou os erros, mas sem pagar o preço de ter realmente mudado de ideia. Como ela não apoiou e como ele não conseguiu implementar nada, porque foi apanhado no meio do conflito político, a Dilma transformou o Levy num coletor de impostos.
Hoje é fácil pedir ao PT para fazer o mea culpa. A pergunta é a seguinte: como foi o mea culpa dos economistas tucanos? Os economistas do Cruzado, do PSDB, levaram quase duas décadas para chegar aonde era preciso”
ÉPOCA – Se a presidente Dilma e o PT reconhecem os erros cometidos no primeiro mandato na economia, não conseguiram recuperar a credibilidade?
Guedes - Hoje é fácil pedir ao PT para fazer o mea culpa. A pergunta é a seguinte: como foi a mea culpa dos economistas tucanos? Hoje, eles falam do PT, mas eu me lembro que, na época do Cruzado, um de seus pais, num ginásio da PUC do Rio de Janeiro, disse o seguinte: “Esse negócio de déficit público, política monetária, é conversa fiada. A inflação brasileira acabou. Ela era puramente inercial”. Os economistas do Cruzado, do PSDB, levaram quase duas décadas para chegar aonde era preciso. É trágico ter de esperar dez anos para chegar no câmbio flexível, a um Banco Central autônomo, e 15 anos para chegar no ajuste fiscal. É um tributo à improvisação brasileira. Então, a Dilma tem todo o direito de aprender trombando na cerca, como eles aprenderam também. Quando o Fernando Henrique trocou a aceleração das reformas e não ser reeleito por um segundo mandato, será que ele não permitiu que esse aparelho gigante do Estado fosse depois ocupado por quem era oposição a ele e ele fosse sentindo o moer daquela máquina nos próprios testículos? Agora, o PSDB está a quatro mandatos seguidos fora do poder sendo massacrado. Será que eles gostaram da experiência? Será que vale a pena limitar o poder do Estado ou ser esmagado mais 18 anos? Por mais que o Fernando Henrique queira se colocar como “eu sou o futuro”, ele é a vanguarda do atraso, o que há de menos ruim da velha ordem. Ele tem todos os méritos de ter enfrentado a hiperinflação, mas a energia dele foi toda consumida nessa transformação que era sair da ditadura e redemocratizar o país.

ÉPOCA – Como o senhor vê o Aécio Neves dentro desse contexto, dentro do PSDB?
Guedes - O Aécio é a coisa mais lúcida do antigo regime, porque ele percebeu que a dimensão fiscal era crítica. Ele disse que essa corrupção sistêmica é causada pela centralização de recursos no governo federal. Essa incompetência administrativa, também. Esse desvirtuamento da democracia brasileira está sendo causado pela concentração de recursos. Ele não estava nem falando do PT. Estava dizendo que esse excesso de concentração de poder, tanto de recursos financeiros, como de poder político na mão do governo federal, está desvirtuando a administração pública brasileira. O Eduardo Campos também fez um discurso muito claro de que nós estávamos com práticas degeneradas e com período de validade. Precisamos mudar. Agora, será que eles teriam capacidade de sair dessa prisão social-democrata? Acho que não. Eles têm instinto de sobrevivência política, de não querer tocar o Brasil sozinho, como a Dilma está tentando. É um desastre. O dinheiro tem de estar onde o povo está. Vejo também um sopro interessante na Marina Silva. Está mais à esquerda, mas foi ouvir o (economista Eduardo) Giannetti. Ela tem algumas coisas interessantes. Sinto nela a indignação com a política atual, mas não vejo nela competência executiva e a força pessoal para mover o Brasil. Não sinto no Aécio também a crença nos mercados para fazer a reforma forte de que precisamos, como também não percebia isso no Eduardo Campos. Então continuo esperando o novo. Mas, como eu acredito numa sociedade aberta, não estou preocupado com isso. Ele virá.
Hoje, no Brasil, a direita é o Fernando Henrique, o homem que se envergonha das próprias privatizações, o homem que soltou o câmbio depois de perder US$ 50 bilhões para ser reeleito”
ÉPOCA – O senhor acredita mesmo que o Brasil caminhará por uma linha mais liberal nos próximos anos?
Guedes – É muito difícil um brasileiro escapar dessa padronização da hegemonia social-democrata no Brasil. É uma mentalidade tão enrijecida quanto a de seus inimigos mortais, os militares. As luzes que brilham hoje no pensamento político brasileiro Fernando Henrique sociólogo que passou um tempo no exílio, Lula, líder sindical, tudo isso é passado, tudo isso é muito antigo, e eles não ousaram reformar o regime econômico brasileiro. Hoje, no Brasil, a direita é o Fernando Henrique, o homem que se envergonha das próprias privatizações, o homem que soltou o câmbio depois de perder US$ 50 bilhões para ser reeleito. Há suspeitas de práticas não republicanas. Toda vez que acossam o Lula e falam de corrupção ele diz “perguntem ao Fernando Henrique sobre a reeleição”. Hoje, você vê o governo elogiando uma baderna. O governo acha bacana invasão de terra, paralisar uma cidade. Agora, eu aposto na sociedade aberta. A grande sociedade aberta está além da direita e da esquerda. Quem estiver preocupado com isso ainda está saindo da Revolução Francesa no século XVIII. Aliás, esquerda naquela época eram os liberais. Se eu vivesse naquela época, estaria lá, com o Tocqueville, lutando contra a velha ordem. Essa é a pobreza mental brasileira. Você é de direita ou de esquerda? Eu sou da nova sociedade aberta.

