Curso de extensão da USP

sobre Judith Butler e Michel Foucault

O sequestro do termo "gênero":

uma perspectiva feminista do transgenerismo

Mulheres na Ciência

Estudantes criam bactéria que come o plástico dos oceanos

Mulheres na Ciência:

Duas barreiras que afastam as mulheres da ciência

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Como ser mentalmente forte em 13 passos

13-Things-Mentally-Strong-People-Dont-Do
Pessoas mentalmente fortes aceitam e abraçam a mudança
O artigo abaixo foi publicado no site da Forbes, pela colunista Cheryl Conner, e traduzido pelo pessoal da HypeScience (ver link para o original ao fim do texto). Trata-se de uma lista de características de pessoas mentalmente fortes (como pensam e agem) compilada pela psicoterapeuta Amy Morin. 

Ao publicar a lista, a colunista da Forbes pensou naturalmente no seu público-alvo de empreendedores, no sentido de empoderá-los, mas ela se aplica a qualquer pessoa de qualquer profissão.

Ressalva-se tratar-se apenas de uma lista que - claro - não dá plena conta da complexidade das situações e interações adversas com as quais não raro nos deparamos. Ser forte também é ter consciência de que às vezes precisamos procurar ajuda.

De forma genérica, contudo, sobretudo num momento em que o vitimismo anda em alta, apresenta-se como os 13 mandamentos da sabedoria e da independência. Vamos a ela! Para ser mentalmente forte, não dá para as pessoas:

1. Perder tempo sentindo pena de si mesmas

Você não vê pessoas mentalmente fortes sentindo pena de si mesmas ou suas circunstâncias. Elas aprenderam a assumir a responsabilidade por suas ações e resultados, e têm uma compreensão inerente de que muitas vezes a vida não é justa. Elas são capazes de emergir de uma situação difícil com consciência e gratidão pelas lições aprendidas. Quando uma ocasião acaba mal para elas, pessoas fortes simplesmente seguem em frente.

2. Ser controladas ou subjugadas

Pessoas mentalmente fortes evitam dar aos outros o poder de fazê-los sentir-se inferiores ou ruins. Elas entendem que estão no controle de suas ações e emoções. Elas sabem que a sua força está na sua capacidade de reagir de maneira adequada.

3. Fugir de mudanças

Pessoas mentalmente fortes aceitam e abraçam a mudança. Seu maior “medo”, se tiverem um, não é do desconhecido, mas de tornarem-se complacentes e estagnadas. Um ambiente de mudança e incerteza pode energizar uma pessoa mentalmente forte e estimular o seu melhor lado.

4. Gastar energia em coisas que não podem controlar

Pessoas mentalmente fortes não reclamam (muito) do tráfego, da bagagem perdida e especialmente das outras pessoas, pois reconhecem que todos esses fatores estão, geralmente, fora do seu controle. Em uma situação ruim, elas reconhecem que a única coisa que sempre podem controlar é a sua própria resposta e atitude.

5. Preocupar-se em agradar os outros

É impossível agradar a todos. Pior ainda é quem se esforça para desagradar outros como forma de reforçar uma imagem de força. Nenhuma dessas posições é boa. Uma pessoa mentalmente forte se esforça para ser gentil e justa e para agradar aos outros quando necessário, mas não tem medo de dar sua opinião ou apoiar o que acha certo. Elas são capazes de suportar a possibilidade de que alguém vai ficar chateado com elas, e passam por essa situação, sempre que possível, com graça e elegância.

6. Ter medo de assumir riscos calculados

Uma pessoa mentalmente forte está disposta a assumir riscos calculados. Isso é uma coisa completamente diferente do que pular de cabeça em situações obviamente tolas. Mas com a força mental, o indivíduo pode pesar os riscos e benefícios completamente, e avaliar plenamente as potenciais desvantagens e até mesmo os piores cenários antes de tomar uma atitude.

7. Debruçar-se sobre o passado

Há força em reconhecer o passado e, sobretudo, as coisas aprendidas com as experiências passadas, mas uma pessoa mentalmente forte é capaz de evitar se afundar em decepções antigas ou fantasias dos “dias de glória” de outrora. Elas investem a maior parte de sua energia na criação de um presente e futuro melhores.

8. Cometer os mesmos erros repetidamente

Não adianta realizarmos as mesmas ações repetidas vezes esperando um resultado diferente e melhor do que o que já recebemos. Uma pessoa mentalmente forte assume total responsabilidade por seu comportamento passado e está disposta a aprender com os erros. Pesquisas sugerem que a capacidade de ser autorreflexivo de forma precisa e produtiva é uma das maiores características de executivos e empresários bem-sucedidos.

9. Ressentir-se do sucesso dos outros

É preciso ter força de caráter para sentir alegria genuína pelo sucesso de outras pessoas. Pessoas mentalmente fortes têm essa capacidade. Elas não ficam com ciúmes ou ressentidas quando outros alcançam sucesso (embora possam tomar nota do que o indivíduo fez bem). Elas estão dispostas a trabalhar duro por suas próprias chances de sucesso, sem depender de atalhos.

10. Desistir depois de falhar

Cada fracasso é uma oportunidade para melhorar. Mesmo os maiores empresários estão dispostos a admitir que seus esforços iniciais invariavelmente trouxeram muitas falhas. Pessoas mentalmente fortes estão dispostas a falhar de novo e de novo, se necessário, desde que cada “fracasso” os traga mais perto de seus objetivos finais.

11. Ter medo de passar tempo sozinhas

Pessoas mentalmente fortes apreciam e até mesmo valorizam o tempo que passam sozinhas. Elas usam esse tempo de inatividade para refletir, planejar e ser produtivas. Mais importante, elas não dependem de outros para reforçar a sua felicidade e humor. Elas podem ser felizes com os outros, bem como sozinhas.

12. Sentir que o mundo lhes deve algo

Na economia atual, executivos e funcionários de todos os níveis estão ganhando a percepção de que o mundo não lhes deve um salário, um pacote de benefícios e uma vida confortável, independentemente da sua preparação e escolaridade. Pessoas mentalmente fortes entram no mercado preparadas para trabalhar e ter sucesso de acordo com seu mérito, ao invés de já chegar com uma lista de coisas que deveriam receber de mão beijada.

13. Esperar resultados imediatos

Quer se trate de um treino, um regime nutricional ou de começar um negócio, as pessoas mentalmente fortes entram nas situações pensando a longo prazo. Elas sabem que não devem esperar resultados imediatos. Elas aplicam sua energia e tempo em doses e celebram cada etapa e aumento de sucesso no caminho. Elas têm “poder de permanência” e entendem que as mudanças genuínas levam tempo.

E aí? Você tem força mental? Existem elementos nesta lista que você precisa melhorar? [Forbes]

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Drácula Episódio 02 – A Whiff of Sulfur (Cheiro de Enxofre)


Neste segundo episódio, Um Cheiro de Enxofre, Alexander Grayson (Drácula) se torna amante de Lady Jayne enquanto investiga a conexão que ela tem com a Ordem do Dragão. Grayson também ajuda Mina a encarar um grande desafio na escola de medicina. Van Helsing continua suas pesquisas para desenvolver uma vacina que capacite Grayson a suportar a luz do sol.

Atenção: no segundo player, Vodlocker, fechar o anúncio antes de clicar no play >.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Vídeo de loja de brinquedos encoraja garotas a se tornarem engenheiras. Chupem essa, conservas!

Chupem essa, conservas!
Todo conservador que se preza detesta o feminismo, assim tomado de forma genérica. E detesta porque os feminismos (em suas diversas correntes, com raras exceções) atacam o que os conservadores consideram o papel "natural" da mulher (tão "natural" que precisa ser garantido por uma restrita educação diferenciada). Por isso, todos eles, dos mais toscos, tipo Bolsonaro, Malafaia, Feliciano, aos mais letrados, os tais conservadores liberais, como Pondé, Reinaldo Azevedo, entre outros, buscam negar a construção cultural que se faz sobre as diferenças biológicas entre os sexos. 

Em seu livreto Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, um amontoado de clichês, frases feitas e falácias a granel, o embusteiro-filósofo Luiz Felipe Pondé dedica um dos capítulos de sua "obra" a renaturalizar, "baseando-se" no darwinismo, os papéis sexuais de homens e mulheres como frutos de um suposto inconsciente genético herdado.  Nesta perspectiva, homens e mulheres têm características diferentes, herdadas pela seleção natural, as quais não são passíveis de construção ou desconstrução social. Assim sendo, embaralhar os papéis masculinos e femininos seria péssimo para a vida cotidiana. Sei.

Dá até vergonha alheia ler esse tipo de gororoba intelectual, já que a educação diferenciada é de uma obviedade gritante. Ninguém precisa ler nenhum compêndio feminista para constatá-la, bastando ter olhos que vejam, além de simplesmente enxergar. Trata-se de mais um daqueles casos em que o rei está nu, porém apenas um menininho tem a coragem de declarar a verdade. A diferença, no caso da educação diferenciada, é que foram as menininhas as primeiras a enunciar a falta de vestimentas do rei.

Qualquer um(a) pode constatar que as diferenças comportamentais entre homens e mulheres derivam fundamentalmente da educação. O adestramento começa no berço, quando os meninos são vestidos de azul e as meninas com o idiota cor-de-rosa, prosseguindo por toda a infância, com os brinquedos para meninas e meninos, e a bem da verdade estendendo-se pela vida inteira. Os papéis sexuais são impostos arbitrariamente às crianças independentemente de suas características individuais de personalidade, temperamento, índole. São fôrmas para onde a garotada é empurrada como massinha de modelar. E os que se rebelam contra essa tirania educacional são reprimidos até fisicamente.

Não por menos o deputado Boçalnaro declarou, em 2010, que se “O filho começa a ficar assim, meio gayzinho (leia-se feminino), leva coro, ele muda o comportamento dele.” Não por menos também, a histeria conservadora contra o tal kit gay (invenção igualmente do truculento deputado do PP-RJ) que supostamente iria perverter a ordem "natural" dos papéis sexuais nas escolas. Que ousadia mostrar como aceitável o que nós levamos séculos para introjetar na cabeça de todos como anormalidade. 

