domingo, 17 de agosto de 2008

Agosto: Mês da Palhaçada Lésbica

Todo ano, desde 2003, quando foi lançado do Dia do Orgulho Lésbico, em homenagem a primeira manifestação lésbica contra o preconceito ocorrida no Brasil, em 19 de agosto de 1983, em São Paulo, o mês de agosto virou uma palhaçada lésbica.

Explico. É que, em 1996, algumas ativistas lésbicas (na época havia uns 5 grupos no máximo no Brasil) se reuniram no que veio a ser chamado Seminário Nacional de Lésbicas, na cidade do Rio de Janeiro. Uma das propostas desse seminário foi lançar o dia da visibilidade lésbica que calhou de ser 29 de agosto.

Como as outras decisões desse seminário, a proposta de se comemorar o tal dia da visibilidade lésbica não saiu do papel, durante os 6 anos seguintes a seu lançamento, limitando-se a alguma atividade intramuros de um grupo ou outro, algo bem surreal considerando tratar-se de um dia da visibilidade.

De fato, a idéia dos Seminários Nacionais de Lésbicas foi uma boa idéia, naufragada pelo clima de clube de comadres que se estabeleceu nesses eventos, por causa principalmente da presença de algumas lésbicas ligadas ao movimento feminista, movimento onde as lésbicas formaram uma espécie de guetão de mulheres de classe média, autocentrado, autoreferencial e ironicamente enrustido.

Em 2003, quando o SENALE teve sua versão paulistana, no período de realização da Parada do Orgulho, o clima de clube de comadres ficou ainda mais acentuado e a postura mais excludente. Inclusive para tentar estabelecer outras vias mais democráticas para a organização lésbica brasileira e/ou simplesmente para ter um dia para comemorar, a Rede de Informação Um Outro Olhar e a Secretaria de Lésbicas da Associação da Parada GLBT de SP, lançaram o Dia do Orgulho Lésbico publicamente, em junho de 2003, e passaram a celebrá-lo no mesmo ano, em agosto.

Essa data já era uma data referencial desde 1991, quando foi dedicada à memória de Rosely Roth, que encabeçou o protesto no Ferro’s Bar, local da manifestação citada, e reiterada em outubro de 2000, como Dia do Orgulho Lésbico Brasileiro, embora só tenha sido lançada publicamente em 2003. A projeção que o dia ganhou, pela divulgação na imprensa, por ocasião de seu lançamento público, contudo, provocou a sanha competitiva da turma do dia da visibilidade, o tal que nunca havia sido comemorado, cujo apelido era inclusive dia da invisibilidade.

Na guerra suja que se seguiu, uniram-se à turma do dia da visibilidade seus congêneres políticos, como os ativistas glpetistas (lembrando que o lulo-petismo estava chegando ao poder em 2003) e as feministas homossexuais e de outras orientações, agora em maior número. Estas, desde 2002, estavam buscando uma brecha por onde se infiltrar na mal-alinhavada organização lésbica brasileira e se encarrapatar na evidência da questão homossexual e lésbica que as Paradas do Orgulho GLBT conseguiam, cada vez mais, no cenário social e político do país, sem falar no resto do mundo. A disputa dos dias caiu como uma luva para elas. Inflado artificialmente por essas duas forças, que antes nunca haviam dado a mínima para a questão lésbica, o dia da visibilidade ganhou volume, vendendo-se com base na história da carochinha de que teria sido lançado por uma plenária de 100 ativistas lésbicas em 1996 (sic) e sido comemorado desde então (sic).


Paralelamente a isso, essa turma lançou uma ofensiva pesada contra o dia do orgulho lésbico como detalho no texto Dia da Visibilidade: 12 anos de história mal contada , onde se incluíram expedientes como difamação, pressão para que as pessoas não o apoiassem (a ponto de um rapaz que até fez doações a uma das versões da celebração do evento pedir para não ser identificado), a extensão da data da visibilidade para todo o mês de agosto, que virou mês da visibilidade, e o mantra autoritário de que esse dia é o que teria validade porque seria comemorado desde 1996 (sic) em todo o país. Isso sem falar nas mais xiitas que tem a cara-de-pau de dizer que “são do movimento e não reconhecem essa data (em referência ao dia do orgulho)”. Estou há 29 anos na organização lésbica brasileira e acho muita graça dessas que apareceram nos últimos 5 e se acham donas de um movimento cuja história desconhecem.

Na verdade, inconformadas com a manutenção das celebrações do dia do orgulho lésbico, apesar de toda a pressão em contrário, pois elas não conseguem conviver com a diversidade, embora cobrem isso da sociedade, a turma da visibilidade vem se esmerando a cada ano nas formas de tentar invisibilizar a data do orgulho, em ações que até parecem um contrasenso.

Neste ano de 2008, por exemplo, não se sabe se por confusão de alguns ou de algumas ou só por má-fé mesmo, a nova foi citar o histórico do dia 19 de agosto mas apontá-lo como dia da visibilidade ou, numa outra variante, dizer que se está comemorando, no dia 29 de agosto, o dia do orgulho e da visibilidade e assim vai. Como as datas são parecidas e se são dão no mesmo mês, a história, a cada ano, vem descambando, mais e mais, para o circo pura e simplesmente. Claro, haveria alternativas para nos poupar do ridículo crescente, mas não há gente séria para entender isso.

Daí, agosto, que sempre foi o mês do desgosto, também ter virado, o mês da palhaçada lésbica no Brasil.

4 comentários:

rs era só o que faltava mes da palhaçada lésbica....
como estás?
vim te avisar que fiz um outro blog...pra colocar todos meus sentimentod do meu próprio eu...

http://brancoausencia.blogspot.com

espero que goste..pois são apenas meus devaneios...
suave seja !
bjos .a alma
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Sandrinha

Míriam,

Que texto refinado,inteligente,cheio de ironia e ácido.Gostaria de saber sua opinião a cerca das mulheres se aurodefinirem gays.Você não acha que de certa forma contribui para piorar essa questão da invisibilidade?Bjs.

Míriam,
Fechei contigo total!!
Nem liguei mais para o dia 29.
Vc tocou na ferida, na briga de egos, no que não vale a pena. E me explicou tudinho!!

Pegando carona no que a Marcia Paula disse...
Eu me auto-intitulo de gay, às vezes. Não vejo problema algum. É uma designação universal.

bjos,
Mari

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