ÉPOCA – Que sociedade aberta é essa a que o senhor se refere?
Guedes - Ela é verde, ambientalista, a favor de um desenvolvimento sustentável. A grande sociedade aberta são os mercados, gerando riqueza econômica, e as democracias, gerando liberdade política e solidariedade, que combina esse dois. O Brasil é uma sociedade aberta em construção. Temos um Banco Central relativamente autônomo, câmbio flutuante, mas não temos ainda o equilíbrio fiscal. Confio na sociedade aberta, confio na mídia que está distribuindo informação, no efeito da opinião pública sobre o que está acontecendo, no despertar do poder Judiciário. Ou privatizamos ou o Brasil vai continuar vítima desse combate pobre.
Os liberais vão continuar a ser assassinados politicamente enquanto não entenderem que a solidariedade é um instrumento tão importante quanto a liberdade. Tem que ter as duas coisas"
ÉPOCA – A que o senhor atribui essa predominância do pensamento de esquerda no país?
Guedes - O que o socialismo tem de poderoso, tribal, secular, milenar e que assassinou politicamente as versões mais ingênuas do liberalismo? A solidariedade. Porque o Lula foi eleito quatro vezes? Porque ele entendeu que a solidariedade é importante. Então, os liberais vão continuar a ser assassinados politicamente enquanto não entenderem que a solidariedade é um instrumento tão importante quanto a liberdade. Tem que ter os dois. O liberalismo, criado no século XVIII e predominante no século XIX, foi assassinado, merecidamente, no século XX, porque não pensou na solidariedade. Aí vem o socialismo, absolutamente ignorante em matéria econômica. Desastroso. União Soviética, China, o capeta. Um fracasso do ponto de vista de liberdade política, aprisionando milhões de pessoas no mundo inteiro, guerra civil, Gulag, Revolução Cultural. Essa indignação da Dilma com os militares é muito merecida. Agora, se estivesse sido do lado de lá, ela não estaria como presidente hoje, porque o sistema varria os dissidentes muito mais rápido. Mas eles tinham uma coisa que sempre falaram e sempre falarão: “la solidariedad de los hermanos, la igualtat, el socialismo”. Quando os liberais se esqueceram disso, acreditando que isso é voluntário, a gente dá se quiser, dá o voucher saúde, o voucher educação, dá igualdade de oportunidade e, se tudo falhar, deixa ir para o saco, perderam o bonde. A solidariedade está além de direita e esquerda. É um traço humano.

Fonte: Época, por José Fucs, 16/01/2016

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O fato é que a direita não tem respostas a dar para as demandas da maioria da população

Social-democracia, inimiga da liberdade?

O artigo de Murray N. Rothbard, reproduzido abaixo e tirado do site do Instituto Ludwig von Mises - Brasil, explica o porquê da prevalência da social-democracia e de sua provável continuidade por um bom tempo, ao contrário do pretendido por seu autor. No texto, Rothbard aponta a social-democracia como a atual grande inimiga dos defensores da "liberdade", elenca seus apoiadores (as massas assistencializadas, empresários, políticos, intelectuais, a mídia) e sugere ações para derrotar esse vilão “traiçoeiro e liso". 

Na caracterização dos agentes de mudanças da esquerda social-democrata, criados em substituição ao proletariado dos comunistas, figurariam "todos os tipos de grupos vitimológicos (negros, feministas, gays, deficientes, índios, cegos, surdos, mudos etc) que [teriam aceitado] esse papel". Com essa caracterização, o autor reduz as demandas da maioria da humanidade (só considerando as mulheres temos a maioria dos seres humanos) a uma estratégia de grupos que se dizem perseguidos (mas não seriam) e que vivem lutando por supostos "direitos iguais", embora de fato visem privilégios. Em outras palavras, a maioria da humanidade realmente não enfrentaria agruras nem problemas. Suas reivindicações seriam na verdade embustes criados pelos intelectuais fabianos (antes eram os comunistas) como pretexto para avolumar o estado e atentar contra a tradição, a família e as liberdades individuais. Nesse ponto, a gente se faz de sonsa e pergunta: liberdades individuais de quem, cara pálida, se não leva em consideração os anseios da maioria da população? Naturalmente, a liberdade do autor (e de seus assemelhados) que escreveu o texto mirando-se no espelho como um Narciso apaixonado. 

O fato é que a direita, do autor do texto (quiçá a direita em geral), não tem respostas para dar aos problemas da maioria da população. Ou melhor, como resposta, nega que os problemas existam, relegando-os a uma estratégia social-democrata (ou comunista) de oposição à liberdade e à tradição (que oximoro esse par!) e a favor do estado interventor, regulador e controlador. Entretanto, vamos combinar, ao contrário dos clichêzinhos libero-conservadores, a esquerda não coletivizou os indivíduos coisa nenhuma. A esquerda não fabricou artificialmente os grupos sociais discriminados como forma insidiosa de solapar a liberdade dos pobrezinhos conservadores. Simplesmente existem grupos discriminados, marginalizados. Ponto. E, se a gente for buscar os reais responsáveis pela criação desses grupos, chegaremos sem dúvida aos próprios conservadores.

O máximo de que se pode acusar as esquerdas, com propriedade, é de instrumentalizar as demandas legítimas da população como apoio a sua estratégia de poder,  como forma de atrelar essas demandas a seu âmbito de ação. E elas fazem isso com tanta desenvoltura exatamente porque não encontram concorrência (pelo menos a considerar esse texto e outros congêneres que já li da dita direita). Não há quem reconheça as demandas legítimas da população e procure dar a elas uma solução que não passe pela via de um estado interventor, regulador e controlador. Enfim, continuamos necessitando de um outro caminho entre a esquerda retrógrada, cooptadora e estatista que nos assola e a direita cega, socialmente insensível e reacionária tão bem representada por esse texto. No momento, parece que estamos simplesmente num mato sem cachorro.