Aliás, com um pouco de raciocínio, já se chega à conclusão de que a naturalidade dos papéis sexuais é farsesca. Se as diferenças comportamentais entre mulheres e homens derivam da natureza porque precisam ser ensinadas? Porque essa história de brinquedo de menina e de menino, se as crianças não brincam com os genitais e sim com o que é comum a ambos os sexos, ou seja, mãos, pernas e cabeça? 

A educação diferenciada prejudica fundamentalmente as meninas, pois visa mutilar seu potencial intelectual e existencial. Mas prejudica também os meninos, mutilados em sua capacidade de desenvolver empatia, criados para serem criaturas toscas, abrutalhadas e parasitas. A musiquinha Girls, cantada pelos Beastie Boys, descreve sem sutilezas para que serve a educação diferenciada. Diz a letra:
“Garotas para lavar a louça / Garotas para limpar meu quarto / Garotas para lavar roupa / Garotas para “fazer” no banheiro / Garotas —tudo o que realmente quero são garotas”.
Melhor pagar uma empregada e uma puta, né mesmo? Concluindo, os conservas sabem que é de menino que se torce o pepino, mas nós sabemos também. Daí que é sempre auspicioso registrar as iniciativas de minar o poder repressivo da máquina de promover desigualdades chamada educação diferenciada. É o caso do vídeo viral da loja de brinquedos GoldieBlox que visa encorajar as meninas a se tornarem engenheiras.

Ao som de uma versão feminista da ultrassexista Girls, do Beastie Boys, o vídeo diz a que veio. Chama-se Disrupting the Pink Isle (Detonando a Ilha Cor-de-Rosa), mas bem que podia se chamar Chupem essa, Conservas!

Vídeo viral feminista de loja de brinquedos encoraja garotas a se tornarem engenheiras

Claire Miller do New York Times

Quem disse que garotas têm de usar cor-de-rosa e brincar de boneca, principalmente quando podem construir uma máquina de Rube Goldberg em vez disso?

Essa é a mensagem de um vídeo que se tornou viral desde que foi postado no YouTube nesta semana —um anúncio da GoldieBlox, start-up de brinquedos infantis que vende jogos e livros para encorajar garotas a se tornarem engenheiras.

No vídeo, três meninas estão entediadas assistindo a princesas cor-de-rosa na TV. Então elas pegam uma caixa de ferramentas, óculos de proteção, um capacete e começam a construir uma máquina de Rube Goldberg, que manda para os ares xícaras rosas e bonecas, usando guarda-chuvas, escadas e, claro, brinquedos da GoldieBlox.

Tudo acontece sobre a melodia de “Girls”, do Beastie Boys, uma balada decididamente antifeminista. Só que a letra foi reescrita pelo criador da propaganda.

Os Beastie Boys cantavam: “Garotas para lavar a louça / Garotas para limpar meu quarto / Garotas para lavar roupa / Garotas para “fazer” no banheiro / Garotas —tudo o que realmente quero são garotas”.

Uma das atrizes do anúncio canta:
Garotas constroem uma nave espacial / Garotas criam um novo aplicativo / Garotas que crescem sabendo / Que podem projetar essas coisas / Garotas, tudo de que realmente precisamos são garotas / Para nos levar ao topo / Nossa oportunidade são as garotas / Não subestime as garotas.
“Pensei em minha infância, com princesas e pôneis, e me perguntei por que kits de construção, matemática e ciência eram para garotos”, disse Debbie Sterling, fundadora e chefe-executiva da GoldieBlox, em entrevista. “Queríamos criar uma inversão cultural, fechar esse vão entre os gêneros e preencher algumas dessas vagas de emprego que crescem à velocidade da luz.”

Ela criou a empresa há dois anos, depois de se graduar em design de produtos no departamento de engenharia mecânica de Stanford, onde ficou desapontada por não haver mais mulheres nas aulas.

As mulheres são pouco representadas como engenheiras em companhias de tecnologia, principalmente por causa de um problema de abastecimento. Em 2010, elas representavam 18% das graduações em ciência da computação; em 1987, respondiam por 37% desse número, segundo o Centro Nacional para Mulheres e Tecnologia da Informação.

O problema, dizem muitos analistas, começa na infância, quando professores e pais não encorajam garotas a correr atrás de engenharia.

A GoldieBlox é um dos esforços para mudar essas porcentagens. O programa Girls Who Code ensina a elas programação de softwares. E Sheryl Sandberg, executiva do Facebook que advoga a favor das mulheres nos negócios, frequentemente encoraja os pais a deixar suas filhas jogarem videogames, para assim ficarem animadas em relação a ciência da computação.

Sterling e a equipe da GoldieBlox tiveram a ideia de fazer um vídeo que fizesse a engenharia parecer bacana para os mais jovens. Eles foram inspirados pela máquina de Rube Goldberg usada num clipe da banda OK Go, e o criador dessa máquina, Brett Doar, concordou em construir uma para o anúncio.



"Disrupting the Pink Isle". Parents of daughters take note.

Girls.
You think you know what we want, girls.
Pink and pretty it's girls.
Just like the 50's it's girls.

You like to buy us pink toys
and everything else is for boys
and you can always get us dolls
and we'll grow up like them... false.

It's time to change.
We deserve to see a range.
'Cause all our toys look just the same
and we would like to use our brains.

We are all more than princess maids.
Girls to build the spaceship,
Girls to code the new app,
Girls to grow up knowing
they can engineer that.

Girls.That's all we really need is Girls.
To bring us up to speed it's Girls.
Our opportunity is Girls.
Don't underestimate Girls.

Fonte: Folha de São Paulo, Blog de Tec, 21/11/2013

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Você conhece o bitcoin, a moeda libertária?

bitcoins2
Quem fabrica o bitcoin não é um governo mas sim um software criado por uma pessoa

Bitcoin- a moeda que vale mais do que dinheiro

Uma nota de R$ 50 é basicamente um cartão de memória. Um cartão que estoca o trabalho que você fez para receber a nota. Então um cabeleireiro pode comprar pão sem ter de cortar o cabelo do padeiro e um fiscal corrupto paga a conta do Fasano sem ter de roubar o caixa Fasano. Não poderia ser mais prático.

Mas não foi sempre assim, tão prático. Até outro dia, ninguém aceitava que um pedaço de papel poderia cumprir essa tarefa de cartão de memória universal. Seu trabalho só servia para alguma coisa se o valor dele chegasse aos seus bolsos na forma de ouro, de prata, ou, na falta de coisa melhor, de cobre. Isso porque o dinheiro precisa cumprir duas regras para ser aceito como dinheiro: 1) Ser algo que todo mundo quer 2) Ser relativamente escasso. Ouro cumpre esse papel com louvor. Primeiro, todo mundo gosta, porque é bonito. Segundo, é raro. Raro mesmo. Mais do que você pensa. Se você juntar todo o ouro já minerado na história, vai dar um prédio de sete andares, ou 140 mil toneladas. Isso é o que a Vale extrai de minério de ferro em seis horas… O ouro, na verdade, é tão difícil de obter que quem sempre fez o papel de dinheiro foram seus primos mais pobres do mundo mineral: a prata e o cobre (geralmente na forma de bronze).

O dinheiro de papel começou a vida não como dinheiro, mas como um recibo. Cada nota dava direito a uma certa quantidade de ouro ou de prata. Esses metais preciosos ficavam em algum cofre, parados ali como lastro, para garantir que aquela nota valia mesmo o que estava escrito nela. Ao longo da história, vários governos tentaram emplacar coisas sem lastro como dinheiro. Roma substituiu moedas de prata por fichinhas de metal vagabundo. A França abandonou a ideia do lastro no século 18, como se papel pintado pudesse mesmo valer como dinheiro. Mas essas ideias nunca pegaram, principalmente porque o fabricante das fichinhas de metal vagabundo ou dos papéis pintados (o governo) nem sempre tendia a fabricar quantidades infinitas de dinheiro sem lastro para gastar ele mesmo – era basicamente o que faziam no Brasil antes de 1994. O fato é que esses abusos públicos impediram a confiança no dinheiro de papel até a metade do século 20.

Na verdade, até 1971. O Brasil já era tri, Sarney já era senador, e o dinheiro só valia dinheiro, mesmo, por um motivo: os EUA se comprometiam a trocar cada US$ 1,25 por um grama de ouro. Os dólares que um governo qualquer, tipo o nosso, tivesse nos cofres servia de lastro para a moeda que ele fabricasse. E o ouro dos EUA lastreava esses dólares. Mas isso era só em tese: já havia muito mais dólares em circulação do que ouro no Fort Knox. Richard Nixon, então, acabou com essa regra.

Desde então é cada um por si. E hoje nem de papel mais o dinheiro é feito. No Brasil mesmo, menos de 1% do dinheiro circula na forma de papel. São só bits armazenados nos servidores dos bancos. Mas não é fácil fazer esses bits aparecerem na sua conta bancária. Você precisa trabalhar por eles com o mesmo afinco que trabalharia para ganhar ouro. Então não tem diferença: esses bits valem ouro.

E aí que a gente chega no bitcoin. O bitcoin é uma moeda tão virtual quanto o dólar ou o real. A diferença é que quem fabrica bits de dólar e de real são dois governos soberanos. E quem fabrica o bitcoin não é nem um governo nem uma pessoa, mas um software (que foi criado por uma pessoa, claro, mas que opera por conta própria).

Esse software começou a funcionar em 2009. O que ele fazia era jogar bitcoins nas “carteiras digitais” do pessoal envolvido com a criação do sistema. No começo, então, a coisa era basicamente uma moeda que só valia dinheiro entre eles: um sujeito dessa comunidade podia fazer algum serviço pra outro em troca de bitcoins. Aí ele gastava o dinheiro virtual que tinha ganhado pagando por outro serviço de alguém da mesma comunidade.

