terça-feira, 8 de julho de 2008

L de Liberdade

Como já é de conhecimento geral, uma das propaladas conquistas da I Conferência Nacional GLBT (no início de junho deste ano em Brasília), convocada pelo governo federal (algo irônico em si mesmo), foi a inversão na ordem da sopa de letrinhas onde se junta o verdadeiro saco de gatos conformado pelos deserdados da sociedade hetero-compulsória, ou seja, transexuais, travestis, bissexuais, lésbicas, gays e etcetera.

Agora todo mundo está convocado a utilizar a sigla LGBT, com as lésbicas puxando o carro. A proposta, tirada da cartola do recém-formado grupo de mulheres feministas (?!) da ABGLT tem rendido falsas polêmicas e irritações.

Na verdade, tudo soa falso em toda essa história seja pelo arrazoado, cheio de clichês em feministês, utilizado por algumas supostas líderes de lésbicas para justificar a mudança, seja pelo simples fato de que o uso da sigla LGBT já é uma convenção de séculos em outras partes do mundo e mesmo no Brasil. Ainda que travestis e alguns gays tenham chiado com essa prioridade lésbica, no geral tudo foi tão fácil quanto cortar manteiga.

Ao que tudo indica, embora o L na frente da sigla tenha sua simbologia (eu mesma o utilizo assim), pelo exposto acima, a mudança teve mesmo mais a ver com a necessidade do tal grupo de mulheres feministas da ABGLT de "mostrar serviço". Como todos sabem a troca não representa nenhuma mudança real na situação das lésbicas dentro do movimento sopa de letrinhas. Aliás, em lugar algum.

As ativistas lésbicas brasileiras parecem bolinhas de pingue-pongue numa eterna partida entre gays e feministas, com cada set sendo ganho por um dos jogadores em questão. De 2003 para cá, ansioso por pegar carona na evidência da questão homossexual em geral e lésbica em particular, para a qual nunca contribuiu em nada, o Movimento Feminista tem movido um dos mais impressionantes processos de (re)cooptação e (re)aparelhamento do ativismo lésbico brasileiro de que se tem notícia (igual só o que o PT fez com os movimentos sociais), chegando ao ponto de, na última caminhada de lésbicas, o aborto já estar sendo inclusive colocado como reivindicação lésbica (sic) na área de saúde, embora todo mundo saiba que lésbicas não fazem aborto.

Na mesma linha, o tal grupo de mulheres da ABGLT tem um projeto feminista para a entidade, cujo fundamento ideológico não sabe ou não quer esclarecer (considerando o feminismo se dividir em numerosas correntes até mesmo antagônicas), que, além de certas obviedades, como maior espaço e poder para as mulheres na associação, prevê apoio as campanhas do movimento feminista e seminários sobre feminismo.

A palavra feminista vem inclusive sendo utilizada de forma descaradamente essencialista como uma espécie de bálsamo contra os males da sociedade patriarcal, uma oposição inteiramente positiva à sociedade machista inteiramente negativa. Só podem concordar com isso as ingênuas, as mal-informadas ou as de má-fé. Uma das lições de vida que se aprende ao conhecer o movimento feminista é de que as diferenças entre homens e mulheres se resumem ao poder que uns têm e outras não têm. Tendo poder, como naquele velho ditado de que a ocasião faz o ladrão, essas diferenças desaparecem, e as mulheres têm se revelado capazes das mesmas cruezas que sempre caracterizaram o exercício do poder masculino.

Então, se é para pôr o L na frente, que seja na frente dos olhos e do coração das lésbicas, tendo na frente as nossas prioridades, a nossa agenda, as nossas vidas. Que seja o L de Liberdade.

3 comentários:

Bravo! Bravíssimo!!

Texto perfeito, como sempre.

Parabéns.

Abraços.

SUPER! SUPER! SUPER!
É tão bom quando a gente encontra um texto que diz exatamente o que a gente gostaria de dizer...
Putz!
Bravíssimo!

Em Tempo: tomei a liberdade de colocar um link para o CCC no LD.

Abçs

olá perdoe a invasão
mas vim através do blog da Marcia Paula [Não memórias de uma lésbica]
adorei suas palavras um lugar gostoso de ler...linkei vc em meu blog tudo bem?
suave seja sua noite!!
bjOs...no coração
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sandrinha

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