Adendo em 17/01/2016 - Coincidentemente, o economista liberal Paulo Guedes, em entrevista à ÉPOCA desta semana, falou a respeito do liberalismo na mesma perspectiva que abordei:
ÉPOCA – A que o senhor atribui essa predominância do pensamento de esquerda no país?
Guedes - O que o socialismo tem de poderoso, tribal, secular, milenar e que assassinou politicamente as versões mais ingênuas do liberalismo? A solidariedade. Porque o Lula foi eleito quatro vezes? Porque ele entendeu que a solidariedade é importante. Então, os liberais vão continuar a ser assassinados politicamente enquanto não entenderem que a solidariedade é um instrumento tão importante quanto a liberdade. Tem que ter os dois. O liberalismo, criado no século XVIII e predominante no século XIX, foi assassinado, merecidamente, no século XX, porque não pensou na solidariedade. Aí vem o socialismo, absolutamente ignorante em matéria econômica. Desastroso. União Soviética, China, o capeta. Um fracasso do ponto de vista de liberdade política, aprisionando milhões de pessoas no mundo inteiro, guerra civil, Gulag, Revolução Cultural. Essa indignação da Dilma com os militares é muito merecida. Agora, se estivesse sido do lado de lá, ela não estaria como presidente hoje, porque o sistema varria os dissidentes muito mais rápido. Mas eles tinham uma coisa que sempre falaram e sempre falarão: “la solidariedad de los hermanos, la igualdad, el socialismo”. Quando os liberais se esqueceram disso, acreditando que isso é voluntário, a gente dá se quiser, dá o voucher saúde, o voucher educação, dá igualdade de oportunidade e, se tudo falhar, deixa ir para o saco, perderam o bonde. A solidariedade está além de direita e esquerda. É um traço humano.
O grande inimigo da atualidade - e como lutar contra ele
Murray N. Rothbard
Qual o principal inimigo da atualidade, contra o qual os defensores da liberdade devem lutar fervorosamente?

Qual foi o arranjo sócio-econômico que ascendeu vigorosamente com a derrocada do comunismo, que se estabeleceu praticamente sem rivais, que é protegido e defendido fervorosamente pela "mídia respeitável" e que representa uma ameaça tanto às liberdades individuais e econômicas quanto à família e à tradição?

A social-democracia.

Não apenas a social-democracia, em todos os seus formatos e disfarces, é onipresente e já demonstrou ser mais longeva que seu parente mais violento, o comunismo, como também os social-democratas — agora que Stalin e seus herdeiros estão fora do caminho — são implacáveis em sua avidez para a conquista do poder total. 

Os bolcheviques, comunistas, foram substituídos pelos seus primos mencheviques, social-democratas.

Por serem defendidos pela "Mídia Respeitável" e por adornarem seus reais objetivos de poder absoluto em uma linguagem polida e politicamente correta, os social-democratas são inimigos traiçoeiros e lisos. Exatamente por isso eles têm de ser combatidos vigorosamente.

Mas apenas apontar o dedo para a social-democracia não basta. Uma coisa é reconhecer o arranjo inimigo; outra coisa, tão essencial quanto, é reconhecer os integrantes deste arranjo.

E esta é uma questão que não pode de modo algum ser deixada para depois. Ao contrário, aliás: ela deve ser abordada antes de qualquer plano de ação. 

Como operam

Os marxistas, que sempre dedicaram uma enorme quantidade de tempo pensando em uma estratégia para seu movimento, sempre se fizeram a seguinte pergunta: quem é o agente da mudança social? O marxismo clássico encontrou uma resposta fácil: o proletariado. 

Porém, com o passar do tempo — e com a recusa do proletariado em ser este agente da mudança —, as coisas foram se tornando menos definidas, e o agente da mudança social passou por sucessivas alterações: camponeses, mulheres oprimidas, minorias, e todos os tipos de grupos vitimológicos (negros, feministas, gays, deficientes, índios, cegos, surdos, mudos etc) que aceitassem este papel.

Atualmente, a questão relevante está do outro lado da moeda: quem são os vilões que dão sustento à social-democracia? Quem são os agentes das mudanças sociais negativas? Mais ainda: quais grupos da sociedade representam as maiores ameaças para a liberdade? 

Basicamente, sempre foram apresentadas duas respostas: (1) as massas que vivem de assistencialismo e que, por isso, são apologistas do estado; e (2) as elites que controlam o poder (políticos e grandes empresários ligados a esses políticos).

Ainda em minha juventude, concluí que o maior perigo sempre foi a segunda opção — a elite dominante —, e pelos seguintes motivos.

Em primeiro lugar, mesmo que as massas dependentes do estado tenham o potencial para se rebelar de forma violenta e passar a agir como se seu sustento fosse um direito inalienável ("direito", no caso, nada mais é do que um dever impingido aos pagadores de impostos), o fato é que tais massas simplesmente não têm tempo para se dedicar à política e às peripécias e trapaças do jogo político. O cidadão pertencente a este grupo passa a maior parte do seu tempo cuidando de seus afazeres rotineiros, interagindo com seus amigos e se divertindo com a família. Apenas muito esporadicamente ele irá se interessar por política ou se engajar politicamente em uma causa.

As únicas pessoas que têm tempo para se dedicar à política são os profissionais: burocratas, políticos e grupos de interesse (lobistas e grandes empresários) que dependem diretamente das regras estipuladas por políticos e burocratas. Estes últimos (lobistas e grandes empresários), em particular, usufruem trânsito livre junto a políticos e burocratas do governo, os quais, em troca de propinas e doações de campanha, concedem a esses empresários uma ampla variedade de privilégios que seriam simplesmente inalcançáveis em um livre mercado. Os privilégios mais comuns são restrições de importação, subsídios diretos, tarifas protecionistas, empréstimos subsidiados feitos por bancos estatais, e agências reguladoras criadas com o intuito de cartelizar o mercado e impedir a entrada de concorrentes estrangeiros

(E estamos aqui desconsiderando os privilégios ilegais, como as fraudes em licitações e o superfaturamento em prol de empreiteiras, cujas obras são pagas com dinheiro público).