Parece bobo, mas o real funciona assim também, com a diferença de que a “comunidade” aí é o país inteiro. E o sistema também não é tão diferente assim daquele que faz o dinheiro normal circular: você baixa uma “carteira digital” num site, o MultiBit, ou por um aplicativo de Android, o BitCoin Wallet. Para carregar essa carteira, você vai nos sites que trocam dinheiro real por bitcoins, como o Mt.Gox e o Mercado Bitcoin. E aí é “só” achar algum lugar que aceite bitcoins como moeda – um restaurante, uma padaria, o que for. Achando, você pega o celular e transfere uma parte das bitcoins para o dono do lugar. Pronto.

O pulo do gato do bitcoin é que a quantidade de lugares que aceita a coisa como moeda está crescendo. Em Berlim, pelo que conta o meu amigo Rafael Kenski, que passou um ano por lá, existe até um bairro cheio de cafés e lojas de roupas que aceitam bitcoins como se fossem euros. Até eu aceito, olha só: meu mini-e-book, o Por que Tudo Custa Tão Caro no Brasil está à venda no site da Super por bitcoins (a ideia foi do Kenski, que voltou da Alemanha para chefiar a internet da Super e de outras revistas da Abril).

Bom, tudo isso está valorizando o próprio bitcoin. Lógico: quanto mais gente aceita a coisa como dinheiro, mais dinheiro a coisa vale. E foi uma subida monstruosa. A primeira vez que alguém aceitou a coisa em troca de um produto de verdade foi em 2010, quando um cara pagou duas pizzas com 10 mil bitcoins. No mês passado, quando a Super começou a vender o e-book, isso dava R$ 2 milhões. Enquanto este texto é escrito, R$ 15 milhões. Pois é: um bitcoin sozinho vale R$ 1.500 – ele continua utilizável porque o sistema permite transações de até 1 bilionésimo de bitcoin.

Mas claro: boa parte dessa subida é especulação pura. O povo das finanças está comprando toneladas de bitcoins na esperança de que o troço passe a ser tão aceito quanto dólares ou euros. Eu não apostaria nisso o papel sujo com uma onça desenhada que está na minha carteira agora – mas algo me diz que estou errado.

Fonte: Superinteressante, Crash, 22/11/2013, por Alexandre Versignassi

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O paradoxo chileno por Carlos Alberto Montaner

Michelle Bachelet
Michelle Bachelet deve voltar à presidência do Chile porque provavelmente a consideram merecedora do cargo. Já passou por La Moneda (sede do governo) e deixou o poder com altíssimo grau de aprovação. Entretanto, desta vez, voltará para governar de outra forma, como tem prometido. Haverá saúde e educação “grátis”. Irá estabelecer as bases do Estado Benfeitor. O gasto público, claro, aumentará substancialmente, e com ele a alegre legião dos funcionários.

Não há dúvida. Existe insatisfação no país com o modelo chileno, apesar de seus imensos êxitos e do fato inegável de que o Chile hoje é a  primeira economia da América Latina. Por que então o inconformismo? Segundo Mauricio Rojas (economista chileno residente na Suécia), “trata-se de um longo processo que teve sua espetacular eclosão no ano de 2011, com grandes mobilizações sociais que conseguiram firmar um discurso antissistema que questionou os pilares do modelo chileno”.

E acrescentou mais adiante:“a centro-direita chilena acreditou que a eficiência do sistema lhe traria automaticamente legitimidade e apoio e descuidou do terreno onde realmente se decide o caminho das sociedades: o das ideias. Rojas, bastante preocupado, apontou esses fatos em um artigo intitulado Chile, rumo ao estado benfeitor e à democracia chavista.

Mauricio Rojas sabe do que fala. Em sua juventude foi um marxista ferrenho, membro do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria), e teve que exilar-se, depois do golpe de Augusto Pinochet, para não ser morto. Foi para a Suécia. Lá, felizmente, desemburreceu. Obteve um doutorado em economia na Universidade de Lund e abandonou as tolas superstições marxistas. Logo entendeu os erros do Estado de Bem-Estar Social. Foi deputado pelo partido Liberal e viveu intensamente a retificação dos excessos cometidos pelos socialdemocratas, especialmente depois da crise dos anos noventa.

A Suécia era um dos países mais habitáveis  do planeta,  mas, após o advento do estado benfeitor, o excessivo gasto público – chegou a 67% do PIB – e a intervenção do Estado na economia acabaram afogando as iniciativas da sociedade civil e arruinando as finanças suecas. Depois do tombo, os sucessivos governos locais, além de cortar gastos, aprenderam a depender mais do setor privado e a recorrer ao mercado mediante sistemas de vouchers (cheque, vale, cupom) que devolveram à sociedade a capacidade (e o direito) de escolher. Público e privado se harmonizaram.

A discussão, portanto, não deve ser sobre se é conveniente ou não erigir um estado de bem-estar social. O tema de fundo é outro: a sociedade produz suficiente riqueza para sustentar um modelo de convivência no qual as pessoas disponham de casas confortáveis, comida variada, roupas adequadas, educação e saúde de qualidade, transporte, comunicações, diversões e infraestrutura eficientes? Tudo isso é bem agradável, mas custa muito.

Os países escandinavos não estão no topo da lista do conforto planetário porque decidiram criar estados benfeitores e sim porque geraram um tecido produtivo no setor privado que lhes permitiu produzir sociedades como as que vemos na Suécia, Noruega, Dinamarca ou Finlândia.

A Suíça é a Suíça, ou a Áustria é a Áustria, não porque os bondosos políticos e funcionários dessas nações tenham decidido dotar suas sociedades de um alto padrão de vida e repartir a riqueza, mas sim porque o país conta com um aparato empresarial privado altamente competitivo que cria empregos bem remunerados e paga impostos. Aqui não há dúvida sobre quem vem primeiro, se o ovo ou a galinha.

Essa é a questão pendente do Chile. O país, sim, vai muito bem, porém não tanto como outros, e graças sobretudo às exportações de cobre, salmão, vinho, vegetais e alguns outros poucos produtos. Como disse o professor de Harvard, Ricardo Hausmann: “No Chile, as únicas coisas que se desenvolveram recentemente foram as AFP (o estupendo sistema privado de aposentadoria criado pelo economista José Piñera) e as empresas Falabella e Cencosud (lojas, supermercados). Embora surpreendente, o fato é que o país tem poucas empresas globalmente competitivas, e isso mostra uma falta de diversificação que deveria preocupar”.

O que o Chile e todos os países necessitam é de governos que se proponham, primordialmente, não a distribuir riquezas, mas sim a estimular a criação de empresas privadas vigorosas, competitivas e diversificadas que alimentem e sustentem o surgimento de classes médias educadas e, por tabela, custeiem um Estado eficiente. Como se faz isso? Tomara que a senhora Bachelet descubra logo antes de provocar um descalabro.

Fonte: El blog de Montaner, La Paradoja Chilena, 24/11/2013, Tradução Míriam Martinho

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Cachorro e pássaro mostram que uma verdadeira amizade supera todas as diferenças

Pega-rabilonga
Vídeo onde um cachorrinho e um pássaro brincam para valer um com o outro. Pela esperteza e biotipo, o pássaro parece ser da família dos corvos, gaios e gralhas, provavelmente uma pega-rabuda, ou pega-rabilonga, pouco comum no Brasil. Divertido e emocionante!
 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Condenação de mensaleiros, apenas igualdade perante a lei

Demétrio Magnoli
Em geral, concordo com os textos do Demétrio Magnoli, e este "bom dia, tristeza" não é exceção. A prisão dos mensaleiros petistas e aliados é apenas
um sinal de que a igualdade perante a lei ainda tem uma chance na nossa pobre república habitada por tantas figuras “mais iguais” que as demais.
O resto é xiadeira dos que, ainda nas palavras de Magnoli, 
herdaram da tradição comunista a convicção de que o Partido possui direitos extraordinários, oriundos de uma aliança especial com a História. Por pensarem isso, agora se declaram “presos  políticos”. Sim, estou triste e sei por quê: eles não aprenderam nada, depois de um quarto de século de democracia.
Bom dia, tristeza!

Acordei anteontem sob o impacto da notícia da expedição de mandados de prisão para os condenados do “mensalão”. Uma tristeza, inicialmente indefinível, tomou conta de mim. Sim: eles devem ser presos, em nome da democracia e da justiça. Sim: a prisão deles é um sinal de que a igualdade perante a lei ainda tem uma chance na nossa pobre república habitada por tantas figuras “mais iguais” que as demais. Por que, então, a tristeza?

Os integrantes do núcleo político do “mensalão” foram condenados sem provas, por um recurso à teoria do domínio do fato, alegam ali (no PT, em sites chapa-branca financiados com dinheiro público) e aqui (neste espaço, por comentaristas que não se preocupam com a duplicidade de critérios morais), numa tentativa canhestra de confundir o público. A teoria do domínio do fato, amplamente utilizada nos tribunais brasileiros, não equivale a uma noção arbitrária de “responsabilidade objetiva”, que é coisa de tiranias, e não dispensa provas. Ela é uma ferramenta analítica destinada a identificar responsabilidades em crimes cometidos pelo concurso de agentes: no julgamento de uma quadrilha de assaltantes de banco, serão imputadas penas não só aos que empunharam armas, mas também aos planejadores da ação. Sobram provas nos autos do processo do “mensalão”. Não: a lenda do “julgamento político” não me comove nem um pouco.

A Ação Penal 470 é “um ponto fora da curva”, dizem alguns cínicos e incontáveis porta-vozes informais do governo. O diagnóstico é compartilhado por não poucos advogados de boa-fé que se habituaram às transações internas de nossa elite de fidalgos a ponto de confundirem impunidade com justiça. Talvez seja mesmo: o STF nem mesmo abriu processo contra Antonio Palocci, apesar dos indícios clamorosos de que o então ministro cometeu um crime de Estado, violando o sigilo bancário de uma testemunha sem posses ou poder. Mas, se assim for, que o “ponto” inaugure uma nova “curva”, traçada por um compasso que não reconheça privilégios derivados do convívio nos palácios. Não: o ineditismo real ou suposto da prisão de gente de “sangue azul” não é o que me entristece.