Em troca desses privilégios (legais e ilegais), os grandes empresários beneficiados lotam os cofres de políticos e burocratas com amplas doações de campanha e propinas.

Dado que tais pessoas ganham muito dinheiro com o jogo político, elas são intensamente interessadas no assunto, e dedicam vinte e quatro horas de seus dias pensando em novas maneiras de espoliar a população em benefício próprio. Sendo assim, estes grupos de interesse sempre representarão um perigo muito maior para a nossa liberdade e propriedade do que as massas desinteressadas.

Esta foi a constatação básica dos seguidores da Teoria da Escolha Pública. Os únicos outros grupos interessados em política em tempo integral são aqueles que se interessam em estudar o assunto, ideólogos como nós, um segmento nada volumoso da população. Portanto, o problema está tanto na elite que controla o aparato estatal quanto na elite cuja riqueza depende diretamente das políticas implantadas por este aparato estatal. 

Um segundo ponto crucial é que a social-democracia, com seu estado fiscalmente voraz e obeso, divide a sociedade em dois grupos: a elite dominante, que necessariamente é a minoria da população, e que é sustentada pelo segundo grupo — nós, o resto da população. Neste quesito, sempre recomendo um dos mais brilhantes ensaios já escritos sobre filosofia política: Disquisition on Government, de John C. Calhoun. Segundo Calhoun:
[O] inevitável resultado desta iníqua ação fiscal do governo será a divisão da sociedade em duas grandes classes: uma formada por aqueles que, na realidade, pagam os impostos — e, obviamente, arcam exclusivamente com o fardo de sustentar o governo —, e a outra formada por aqueles que recebem sua renda por meio do confisco da renda alheia, e que são, com efeito, sustentados pelo governo. Em poucas palavras, o resultado será a divisão da sociedade em pagadores de impostos e consumidores de impostos.
Porém, o efeito disso será que ambas as classes terão relações antagonistas no que diz respeito à ação fiscal do governo e a todas as políticas por ele criadas. Pois quanto maiores forem os impostos e os gastos governamentais, maiores serão os ganhos de um e maiores serão as perdas de outro, e vice versa. E, por conseguinte, quanto mais o governo se empenhar em uma política de aumentar impostos e gastos, mais ele será apoiado por um grupo e resistido pelo outro.

O efeito, portanto, de qualquer aumento de impostos será o de enriquecer e fortalecer um grupo [os consumidores líquidos de impostos] e empobrecer e enfraquecer o outro [os pagadores líquidos de impostos].

Logo, quanto mais inchado se torna o governo, maior e mais intenso passa a ser o conflito entre essas duas classes sociais.

No entanto, dado que uma elite minoritária é capaz de governar, tributar e explorar a maioria do público sem sofrer retaliações, isso nos leva ao principal problema da teoria política: o mistério da obediência civil. Afinal, por que a maioria do público aceita se submeter a essa gente, sem oferecer resistência? 

Esta indagação foi respondida por três grandes teóricos políticos: Étienne de la Boétie, teórico libertário francês de meados do século XVI, David Hume e Ludwig von Mises. Eles demonstraram que, exatamente pelo fato de a elite dominante estar em minoria, a coerção por si só não pode funcionar no longo prazo. Até mesmo na mais despótica das ditaduras, o governo irá se manter apenas se contar com o apoio da maioria da população. No longo prazo, o que é preponderante são as ideias, e não a força — e qualquer governo tem de ter legitimidade na mente do público.

Essa verdade foi perfeitamente demonstrada durante o colapso da União Soviética. Quando os tanques foram enviados para capturar Boris Yeltsin, eles foram persuadidos a apontar suas armas para o outro lado e a defender Yeltsin e o Parlamento russo. Em linhas gerais, estava claro que o governo soviético havia perdido toda a legitimidade e apoio entre a população. Para um libertário, foi particularmente fantástico assistir à morte de um estado, particularmente um estado monstruoso como a União Soviética. Até o final, Gorbachev continuou emitindo decretos, como sempre fez, mas a diferença é que ninguém mais prestava atenção e nem dava a mínima. O antes todo poderoso Supremo Soviético (a legislatura da URSS) continuava se reunindo frequentemente, mas ninguém se dava ao trabalho de comparecer. Glorioso!

Quem garante o consentimento dos espoliados

Mas ainda não resolvemos o mistério da obediência civil. Se a elite dominante está tributando, espoliando e explorando o público, por que o povo não se rebela? Por que ele tolera tudo isso? Por que ele simplesmente não retira seu consentimento?

Resposta: não se deve jamais ignorar o papel crucial dos intelectuais, a classe que molda as opiniões da sociedade. Se as massas soubessem como o estado realmente opera, elas imediatamente retirariam seu consentimento. Elas rapidamente perceberiam que o rei está nu, e que elas estão sendo espoliadas. É para evitar essa "tragédia" que os intelectuais entram em cena.

A elite dominante, seja ela os monarcas de antigamente, os comunistas de pouco tempo atrás ou os social-democratas da atualidade, necessita desesperadamente de exércitos de intelectuais que teçam apologias para o poder estatal. O estado governa por determinação divina; o estado assegura o bem comum e o bem-estar geral; o estado nos protege dos bandidos que estão sempre à espreita; o estado garante o pleno emprego; o estado ativa o multiplicador keynesiano; o estado garante a justiça social. Como demonstrou Karl Wittfogel em sua grande obra, Oriental Despotism, nos impérios asiáticos, os intelectuais lograram êxito com a teoria de que o imperador ou o faraó era uma entidade divina. Se o soberano é Deus, poucos se atreverão a desobedecer ou a questionar suas ordens.

Podemos ver como os regentes do estado se beneficiam dessa sua aliança com os intelectuais; mas o que os intelectuais ganham com esse arranjo? 

Intelectuais são pessoas que acreditam que, em um livre mercado, auferem uma renda muito aquém de sua sabedoria. Para se aproveitar disso, o estado, para favorecer estes egos tipicamente hiperinflados, está disposto a oferecer aos intelectuais um nicho seguro e permanente no seio do aparato estatal; e, consequentemente, um rendimento certo e um arsenal de prestígios. O estado está disposto a pagar a esta gente tanto para tecerem apologias ao poder estatal quanto para preencher a miríade de postos de trabalho nas universidades, na burocracia e no aparato regulatório do estado. Com efeito, o estado democrático moderno criou uma maciça superabundância de intelectuais.

Em séculos passados, as igrejas formavam a classe exclusiva de formadores de opinião da sociedade. Daí a importância para o estado e seus burocratas de formar uma aliança entre o estado e a igreja, e daí a importância para libertários da separação entre estado e igreja, o que na prática significa não permitir que o estado conceda a um grupo o monopólio da tarefa de moldar as opiniões da sociedade. 

No século XX, obviamente, a igreja foi substituída, e o papel de moldar opiniões — ou, naquela adorável frase, de "fabricar o consentimento" — foi entregue a um enxame de intelectuais, acadêmicos, cientistas sociais, tecnocratas, cientistas políticos, assistentes sociais, jornalistas e a toda a mídia em geral. 

Portanto, para resumir o problema: na social-democracia, as elites dominantes — políticos, burocratas e grandes empresários — se uniram aos intelectuais e à mídia, e, com o apoio e o trabalho destes, conseguiram iludir e confundir as massas, doutrinando-as com uma "falsa consciência", como diriam os marxistas, fazendo-as aceitar passiva e alegremente seu domínio. Aquilo que em arranjos mais honestos seria visto como espoliação e exploração, na social-democracia é visto como "bem comum", "desenvolvimentismo" e "justiça social".

O que fazer

Sendo assim, o que podemos fazer a respeito? 

Uma estratégia endêmica aos libertários e aos liberais clássicos é aquela que pode ser chamada de modelo hayekiano, em homenagem a F.A. Hayek. Eu chamo de "educacionismo". 

Ideias, segundo este modelo, são cruciais; e ideias perpassam toda uma hierarquia, começando com os filósofos do alto escalão, de onde descem para os filósofos menos proeminentes, depois para os acadêmicos, e finalmente chegam aos jornalistas e políticos, de onde então atingem as massas. Por essa estratégia, o que deve ser feito é converter os filósofos do alto escalão para as ideias corretas. Ato contínuo, eles irão converter os outros filósofos menos proeminentes, e daí por diante, em uma espécie de "efeito-goteira", até que as massas inevitavelmente serão convertidas e a liberdade será finalmente alcançada.

O problema com essa estratégia do gotejamento é que ela é muito suave e refinada, dependente de mediações e persuasões serenas nos austeros corredores da intelectualidade. Essa estratégia combina bem com a personalidade de Hayek, que nunca foi exatamente um combatente intelectual agressivo.

É claro que ideias e persuasão são importantes, mas há várias falhas cruciais nesta estratégia hayekiana. 

Em primeiro lugar, obviamente, essa estratégia irá, na melhor das hipóteses, levar várias centenas de anos para surgir algum efeito, e muitos de nós estamos um tanto impacientes para isso. Mas o tempo não é de modo algum o único problema. Várias pessoas já observaram os misteriosos bloqueios neste gotejamento feitos pela mídia. Por exemplo, vários cientistas sérios têm uma visão bem distinta a respeito das questões ambientalistas que hoje estão em voga; no entanto, são sempre os mesmos histéricos de esquerda que são exclusivamente citados nas reportagens da mídia. O mesmo ocorre às enfadonhas abordagens sobre racismo, homofobia e "direitos das minorias". Sendo assim, por que esperar que uma mídia que invariavelmente distorce as coisas para o lado politicamente correto irá repentinamente vir para o lado da razão? Já está cristalino que a mídia, principalmente a 'mídia respeitável e influenciável', possui e sempre terá uma forte inclinação progressista.

De modo geral, o modelo hayekiano do gotejamento ignora um ponto crucial: o fato de que — e eu espero não estar retirando seu prazer de viver — intelectuais, acadêmicos e a mídia não são exatamente motivados pela verdade. É verdade que as classes intelectuais podem fazer parte da solução, mas elas também são uma grande parte do problema. Como vimos, os intelectuais fazem parte da classe dominante, e seus interesses econômicos, bem como seus interesses em termos de prestígio, poder e admiração dependem inteiramente da continuidade do atual sistema social-democrata.

Outra estratégia é aquela comumente perseguida por vários institutos conservadores e liberais: a persuasão silenciosa feita diretamente nos corredores do poder, sem passar pela comunidade acadêmica. Tal estratégia é chamada de "estratégia fabiana", e os institutos saem divulgando relatórios pedindo uma redução de 5 pontos percentuais na alíquota de importação e de 2 pontos percentuais na alíquota do imposto de renda, além de uma pequena redução das regulamentações e da burocracia. Os defensores dessa estratégia apontam para o sucesso da sociedade fabiana, a qual, por meio de suas detalhadas pesquisas empíricas, suavemente submeteu o estado britânico a um gradual crescimento do poder socialista.