Na hora em que li a notícia da prisão iminente dos cérebros do “mensalão” veio-me à mente uma frase de Leon Trotsky, pronunciada perante uma maioria stalinista hostil que o isolava no Partido Comunista:
Em última análise, o Partido está sempre certo, porque é o único instrumento histórico que a classe trabalhadora tem para a solução de suas tarefas fundamentais. Só podemos ter razão com o Partido e através do Partido, porque a História não criou nenhuma outra forma para a realização do nosso direito. Os ingleses têm um lema: Meu país, certo ou errado. 
Com muito maior justificação, podemos dizer: meu Partido, certo ou errado.” Dirceu, Genoino e Delúbio não são revolucionários, nem de longe, mas herdaram da tradição comunista a convicção de que o Partido possui direitos extraordinários, oriundos de uma aliança especial com a História. Por pensarem isso, agora se declaram “presos políticos”. Sim, estou triste e sei por quê: eles não aprenderam nada, depois de um quarto de século de democracia.

Dirceu et caterva aparentemente não desviaram dinheiro público para formar patrimônios privados próprios, mas para estabilizar e reproduzir um sistema de poder. Eles fizeram o que fizeram em nome dessa ideia: a Verdade do Partido. É bom, muito bom, que a Corte diga-lhes que nossa República não reconhece nenhuma verdade transcendental. Não estou triste, mas feliz, com o triunfo da mensagem de que a corrupção em nome de uma causa, de um Partido ou da História, escrita assim com maiúscula, é um crime tão grave quanto a corrupção em nome do vil metal. Entristece-me, isso sim, a constatação inevitável de que nossa democracia, imperfeita mas real, não conseguiu civilizá-los.

Fonte: Folha de S. Paulo, 16/11/2013

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Documentário explica porque Zé Dirceu e Genoíno foram para a prisão de punho erguido

Conheça a ideologia que moldou a cara-de-pau infinita do Genoíno
Em outras postagens sobre o tema comunismo/socialismo, já havia apresentado um trecho do vídeo abaixo intitulado A Verdadeira História do Comunismo Soviético. Agora encontrei por acaso a versão completa e decidi postá-la, pois considero fundamental divulgar e redivulgar essas informações que obviamente não rolam na grande imprensa. Outra motivação para essa postagem foi um tour que fiz, a partir de um link do twitter, por vários blogs de esquerdistas indignados com a prisão dos camaradas mensaleiros. Sério que dá um estudo de caso ler as sandices ou vigarices desses "virtuosos" esquerdistas. Vivem num mundo paralelo, onde a realidade passa ao largo.

Por isso mesmo considero fundamental a postagem do vídeo citado. Os herdeiros políticos dessa ideologia funesta, em sua maioria, não falam mais em comunismo (embora tenhamos ainda partidos comunistas de plantão) e sim em socialismo (no caso, um eufemismo). Esses herdeiros trataram  de apagar sua origem e vêm fazendo um revisionismo intenso de nossa história onde posam de paladinos da justiça, lutadores pela democracia contra a ditadura militar, entre outras tantas. Suas mistificações grosseiras da História têm sido empurradas pela goela de nossa juventude abaixo, via escolas e universidades, a ponto de gente, hoje na faixa dos 20 ou 30 anos, incensar os terroristas da luta armada e considerar  Carlos Marighella (autor do Manual do Guerrilheiro Urbano) como herói (musiquinha nojo total dos Racionais). Aliás, os mascarados de hoje têm essa obra-prima da estupidez humana (o tal do manual do amarghella) como livro de cabeceira.

O resultado desse revisionismo mistificador transparece também nas comissões da "verdade", nas exumações de cadáveres de ícones da esquerda do período militar, no incensamento do pessoalzinho da luta armada e na pose ridícula dos condenados por corrupção, José Dirceu e José Genoíno, indo para a cadeia de punho erguido como se sua prisão fosse de cunho político e não criminal. 

Obviamente que, em nosso país ao menos, as viúvas do Muro de Berlim, conscientes de que a tal economia planificada do comunismo não dá certo, aderiram ao modelito fascista de conluio do Estado com empresários amigos do peito (esses capitalistas de araque). Na Argentina, também vem se seguindo por essa trilha de deixar Mussolini de água na boca. Em outros países, como a Venezuela, contudo, grassa a versão mais ortodoxa dessa ideologia maléfica, com expropriações de terras e empresas, empresários sendo presos acusados de explorar o povo, etc. Além disso, apesar das diferenças de método entre o governo petista e seus outros amigos do continente, nosso dinheiro continua sendo "emprestado" para todas as ditaduras de esquerda ainda existentes e outras tantas mundo afora. E isso diz muita coisa sobre o que pensa e pretende essa turma.

Assim como, para tratar uma doença, é necessário conhecer suas causas, suas raízes, e não apenas atacar os sintomas, fundamental ver vídeos como o postado abaixo por mais indigestas que sejam suas imagens. Mesmo que também se considere carregado o tom de propaganda anticomunista do vídeo, impossível acreditar que todas suas imagens e falas sejam forjadas ou distorcidas. Sua audiência, portanto, continua sendo obrigatória.

Recomendo também a leitura dos textos Memória não retém atrocidades do comunismo, onde o cientista político francês Alain Besançon explica porque, embora gêmeo heterozigoto do nazismo, o comunismo tenha passado para a posteridade como o avesso do que é. E Queda do Muro de Berlim marca o fim do totalitarismo comunista onde apresento outras informações sobre o tema e links para obras essenciais a respeito do mesmo.

Aproveito ainda para acrescentar vídeo sobre a situação do transporte público em Cuba onde a ideia bisonha de catraca livre se firmou. Nem preciso lembrar que Cuba é uma relíquia comunista que estamos financiando à revelia.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Série Drácula, 1 episódio - Blood is the Life

Primeiro episódio legendado da série Drácula com Jonathan Rhys Meyers. Drácula é ressuscitado e chega a Londres como o industrial americano Alexander Grayson em busca de vingança contra a Ordem do Dragão. Ironicamente, Alexander apresenta a luz elétrica aos londrinos. Na festa que faz para apresentar a novidade da lâmpada elétrica, contudo, dá de cara com Mina, a encarnação de sua amada morta pela Ordem do Dragão. Abaixo, com duas escolhas de players (a resolução deixa a desejar, mas melhor do que nada).

Atenção:
 no segundo player, Vodlocker, fechar o anúncio antes de clicar no play >.

Maneira bem-humorada de criticar propagandas sexistas

Modelito calendário de oficina de mecânico mambembe precisa ser mudado
A grande reivindicação da última geração de feministas parece ser o direito de ser feia, direito que os homens sempre tiveram (sic). É fato que, educadas para serem objetos de uso masculino, as mulheres sempre tiveram a aparência supervalorizada, em detrimento de características muito mais relevantes de suas pessoas, criando muita ansiedade nas moças que tentam se encaixar em padrões de beleza irrealistas.

No entanto, acho um grande equívoco essa história de direito a ser feia. Substituir padrões de beleza por padrões de feiura é uma posição reativa e ressentida que não leva a nada. Em artes marciais, quando um adversário é mais poderoso do que você, se tenta derrotá-lo com raiva e de frente, você inevitavelmente perderá a contenda. Se quiser de fato derrotá-lo, tem que manter a calma e até o humor e usar a força do adversário contra ele. As mulheres têm mais é que capitalizar essa hipervalorização da aparência feminina a seu favor, sem se deixar escravizar por ela. Hoje em dia boa aparência é um abre-portas inclusive para os homens. O seu oposto, a feiura, o desleixo, fecham portas para muitas carreiras. Depois não adianta reclamar de sexismo quando não consegue emprego por aparecer em público como se estivesse em casa, sozinha e muito de folga.

O melhor a fazer é ridicularizar as propagandas de produtos e de beleza que apresentam as mulheres em imagens e posições absolutamente fora da realidade. Lembrando sempre, contudo, que modelos se submetem a certos papéis porque ganham muito dinheiro com isso. São os ossos do ofício, e só mesmo cada mulher individualmente pode avaliar a capacidade que tem de roer os muitos ossos que lhe aparecem pelo caminho.

Foi o que fez o gerente geral da concessionária Motocorsa, Arun Sharma, em Oregon, ao ser acusado de apelar na campanha de promoção da moto Ducati 1199 Panigale. Nas imagens da campanha promocional, a modelo Kylie Shea Lewallen aparece em posições contorcionistas e supostamente sensuais sobre e junto à moto. Aquele velho modelito de foto que costuma decorar lojas de mecânicos mambembes. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A rua foi sequestrada por vândalos e movimentos sociais que flertam com vândalos

Rua sequestrada por vândalos e movimentos sociais que flertam com vândalos
De fato, a direita brasileira sempre foi a descrita por Magnoli, conservadora na moral e nos costumes e estatista até a medula dos ossos. A nova direita, da qual um dos arautos é o colunista da VEJA Rodrigo Constantino, uma direita conservadora mas com tintas liberais, daí defensora do Estado mínimo, etc.., só existe na cabeça dele e ainda está em gestação no Brasil. Tem tudo, aliás, para ser o bebê de Rosemary, quando finalmente vir à luz, porque mistura alhos com muitos bugalhos.

Entretanto, acho que Magnoli erra ao dizer até jocosamente que o capitalismo de Estado do petismo não é de esquerda. A esquerda, após o fracasso da economia planificada do socialismo real, aderiu à formula do meio-irmão fascista, tratando de fazer uma espécie de fusão entre o Estado e empresários compadres, exatamente o tal capitalismo de Estado. É aquela velha história: o lobo perde o pelo mas não perde o vício. Manteve o estado enorme e autoritário da esquerda, agora financiado pelos capitalistas de araque e pelo povo explorado por ambos. Continua, portanto, de esquerda.  

“Eu sou de esquerda; o governo é de direita”
Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em geografia humana

Convidado para o Congresso da Primavera, evento realizado na última semana em Curitiba pela seccional paranaense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PR), o sociólogo Demétrio Magnoli diz que, embora as reivindicações dos movimentos das ruas tenham sido vagas, foram extremamente claras. “Ao levantarem o problema de direitos universais e de serviços públicos universais, como saúde e educação, os protestos perfuram a lógica política do atual governo”, diz. Considerado uma voz de direita entre os intelectuais brasileiros, Magnoli, nesta entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, não poupa críticas à atual gestão federal e à crise de representatividade.

Já é possível tirar uma conclusão sobre os protestos de rua e seu lugar na história recente?

Já dá para ter conclusões iniciais. A primeira coisa é separar as jornadas de junho do que veio depois. As jornadas de junho foram manifestações multitudinárias [que reuniram multidões]. Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas e levantaram temas que dizem respeito a direitos universais, como saúde e educação. O que veio depois foram movimentos de minoria, que é uma coisa completamente diferente. São reivindicações particulares de movimentos sociais, essencialmente governistas, e que operam dentro da lógica política do atual governo. A novidade de junho foram essas manifestações que, ao levantarem o problema de direitos universais e de serviços públicos universais, perfuram a lógica política do atual governo. As reivindicações foram justamente por saúde e educação, que são coisas que foram relegadas ao longo desses dez anos de suposto progresso e avanço do Brasil. É nesse sentido que as manifestações criam um novo cenário político, onde mesmo que tenham adormecido, deixaram mensagens que continuam a repercutir e que vão repercutir nas eleições de 2014.

É possível que as manifestações renasçam?

É difícil dizer isso, porque as manifestações de junho foram interrompidas por ações de vandalismo que repugnam as pessoas. Os grupos de vândalos que hoje atuam nas ruas basicamente estão mandando a mensagem de que rua é lugar de vândalo. Eles contaminam todas as manifestações com a depredação, a violência. A conclusão que muitas pessoas começam a tirar – erroneamente, na minha opinião, mas passível de ser compreendida – é que se manifestar é se misturar com vândalos. Então acho difícil dar uma resposta clara neste momento. É preciso saber se as pessoas comuns, em suas reivindicações democráticas, vão conseguir retomar o lugar que é delas, que é o lugar de se manifestar por direitos, ou se esse lugar vai ser sequestrado de uma maneira mais definitiva por grupos de vândalos e por movimentos sociais organizados que muitas vezes flertam com os vândalos.

Muitas propostas de reforma política estão surgindo para tentar superar a crise de representação. Como o senhor as vê?

Só existe uma proposta de reforma política com começo, meio e fim, que é a do governo. O resto são ideias soltas. A do governo vai na direção oposta à mensagem das ruas. A mensagem das ruas é que a elite política se cristalizou como uma casta hostil ao interesse público, e a proposta de reforma política do governo é cristalizar ainda mais essa elite. Fazem isso dando todo poder aos partidos, com propostas de listas partidárias fechadas que não permitem ao povo votar em candidatos nominais, apenas em partidos. E há também a proposta de financiamento público exclusivo de campanha, o que significa verter dinheiro do povo para toda a elite política que o povo odeia. Querem me obrigar a financiar candidatos em que eu nunca votaria. Essas propostas distorcem ainda mais o sentido da representação política.

Em dez anos de PT no governo, houve uma confusão das relações de direita e esquerda do Brasil?

Eu acho, e já escrevi sobre isso, que o governo é conservador porque se nega a fazer uma série de reformas que tornariam a representação mais efetiva e mais transparente. É conservador porque estimula o capitalismo de Estado. É conservador, e mais do que isso, é restauracionista, porque quer restaurar o corporativismo varguista. Isso confunde um pouco as pessoas. Elas tendem a achar que o governo é de esquerda, mas ele tem muitas características de direita. A única característica de esquerda que ele conserva é uma atração incontrolável por ditaduras de esquerda. Mas apenas isso não faz alguém ser de esquerda. Eu sou de esquerda; o governo é de direita.

A “peemedebização” do governo contribui para essa percepção?

A “peemedebização” é o sintoma mais claro da formação de uma ampla coalizão da elite política em torno do PT, que é o escudo protetor dessa elite. É um fenômeno interessantíssimo do ponto de vista histórico e sociológico, porque o PT é um partido que surge contra a ordem, mas se transforma em um partido da ordem quando chega ao poder. E hoje se converte em um partido da velha ordem.

Fonte: Gazeta do Povo, 10/112013

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A destruição da Venezuela pelo socialismo bolivariano com ajuda do dinheiro dos brasileiros

Em comunicado à nação, Nicolás Maduro incita população a saquear supermercado
Enquanto Nicolás Maduro destrói a Venezuela com seu socialismo bolivariano (e, seja qual for o sobrenome que se dê ao socialismo, ele sempre é uma máquina de destruição), pede dinheiro aos cumpañeros petistas do governo Dilma para diminuir a crise de abastecimento de produtos básicos nos mercados venezuelanos.

Claro, não é a primeira vez que o chavismo conta com a inestimável ajuda petista. Outras ditaduras mundo afora, em particular as de Cuba e Angola, têm contado com a generosidade petista. E os supostos empréstimos que o governo dá a essas ditaduras são inclusive considerados secretos. Em outras palavras, nós pagamos a conta e nem sequer podemos saber no que exatamente o dinheiro foi empregado.

Abaixo editorial do Estadão, de 07/11, informando os detalhes de mais uma ajuda dos petistas ao amigo Maduro e quatro vídeos sobre o assunto. No primeiro, o deputado estadual do PSDB de Minas Gerais, João Leite, fala sobre a transferência de bilhões de reais dos cofres públicos, pelo governo Lula-Dilma, para Cuba e Angola. No segundo, o "presidente" da Venezuela, Nicolás Maduro induz a população a saquear uma rede de supermercados local e se registram imagens do saqueio (gerentes das cinco lojas da rede foram presos, e a empresa forçada a fazer uma espécie de “liquidação bolivariana”), uma amostra contundente da situação de degeneração pela qual passa o país sul-americano. Nos dois outros, saqueios pura e simplesmente.

Por essas e mais outras de igual quilate é que se percebe a urgência da retirada do PT do poder. Não se trata só o destino do Brasil que está em jogo. Trata-se do destino de outros povos também.

O socorro do Brasil a Maduro
O Estado de S.Paulo

O governo petista resolveu socorrer o regime chavista da Venezuela, que faz água por todos os lados. E, claro, essa generosidade correrá por conta do contribuinte brasileiro.

Sob ameaça de sofrer um duro revés nas eleições municipais de 8 de dezembro, vistas como uma espécie de referendo de seu desastroso governo, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pediu ajuda ao Brasil para contornar a crise de desabastecimento no país, o mais sério dos inúmeros problemas de sua administração.

A intenção de Maduro é garantir o fornecimento de alimentos e outros produtos do varejo até a eleição. Como tudo o que tem pautado o tal "socialismo do século 21", esta será mais uma medida paliativa e desesperada, lançada apenas para mitigar por um breve período os efeitos permanentemente deletérios da insanidade econômica chavista.

O modelo estatista feroz, com preços controlados e hostilidade à produção privada, esvaziou as prateleiras dos supermercados venezuelanos. As imensas filas para comprar os mais diversos produtos de primeira necessidade - o papel higiênico é o símbolo desse calvário - tornaram-se a marca do governo Maduro.

Em vez de admitir os erros de sua administração e procurar resolvê-los de modo racional, o presidente venezuelano optou pelo caminho típico do chavismo: atribuiu a escassez à "sabotagem" de capitalistas e disse que agora trava uma "guerra econômica" contra esses "agentes do imperialismo". A "guerra" inclui impedir que a imprensa noticie o desabastecimento, porque, segundo sua versão tresloucada, é isso que leva pânico à população e gera corrida aos supermercados.

É em nome desse combate imaginário que Maduro pediu ao Congresso "poderes especiais" para governar - poderes cujo escopo, obviamente, deverá ir muito além da emergência econômica.

Para o governo petista, porém, Maduro e sua equipe sabem o que estão fazendo. "Eles têm consciência dos problemas em curto, médio e longo prazos no país e estão muito preocupados em enfrentar, de forma clara e estratégica, as dificuldades históricas da economia venezuelana", disse ao jornal Valor o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia.

Ao considerar que a crise da Venezuela faz parte de "dificuldades históricas", Garcia quer fazer crer que a situação atual resulta de problemas antigos, estruturais, e não das evidentes lambanças chavistas. É provável que Garcia considere também que a importação emergencial de alimentos seja parte, conforme suas palavras, de um planejamento "claro e estratégico" para enfrentar a crise.

Esse "planejamento" conta com a bondade brasileira. Como faltam dólares na Venezuela para realizar a importação, graças ao controle do câmbio, o Brasil pretende usar o Programa de Financiamento às Exportações (Proex), do Banco do Brasil, num acordo com o Banco de Venezuela. Segundo essa solução, ainda a ser detalhada, o Banco de Venezuela receberia o dinheiro do financiamento e quitaria a importação diretamente aos fornecedores brasileiros, sem ter de passar pela Cadivi, o órgão venezuelano que regula o câmbio. O Banco de Venezuela pagaria o financiamento ao Banco do Brasil em suaves prestações.

Com tal garantia, a expectativa do governo é de que os empresários brasileiros superem a crescente desconfiança em relação à Venezuela - convidadas a incrementar as exportações àquele país nos últimos anos, seguindo a orientação da agenda Sul-Sul do governo petista, muitas empresas nacionais enfrentam agora grandes atrasos no pagamento. Como resultado, as exportações para a Venezuela no primeiro semestre do ano foram quase 16% inferiores às do mesmo período de 2012.