O defeito desta estratégia, no entanto, está no fato de que aquilo que funciona para aumentar o poder estatal não funciona para fazer o inverso. Afinal, os fabianos estavam estimulando as elites dominantes a aumentar seu poder, que era exatamente o que elas queriam. Por outro lado, tentar encolher o estado vai fortemente contra sua natureza, e o resultado mais provável é que o estado acabe cooptando e 'fabianizando' os institutos que tentem reduzir seu poder. 

Esse tipo de estratégia pode, é claro, ser pessoalmente muito agradável para os membros desses institutos, e pode acabar garantindo alguns contratos lucrativos ou até mesmo alguns confortáveis empregos na máquina pública para essas pessoas. E esse é exatamente o problema.

Portanto, além de se esforçar para converter os intelectuais para a nossa causa, a ação mais adequada a ser empreendida tem necessariamente de ser uma estratégia baseada na confrontação, na coragem e na ousadia. Uma estratégia que gere dinamismo e entusiasmo; uma estratégia que agite as massas, que as desperte de sua letargia e que exponha as elites arrogantes que estão nos subjugando, nos controlando, nos tributando e nos espoliando.

Logo, a estratégia adequada tem de se basear naquilo que chamo de "populismo liberal": um movimento intelectual empolgante, dinâmico, tenaz, obstinado e confrontador; um movimento que continuamente desafie e chame para o debate público os principais quadros da social-democracia, para expô-los pelo que realmente são; um movimento que desperte e inspire não apenas as massas exploradas, mas também todos os poucos quadros intelectuais da direita. 

Nesta era em que as elites intelectuais são todas social-democratas e hostis a idéias não-progressistas, é necessário um movimento carismático e dinâmico, cujos membros tenham a habilidade de contornar a mídia e saibam se comunicar diretamente com as massas exploradas que dão sustentação ao regime.

Conclusão

Em todas as questões cruciais, os social-democratas se opõem à liberdade e à tradição, posicionando-se sempre a favor do estado interventor, regulador e controlador. 

No longo prazo, social-democratas são mais perigosos do que comunistas, e não apenas porque eles são mais resistentes e protegidos, mas também porque seu programa e seu apelo retórico são muito mais insidiosos, dado que eles sabem combinar o charme das ideias socialistas com as atraentes "virtudes" da democracia, tudo cuidadosamente envolto em uma linguagem politicamente correta que promete liberdade de expressão e proteção aos "membros credenciados" de todos os tipos de grupos vitimológicos, aquela gente que se diz perseguida e que vive lutando por "direitos iguais" — sendo que o 'iguais' significa na verdade 'superiores'. 

Por muito tempo, os social-democratas obstinadamente se recusaram a aceitar a lição libertária de que liberdades civis e econômicas são indissociáveis; porém, agora, mais maduros e experientes, eles polidamente fingem defender a existência de algum tipo de "mercado", desde que este seja devidamente tributado, regulado e restringido por um maciço estado interventor e assistencialista. Em suma, há pouca distinção entre os atuais social-democratas e os antigos "socialistas de mercado" da década de 1930, que alegavam ter solucionado aquele defeito fatal do socialismo apontado por Ludwig von Mises: a impossibilidade do cálculo econômico sob o socialismo, que impedia que os planejadores socialistas calculassem preços e custos, impossibilitando-os de planejar uma economia moderna e funcional.

No arsenal coletivista que dominou o cenário mundial do século XX, havia vários programas estatistas concorrentes: dentre eles, o comunismo, o fascismo, o nazismo e a social-democracia. Os nazistas e os fascistas estão mortos e enterrados; o comunismo ainda existe apenas em alguns países sem nenhuma importância. Restou somente a mais insidiosa forma de estatismo: a social-democracia. 

Em meio a uma cultura capturada por ideias progressistas e programas sociais esquerdistas, é necessária uma estratégia ousada para frustrar os planos dos social-democratas de alcançarem uma completa e irreversível tomada do poder.

Fonte: O Instituto Ludwig von Mises - Brasil ("IMB"), 31/12/2015

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

As sufragistas: de como as mulheres tiveram que verter sangue, suor e lágrimas pelo simples direito de votar

Cena do filme 'As Sufragistas', que aborda a luta das mulheres
por igualdade de direitos no Reino Unido. Divulgação

Nenhuma conquista social foi obtida de mão beijada. Mulheres, negros, homossexuais e tantos outros segmentos marginalizados tiveram que verter muito sangue, suor e lágrimas para conseguir os direitos mais básicos (vale assistir também o filme Selma sobre a luta dos negros americanos para poder votar). Importante ressaltar isso atualmente. Hoje, vemos, com tristeza, mulheres, negros e gays reproduzindo o discurso cínico dos conservadores, muito interessados em jogar fora o bebê junto com a água suja da bacia, de que os movimentos sociais não são mais necessários porque instrumentalizados por partidos de extrema-esquerda e outras falácias do gênero. A instrumentalização dos movimentos sociais realmente precisa acabar, mas os movimentos sociais não porque ainda falta muito o que fazer.

'As Sufragistas': metade da humanidade (no mínimo)

'As Sufragistas' é um filme que cospe na nossa cara a vergonha com verdade, raiva e paixão

por Javier Ocaña


Que duas democracias supostamente gloriosas do mundo ocidental mais avançado como o Reino Unido e a França não deram o direito de voto às mulheres, nem que fossem eleitas, até 1928 e 1944, respectivamente, deveria nos enraivecer a tal ponto que o melhor resultado seria, sem dúvida, um verdadeiro exame de consciência. E não sobre o passado, mas sobre o presente. Metade da humanidade, pelo menos, ficava à margem das decisões, e As Sufragistas, filme britânico composto principalmente por mulheres, cospe na nossa cara essa vergonha. Com raiva, com delicadeza, com elegância, com justiça, com verdade, com paixão. Porque ainda resta muito a ser feito.

Sarah Gavron é a diretora, Abi Morgan, renomada dramaturga, a roteirista, enquanto um grupo de sensacionais intérpretes, liderada pela sempre perfeita Carey Mulligan, coloca rosto naquelas mulheres com coragem suficiente para enfrentar o pior vilão, e não de quadrinhos: o homem que se acredita superior.

Gavron e Morgan relatam o processo de conversão ideológica e política de uma mulher comum. Comum? Aparentemente comum, porque essas trabalhadoras do ativismo arriscaram tudo até as últimas consequências. Até o martírio, a morte, até perder seus filhos. A imprescindível mão de obra de uma revolução que tinha seus rostos brilhantes, e necessários, em mulheres que passaram para a história por seus discursos, e que claro que se arriscaram, mas precisavam das imprescindíveis ações das que estavam na base. 

Com excelente produção, música de Alexandre Desplat, fotografia de Eduard Grau de Barcelona, já instalado confortavelmente no cinema internacional, As Sufragistas é mais do que um filme: é a configuração de uma vitória esmagadora. A encenação sem fissuras, mas sem alardes, de Gavron, entre os tons amarelados, de névoa física e tempestade moral da fotografia de Grau, que pode parecer um pouco fria em alguns momentos, mas nunca chega a rachar pela emoção do tema e das situações. Quem não ficar gelado com as imagens documentais no final, é porque tem problemas.

AS SUFRAGISTAS
Direção: Sarah Gavron.
Elenco: Carey Mulligan, Ben Whishaw, Anne-Marie Duff, Meryl Streep, Helena Bonham Carter.
Gênero: drama. Reino Unido, 2015.
Duração: 106 minutos

Abaixo o filme em baixa definição. Para assistir numa imagem melhorada clique aqui , depois em auto para subir a definição para 360. Dá pra ver legalzinho.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Genial até o fim, David Bowie transforma a própria morte em obra de arte

Bowie em cena do videoclipe de "Lazarus", lançado dias antes de seu novo disco, "Blackstrar"Foto: David Bowie / Divulgação
No último clipe, "Lazarus", Bowie transforma a morte em obra de arte
Artista aparece em uma cama de hospital cantando versos que, diante do impacto de sua morte, ilustram sua emocionante despedida

"Olha aqui, eu estou no paraíso", começa a cantar Bowie em Lazarus, canção daquele que nenhum fã poderia imaginar que seria mesmo seu último disco,Blackstar, lançado na última sexta-feira, dia em que completou 69 anos. A melancólica canção remete ao personagem bíblico (Lázaro é o homem que Jesus Cristo traz de volta do mundo dos mortos) — e era justo um fã de Bowie querer interpretá-la como uma celebração do artista à vida e à retomada da carreira com mais uma de suas surpreendentes reinvenções sonoras. 

Mas o videoclipe de Lazarus, revisto agora sob o tremendo impacto da morte de Bowie, foi de fato uma despedida. Visivelmente debilitado pelo câncer que enfrentou de forma muito reservada nos últimos 18 meses, Bowie aparece em uma cama de hospital cantando versos como "eu estou em perigo, nada tenho a perder" e falando de "cicatrizes que não podem ser vistas" . Está vendado, com dois pequenos objetos circulares sobre os olhos, emulando os milenares rituais que colocam moedas sobre as vistas dos mortos. 

Por um breve momento, aparece próximo a uma janela, iluminado, e dança lembrando "do tempo que cheguei a Nova York e estava vivendo como um rei". Essa sequência pode ter sido seu esforço derradeiro esforço para mostra-se ao fãs com a energia performática e transgressora que lhe foi tão característica ao longo de sua trajetória. E então vai saindo de cena lentamente, caminhado para trás até fechar a porta. O brilho vira escuridão. Bowie foi um artista corajoso inovador até seus últimos instantes. Fez de seu próprio obituário uma emocionante obra de arte.

Veja a letra de Lazarus

Look up here, I'm in heaven
I've got scars that can't be seen
I've got drama, can¿t be stolen
Everybody knows me now
Look up here, man,
I'm in danger
I've got nothing left to lose
I'm so high it makes my brain whirl
Dropped my cell phone down below
Ain't that just like me
By the time I got to New York
I was living like a king
Then I used up all my money
I was looking for your ass
This way or no way
You know, I'll be free
Just like that bluebird
Now ain't that just like me
Oh I'll be free
Just like that bluebird
Oh I'll be free
Ain't that just like me

Fonte: Zero Hora, por Marcelo Perrone, 11/01/2016

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O samba do petista doido no ensino de História

Já havia postado o texto de outro historiador, Ronaldo Vainfas, sobre a mudança curricular dos ensinos fundamental e médio, no início de dezembro passado (Absurdos petistas atingem também o ensino de História). Volto agora ao tema, reproduzindo o texto de outro historiador, Marco Antonio Villa (foto), sobre os absurdos propostos pelo governo para o ensino da matéria. É de deixar os cabelos em pé. Felizmente, com a maior visibilidade midiática de Villa, o assunto começou a circular num crescendo tanto na grande imprensa quanto nas redes sociais. Espero que se forme uma oposição concreta contra tanta estupidez e retrocesso. Abaixo do texto, 3 vídeos com o Marco Antonio Villa resumindo o tema. É ver para crer.