Em outras palavras, se as negociações prosperarem, o risco de calote dos importadores venezuelanos seria assumido pelo Banco do Brasil - em nome do compromisso ideológico do governo petista com o chavismo, com cujas agruras o contribuinte brasileiro não tem rigorosamente nada a ver.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Racialistas avançam seu projeto de dividir os brasileiros na base do preto ou branco

Racialistas querem separar essas mãos pra sempre
No mundo maniqueísta do esquerdireitismo, os fatos não são analisados em si mesmos mas sim pela moldura onde foram enquadrados. Parece aquela história dos pacotes de TV a cabo, onde a gente adquire à revelia um monte de canais pelos quais não tem interesse para poder ter acesso aos que interessam.

Nos pacotes do esquerdireitismo, se você é favorável, por exemplo, ao casamento de pessoas de mesmo sexo tem que ser compulsoriamente a favor de cotas raciais, embora sejam questões diametralmente opostas. No caso da primeira, o pleito do casamento LGBT vai ao encontro do artigo quinto de nossa constituição onde se lê que somos todos iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza. Trata-se apenas de um direito que se estende a um segmento da população sem alterar em nada a vida dos que já o usufruíam. A oposição ao casamento entre pessoas de mesmo sexo é de fundo religioso e antidemocrática. 

No caso da segunda, as cotas raciais vão contra esse mesmo artigo, passando a distinguir pessoas pelo critério anticientífico e socialmente danoso de "raça" e a tratar seres humanos de forma diferenciada com base em cor de pele e "autodeclarações raciais". Neste caso, a oposição às cotas é democrática e, ao contrário do que pregam, antirracista, independente da posição do STF sobre o assunto (opinião, aliás, profundamente equivocada).

Neste mundo esquerdireitista, contudo, quem analisa os fatos pelo que são e não partir das molduras onde foram enquadrados sofre um bocado. O sociólogo Demétrio Magnoli, considerado de direita pela esquerdosa e de esquerda pela direitosa, tem sido uma das vítimas preferenciais da ala vermelha do esquerdireitismo. Como sempre se opôs - e com boa fundamentação - às nefastas cotas raciais é rotulado de reacionário racista. Em evento na Bahia, no dia 26 de outubro último, inclusive teve uma de suas palestras interrompida por estudantes racialistas que o acusaram de racista por não acreditar em "raças".

Num aparte pessoal, também perdi a conta das vezes que fui chamada de direitista reacionária, por integrantes dos movimentos esquerdiotizados da atualidade (esta semana já me xingaram mais uma vez), e de esquerdista, comunista (é mole?), feminazi, gayzista e tantas outras insânias que a conservalha evacua pela boca latrinária. Tá muito difícil a coisa!

Retornando, porém, ao tema dessa postagem, o tempo costuma dar a César o que é de César. As análises de Magnoli, sobre as nefastas cotas racistas, estão sendo confirmadas pelo andar da carruagem. Das cotas racistas para ingresso em faculdades passaram-se às cotas para pós-graduação (mas pra quê, se o aluno já está na universidade?). Agora, na terça (dia 05/11),  Dilma, fazendo média com os racialistas, validou projeto de cotas para o serviço público. Dias antes, em 30/10, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece cotas raciais na representação parlamentar do povo (sic).  Como bem aponta Magnoli (ver texto na íntegra abaixo), 
...as políticas de raça não são motivadas por um desejo de corrigir distorções derivadas da renda. O racialismo exibe-se, agora, como ele realmente é: um programa de divisão dos brasileiros segundo o critério envenenado da raça.
O Brasil e a ‘nação diaspórica’

Demétrio Magnoli
A gloriosa Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou uma viola-se diretamente o princípio fundamental da liberdade de voto. Por isso, a PEC de autoria dos petistas João Paulo Cunha (SP) e Luiz Alberto (BA) provavelmente dormirá o longo sono dos disparates nos escaninhos da Câmara. Mas ela cumpre uma função útil: evidencia o verdadeiro programa do racialismo, rasgando a fantasia com que se adorna no debate público.
Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece cotas raciais na representação parlamentar do povo. Ignorando tanto a Constituição quanto a Justiça, a CCJ aprova qualquer coisa que emane de um grupo de interesse organizado, o que é um sintoma clamoroso da desmoralização do Congresso. Nesse caso,

O argumento ilusionista para a introdução de cotas raciais no ingresso às universidades residia na suposta desvantagem escolar prévia dos “negros” — algo que, de fato, é uma desvantagem prévia dos pobres de todas as cores de pele. A fantasia da compensação social começou a esgarçar-se com a extensão das cotas raciais para cursos de pós-graduação, cujas vagas são disputadas por detentores de diplomas universitários. A PEC aprovada na CCJ comprova que as políticas de raça não são motivadas por um desejo de corrigir distorções derivadas da renda. O racialismo exibe-se, agora, como ele realmente é: um programa de divisão dos brasileiros segundo o critério envenenado da raça.

De acordo com a PEC, na Câmara dos Deputados e nas Assembleias Legislativas estaduais, será reservada uma parcela de cadeiras para parlamentares “negros” equivalente a dois terços do percentual de pessoas que se declaram pretas ou pardas no mais recente censo demográfico. As bancadas “negras” não serão inferiores a um quinto ou superiores à metade do total de cadeiras. Os deputados proponentes operam como despachantes de ONGs racialistas e expressam, na PEC, a convicção política que as anima: o Brasil não é uma nação, mas um espaço geopolítico no qual, sob a hegemonia dos “brancos”, pulsa uma “nação africana” diaspórica. A presença parlamentar de bancadas “negras” representaria o reconhecimento tácito tanto da inexistência de uma nação brasileira quanto da existência dessa nação na diáspora.

Os eleitores, reza a PEC, darão dois votos: o primeiro, para um candidato de uma lista geral; o segundo, para um candidato de uma lista de “negros”. A proposta desvia-se, nesse ponto, de uma férrea lógica racialista. Segundo tal lógica, os eleitores deveriam ser, eles também, bipartidos pela fronteira da raça: os “negros” votariam apenas na lista de candidatos “negros” e os demais, apenas na lista geral. A hipótese coerente não violaria o princípio da liberdade de voto, pois estaria ancorada num contrato constitucional de reconhecimento da nação diaspórica. Como inexiste esse contrato, os racialistas optaram por um atalho esdrúxulo, que escarnece da liberdade de voto com a finalidade de, disfarçadamente, inscrever a nação diaspórica no ordenamento político e jurídico do país.

Nações não são montanhas, rios ou vales: não existem como componentes do mundo natural. Na expressão certeira de Benedict Anderson, nações são “comunidades imaginadas”: elas podem ser fabricadas na esfera da política, por meio das ferramentas do nacionalismo. A PEC não caiu do céu. A “nação africana” na diáspora surgiu no nacionalismo negro do início do século XX com o americano W. E. B. Du Bois e o jamaicano Marcus Garvey. No Brasil, aportou cerca de três décadas atrás, pela nau do Movimento Negro Unificado, entre cujos fundadores estava Luiz Alberto. No início, a versão brasileira do nacionalismo negro tingia-se com as cores do anticapitalismo. Depois, a partir da preparação da Conferência de Durban, da ONU, em 2001, adaptou-se à ordem vigente, aninhando-se no colo bilionário da Fundação Ford. “Afro-americanos”, nos EUA, e “afrodescendentes”, no Brasil, são produtos identitários paralelos dessa vertente narrativa.

O acento americano do discurso racialista brasileiro é tão óbvio quanto problemático. Nos EUA, o projeto político de uma identidade negra separada tem alicerces sólidos, fincados nas leis de segregação que, depois da Guerra de Secessão, traçaram uma linha oficial entre “brancos” e “negros”, suprimindo no nascedouro a possibilidade de construção de identidades intermediárias. No Brasil, em contraste, esse projeto choca-se com a noção de mestiçagem, que funciona como poderoso obstáculo no caminho da fabricação política de raças. A solução dos porta-bandeiras do nacionalismo negro é impor, de cima para baixo, a divisão dos brasileiros em “brancos” e “negros”. As leis de cotas raciais servem para isso, exclusivamente.

As diferenças históricas entre EUA e Brasil têm implicação direta na gramática do discurso político. Lá, o nacionalismo negro é uma proposição clara, que provoca um debate público informado — e, quando Barack Obama se define como mestiço, emerge uma resposta desconcertante no cenário conhecido da polaridade racial. Aqui, os arautos do nacionalismo negro operam por meio de subterfúgios, escondendo-se atrás do pretexto fácil da desigualdade social — e encontram políticos oportunistas, juízes populistas e intelectuais preguiçosos o suficiente para conceder-lhes o privilégio da prestidigitação.

“Tirem a máscara!” — eis a exigência que deve ser dirigida aos nossos racialistas, na hora em que apresentam a PEC do Parlamento Racial. Saiam à luz do dia e conclamem o Brasil a escrever uma nova Constituição, redefinindo-se como um Estado binacional. Digam aos brasileiros que vocês não querem direitos iguais e oportunidades para todos numa república democrática, mas almejam apenas a condição de líderes políticos de um movimento racial. Vocês não têm vergonha de ocultar seu programa retrógrado à sombra da persistente ruína de nossas escolas públicas?

Fonte: O Globo, 07/11/2013

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Executivas 'neofeministas' dos EUA pregam ascensão agressiva

Sheryl Sandberg, durante a apresentação de seu livro (Getty Images)
Sheryl Sandberg, durante a apresentação de seu livro
Quando a diretora operacional do Facebook, Sheryl Sandberg, exortou as mulheres ''a fazer acontecer'' no mercado de trabalho para retomar uma ''revolução'' feminista que, segundo ela, ''empacou'', sabia que estava levantando uma discussão espinhosa.
Intuição semelhante deve ter tido a CEO do Yahoo!, Marissa Mayer, quando proibiu seus empregados de trabalharem de casa, poucos meses depois de se autoimpor uma licença-maternidade de apenas ''algumas semanas'', ao longo da qual ela continuou exercendo sua função à distância.