A Revolução Cultural do PT
Revolução Industrial não é citada uma vez sequer, assim como a Revolução Francesa ou as revoluções inglesas do século XVII

O Ministério da Educação está preparando uma Revolução Cultural que transformará Mao Tsé-Tung em um moderado pedagogo, quase um “reacionário burguês.” Sob o disfarce de “consulta pública”, pretende até junho “aprovar” uma radical mudança nos currículos dos ensinos fundamental e médio — antigos primeiro e segundo graus. Nem a União Soviética teve coragem de fazer uma mudança tão drástica como a “Base Nacional Comum Curricular.”

No caso do ensino de História, é um duro golpe. Mais ainda: é um crime de lesa-pátria. Vou comentar somente o currículo de História do ensino médio. Foi simplesmente suprimida a História Antiga. Seguindo a vontade dos comissários-educadores do PT, não teremos mais nenhuma aula que trata da Mesopotâmia ou do Egito. Da herança greco-latina os nossos alunos nada saberão. A filosofia grega para que serve? E a democracia ateniense? E a cultura grega? E a herança romana? E o nascimento do cristianismo? E o Império Romano? Isto só para lembrar temas que são essenciais à nossa cultura, à nossa história, à nossa tradição.

Mas os comissários-educadores — e sua sanha anticivilizatória — odeiam também a História Medieval. Afinal, são dez séculos inúteis, presumo. Toda a expansão do cristianismo e seus reflexos na cultura ocidental, o mundo islâmico, as Cruzadas, as transformações econômico-políticas, especialmente a partir do século XI, são desprezadas. O Renascimento — em todas as suas variações — foi simplesmente ignorado. Parece mentira, mas, infelizmente, não é. Mas tem mais: a Revolução Industrial não é citada uma vez sequer, assim como a Revolução Francesa ou as revoluções inglesas do século XVII.

O apagamento da História, ao estilo Ministério da Verdade de “1984,” não perdoou a história dos Estados Unidos — neste caso, abriu exceção somente para a região onde esteve presente a escravidão. Do século XIX europeu, tudo foi jogado na lata de lixo: as unificações alemã e italiana, as revoluções — como a de 1848 —, os dilemas político-ideológicos, as mudanças econômicas, entre outros temas clássicos e indispensáveis à nossa História.

Os policiais da verdade não perdoaram também a História do Brasil. Os movimentos pré-independentistas — como as Conjurações Mineira e Baiana — não existiram, ao menos no novo currículo. As transformações do século XIX, a economia cafeeira, a transição para a industrialização foram desconsideradas, assim como a relação entre as diversas constituições e o momento histórico do país, isto só para ficar em alguns exemplos.

Mas, afinal, o que os alunos vão estudar? No primeiro ano, “mundos ameríndio, africanos e afro-brasileiros.” Qual objetivo? “Analisar a pluralidade de concepções históricas e cosmológicas de povos africanos, europeus e indígenas relacionados a memórias, mitologias, tradições orais e a outras formas de conhecimento e de transmissão de conhecimento.” E também: “interpretar os movimentos sociais negros e quilombolas no Brasil contemporâneo, estabelecendo relações entre esses movimentos e as trajetórias históricas dessas populações, do século XIX ao século XXI.” Sem esquecer de “valorizar e promover o respeito às culturas africanas, afro-americanas (povos negros das Américas Central e do Sul) e afro-brasileiras, percebendo os diferentes sentidos, significados e representações de ser africano e ser afrobrasileiro.”

No segundo ano — quase uma repetição do primeiro — o estudo é sobre os “mundos americanos.” Objetivo: “analisar a pluralidade de concepções históricas e cosmológicas das sociedades ameríndias a memórias, mitologias, tradições e outras formas de construção e transmissão de conhecimento, tais como as cosmogonias inca, maia, tupi e jê.” Ao imperialismo americano, claro, é dado um destaque especial. Como contraponto, devem ser estudadas as Revoluções Boliviana e Cubana; sim, são exemplos de democracia. E, no caso das ditaduras, a sugestão é analisar o Chile de Pinochet — de Cuba, nem tchum.

No terceiro ano, chegamos aos “mundos europeus e asiáticos.” Se a Guerra Fria foi ignorada, não foi deixado de lado o estudo da migração japonesa para o Paraguai na primeira metade do século XX (?). O panfletarismo fica escancarado quando pretende “problematizar as juventudes, discutindo massificação cultural, consumo e pertencimentos em diversos espaços no Brasil e nos mundos europeus e asiáticos nos séculos XX e XXI.” Ou quando propõe “relacionar as sociedades civis e os movimentos sociais aos processos de participação política nos mundos europeus e asiáticos, nos séculos XX e XXI, comparando-os com o Brasil contemporâneo.”

Quem assina o documento é o ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, um especialista brasileiro em Thomas Hobbes. Porém, Hobbes ou o momento em que viveu (o século XVII inglês) são absolutamente ignorados pelos comissários-educadores. Para eles, de nada vale conhecer Hobbes, Locke, Platão, Montesquieu, Tocqueville, Maquiavel, Rousseau ou Sócrates. São pensadores do mundo europeu. O que importa são as histórias ameríndias, africanas e afro-brasileiras.

O documento está recheado de equívocos, exemplos estapafúrdios, de panfletarismo barato, de desconhecimento da História. Os programas dos cursos universitários de História foram jogados na lata de lixo e há um evidente descompasso com a nossa produção historiográfica. A proposta é um culto à ignorância. Nenhuma democracia no mundo ocidental tem um currículo como esse. Qual foi a inspiração? A Bolívia de Morales? A Venezuela de Chávez? A Cuba de Castro? Ou Lula, aquele que dissertou sobre a passagem de Napoleão Bonaparte pela China?

Marco Antonio Villa é historiador




Fonte: Blog do Marco Antonio Villa

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