Coincidência ou apenas a ponta do mesmo iceberg, as duas executivas entraram no centro do debate sobre o avanço da mulher no mercado de trabalho e a busca do santo graal do emprego moderno, o equilíbrio entre o dever e o lazer.

A problemática foi colocada por Sandberg em um livro publicado nesta semana nos EUA, que chega ao Brasil no início de abril – Faça Acontecer: Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar (Editora Companhia das Letras).

Há três décadas, as mulheres são metade dos graduados nas universidades, escreve. Mas apesar do avanço, elas ainda ocupam apenas 4% dos cargos de diretores executivos das 500 empresas de maior faturamento nos EUA, segundo a lista da revista Forbes.

O cenário é semelhante na política: apenas 17 países são governados por mulheres, e elas ocupam apenas 20% das cadeiras de parlamentares.

Sandberg não deixa de reconhecer as ''barreiras externas'' – o preconceito, a discriminação, o assédio sexual – que travam o avanço das mulheres no mercado de trabalho.

A polêmica está no que ela considera ''barreiras internas'': uma suposta ''internalização das mensagens negativas'' recebidas de um mundo machista, uma ''redução das expectativas'' de carreira em prol da dos maridos, enfim, uma espécie de derrotismo feminino diante dos desafios do mercado.
'Meu argumento é que livrar-se destas barreiras internas é crucial para ganhar poder'', escreve Sandberg. ''Outras pessoas argumentam que as mulheres só conseguem chegar ao topo quando as barreiras institucionais são removidas. É a situação típica do ovo e da galinha.
'Estou incentivando as mulheres a tratar da galinha, mas apoio totalmente aquelas que estão focadas no ovo'', escreve.
Feminismo ou mais pressão?

A executiva da rede social quis que seu livro chegasse às suas leitoras como um novo manifesto feminista. Junto com a obra, Sandberg está impulsionando a criação dos chamados ''círculos para fazer acontecer'', espécies de grupos de discussão para discutir como renovar o avanço da mulher no mercado de trabalho.

Mas, mal chegou às livrarias, a obra já foi acusada de colocar ainda mais pressão sobre as mulheres, ao criar expectativas irrealistas sobre o que cada uma pode fazer, individualmente, para avançar na profissão diante da dupla jornada em casa e principalmente da maternidade, um ''obstáculo'' que os colegas masculinos de profissão não precisam vencer.

O livro descreve o problema, mas não aponta as soluções, e assim as respostas vão nascendo por tentativa e erro no próprio mercado de trabalho.

A CEO do Yahoo!, Marissa Mayer, que tirou apenas
algumas semanas de licença maternidade
Um exemplo veio em meados do ano passado, quando a CEO do site Yahoo!, Marissa Mayer, anunciou que tiraria apenas algumas semanas de licença-maternidade, que nesse período continuaria trabalhando de casa e que voltaria o mais rápido possível para o escritório.

A decisão deixara os especialistas debatendo se se tratava de progresso do feminismo ou um péssimo exemplo emanado de uma jovem mãe viciada em trabalho.

No mês passado, Mayer voltou a criar polêmica ao proibir os funcionários de sua companhia de trabalhar de casa – uma prática comum na indústria de tecnologia, que muitos consideram um avanço, principalmente naquela busca do equilíbrio entre trabalho e lazer na qual as mais prejudicadas são frequentemente as mulheres.

A CEO alegou que, por razões de produtividade e integração, todos precisariam estar ''fisicamente juntos'' no ambiente de trabalho.

Representatividade

Mayer e Sandberg não são as mulheres médias afetadas pelas suas decisões ou por suas visões do lugar da mulher no mercado de trabalho.

Mayer, em particular, está sob fogo cruzado pelo fato de ter mandado construir, pagando de seu próprio bolso, um berçário ao lado de seu escritório para poder passar mais tempo com seu filho.

A bilionária Sandberg, que pode cercar-se de quantas babás e enfermeiras julgar necessárias para cumprir por ela a sua função, também não foi poupada.

À sua maneira, as duas poderosas executivas puseram mais lenha em uma fogueira onde já queimam as opiniões da especialista em política da Universidade de Princeton, e mãe de dois adolescentes, Anne-Marie Slaughter.

Em meados do ano passado, Slaughter, recém-saída da direção de Planejamento de Políticas do Departamento de Estado no governo Obama, escreveu um artigo argumentando que ''as mulheres ainda não podem ter tudo''.

Na sua experiência, argumentou, os interesses de uma mãe de dois adolescentes e de uma alta autoridade do governo americano simplesmente não são compatíveis.

Especialistas estão chamando este debate polarizado de um ''cabo-de-guerra'', cujo resultado, se é que haverá um resultado claro, ainda está longe de ser indicado.

No ínterim, Sandberg, do Facebook, saiu em defesa de Mayer, afirmando que a executiva do Yahoo! não estaria sendo tão criticada por sua decisão – que zela pela saúde financeira da empresa que ela preside – se ela fosse homem.

Uma capa da revista Time sobre Sandberg e seu livro estampa os dizeres: ''Não a deteste por ela ser bem-sucedida'', titula o semanário.

Como a executiva, os editores da revista sabiam onde estavam pisando.

Fonte: BBC Brasil, Pablo Uchoa, 15/03/2013

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Um social-democrata e um liberal concordam sobre a degeneração democrática provocada pela violência nas manifestações de rua

Black bostas em ação!
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (social-democrata) e o filósofo Denis Lerrer Rosenfield (liberal) escreveram, respectivamente nos dias 3 e 4 deste mês que se inicia, sobre o papel degenerador da ação dos black blocs e congêneres sobre a democracia brasileira. FHC aborda também a conjuntura latino-americana tão adversa, no momento, às práticas democráticas, com as ações autoritárias tomadas pelos governos Kirchner (Argentina) e Venezuela (Maduro) contra a liberdade de imprensa e a oposição de seus países. 

Sobre a situação brasileira, no tangente à questão da violência presente nas manifestações, ambos seguem na mesma direção. Diz FHC:    
No Brasil também há sinais preocupantes. Às manifestações espontâneas de junho se têm seguido demonstrações de violência, desconectadas dos anseios populares, que paralisam a vida de milhões de pessoas nas grandes cidades. A essas se somam às vezes atos violentos da própria polícia. Com isso se deixa de ressaltar que nem toda ação coercitiva da polícia ultrapassa as regras da democracia. Ao contrário, se nas democracias não houver autoridade legítima que coíba os abusos, estes minam a crença do povo na eficácia do regime e preparam o terreno para aventuras demagógicas de tipo autoritário. 
Temos assistido ao encolhimento do Estado diante da fúria de vândalos, aos quais aderem agora facções do crime organizado. Por isso é de lamentar que o secretário-geral da Presidência se lamurie pedindo mais "diálogo" com os black blocs, como se eles ecoassem as reivindicações populares. Não: eles expressam explosões de violência anárquica desconectada de valores democráticos, uma espécie de magma de direita, ao estilo dos movimentos que existiram no passado no Japão e na Alemanha pós-nazista. 
Analisa Rosenfield:
Advogar um diálogo com eles, como se fossem a expressão de um descontentamento "social", significa tirar a questão de seu ponto central. A violência é avessa a qualquer diálogo, quanto mais empreendido por grupos que, se chegam a declarar alguma proposta, é com o intuito de que ela seja inexequível - por exemplo, a extinção do "lucro", da sociedade de "mercado", e assim por diante.  (... ) 
Logo, o efeito objetivo dos agentes da violência, os black blocs ou outros nomes que se lhes queira dar, foi o esvaziamento das manifestações autônomas e, mais do que isso, de suas bandeiras. Expulsaram da rua as bandeiras contra a corrupção, por um melhor serviço público e menos impostos. Eis a verdadeira consequência de suas ações. Ou melhor, eis o seu verdadeiro objetivo. A quem interessa isso? 
Curiosamente, os que se dizem "anarquistas", em tese os defensores da autonomia e da liberdade, são os que buscam diretamente tornar inviável toda manifestação livre e autônoma. Nada têm eles de anarquistas no sentido estrito da palavra, são meros representantes de uma esquerda que usa irrestritamente a violência segundo suas conveniências políticas.
Segue a íntegra dos dois textos com os quais concordo inteiramente. Faz tempo que escrevo sobre a necessidade de cercear as ações deletérias desses black bostas e congêneres. De anarquistas realmente, eles não têm nada. Como também já disse, assemelham-se mais aos camisas negras do fascismo do que com qualquer outra coisa. Deixo também  links para as postagens já publicadas sobre este tema neste blog ao fim dos artigos citados.

Sem Complacência

Fernando Henrique Cardoso*
As notícias da semana que terminou não foram auspiciosas, nem no plano internacional nem no local. Uma decisão da Corte Suprema da Argentina, sob forte pressão do governo, sancionou uma lei que regula a concessão de meios de comunicação. Em tese, nada de extraordinário haveria em fazê-lo. No caso, entretanto, trata-se de medida tomada especificamente contra o grupo que controla o jornal El Clarín, ferrenho adversário do kirchnerismo. Cerceou um grupo de comunicação opositor ao governo sob pretexto de assegurar pluralidade nas normas de concessão. Há, contudo, tratamento privilegiado para o Estado e para as empresas amigas do governo.

Da Venezuela vem-nos uma patuscada incrível: as cidades do país apareceram cobertas de cartazes contra a "trilogia do mal", ou seja, os principais líderes opositores, aos quais se debitam as falências do governo! Seria por causa deles que há desabastecimento, falta de energia e crise de divisas, além da inflação. Tudo para incitar ódio popular aos adversários políticos do governo, apresentando-os como inimigos do povo.

O lamentável é que os governos democráticos da região assistem a tudo isso como se fosse normal e como se as eleições majoritárias, ainda que com acusações de fraudes, fossem suficientes para dar o passaporte democrático a regimes que são coveiros das liberdades.

No Brasil também há sinais preocupantes. Às manifestações espontâneas de junho se têm seguido demonstrações de violência, desconectadas dos anseios populares, que paralisam a vida de milhões de pessoas nas grandes cidades. A essas se somam às vezes atos violentos da própria polícia. Com isso se deixa de ressaltar que nem toda ação coercitiva da polícia ultrapassa as regras da democracia. Ao contrário, se nas democracias não houver autoridade legítima que coíba os abusos, estes minam a crença do povo na eficácia do regime e preparam o terreno para aventuras demagógicas de tipo autoritário.

Temos assistido ao encolhimento do Estado diante da fúria de vândalos, aos quais aderem agora facções do crime organizado. Por isso é de lamentar que o secretário-geral da Presidência se lamurie pedindo mais "diálogo" com os black blocs, como se eles ecoassem as reivindicações populares. Não: eles expressam explosões de violência anárquica desconectada de valores democráticos, uma espécie de magma de direita, ao estilo dos movimentos que existiram no passado no Japão e na Alemanha pós-nazista.

Esses atos vandálicos dão vazão de modo irracional ao mal-estar que se encontra disseminado, principalmente nas grandes cidades, como produto da insensatez da ocupação do espaço urbano com pouca ou nenhuma infraestrutura e baixa qualidade de vida para uma aglomeração de pessoas em rápido crescimento. O acesso caótico aos transportes, o abastecimento de água deficiente e a rede de serviços (educação, saúde e segurança) insuficiente não atendem às crescentes demandas da população. Sem mencionar que a corrupção escancarada irrita o povo. Não é de estranhar que, conectados aos meios de comunicação, que tudo informam, os cidadãos queiram dispor de serviços de países avançados ou de padrão Fifa, como dizem. Sendo assim, mesmo que a situação de emprego e salário não seja ruim, a qualidade de vida é insatisfatória. Quando, ainda por cima, a propaganda do governo apresenta um mundo de conto da carochinha e o cotidiano é outro, muito mais pesado, explicam-se as manifestações, mas não se justificam os vandalismos.

Menos ainda quando o crime organizado se aproveita desse clima para esparramar terror e coagir as autoridades a não fazer o que deve ser feito. Estas precisam assumir suas responsabilidades e atuar construtivamente. É necessário dialogar com as manifestações espontâneas, conectadas pela internet, e dar respostas às questões de fundo que dão motivos aos protestos. A percepção de onde o calo aperta pode sair do diálogo, mas as soluções dependem da seriedade, da competência técnica, do apoio político e da visão dos agentes públicos.

Os governos petistas puseram em marcha uma estratégia de alto rendimento econômico e político imediato, mas com pernas curtas e efeitos colaterais negativos em prazo mais longo. O futuro chegou, na esteira da falta de investimento em infraestrutura, do estímulo à compra de carros, do incentivo ao consumo de gasolina, em detrimento do etanol, e do gasto das famílias via crédito fácil, empurrado pela Caixa Econômica Federal. Os reflexos aparecem nas grandes cidades pelo País afora: congestionamentos, transporte público deficiente, aumento do nível de poluição atmosférica, etc.

De repente caiu a ficha do governo: tudo pela infraestrutura, na base da improvisação e da irresponsabilidade fiscal. Primeiro o governo federal subtraiu receitas de Estados e municípios para cobrir de incentivos a produção e compra de carros. Depois, em vista do "caos urbano" e da proximidade das eleições, afagou governadores e prefeitos permitindo-lhes a contratação de novos empréstimos, sobretudo para gastos em infraestrutura. A mão que os afaga é a mesma que apedreja a Lei de Responsabilidade Fiscal, ferida gravemente pela destruição de uma de suas cláusulas pétreas: a vedação ao refinanciamento de dívidas dentro do setor público. Mais uma medida, esta especialmente funesta, que alegra o presente e compromete o futuro.

Não haverá solução isolada e pontual para os problemas que o País atravessa e as grandes cidades sentem mais do que quaisquer outras. Os problemas estão interconectados, assim como as manifestações e demandas. Não basta melhorar a infraestrutura, se o crime organizado continua a campear, nem mais hospitais e escolas, se a qualidade da saúde e da educação não melhora. As soluções terão de ser iluminadas por uma visão nova do que queremos para o Brasil. Precisamos propor um futuro não apenas materialmente mais rico, mas mais decente e de melhor qualidade humana. Quem sabe assim possamos devolver aos jovens e a todos nós causas dignas de ser aceitas, que sirvam como antídoto aos impulsos vândalos e à complacência com eles.

Fonte: ESP, 03/11/2013 * SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA


O uso político da violência


Denis Lerrer Rosenfield*

A discussão em torno da ação dos black blocs tem sido frequentemente enviesada, se não deturpada, por não estar focada no uso que tem sido dado à violência desse grupo nas consequências dela derivadas. Não se trata de manifestação "espontânea" nem da ação de bandos desorganizados, mas de um tipo de intervenção que se define por um propósito claramente político.

Pesquisas sobre o que dizem os que assim agem terminam por arranhar superficialmente o problema, porque seus agentes não são meros indivíduos, mas membros de uma organização com método em suas ações. Suas falas, individualmente, nesse sentido, são necessariamente limitadas, se não encobridoras, na medida em que suas ações em muito transcendem manifestações individuais.

Advogar um diálogo com eles, como se fossem a expressão de um descontentamento "social", significa tirar a questão de seu ponto central. A violência é avessa a qualquer diálogo, quanto mais empreendido por grupos que, se chegam a declarar alguma proposta, é com o intuito de que ela seja inexequível - por exemplo, a extinção do "lucro", da sociedade de "mercado", e assim por diante.

Note-se que tais grupos se caracterizam por ações metódicas e organizadas. São como células que respondem a um comando, dotadas de extrema mobilidade e que conseguem muitas vezes distrair a atenção policial. Atrair a atenção sobre um ato determinado de vandalismo e depredação, com o objetivo de empreender outro muito maior em outro local.

Agem quando de manifestações pacíficas, fazendo-as acabar em violência, visualizada com grande estardalhaço pela mídia. A finalidade é ocupar a cena pública. Quanto maior for o impacto televisivo, maior será seu "ganho", pois tais imagens se propagarão com força por todo o País e mesmo para além dele. Para quem não gosta do crescimento e da competitividade internacional do País, o "ganho" terá ainda um "reconhecimento" extra. Fora de nossas fronteiras, tais imagens adquirem o estatuto de manifestação "popular", como se o Brasil estivesse à beira de um problema institucional sério.

As jornadas de junho foram uma impressionante manifestação de cidadania, com mais de 1 milhão de pessoas nas ruas clamando contra a corrupção e a má qualidade dos serviços públicos, com foco, num primeiro momento, na mobilidade urbana. As pessoas, com toda a razão, estão cansadas de pagar altos impostos, tendo como "retribuição" andar de pé, apertadas, nos ônibus em péssimas condições. O transporte torna-se um calvário. Filas em postos de saúde e hospitais, com atendimento sofrível, mais o baixo nível da educação pública configuram um quadro lamentável: a feia pintura de nosso país.

O exercício da autonomia expresso em tais manifestações, não obedecendo a nenhuma orientação partidária, mostrou um outro País possível, alerta para os desmandos vigentes, não aceitando nenhum tipo de instrumentalização. Naquele momento era como se o País, surpreso, estivesse vendo desfilar uma banda da liberdade e da indignação. Contudo essa irrupção do novo assustou.

Assustou os que até então dominavam as ruas ou delas procuravam ter o monopólio, como os diferentes partidos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais organizados, que tiveram, então, a intenção de se apropriar desse sopro de autonomia. A heteronomia entrou na pauta. O resultado foram "greves" e "manifestações" que terminaram em completo fiasco, expondo a dissociação entre a tentativa de manipulação e a legítima indignação das ruas.

Nesse contexto, a ação dos ditos "vândalos" passou a ter maior protagonismo, atuando em qualquer tipo de manifestação, relegando os demais a posição secundária. Na verdade, houve um processo de estranhamento: os manifestantes autônomos e indignados não mais se reconheceram naqueles mascarados. A violência exposta não era um espelho seu.

O resultado foi imediato: o refluxo das manifestações autônomas e legítimas. A expectativa nascida quando das jornadas de junho foi progressivamente minguando. Por enquanto, pode-se dizer que desapareceu, embora possa ressurgir em outro contexto. A violência enxotou os indignados da rua.

Logo, o efeito objetivo dos agentes da violência, os black blocs ou outros nomes que se lhes queira dar, foi o esvaziamento das manifestações autônomas e, mais do que isso, de suas bandeiras. Expulsaram da rua as bandeiras contra a corrupção, por um melhor serviço público e menos impostos. Eis a verdadeira consequência de suas ações. Ou melhor, eis o seu verdadeiro objetivo. A quem interessa isso?

Curiosamente, os que se dizem "anarquistas", em tese os defensores da autonomia e da liberdade, são os que buscam diretamente tornar inviável toda manifestação livre e autônoma. Nada têm eles de anarquistas no sentido estrito da palavra, são meros representantes de uma esquerda que usa irrestritamente a violência segundo suas conveniências políticas.

Observe-se que muitas agremiações que participaram das jornadas de junho, como o Movimento Passe Livre, e outras posteriores, de certos sindicatos de professores, nutrem simpatia por esses "vândalos", como se sua causa fosse a mesma, apesar de seus meios divergirem. Comportam-se como "companheiros". Companheiros de quê, precisamente? Da desmobilização popular? Do abandono das bandeiras contra a corrupção, o desvio de recursos do erário e a péssima qualidade dos serviços públicos? Da desresponsabilização de seus responsáveis?

Expressão disso é o fato, politicamente inquietante, de que bradam contra a "criminalização dos movimentos sociais". Traduzindo: a violência deveria ser permitida e defendida, pois seus agentes sustentam uma "causa social". Seu objetivo consiste em deixar a impunidade reinar e as instituições democráticas se enfraquecerem.

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